Autor: colibev

(União Libertária) RESPOSTA AO REVISIONISMO HISTÓRICO DO PCP


Em defesa dos militantes antifascistas libertários face às tentativas de apagamento levadas a cabo pelo PCP. Texto do PCP: https://www.pcp.pt/100anos

É histórica a tendência dentro do movimento operário de se realizarem ataques a outras correntes comunistas e socialistas dentro do mesmo. Existiu ao longo do último século particularmente uma luta pela hegemonia dentro do movimento, sempre à custa da vontade de milhares de operários. Nós reconhecemos isso com plena sobriedade. Contudo cremos existirem limites para a mesquinhice e a desonestidade intelectual a roçar a falta de respeito para com os milhares de operários que resistiram à ditadura dentro e através da CGT. Nós não temos qualquer interesse em lutar por uma hegemonia fictícia do que foi um movimento de massas, e não de ideologias ao contrário do que alguns parecem querer fazer. Depois do centenário do PCP os camaradas decidiram, e bem, escrever alguns textos a descrever o que foram então estes 100 anos de luta. Contudo, as heranças stalinistas parecem teimar em não desaparecer desde os anos da criação do partido e sendo assim, mais importante do que descrever a verdade e os factos da época, assistimos a uma tentativa falaciosa de pintar uma imagem de que só com a criação do PCP a classe operária portuguesa obteve uma “correcta posição de classe”.

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O movimento anarquista durante o salazarismo


Mário Rui Pinto (*)

O anarquismo tem grandes tradições em Portugal onde, por intermédio da sua concepção anarco-sindicalista — consubstanciada na Confederação Geral do Trabalho (CGT) (1) e no seu porta-voz, o jornal A Batalha (2) —, chegou a ser, até finais da década de 30, a corrente ideológica predominante entre a classe operária. Apesar de estar, novamente, em franco progresso, ele ainda se encontra pouco divulgado, não possuindo sequer uma História própria que trace a sua evolução até ao presente. Com este breve trabalho pretende-se, despretensiosamente, adiantar alguns dados sobre um importante e agitado período da sua existência (1926-1950), levantando, ao mesmo tempo, determinadas questões fundamentais e, ainda, insuficientemente esclarecidas.

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Documentário “RUA” (2021, 18 minutos)


RUA from Left Hand Rotation on Vimeo.

Este documentário é um registo em imagens da Lisboa durante a pandemia, com as ruas desertas e em contraposição as lutas que ocuparam o espaço público no últimos anos: Feminismo, Antirracismo, Habitação e Clima, com algumas desocupações com policia de choque como aconteceu na greve climática de 2019. Um filme sobre a crise de saúde e disputas políticas que explodem na cidade.
Trata-se de uma peça feita perante a necessidade urgente de voltar para as ruas e não perder o espaço público como já está a acontecer com a massificação de esplanadas, sair para a rua para fazer mais alguma coisa que não seja apenas o consumo.
Como dizia o Comité Invisível: Todas as razões para fazer a revolução existem. Todas as razões estão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão à frente dos écrans.

Em memória de Bayram Mammadov, anarquista do Azerbeijão.


Morreu Bayram Mammadov, anarquista do Azerbeijão. Lamentamos a sua morte: um ser humano não pode ser substituído por nenhum outro. As circunstâncias suspeitas da sua morte fazem-nos recordar de novos as práticas desumanas da violência estatal. O nosso companheiro foi encontrado morto no mar em Istambul (Turquia) em princípios de Maio. A policia turca e os meios de comunicação do Azerbeijão falam de suicídio ou de acidente. Os acativistas da oposição, contudo, põem em causa esta versão. Amigos e familiares exigem que sejam explicadas as circunstâncias da sua morte.

Bayram foir perseguido durante anos enquanto anarquista e conhecido crítico do presidente autocrático Ilham Aliyev no Aerbeijão. Quando era um jovem activista, em 2016, foi condenado a mais de 10 anos de prisão, conjuntamente com Giyas Ibrahimov por fazer pichagens na estátua do ex- presidente do Azerbeijão (e pai do actual). Acusados e condenados, foram severamente torturados em várias ocasiões e foi-lhes encontrada droga (colocada pela polícia)pelo que foram condenados a uma pena pesada pela posse de drogas. Depois de uma onda de solidariedade a nível europeu Bayram e Giyas foram finalmente indultados por um decreto presidencial em 2019. No principio de 2020, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos determinou que o julgamento e a condenação dos dois activistas tinha uma motivação política e, por isso, eram ilegais.

Bayram e Giyas viviam na Turquia desde 2019. Giyas foi deportado para o Azerbeijão duas semanas antes da morte de Bayram, sem que tivesse sido dada qualquer explicação. Giyas foi um dos muitos activistas e figuras da oposição que pediram asilo á Turquia por serem alvo de perseguição no Azerbeijão e cujo caso foi recusado devido às relações amigáveis entre o Azerbeijão e a Turquia. Os regimes autoritários apoiam-se sempre mutuamente e sempre coperarão na perseguição a activistas e opositores políticos. Até onde chegou a acção conjunta dos dois países contra Bayram? Quando entrou no país algumas semanas antes da sua morte, Bayram foi interrogado durante horas pelas autoridades turcas. Não é o/a primeiro/a critico/a do regime de Baku que morre no estrangeiro em circunstâncias suspeitas

Se Bayram não foi assassinado pelo Estado, existe ainda a possibilidade da sua morte ter sido causada por acidente e pela falta de assistência por parte das autoridades que estavam presentes durante o seu afogamento, ou por suicídio. Este último é também uma consequência angustiante e duradoura da violência estatal: o suicídio como uma decisão contra a vida que se tornou insuportável devido á perseguição, à prisão e à tortura.

Não esqueceremos Bayram. Não esqueceremos o que aconteceu. Recordaremos como sempre fizemos desde que começámos a lutar. Uma, duas, mil vezes. Então como agora. A nossa memória colectiva perdurará mais do que o seu poder e a sua historiografia distorcida. Solidarizámo-nos com ele em 2016 e fazemo-lo agora. As nossas condolências aos amigos e familiares de Bayram. Como Bayram continuaremos a lutar pelos nossos sonhos e por um mundo melhor.

Pelos/as perseguidos/as, pelos/as mortos/as!

Hoje como no passado.

A nossa solidariedade contra a opressão!

Por Bayram!

(aqui: https://fda-ifa.org/in-erinnerung-an-bayram/)

*

(versão em castelhano)

¡En memoria de Bayram!

Bayram Mammadov, anarquista de Azerbaiyán, ha muerto. Lamentamos su pérdida: un ser humano no puede ser sustituido por nadie. Las sospechosas circunstancias de su muerte nos recuerdan de nuevo los efectos inhumanos de la violencia estatal. Nuestro compañero fue recuperado muerto en el mar en Estambul a principios de mayo. La policía turca y los medios de comunicación azerbaiyanos hablan de suicidio o de accidente. Los activistas de la oposición, sin embargo, lo discuten. Amigos y familiares exigen una explicación de las circunstancias de su muerte.

Bayram ha sido perseguido durante años como anarquista y conocido crítico del presidente autocrático Ilham Aliyev en Azerbaiyán. Fue condenado a más de 10 años de prisión en 2016, cuando era un joven activista, junto a Giyas Ibrahimov por realizar pintadas en la estatua del ex presidente azerbaiyano (y padre del actual). Los acusados y condenados fueron severamente torturados en varias ocasiones y se les puso droga para que fueran condenados a una larga pena de prisión por posesión de drogas. Tras una ola de solidaridad a nivel europeo, Bayram y Giyas fueron finalmente indultados por un decreto presidencial en 2019. A principios de 2020, el Tribunal Europeo de Derechos Humanos dictaminó que el enjuiciamiento y la condena de los dos activistas tenían una motivación política y, por tanto, eran ilegales.

Bayram y Giyas vivían en Turquía desde 2019. Giyas fue deportado a Azerbaiyán dos semanas antes de la muerte de Bayram, sin que se diera ninguna razón. Esto convierte a Giyas en uno de los muchos activistas y figuras de la oposición que pidieron asilo en Turquía por la persecución en Azerbaiyán y cuyo caso fue aplastado por las relaciones amistosas entre Azerbaiyán y Turquía. Los regímenes autoritarios siempre se apoyarán mutuamente; siempre cooperarán en la persecución de activistas y opositores políticos. ¿Hasta dónde llegó la acción conjunta contra Bayram en los dos países? Cuando entró en el país hace unas semanas, Bayram fue interrogado durante horas por las autoridades turcas. No es el/la primer/a crítico/a del régimen de Bakú que muere en el extranjero en circunstancias sospechosas.

Si no hubo un asesinato de Bayram motivado por el Estado, quedan como posibles causas el accidente y la falta de asistencia por parte de las autoridades que estaban presentes durante el ahogamiento o el suicidio. Este último es también una consecuencia profundamente angustiosa y duradera de la violencia estatal: el suicidio como una decisión contra la vida que se hizo insoportable debido a la persecución, el encarcelamiento y la tortura.

No olvidaremos a Bayram. No olvidaremos lo ocurrido. Recordaremos como lo hemos hecho desde que empezamos a luchar y ser derrotados/as. Una, dos, mil veces. Entonces como ahora. Nuestra memoria colectiva durará más que su dominio y su historiografía distorsionada. Nos solidarizamos en 2016 y lo hacemos hoy. Nuestras condolencias a los/as amigos/as y familiares de Bayram. Como Bayram, seguimos luchando por nuestros sueños y por un mundo mejor.

¡Por los/as perseguidos/as, por los/as muertos/as!

Hoy como en el pasado.

¡Nuestra solidaridad contra su opresión!

¡Por Bayram!

*

(versão em inglês)

In memory of Bayram!

Bayram Mammadov, an anarchist from Azerbaijan, is dead. We mourn his loss, a human being cannot be replaced by anyone. The suspicious circumstances of his death bring home to us again the inhuman effects of state violence. Our comrade and companion was recovered dead from the sea in Istanbul in early May. The Turkish police and Azerbaijani media write of suicide or an accident. Opposition activists, however, dispute this. Friends and family are demanding an explanation of the circumstances of his death.

Bayram has been persecuted for years as an anarchist and well-known critic of the autocratic president Ilham Aliyev in Azerbaijan. He was sentenced to over 10 years in prison in 2016 as a young activist along with Giyas Ibrahimov for graffiti on the statue of the former Azerbaijani president (and father of the current one). The accused and convicted were severely tortured several times and drugs were planted on them so that they could be sentenced to a long prison term for drug possession. After a European-wide wave of solidarity, Bayram and Giyas were finally pardoned in a presidential decree in 2019. In early 2020, the European Court of Human Rights ruled that the prosecution and conviction of the two activists was politically motivated and therefore unlawful.

Bayram and Giyas had been living in Turkey since 2019. Giyas was deported to Azerbaijan two weeks before Bayram’s death, with no reason given. This makes Giyas one of many activists and opposition figures who sought asylum in Turkey for persecution in Azerbaijan and whose case was steamrolled by the friendly relations between Azerbaijan and Turkey. Authoritarian regimes will always support each other. They will always cooperate in the persecution of political activists and opponents. How far did the joint action against Bayram go in the two countries? When he entered the country a few weeks ago, Bayram was interrogated for hours by the Turkish authorities. He is not the first critic of the regime in Baku to have died abroad under suspicious circumstances.

If there was no state-motivated murder of Bayram, accident and failure by the authorities who were present to render assistance during the drowning or suicide remain as possible causes. The latter is also a deeply distressing and enduring consequence of state violence: suicide as a decision against life that became unbearable due to persecution, imprisonment and torture.

We will not forget Bayram. We will not forget what happened. We will remember as we have done since we started to fight and be defeated. Once, twice, a thousand times. Then as now. Our collective memory will last longer than their dominance and their distorting historiography. We showed solidarity in 2016 and we do so today. Our sympathies go out to the friends and family of Bayram. Like Bayram, we continue to fight for our dreams and for a better world.

For the persecuted, for the dead!

Today as in the past.

Our solidarity against their oppression!

For Bayram!

(Lisboa) Apresentação do livro “Anarquia e Anarquismos” na Livraria Ler Devagar, 29 de maio, às 19 horas


Com textos de vários autores sob a coordenação de José Maria Carvalho Ferreira e João da Mata, e editado no Brasil pela editora Nau, o livro já foi apresentado em Portugal no dia 14 de maio, no Porto, na livraria-café Gato Vadio.

A partir do entrecruzamento de diversas áreas de conhecimento, este livro é uma articulação de forças para pensar o exercício da liberdade, no presente e na história. Nas palavras de Jorge Vasconcellos, professor da UFF e teórico ativista do Coletivo 28 de Maio, os textos aqui reunidos apresentam “questões que mobilizam, em uma perspectiva libertária, à Política, aos modos de vida, aos processos de subjetivação, às práticas de liberdade em nossa Atualidade, constituem-se, como dissemos, de um duplo modo: como livro e arma, como crítica e clínica…”

Aqui, você encontrará uma multiplicidade de análises sobre a anarquia e os anarquismos. Longe de esgotar a abrangência e importância do tema, ao longo dos 21 capítulos, o leitor é convidado a pensar junto as possibilidades de vida livre no presente.

Dividido em duas partes, a primeira – ‘Cultura Libertária’ – na qual há um esforço de pensamento conceitual-crítico em que vislumbramos desde uma alvissareira e urgente recusa à falaciosa e esperançosa ideia de utopia, tão cara ao otimismo político imobilizador, a necessários debates sobre como construir práticas anarquistas de educação, passando pela incontornável questão da representação política micro e macro societárias que hoje inundam desde as redes sociais aos bancos universitários.

Por sua vez, os organizadorxs/autorxs na segunda parte do Livro – ‘Narrativas Biográficas e Anarquia’ – articulam textos que nos apresentam um debate urgente, que pode ser lido por duas questões: como relacionar uma vida (não propriamente uma biografia) com as lutas políticas (libertárias) de nosso tempo? Ou ainda, formulando de outra maneira: como articular narrativas de vida e demandas minoritárias a contrapelo no tempo presente? Estes textos ao propor essas e muitas outras questões que mobilizam, em uma perspectiva libertária, a Política, aos modos de vida, aos processos de subjetivação, às práticas de liberdade em nossa Atualidade, no Brasil e em Portugal, constitui-se como de um duplo modo: como livro e arma, como crítica e clínica… ao nosso tempo presente e aos nossos (im)possíveis futuros”.

Sumário

Cultura Libertária

1- Dos equívocos existentes entre Anarquia e os Anarquismos, José Maria Carvalho Ferreira

2- As lutas anarquistas no presente como experiências, Acácio Augusto

3- Anarquismo da vida cotidiana e subjetividades libertárias, João da Mata

4- Anarquismo e Falência da Representação, Camila Jourdan

5- Anarquismo, Educação e Autoformação, Silvio Gallo

6- Educação libertária: desafios e caminhos de esperança, Ana Paula Morel e Rodrigo de Almeida Ferreira Luz Camera

7- Zonas libertárias: corpo e espaço sob a aura da resistência, Andre Bocchetti

8- Sob o signo da guerra: Proudhon e as relações internacionais, Thiago Rodrigues

9- Decrescimento e Anarquia: Articulações do decrescimento abrupto e da reinvenção do anarquismo, Jorge Leandro Rosa

10- Para a história de uma revista anarquista em Portugal, António Cândido Franco

11- A liberdade de ser livre: poesia e anarquia, Manuela Parreira da Silva

Narrativas Biográficas e Anarquia

12- A prática da liberdade em discurso direto: a voz de anarquistase libertários de todo o mundo na revista Utopia, Isabel Castro

13- António Pinto Quartin (1887-1970): ideário e vida, Paulo Eduardo Guimarães

14- Preâmbulo de entrevista a João Freire: pensador e organizador do anarquismo em Portugal, José Maria Carvalho Ferreira

15- Roberto Freire, um amante anarquista, Gustavo Ferreira Simões Gustavo Galo

16- Edgar Rodrigues, memorialista do Anarquismo, Carlos Augusto Addor

17- Há ordem oculta – contextos empoderadores, Isabel Rufino

18- Sobre heterotopias: reflexão sobre os espaços libertários em Belo Horizonte (uma homenagem a Brian), Lucas Carvalho de Aguiar Pereira Lu Cas

19- Trajetória intelectual do anarquista Jaime Cubero (1927-1998), Rogério Nascimento Nascimento

20- História de vida e memórias das práticas de liberdade: uma puta mulher, Amanda Calabria e Juniele Rabêlo de Almeida

21- Experimentações de vida universitária e mulheres libertárias, Lúcia Soares da Silva

Posfácio, José Maria Carvalho Ferreira

Porque comemoramos o 25 de abril


Comemora-se este domingo o 47º aniversário do movimento insurreccional de cariz militar que pôs fim a 48 anos de fascismo.

Militares de carreira, convencidos de que a guerra colonial não tinha saída senão através de conversações e da independência das colónias, desencadearam o golpe militar que, desde logo, teve um imenso apoio popular e que desencadeou, nos dias e nos meses que se lhe seguiram, um verdadeiro movimento popular de desmantelamento das estruturas fascistas e de construção de espaços de afirmação autónomos de trabalhadores, moradores, estudantes, etc.

Foi o tempo de ocupação de fábricas, casas, terras, da autogestão colocada como forma possível e necessária de gestão das nossas vidas, sem estruturas intermediárias, fossem elas estatais ou meramente representativas. Durante vários meses o “sonho” esteve nas ruas e mobilizou milhões de portugueses por todo o país, transformando o que tinha sido um golpe militar num caudal de transformações sem paralelo na história recente em Portugal.

Para trás ficaram anos de repressão inaudita, com proibição de toda a actividade sindical e politica autónomas e a prisão – e em muitos casos, a morte – de quem se opunha ao regime repressor de Salazar e depois de Caetano.

O movimento anarquista e anarco-sindicalista, que nos primeiros anos do fascismo constituiu a primeira frente de batalha ao movimento autoritário imposto pelo golpe militar de 28 de maio de 1926, foi particularmente perseguido até à sua quase destruição, os seus militantes presos, deportados e mortos. A sua imprensa, as suas sedes e espaços sociais vandalizados, destruídos e finalmente ocupados pelo regime, que deles se apropriou.

Mas a resistência manteve-se sempre, até ao fim do regime fascista, pela voz e acção dos seus militantes mais determinados como foi o caso de Emidio Santana, António Machado, Moisés Silva Ramos, Francisco Quintal, Acácio Tomás Aquino e muitos outros. Outros ainda ficaram esquecidos pela história, embora os seus gestos de recusa e de luta tenham também sido determinantes para o fim do regime fascista.

Nesta madrugada do 47º aniversário do 25 de Abril de 1974 convém sobretudo recordar os nossos mortos, os mortos do campo libertário que, através da sua acção – quase sempre directa, organizada, mas sem mediadores – foram eles também peças essenciais na corrosão e destruição do regime autoritário e fascista que governou Portugal durante 48 anos.

Entre estes estão os que deram a vida no Tarrafal, vítimas das maiores violências por parte do Estado e da sua polícia.

Foi uma mão cheia de homens para quem a luta pela liberdade, pela solidariedade e pela autogestão das suas vidas sempre foi o principal lema e estandarte.

Ontem como hoje, também por eles, mantém-se acesa a luta por um outro mundo, um mundo novo, que vive intensamente nos nossos corações, como tão bem sintetizou Buenaventura Durruti.

Por tudo isso, também, enquanto anarquistas, comemoramos o 25 de abril de 1974, embora não nos identificando com o regime que as forças do dinheiro e do poder foram construíndo nos anos que se lhe seguiram e que torna hoje, como sempre, urgente a transformação social no sentido de uma sociedade libertária, autogestionária e de acção directa.

Por isso, também por isso, aqui estamos e dizemos presente!

Actualização sobre Gabriel Pombo Da Silva


Desde o último comunicado sobre o nosso companheiro (difundido publicamente na Internet em Julho do ano passado), não houve nenhuma mudança substancial na sua situação, mas ocorreram alguma coisas interessantes para o caso de alguém querer aprofundar o seu conhecimento sobre a «engenharia jurídica» e os seus labirintos.

Os tempos fisiológicos da hierarquia dos tribunais continuam a ser muito lentos, mas se estes tempos são a única arma de que o poder judicial dispõe, ainda se tornam mais lentos!

Não falta muito para que Gabriel volte a saborear a liberdade, e quem pretende encerrá-lo vivo sabe-o muito bem… sabe muito bem que não deveria sequer estar preso… sabe muito bem que até lhe deveriam devolver anos de vida!

Todas as portas estratégicas necessárias para tirá-lo da jaula estão abertas e aos poucos vai-se vendo algo… algo se vai movendo. Aplicam pequenas doses de «direito» como se fossem gotas homeopáticas… todos os perdões que lhe deveriam reconhecer parecem um «favor» ou são fruto de um esforço sobre-humano. Mas desde quando xs anarquistas acreditam no «Estado de Direito»?

Dado que o Tribunal dos Direitos Europeus do Luxemburgo (ao qual se está a recorrer para obter a anulação da OEDE – Ordem Europeia de Detenção e Entrega –, em virtude da qual voltaram a deter Gabriel) demora muito tempo a tomar decisões, o trabalho da defesa está actualmente centrado na extinção da pena (já extinta porque, na verdade, já foi cumprida) por cúmulo jurídico de penas.

A juíza Alcazár Navarro do Tribunal n.º 2 de Girona pretende que o nosso companheiro cumpra outros 16 anos de prisão, mas «esqueceu-se» de que a este número devem ser extraídos todos os perdões que ao longo de três décadas Gabriel acumulou e a que há muito tempo tem «direito». Mas a lei é tão perversa que, mesmo estando bem patentes, é preciso que um juiz as reconheça, caso contrário de nada valem (este «pormenor» na boca dxs advogadxs soa assim: «uma coisa é ter razão, outra é que ta dêem!»).

Lentamente, parte da razão está a ser reconhecida, e até agora sobram-lhe quase 6 anos (de perdões calculados só ao longo de 8 anos). Nesta última folha de cálculo aparece «Novembro de 2030» como data de «fim de pena»… é alguma coisa, porém não podemos ficar entusiasmadxs nem sentir-nos satisfeitxs com este resultado mínimo. Falta muitíssima matemática. Se lhe aplicaram realmente todos os perdões, teriam de libertá-lo já. Uma pergunta legítima seria: «porque é que só lhe estão a fazer todos estes cúmulos agora e porque é que até ao presente momento nenhum juiz os reconheceu?»… obviamente, é uma pergunta retórica, por vezes a matemática também é política!

Entretanto, xs advogadxs apresentaram, há poucas semanas, um recurso no Tribunal Supremo para reivindicar o direito que Gabriel tem a que a pena seja revista para 20 anos (e não para 30 anos como foi sentenciado em 1990 pelo Tribunal de Ourense com base no Código Penal de 1973 então em vigor), dado que em 1995 entrou em vigor outro Código Penal, que possibilitaria esse mesma revisão (lembramos que qualquer pessoa teria o «direito» de que lhe fosse aplicado o código mais favorável com efeito retroactivo). Ao longo destes meses, o referido Tribunal de Ourense negou três vezes este «direito» e o tempo de espera do Tribunal Supremo é de cerca de 6 a 8 meses (fisiológicos e sem vingança). Mais uma vez, é legítimo questionar: porque é que depois de tantos anos temos de tentar resolver questões tão básicas como estas? A resposta é simples e tem que ver com a «natureza» e a «cultura humana»: a natureza digna de um indivíduo anarquista contra a cultura do poder de uma maquinaria jurídica intrinsecamente perversa.

Na verdade, nenhum juiz nos últimos 25 anos declarou claramente como previsto que Código Penal estão a aplicar a Gabriel, e a juíza Alcazár Navarro (que seria quem o deveria fazer agora) continua a não responder aos diversos pedidos de esclarecimento. Nesse sentido, o tempo nas suas mãos transforma-se numa arma muito poderosa.

De qualquer forma, apesar da espera desesperante, a situação não é de desespero: se falarmos de 20 anos, Gabriel seria imediatamente libertado, se falarmos de 30, teriam de lhe reconhecer todos os perdões para depois «se darem conta» de que a pena já tinha sido cumprida…. é «só» uma questão de tempo.

No caso de se confirmarem os 30 anos, Gabriel teria «direito» a sair (já) de precária e a que lhe fosse aplicado o terceiro grau para depois sair em liberdade condicional. Ficaremos a saber isto em breve… o «conselho técnico» está mais especializado em escrever relatórios e em preencher formulários, onde, no caso de um recluso nunca se mostrar submisso, o seu passado continua a ser a sua pena.

Gabriel encontra-se muito bem de saúde e de ânimo, continua firme e coerente na sua autodisciplina feita de desporto, livros e cartas. Envia um forte abraço a todxs xs solidárixs e lutadorxs do mundo!

Liberdade para o nosso companheiro Gabriel Pombo!

Viva a Anarquia!

(07/04/2021)

Os 100 anos da morte de Kropotkin no número 291 de A Batalha


Acaba de sair A Batalha #291, com 48 páginas!

Os assinantes vão começar a receber na próxima semana. 

Amanhã, A Batalha começa já a circular por pontos de venda em todo o país.
A BATALHA #291 – dez-abr 2021
Capa de Mattias Elftorp

 A Abrir: Rateia-me, irmão.
[Russo + Dois Vês]
 Duas Cartas da Rússia: Sobre os protestos de 23 de Janeiro
 Não é possível circular entre conselhos
[Gonçalo Duarte + Ana Baliza]
 A eutanásia num país de suicidas
[M. Ricardo de Sousa + André Coelho]
 Ihor: um nome
[António da Cruz + Mattias Elftorp]
 XÁRÁPANPLEIYÓRGHITÁR
[MM]
 Vanguardismo e Rostidade
[Oriano + Marcos Farrajota]
 Não podes descolonizar o voto
[Indigenous Action]
 A maior greve da história: a revolta dos agricultores na Índia
[Oriano + Matilde Feitor]
 Motins, extrema-direita e uma previsível história de amor
[P.M. + André Pereira]
 Sobre o impacto de género do confinamento covid-19
[Hollie Mollie]
 Anarquismo e feminismo: em direcção a um casamento feliz?
[Chiara Bottici]
 Grupo anarca-feminista de Amesterdão responde à inaguração de Biden
[Grupo anarca-feminista de Amesterdão + Alexandra Saldanha]
 Sobre a criação da União Libertária
[Colectivo da União Libertária]
 Mãos das massas: construir o anarquismo revolucionário em Portugal
[Colectivo Pró-Organização Anarquista em Portugal]
 Entrevista a Ricard de Vargas Golarons a propósito do livro Salvador Puig Antich e a Luta Armada Anticapitalista na Catalunha nos Últimos Anos do Franquismo
[Pedro Morais e Fernando Silva]
 Piotr Kropotkin: recordações e críticas de um velho amigo
[Errico Malatesta]
 Na encruzilhada: Kropotkin etc. e tal
[José Tavares]
 Joguem ferozmente! As nossas vidas estão em risco! A prática anarquista como jogo de subversão
[Wolfi Landstreicher]
 Hitler do Terceiro Mundo
[Manuel Figueiredo]
 Dois poemas de Paul Goodman
[trad. André Tavares Marçal]
 Retratos à la minuta: Oskar Kokoschka, Auto-retrato
[Emanuel Cameira]
 O meu próximo livro de bd trata de surtos
[Marcos Farrajota]
 Se queremos salvar o mundo, temos de deixar de trabalhar
[David Graeber + Bruno Borges]
 Epitáfio (atrasado) a Aragorn!
[Pedro Morais]
 Editar
[Aragorn!]
 Na volta do correio: Condenado a um poço de silêncio. Escravatura no séc. XXI
[Francisco Coutinho]
 Na volta do correio: Paradigma civilizacional e colonialismo
[José Augusto]
 Há um século: a criação do PCP
[João Freire]
 À lupa
[recensões a A Ideia #87-88-89; L’Éclaireur; La Espiral; La Ville; Muses Land; Not-Human, Not-Fly; O Silêncio; Pão e Dignidade #4; Pão e Dignidade #5; Paying the Land]
 Milli Violini
[Walt Thisney]
 Centro Anarquista Internacional de Artes Modestas
[Marcos Farrajota]

Condições de assinatura de A Batalha:
Portugal: 6 nºs: 9,00€ / 12 nºs: 17,00€
Europa: 6 nºs: 16,00€ / 12 nºs: 31,00€
Extra-Europa: 6 nºs: 17,00€ / 12 nºs: 33,00€
O pagamento poderá ser efectuado para o NIB do CEL:
0033 0000 0001 0595 5845 9.
email: jornalabatalha@gmail.com