Comité de Resistência: a experiência de quatro meses do pelotão antiautoritário na Ucrânia


A criação do Pelotão Antiautoritário, que integra as Forças de Defesa Territorial da Ucrânia na resistência à invasão russa, tem sido fortemente polémica no meio anarquista mundial desde o início desta guerra. Muitos não entendem este posicionamento dos anarquistas ucranianos (mas também de alguns russos e bielorussos que o integram), outros estão solidários com a resistência libertária e lembram que, apesar da sua especificidade, este não é caso único. Muitos anarquistas, por toda a Europa, lutaram contra  a invasão nazi dos seus países e lembram que inúmeros anarquistas, vencidos em Espanha, integraram a resistência em França e recordam que eram anarquistas, embora integrando forças aliadas, os que entraram em Paris no dia da libertação do jugo nazi.

Polémicas à parte, um membro do Pelotão Antiautoritário decidiu refletir sobre o trajeto desta unidade. Este texto, embora publicado pela primeira vez apenas em Setembro, foi escrito em Julho passado e analisa os primeiros quatro meses de existência do Pelotão. É uma análise séria, embora polémica, no momento em que a unidade estará já na linha da frente, depois de vários meses na retaguarda.

Comité de Resistência: a experiência de quatro meses do pelotão antiautoritário na Ucrânia

Um membro do pelotão antiautoritário na Ucrânia reflete criticamente sobre a atividade do pelotão, a sua relação com as forças armadas tradicionais e o significado político mais amplo da experiência.

(Este artigo foi escrito na primeira parte do mês de julho. Neste momento o pelotão antiautoritário progrediu. Foi transferido para uma nova unidade, onde voltará aos exercícios e a novos recrutamentos e, após a preparação necessária, foi prometido que será deslocado para zonas de combate. Este é o momento para algumas reflexões no fim da primeira fase da existência do pelotão – no quadro da defesa territorial do oblast de Kiev.)

Pelotão antiautoritário é o nome não oficial de uma unidade de uma das brigadas das Forças de Defesa Territoriais ( TDF) da Ucrânia no oblast de Kiev. Surgiu quando anarquistas e esquerdistas de diferentes origens e grupos, incluindo antifascistas e hooligans do futebol, se reuniram durante os primeiros momentos da guerra para participarem na luta contra a invasão imperialista realizada pelo regime de Putin.

A unidade existe há mais de quatro meses – desde o primeiro dia da guerra. Este é um bom momento para refletir e oferecer algumas análises sobre como se fez este caminho.

Alguns meses antes da guerra, começaram a circular rumores alarmantes. Naquele momento, na comunidade libertária de Kiev, começámos a discutir sobre a forma como os anarquistas deveriam reagir se a ameaça de guerra em grande escala se tornasse realidade. Poucas pessoas acreditavam que isso realmente pudesse acontecer. Nesse período, desenvolvemos a ideia de que precisaríamos de contactos militares e civis. Tivemos várias reuniões; também chegámos a um acordo com um camarada da Defesa Territorial e fizemos alguns treinos com ele. Um outro camarada preparou contas nas redes sociais. Todos os nossos preparativos foram rudimentares. No entanto, no “dia X” [o primeiro dia da invasão], começámos a seguir o nosso plano –  e isso ajudou-nos muito. A Operação Solidariedade, o pelotão antiautoritário, e o Comité de Resistência – talvez os exemplos mais visíveis da atividade libertária durante esta guerra – são todos, em grande medida, o resultado desse processo de preparação. Isso mostra a importância de planear e desenvolver os cenários de como poderá reagir em diferentes situações possíveis.

Houve camaradas que me perguntaram: “E se pudéssemos voltar atrás, para 2020, com o conhecimento que temos hoje? O que faríamos diferente?” Acho que gastaríamos mais tempo, energia e atenção na formação de grupos mais sustentáveis ​​e numerosos, fazendo ligações e relacionamentos, reunindo dinheiro e preparando recursos, aprendendo, partilhando competências em áreas como a propaganda e a análise estratégica. Mas nunca será o suficiente. A prontidão para a mobilização é igualmente importante. Com o meu conhecimento atual, ouso aconselhar camaradas em todo o mundo a planear, organizar e agir como se já estivéssemos a contar os minutos finais e tivéssemos que enfrentar um grande desafio histórico já no próximo mês. No atual momento histórico, isso é sempre possível, por isso não seja apanhado de surpresa, despreparado.

Burocracia, Ordem Militar…

Acho que não vou revelar nenhum segredo militar se disser que esta unidade tem feito um longo caminho para encontrar um lugar na estrutura do exército. Está à procura de uma opção para se juntar aos combates na linha da frente, para restabelecer a sua capacidade de recrutar e de treino sistemático, bem como para resolver alguns problemas burocráticos relacionados com o registo dos combatentes. Poderíamos chamar isto de “período de transição”, mas já dura há cerca de três meses, por isso parece mais um dos patamares da nossa existência.

O limbo em que nos encontramos agora levanta a questão da burocracia militar que inevitavelmente temos que enfrentar como parte das forças armadas. Em primeiro lugar, precisamos esclarecer a natureza da Defesa Territorial. Difere do exército normal, pois é composta principalmente de voluntários e numa base local. Em geral, a Defesa Territorial é considerada menos profissional, mais uma força auxiliar. Ao mesmo tempo, tem a mesma hierarquia militar, regras e normas do comando superior.

Obviamente, participar numa hierarquia vertical é problemático a partir de uma perspetiva antiautoritária. No entanto, demos conscientemente esse passo. Acho que todos no pelotão concordariam que fazer parte da resistência é algo extremamente importante, mesmo que signifique uma inclusão temporária na estrutura do exército.

Nas condições atuais poderíamos resistir à invasão com armas fora do exército estatal? A resposta é definitivamente não. A maioria das ideias desse tipo são expostas por pessoas que estão fora do país país, por pessoas que estão isoladas do contexto local. Em primeiro lugar, neste momento e do nosso lado,  não há estruturas ou recursos suficientes para formar uma unidade armada autónoma. Do mesmo modo, o estado ucraniano tem força e vontade suficientes para suprimir qualquer força que seja totalmente autónoma. Nesta situação, a luta de guerrilha fora do contexto estatal só é possível nos territórios ocupados pelo exército russo.

No entanto, a razão mais importante para a opção que tomámos é que os interesses da sociedade ucraniana e do estado ucraniano atualmente sobrepõem-se num ponto, mas não em muitos outros: repelir a invasão brutal. Por isso, qualquer tentativa de organizar isoladamente a resistência não seria compreensível, no momento atual, por parte da população.  Ao mesmo tempo, a situação atual das forças armadas ucranianas oferece um espaço considerável para vários grupos políticos que desejam combater os ocupantes.

Desde 2014, certas fações de extrema direita organizaram e mantiveram algumas unidades militares parcialmente autónomas, como o Corpo de Voluntários Ucranianos do Setor Direito (RS-UVC) e o seu grupo dissidente, o Exército Voluntário Ucraniano. Ao contrário do exército estatal, estas estruturas têm uma certa autonomia interna, uma clara filiação ideológica, e são mais flexíveis em termos de recrutamento, burocracia, etc., do que o exército ucraniano; atualmente, pelo menos, o RS-UVC está-se a transformar numa unidade militar “mais normal” e subordinada.

Voltemos à burocracia. Inicialmente, a nossa unidade recebeu luz verde para atuar de forma ativa, mas depois a linha de comando do batalhão ao qual pertencíamos mudou drasticamente. O resultado foi o de ficarmos presos na nossa unidade, tendo praticamente perdido a oportunidade de recrutar novas pessoas para as nossas fileiras. Estávamos carregados de tarefas muito formais e sem sentido que atrapalhavam a nossa estrutura e processo de treino, além de prejudicar o moral da unidade. Os participantes com cidadania estrangeira enfrentaram problemas burocráticos adicionais. Também não conseguimos uma oportunidade adequada de ir para os combates enquanto unidade; a partir dos primeiros dias de julho, ficámos na retaguarda. No entanto, a situação não é desesperante. Trabalhamos formas de resolver estes obstáculos burocráticos.

A colisão com a burocracia militar é inevitável na nossa situação. A lição que tiramos é que quanto mais contatos e ligações se tiver nas instituições com as quais deseja lidar, maiores serão suas hipóteses de superar ou evitar a burocracia. Nestes últimos meses, concluí que nós, como revolucionários, não devemos ter escrúpulos em fazer contatos dentro das instituições estatais. Desde que os nossos objetivos políticos estejam claros, correr o risco de usar contactos para os atingir é mais justificado do que recusarmo-nos a usar ferramentas que podem ajudar o movimento a ganhar terreno.

Estrutura Interna e Quotidiano

De acordo com os estatutos do exército, cada pelotão tem vários cargos de comando, que foram atribuídos àqueles que tinham a patente de oficial. Além disso, o comando do batalhão quase não interveio na nossa vida interna. No entanto, não temos a nossa estrutura organizada segundo a imagem idílica de uma milícia perfeitamente anarquista em que todos os cargos são eleitos e subordinados à assembleia geral. A razão é, em parte, que a unidade é constituída por uma variedade de pessoas e nem todas são anarquistas. Os ajudantes do comandante de pelotão e os comandantes de seção foram designados pelo comando do pelotão.

Ao mesmo tempo, no entanto, também implementámos algumas instituições horizontais. A partir de uma proposta de um camarada experiente que veio da Europa, começamos a praticar *teqmil* – sessões de crítica e autocrítica por secções. Os vice-comandantes das secções foram eleitos. Uma das suas funções é transmitir as críticas que ultrapassavam o nível de secção ao comando do pelotão na reunião de comandantes.

Depois de vários conflitos relacionados com as redes sociais, o mesmo camarada da Europa sugeriu que elegessemos um comité de mídia. Isso foi aprovado pelo comando e foi para a frente. Todos os participantes do pelotão podiam votar, e a comissão foi formada pelos três candidatos mais votados. Todas as entrevistas, textos e fotos a serem publicados pelos participantes do pelotão devem ser aprovados pelo comité de mídia, que decide se eles se enquadram nas normas estabelecidas pelo comando do pelotão (principalmente, segurança e não descrédito do exército ucraniano).

Por enquanto, todas essas instituições estão paradas, pois o microcosmo social da unidade foi prejudicado pelos entraves burocráticos mencionados acima e a maioria dos participantes, em resultado disso, ficou cansada e deprimida.

É claro que a comunicação informal desempenha um papel tão significativo quanto a comunicação institucional. Por um lado, desde o início, desenvolvemos uma espécie de cultura democrática de liberdade de expressão de opiniões, perguntas e críticas a todos, inclusive ao comando. Por outro lado, havia muitas lutas de poder ocultas, conflitos de interesses e conflitos pessoais, em geral. De certa forma, isso é inevitável. Mas no nosso caso particular, acredito que poderia ter sido melhor tratado.

Uma das razões tem sido apenas falta de vontade, falta de esforço para a construção de um espírito comunitário e resolução de conflitos de forma amigável. Algumas “contas antigas” entre participantes também desempenharam um papel negativo. Ao mesmo tempo, sabe-se que as pessoas que se preocupam com a resolução de conflitos de forma amigável também nem sempre conseguem que isso se concretize.

Outro problema é que o pelotão antiautoritário desde o início incluía grupos e pessoas muito heterogéneas. Grupos de diferentes tamanhos e graus de conflito/dominância. Isso cria um stress adicional. Às vezes parece que seria mais produtivo para um grupo tão próximo e permanente ter um núcleo mais homogéneo como base. Estabeleceria certas regras e uma cultura coletiva e só depois integraria os recém-chegados.

O que alimenta os conflitos de ambição entre nós é uma certa mentalidade que é difundida nos nossos próprios círculos. É uma mistura contraditória:

– desrespeito pela hierarquia, na medida em que mesmo o poder limitado de uma pessoa em qualquer área altamente especializada é muitas vezes rejeitado com arrogância;

– hierarquias informais que podem ser baseadas em autoridade, manipulação, simpatias pessoais, etc. Não são rejeitadas ou analisadas;

– egocentrismo e individualismo de uma forma negativa, que também são contagiantes, pois num grupo em que muitos se comportam assim, dificilmente se poderá aderir a padrões de comportamento coletivo.

Esta mistura cria o terreno para tensões contínuas.

Certamente que a problemática do género e da masculinidade tóxica também estão aqui presentes. Não tenho a certeza de ser suficientemente competente para analisar este assunto. Em primeiro lugar, o nosso pelotão foi 100% masculino durante a maior parte do tempo. Tivemos duas camaradas paramédicas que trabalharam connosco durante quase dois meses. Esse desequilíbrio gritante de género, na minha opinião, deve-se principalmente ao facto de, nos nossos círculos, as mulheres estarem muito menos envolvidas e mais afastadas de atividades relacionadas com o uso da força do que os homens. Isso é difícil de resolver ao nível de um único projeto em particular.  No entanto, parte da responsabilidade recai sobre os nossos ombros, porque a atmosfera criada no coletivo provavelmente não é muito acessível para as mulheres. As nossas colegas paramédicas também fizeram uma crítica quanto a isso – disseram, por exemplo, que às vezes tinham que gritar e interromper para serem ouvidas.. Ao mesmo tempo, alguns membros do pelotão criticaram nossos companheiros por não quererem fazer parte da equipe e participar ativamente de seu cotidiano, independentemente de sua identidade de gênero.

Quando discuto estas questões com algum camarada mais próximo, ele diz: “Acredite, este é um bom coletivo; numa unidade “normal”, as coisas poderiam ser muito mais difíceis”. E, na verdade, eu concordo. Todas as insuficiências mencionadas devem ser criticadas e abordadas, mas ao mesmo tempo considero que não são graves. Lidamos com a maioria dos desafios do coletivo de maneiras muito mais construtivas e menos dolorosas do que se poderia esperar num outro espaço “apolítico” ou reacionário. Recentemente, um dos nossos companheiros passou algumas semanas em treino nalgumas das unidades de defesa territorial “normais” do oblast de Kiev. “Companheiros, aqui moramos no paraíso”, concluiu ao regressar.

O significado político do projeto

Após várias discussões no pelotão, concordámos que o anti-imperialismo e o antiautoritarismo são os dois pontos principais que nos definem politicamente. Não há uma linha política comum para além disso. Para alguns esta unidade é apenas um meio de se integrarem nesta guerra juntamente com amigos e pessoas com interesses semelhantes. Outros têm objetivos mais vastos para o pelotão como uma forma de estar presente na sociedade, ganhar experiência e criar algum espaço sustentável para o movimento antiautoritário se organizar e se desenvolver.

Um dos principais desafios no momento é o batalhão superar os obstáculos burocráticos, ter a oportunidade de se reorganizar e finalmente envolver-se diretamente na resistência armada contra os ocupantes. Todos viemos aqui como voluntários dispostos a contribuir para esta luta. Depois de termos estado mais de quatro meses quase sem entrar em ação, isso prejudica muito o espírito e a autoestima e afasta-nos das atividades em que estamos envolvidos aqui.

Quanto a mim, dificilmente se pode dizer que sou uma pessoa guerreira. No entanto, a situação atual exige a participação pessoal e coletiva. Ela pode-nos abrir um caminho para o futuro. Nas raras ocasiões em que visitei Kiev nos últimos meses, vejo uma atmosfera descuidada e arrepiante. Como se não houvesse uma guerra brutal a centenas de quilómetros de distância que todos os dias está a tirar a vida a muitos habitantes desta cidade. Eu percebo que as pessoas precisam descansar, relaxar e divertir-se um pouco. Ainda assim, esta situação cria-me um profundo sentimento de mal estar. E quanto mais tempo passamos aqui presos na retaguarda, maior é o efeito desmobilizador que isso tem sobre nós, mais nos afastados propósitos e dos motivos que originalmente nos trouxeram aqui.

Ao mesmo tempo, camaradas experientes dizem-nos que a guerra é composta por fases e situações muito diferentes. Estar em combate leva 1% ou menos do tempo total. A capacidade de esperar, ser paciente e saber organizar o “tempo livre” é uma mais-valia para qualquer combatente.

Ao finalizar este texto, quero sublinhar que a história da criação deste pelotão é em si um acontecimento sem precedentes nos círculos antiautoritários do Leste Europeu. Apesar de todas as deficiências inevitáveis, esta iniciativa tem um enorme potencial de desenvolvimento e quase certamente haverá novidades do maior interesse a partir dela. A estrutura que conseguimos criar e o estudo coletivo dos assuntos militares são experiências importante para todos nós

Com todas as críticas de camaradagem expressas acima, quero ainda deixar afirmado o meu respeito e atitude positiva relativamente aos meus camaradas de armas.

Ilya “Leshiy” e companheiros

*Julho 2022*

aqui: https://libcom.org/article/four-months-anti-authoritarian-platoon-ukraine

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