Autor: colibev

O Museu do Aljube continua nas suas malfeitorias à revelia da verdade histórica


A falta de rigor, mentiras e insuficiências de alguns dos materiais do Museu do Aljube (como também do Museu de Peniche) que deveriam abordar a resistência ao fascismo de uma forma séria, isenta e baseada em dados objectivos, continua em força, agora e mais uma vez. Numa referência recente ao marinheiro Cândido Alves Barjas, envolvido no acontecimento da Revolta dos Marinheiros em 1936, os propagandistas do Museu vão contra todo o conhecimento histórico produzido pelos investigadores nos últimos anos e insistem na visão propagandística com que o PCP quis revestir os factos,

Segundo o Museu, a Revolta dos Marinheiros foi um “levantamento realizado a 8 de setembro de 1936, preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo”, o que vai totalmente ao arrepio da verdade histórica desenvolvida por vários investigadores, para quem esta revolta nunca teve a ver com qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou com uma solidariedade afirmativa com a Republica Espanhola, mas sim com um protesto, que se queria pacífico, visando a reintegração de 17 marinheiros demitidos depois de terem mantido contactos em portos espanhóis com elementos republicanos, o que não estaria autorizado.

É esta a constatação a que chega José Eduardo Casimiro Da Silva Capinha Henriques que na sua tese de mestrado sobre a “A Revolta dos Marinheiros de 1936” escreve, nas páginas 23/24: “O argumento principal apresentado é que se estava a organizar um protesto, não violento, por causa dos camaradas do NRP Afonso de Albuquerque que tinham sido expulsos em virtude da viagem a Málaga, no Sul de Espanha, com o intuito de recolher refugiados nacionais que se encontravam em território espanhol, uma semana antes e que este protesto visava a readmissão dos mesmos, derivado das circunstâncias, tidas como injustas, em que os marinheiros tinham sido expulsos da Marinha”.

E prossegue: “Este protesto iria consistir em tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a exigir ao governo de Salazar a reinserção dos militares expulsos. Mas, em alguns casos, chega-se a falar em exigir a libertação de presos políticos do forte de Peniche e caso não fossem atendidas as exigências impostas, o plano seria navegar até aos Açores ou Madeira e libertar os presos políticos que lá se encontravam; caso isso falhasse, o último recurso seria ir até Espanha e juntarem-se ao lado Republicano.”

Esta justificação é, de novo, reforçada na página 51 do mesmo trabalho: “O golpe consistiria num protesto, supostamente não violento, em que iriam tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a pedirem ao governo de Salazar, a readmissão dos 17 camaradas do NRP Afonso de Albuquerque expulsos da Marinha alguns dias antes.”

Também recentemente, numa comunicação apresentada no colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais, Velhas Resistências, Novos Estudos e Memória”, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira apresentou  a exigência de reintegração dos marinheiros expulsos como a razão para a revolta, e não qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou de solidariedade com a República Espanhola, como referem os textos propagandísticos.

A investigadora, baseada na documentação existente, considerou que apesar de uma presença forte do PCP na Marinha, a revolta, falhada e rapidamente controlada pelo regime,  teve a ver com a reivindicação de reintegração de 17 marinheiros afastados depois de terem mantido contactos não autorizados em portos controlados pelos republicanos espanhóis.

Foi este o motivo da revolta e não aquele que, ao arrepio da verdade histórica, vem agora o Museu do Aljube reafirmar, coincidindo com a versão propagandística do PCP, de que o levantamento foi “preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo.”

Começa a ser demasiado grave a falta de rigor de uma entidade que se deveria pautar pela verdade histórica e não pela visão deturpada e ideologicamente orientada em que, cada vez mais, é useira e vezeira.

Da necessária recuperação histórica da memória anarcosindicalista no movimento operário português


No colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais, Velhas Resistências, Novos Estudos e Memória” que está a decorrer em Lisboa e via internet, o historiador Fernando Rosas, que abordou esta manhã os “silêncios que falam” durante a história da resistência ao Estado Novo, disse que a “instalação dos museus mais recentes” mostra essa tentativa de omitir da história tudo o que ponha em causa o papel de hegemonia do PCP na luta contra o fascismo.

Segundo este historiador, entre as principais omissões da história criada pela historiografia vigente – e que só foi quebrada com os trabalhos de investigação de jovens universitários de inícios dos anos 70, depois pelas memórias dos militantes libertários e depois pela investigação académica -, consta o apagamento da história do movimento operário até aos anos 30, quando o anarcosindicalismo desempenhou um papel hegemónico no movimento operário, nomeadamente através da CGT.

Rosas recordou ainda que o PCP nunca comemorou nem reivindicou para si o 18 de janeiro de 1934, a não ser após o 25 de Abril de 74 e depois dos anarquistas e dos maoistas darem a esta greve geral insurreccional um lugar especial na memória da luta operária.

Por seu turno, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira desmistificou a Revolta dos Marinheiros de 1936, que o PCP reivindica como uma data histórica de solidariedade com a Republica Espanhola, organizada pela organização revolucionária da armada, que controlava. Luísa Tiago de Oliveira, baseada na documentação existente, considera que apesar da existência de uma presença forte do PCP na Marinha, a revolta teve a ver com a reivindicação de reintegração de 17 marinheiros afastados depois de terem mantido contactos não autorizados em portos controlados pelos republicanos espanhóis.

Muitos dos presos nesta revolta foram punidos com penas bastante severas, tendo mais de trinta sido deportados para o campo de concentração do Tarrafal.

Segundo o anarquista Custódio da Costa, que esteve preso no Tarrafal entre 1936 e 1949, “eram todos muito jovens e a maioria não tinha qualquer formação política”, tendo sido arrastados para o movimento por questões de solidariedade corporativa.

Da parte da tarde, no painel dedicado ao Anarquismo, Paulo Guimarães falou d’”Os anarquistas portugueses nos anos ’40: tempos de esperança e desilusão”, dizendo que os anarquistas, desde sempre, têm sentido preocupação pela falta de memória histórica e procurado, pelos seus meios escassos, colmatar as falhas existentes na historiografia oficial e oficiosa, considerando que “a luta pela memória” tem sido uma constante dos anarquistas ao longo dos anos.

Sobre os anos 40, Paulo Guimarães destacou a desilusão provocada pela repressão violenta do regime salazarista nos últimos anos da década de 30, que levou muitos anarquistas a exilarem-se em Espanha, combatendo na guerra civil, e após a derrota republicana a ir para novo exilio em França, onde muitos foram parar a campos de detenção e, posteriormente, a campos de concentração alemães.

Tal foi o caso do anarquista José Agostinho das Neves e de outros, de que tratou a comunicação de Cristina Clímaco, traçando o seu itinerário biográfico e ideológico, bem como o da sua geração, divididos entre a militância e a conjuntura difícil vivida neste período conturbado, entre guerras, que marcou também o fim do anarquismo histórico, que tinha sido determinante em países como Portugal ou Espanha.

O Trabalhador – Aos revoltados da Comuna de Paris


O TRABALHADOR : AOS REVOLTADOS DA COMMUNA DE PARIZ / ED. ANTÓNIO CANDIDO DE SOUSA FARIA AUTOR(ES): Faria, António Cândido de Sousa, ca 18 , ed. lit. NUMERAÇÃO: No único (18 mar. 1897)PUBLICAÇÃO: Porto : António Candido de Sousa Faria, 1897

26 anos depois da Comuna de Paris (1871) era editado no Porto um número único de um jornal dedicado ao levantamento dos trabalhadores parisienses, com textos de diversos autores, entre os quais do anarquista Jean Grave. Este periódico assinala já, na última página, a existência de uma Biblioteca Libertária, na Rua da Pena Ventosa, no Porto, onde podem ser comprados livros de índole anarquista, entre os quais A Conquista do Pão, de Kropotkine.

(Lisboa) Feira Anarquista do Livro 2021


Feira Anarquista do Livro

Lisboa – 25 e 26 de Setembro 2021

Viva!

Desde este ponto geográfico cada vez mais perto da catástrofe total, fruto do terramoto turístico, do aparato fármaco-securitário e da normalização de tudo, voltamos a convidar-vos a todas e todos para um fim-de-semana de encontro entre resistentes, insubmissos e iconoclastas. Nos dias 25 e 26 de Setembro de 2021, a Feira Anarquista do Livro regressa a Lisboa, na Quintado Ferro, uma “ilha” na cidade gentrificada.  À violência continuada do processo pandémico, que dissolveu laços sociais e hábitos de comunhão, respondemos com uma possibilidade de encontro.

Hoje como ontem, resistimos ao cerco do capital, da autoridade e do conformismo. A maioria resigna-se, nós não!

Saúde e Anarquia!

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SÁBADO, 25 de setembro

11h – Abertura (bancas de livros durante todo o dia)

12h – Viver a Utopia. (ed. Barricada de Livros)

Nesta recente edição, a Barricada de Livros leva-nos a conhecer cinco experiências concretas protagonizadas por anarquistas, viradas para o ‘mundo real’ e que, apesar de serem pequenas ‘ilhas’ rodeadas por um mar imenso e adverso, perduram há muitos anos em lugares distintos: Diony-Coop, uma cooperativa auto-gerida de consumo alimentar em Saint-Denis, Paris; Elèuthera, uma editora com sede em Milão; Paideia, uma escola em Mérida; Soma, uma terapia concebida pelo anarquista brasileiro Roberto Freire; e Uropia, uma comunidade agrícola na Puglia, Itália.

14h – Apresentação do livro Quale internazionale de Alfredo Cospito, traduzido, editado e distribuído por Malacoda.

Alfredo Cospito é um anarquista italiano condenado a quase 11 anos de prisão pelo atentado, em 2012, a Roberto Adinolfi, administrador da Ansaldo Nucleare, empresa responsável pela construção de centrais nucleares em Itália.

16h – Contra o Leviatã, Contra a sua História de Fredy Perlman & O Mito da Razão de Georges Lapierre (ed. Flauta de Luz).

Apresentação das edições Flauta de Luz pelo seu editor.

A Flauta de Luz é uma revista editada por Júlio Henriques desde 2013, que alarga o seu diálogo subversor com o mundo que nos rodeia ao âmbito da edição de livros, com uma seleção cuidada e de ritmo lento, tal como cada número da revista.

Contra o Leviatã, Contra a sua História de Fredy Perlman é o fruto de uma investigação de meia década onde o autor procede a uma revisitação crítica da história da Humanidade, desde as origens sumérias da civilização ocidental até aos nossos dias, pondo em causa os fundamentos canónicos baseados na narrativa estatal. O Leviatã representa o Estado no seu sentido mais profundo e amplo, não só a instituição administrativa de uma sociedade, mas também a construção da própria sociedade, a sua maquinaria, a sua espiritualidade morta, o seu militarismo, as suas relações alienadas e patriarcais, o seu desprezo pela natureza e as suas tecnologias de poder.

Em O Mito da Razão, Georges Lapierre parte de um problema de tradução de um discurso da comandante zapatista Ana María, e inicia uma investigação sobre o tipo de pensamento, a concepção do mundo, que está por detrás de algumas linguagens (Tzeltal, Tojolabal …) em cuja sintaxe não há objeto direto, simplesmente porque não existe a relação sujeito/objeto, característica do pensamento ocidental. E é assim porque nas comunidades indígenas existe apenas uma relação entre iguais, ou seja, nenhuma relação é concebida com o que é externo ao indivíduo – ou entre os indivíduos – que não ocorra num plano de reciprocidade.

18h – Quando Ninguém Podia Ficar. Racismo, habitação e território de Rita Alves (Tigre de papel).

Partindo de uma revisão e análise críticas de (con)textos políticos, académicos e mediáticos, este livro procura compreender como se tem (re)construído historicamente a relação entre periferia, direito à habitação e raça/racismo no Portugal contemporâneo. Nas páginas deste livro encontrar-se-á, de certa forma, o início do fim do Programa Especial de Realojamento (PER), traduzido na dilaceração e na resistência de uma comunidade histórica, à altura maioritariamente negra, na cidade da Amadora: o bairro de Santa Filomena. E, se é verdade que a história de um lugar particular não possibilita narrar na totalidade um programa de âmbito nacional/metropolitano, com especificidades territoriais indiscutíveis, a história que aqui se reconta não deixa de ser paradigmática de como o Estado português tem pensado e gerido populações negras, Roma/ciganas e imigrantes empobrecidas no espaço urbano –, ilustrando racionalidades eurocêntricas que urge repensar.

Apresentação por Rita Alves, Cristina Roldão e Éu Mental

20h Performance: Denise Stolnik [https://vimeo.com/denisestk

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DOMINGO, 26 de setembro

11h Abertura (bancas de livros durante todo o dia)

12h Coletes pretos Casacos amarelos por Zanzara Athée 

Entrevistas com anarquistas sobre o movimento dos Coletes Amarelos na França Paris e periferias/Toulouse/Dijon/Caen fevereiro-abril 2019,

14h – Salvador Puig Antich e a Luta Armada Anticapitalista na Catalunha nos Últimos Anos do Franquismo (ed. A Batalha). Apresentação com a presença do autor Ricard de Vargas Golarons.

Salvador Puig Antich (1948-1974) foi um lutador libertário catalão, membro do Movimento Ibérico de Libertação – Grupos Autónomos de Combate (MIL-GAC), que ficou na memória colectiva como uma das últimas vítimas do garrote civil em Espanha. Este livro recupera a sua história, 47 anos depois da sua morte. Organizado por Ricard de vargas Golarons, ex-membro do MIL e da Organização de Luta Armada (OLLA), e composto por diferentes textos de companheiros de luta e familiares, por escritos do próprio Puig Antich e por um anexo fotográfico e documental, este livro recupera a história de um revolucionário comprometido com a luta antfranquista e anticapitalista, uma vida que se confunde também com a história da resistência armada à ditadura nos últimos anos do franquismo.

16h Actualidade da situação curda & Apresentação da revista Legerin

18h Cronstadt 1921 de Ida Mett (ed.Letra Livre)

Cronstadt fica sobre a ilha de Kotline, a uma distância de 26,5 km de Petrogrado, a 7 km de Oranienbaum, a 13 km de Lissi Nos e a 21 km de Terioki. A fortaleza foi construída por Pedro, o Grande, em 1710, para a defesa naval de Petrogrado.

A coragem dos marinheiros de Cronstadt na luta contra a autocracia czarista mereceu elogios de Lenine, Trotski e dos bolcheviques em geral. Em 1917, eles tiveram um papel decisivo na aparente conquista do poder pelo proletariado russo.

De 3 a 16 de Março de 1921, o sangue correu nas ruas de Cronstadt, que se havia revoltado contra a usurpação do poder dos sovietes pelo Partido Comunista. Desta vez, Lenine e Trotski pouparam os elogios e concentraram o seu esforço em destruir uma insurreição que ameaçava os novos exploradores do povo russo.

Até hoje, tanto a historiografia corrente no Ocidente como a historiografia oficial soviética, subordinada a interesses estatais e impedida de encetar uma investigação livre, têm sistematicamente mentido ou silenciado os factos relativos a um dos episódios maiores da fase final da Revolução Russa.

É à história desse episódio, esmagamento sangrento do último soviete livre, que este livro serve de introdução insubstituível.

aqui: https://feiranarquistadolivro.noblogs.org/

(Imaginação ao Poder) Occussi-Ambeno, um sultanato… anarquista?


Notas sobre um “moderno Estado satírico”

aqui

 

David Bernardini

As pessoas leram. As partes que recordam contarão a outros.

Serão transmitidas. As histórias nunca morrem, na verdade.

(George Romero, Daniel Kraus, I morti viventi)

           

Segundo o estudioso Philip Hayward, da Universidade de Sydney, o sultanato de Occussi-Ambeno constitui um curioso caso de micro-nação, termo que designa as entidades que nascem por vontade de pequenos grupos de indivíduos, os quais proclamam uma certa área (geralmente muito limitada) independente do Estado de pertença. Há duas tipologias de micro-nações, as ‘clássicas’, usualmente mas não necessariamente situadas numa ilha (pensemos, por exemplo, na Ilha das Rosas), e as ‘virtuais’, por vezes resultado de performances artísticas com intenção de crítica social.[2] À segunda tipologia pertence o sultanato de Occussi-Ambeno, um projecto nascido em 1968, na Nova Zelândia, da mente de um artista dos sectores anarquistas, Bruce Ronald Henderson – far-se-á chamar Martin Renwick de 1978 a 1981 e Bruce Grenville de 1981 a 2000 – e concebido como paródia de um Estado. Tal nação imaginária corresponde todavia a um território realmente existente: Occussi-Ambeno é de facto um enclave, uma porção de território pertencente a um Estado (Timor Leste), confinante totalmente com outro Estado (Indonésia)[3].

            Na segunda metade do séc. XX as contraculturas têm um profundo impacto sobre as formas, as práticas e as linguagens do anarquismo. Sob a sua influência, por outras palavras, são reformuladas as ideias-força do chamado anarquismo clássico (como o anti-militarismo, o anti-autoritarismo, o anti-capitalismo, o internacionalismo), abrindo-o contemporaneamente a novos temas (por exemplo, a luta anti-nuclear). Um caso de estudo interessante e peculiar, a este respeito, é o do sultanato de Occussi-Ambeno. Em artigo publicado numa revista anarquista da Nova Zelândia, em 1985, o seu animador e principal promotor, Bruce Grenville, define-o em termos de um ‘moderno Estado satírico’, uma paródia para pôr a nu o absurdo da instituição estatal[1]. O propósito destas linhas, portanto, é reconstruir em linhas gerais os traços desse projecto, ainda pouco conhecido no quadro italianófono, a partir dos materiais existentes no fundo ‘Veneza 84’, em vias de digitalização e classificação no Centro de estudos libertários/ Arquivo G. Pinelli.

Folheto volante sobre a dessalinização, ou sobre a ‘enésima solução dos problemas da galáxia graças à tecnologia do Occussi-Ambeno’ (ver nota 10).
A produção de selos é um dos traços mais marcantes da actividade de Bruce Grenville. Aqui vemos alguns exemplares celebrando a Swiftair, companhia aérea de bandeira do Occussi-Ambeno, cuja frota era inteiramente formada por dirigíveis e zepelins (ver nota 12).

            Como para um verdadeiro Estado, Grenville inventou desde o fim dos anos sessenta uma história nacional remontando a 1848, ano em que sete tribus se teriam unido contra os portugueses. Após uma série de ‘conjuras ao estilo do Vaticano e de envenenamentos de sultões por parte de sucessores zelosos’, em 1968 o país teria obtido a independência, iniciando-se o reinado de Sua Majestade Waals Abdullah I, seguido em 1975 por Michael Ismail I, deposto amigavelmente em 1995 por Gay Dean, sócio australiano de velha data de Grenville. Segundo um prospecto do próprio Grenville, um hipotético censo de 1980 indicava que a população do imaginário sultanato atingia cerca de 180.000 pessoas, repartidas por sete províncias (Khayal Serikit, Jade, Atanarble, Tarantar, Dragon, Feripæga, Quatair), com a capital Baleksetung (42.137 habitantes).[4]

            A principal actividade do projecto de Grenville consistia inicialmente na produção e difusão, em nome do sultanato de Occussi-Ambeno, de papel timbrado para uso burocrático, cheques e sobretudo falsos selos, aqueles que no âmbito filatélico são chamados ‘cinderella stamp’ (um selo não utilizável no correio postal). O primeiro de tais selos, também ditos ‘artistamps’, foi produzido por sobreimpressão de um verdadeiro selo indonésio.[5]

            O Occussi-Ambeno começou a dar que falar no início dos anos Setenta. Em 1972, com efeito, foi o primeiro e único Estado a reconhecer a República de Minerva, fundada pelo milionário americano Michael J. Oliver e a seguir despejada por tropas de Tonga. Sem pré-aviso, alguns meios neo-zelandeses pareceram tomar a sério as declarações emitidas na ocasião pelo sultanato. Depois, a suposta sede do consulado de Occussi-Ambeno (uma caixa postal em Auckland, Nova Zelândia), único endereço público do sultanato, tentou estabelecer relações diplomáticas também com o principado do Mónaco e com o Liechtenstein[6].

Volante programático do New Zealand Party, partido fictício fundado por Murray Menzies, parceiro de Bruce Grenville.

            Entretanto, os selos de Grenville encontraram certo acolhimento no meio especializado, tornando-se em breve na principal fonte de receita do projecto. Em 1977, la Philanumismatica, um consórcio europeu sediado em Madrid, contactou a caixa postal de Auckland propondo-se adquirir o exclusivo de produção e venda dos selos do sultanato de Occussi-Ambeno mediante o pagamento de avultada soma (40.000 dólares, segundo Grenville)[7]. Um ano após, o consórcio apercebeu-se do erro e rompeu o acordo (embora continuando a comercializar os selos do sultanato até 1984). Entre 1978 e 1981 Grenville transferiu-se para a Austrália, passando a dedicar-se a outras iniciativas[8].

Envelope e selo occussiano comemorando o Encontro Internacional Anarquista de Veneza 1984, distribuídos alguns meses após o evento.

            Regressado à Nova Zelândia, além de criar em 1987, com os ganhos dos selos, uma tipografia onde se imprimia o jornal anarquista “The State Adversary”, retomou as rédeas da sua nação imaginária[9].

            Neste período delineou uma tecnologia ecológica e utopista totalmente independente do petróleo. Com uma declaração bombástica, no princípio dos anos oitenta, é assim apresentada a fábrica de dessalinização alimentada por energia solar, na província de Dragon. Esta ‘solução dos problemas da galáxia’ era o resultado das pesquisas de um certo dr. Paul Wilhelm Stoker, dos quadros do serviço de controlo de qualidade da real indústria de cogumelos alucinogéneos[10]. A tal propósito, segundo notícias divulgadas por Grenville, a exportação de cogumelos alucinogéneos constituía uma actividade económica fundamental do sultanato[11].. Existia além disso uma companhia de navegação, a Transonic Marine (composta de galeões trabalhando a vento e pilhas foto-voltaicas), e uma linha aérea, a Swiftair, usando dirigíveis zepelins cheios de hélio e trabalhando com energia solar, ambas companhias aliás tiveram os seus selos comemorativos[12].

            Nos anos 80, a história do sultanato do Occussi-Ambeno não se deteve. Em 1983, o governo provincial de Feripæga anunciou a sua própria abolição, sendo as suas funções assumidas por assembleias populares de bairro e distrito[13]. Dois anos depois, o Occussi-Ambeno aderiu ao International Council of Independent States (ICIS), uma espécie de internacional das nações imaginárias, fundada em 1984 por Geir Sør-Reime, ele próprio inventor da República de Mevu. Para comemorar o evento, o artista neo-zelandês Murray Menzies, “conhecido occussiano”, desenhou o seu primeiro selo[14]. Em 1985, o mesmo Menzies subscreveu um folheto de um certo New Zealand Party que propunha a Nova Zelândia como refúgio global em caso de catástrofe nuclear, reclamando a contribuição da ONU e da indústria mundial de armamento para um ‘fundo de sobrevivência’ destinado à compra de alimentos, água, medicamentos e tudo o mais necessário à sobrevivência após a catástrofe[15]. Nos anos seguintes, aprofundou-se a colaboração entre o Occussi-Ambeno e outros Estados imaginários. Além de pedir à Albânia comunista de Enver Hodja a libertação dos presos políticos, o sultanato participou com os seus selos em várias campanhas internacionais do movimento anarquista, nomeadamente na luta anti-nuclear.[16] Em 1984, Rino De Michele foi nomeado embaixador em Itália do Occussi-Ambeno e, em tal veste, apresentou ao sindaco de Comiso um protesto contra a presença dos mísseis americanos[17]. Grenville estampou outros selos, para recordar o 45.º aniversário da Guerra Civil espanhola e para contribuir a alguns eventos como o Encontro Internacional Anarquista de Veneza 1984, organizado pelo Centro Studi Libertai/Archivio G. Pinelli, de Milão, pelo CIRA, de Genebra-Lausana e pelo Anarchos Institute, de Montréal[18]. Como resulta de um documento conservado no fundo ‘Venezia ‘84’, foi estampado um selo para a ocasião, com 600 exemplares[19]. Em 2000, Grenville fez um curso de edição digital, design e criação de sítios web, graças ao qual produziu o primeiro selo do sultanato estampado a laser, aparecendo em 2010 um outro selo celebrando a suposta visita de Barack Obama. A brincadeira – para uns uma burla, para outros uma performance político-artística – mantém-se fiel, como vemos, à ideia de Grenville, expressa em 1985 com grande clareza: ‘Nós pensamos que se deve usar qualquer meio não ortodoxo na luta contra o conceito de Estado. E construir uma efigie da sua vaca sagrada para fins satíricos é algo certamente que eles não tomaram até agora em consideração[20].

(Trad. Albino Matos)[21]

Estatísticas da produção de cogumelos alucinogéneos dos Estabelecimentos Reais do sultanato, de Junho 1984 (ver nota 11).

[1] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno: A Modern Satirical State, “Phlogiston”, (1985), n. 6, pp. 17-19. Há uma tradução italiana: Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, “A rivista anarchica”, 1984, n. 122, pp. 23-26.

[2] Philip Hayward, Oecusse and the Sultanate of Occussi-Ambeno: Pranksterism, Misrepresentation and Micronationality, “Small States&Territories”, 2019, n. 2, pp. 183-194.

[3] Para Hayward, neste sentido, o Occussi-Ambeno seria vítima duas vezes, quer das disputas territoriais entre a Indonésia e Timor Leste, quer da expropriação simbólica resultante da “satirical play” de Grenville: ivi, pp. 191-192.

[4] Veja-se o interior do pequeno prospecto intitulado About Asia n.º 42 OCCUSSI-AMBENO, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[5] Geir Sør-Reime, Long live the sultan: The world and stamps of Bruce R. Henderson, “The Cinderella Philatelist”, 2016, disponível em: https://www.angelfire.com/country/mevu/Geir-article-on-BRH.pdf (consultado 4 Junho 2021).

[6] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 17.

[7] Ivi, p. 18.

[8] Sør-Reime sugere que Grenville deixou momentâneamente a Nova Zelândia, no regresso da Austrália (chamando-o ‘o exílio australiano’), pelos problemas surgidos com a Philanumismatica, embora não houvesse aí qualquer crime, já que ‘inventar terras de fantasia é ainda legal, sendo mesmo altamente compensatório para alguns que estão sempre a fazê-lo, escritores, directores de cinema’ (Geir Sør-Reime, Long live the sultan, cit.).

[9] Toby Boraman, Rabble Rousers and Merry Pranksters: “A History of Anarchism” in Aotearoa/New Zealand from the Mid-1950s to the Early 1980s, Katipo Books-Irrecuperable Press, Christchurch-Wellington, 2008, pp. 119-120. Não admira que em “The State Adversary” se encontrem algumas páginas dedicadas ao Occussi-Ambeno: Bruce Grenville and the Utopian State of Occussi-Ambeno, “The State Adversary”, (1987), n. 2, disponível: http://www.takver.com/history/nz/grenville.htm.

[10] “Desalination: Yet another solution to the problems of the galaxy from Occussi-Ambeno technology!”, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[11] Sultanate of Occussi-Ambeno. Royal Occussi-Ambeno Hallucinogenic Mushroom Factory – apresenta as supostas estatísticas da produção mensal de cogumelos, indicando o número de trabalhadores e laboratórios envolvidos, assim como a quantidade da produção. Os dois prospectos disponíveis do fundo fazem referência a 30 Junho e 31 Julho 1984, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[12] Para alguns exemplos desses selos da Swiftair veja-se o envelope datado de 21 Nov. 1983, endereçado a Mr. M. A. Menzies, 83 Stafford Street, Dunedin, Aotearoa, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[13] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 18.

[14] Geir Sør-Reime, Long live the sultan, cit.

[15] Veja-se o folheto The New Zealand Party, de 6 Fev. 1985, contido no envelope datado de 16 Dez. 1984, celebrando o encontro internacional anarquista “Venezia ‘84”, e tendo por remetente o sultanato de Occussi-Ambeno. In: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[16] Para dois exemplos (ambos de 1976, provavelmente), de selos do sultanato com o slogan “Stop all nuclear bomb tests!”, veja-se: Occussi-Ambeno. Catalogue des Timbres, s.p., s.d., in fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[17] Como recordado in: “Luther Blissett-Rino De Michele, PropaganDADA: ovvero sperimentazioni di trasmissione del pensiero”, A rivista anarchica, 2012, n. 373, pp. 113-117, max. p. 114.

[18] Durante essas jornadas confrontaram-se cerca de três mil libertários num amplíssimo leque de temas, da ecologia social ao feminismo, passando pela arte, pela pedagogia e pelo antimilitarismo. Cfr.: Antonio

Senta, Utopia e azione, per una storia dell’anarchismo in Italia (1848-1984), Milano, 2015, pp. 228-229.

Para um relato visual do encontro: Ciao anarchici. Immagini di un incontro anarchico internazionale, Edizioni Antistato et al., Milano et al., 1986.

[19] O fundo conserva uma troca de cartas entre April Retter, â época fazendo parte do Centro studi libertari/Archivio Pinelli, e Bruce Grenville, de Out. 1984 a Fev. 1985, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[20] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 19.

[21] Artigo original in https://centrostudilibertari.it/sites/default/files/materiali/bollettino_57.pdf

Da necessidade de uma história do movimento operário e da luta contra o fascismo sem ocultação dos seus protagonistas.


Reunião na sede do jornal “A Batalha”, na Rua Angelina Vidal, nº 17, 2º Eº, em Lisboa, no inverno de 1974-1975, reconhecendo-se Adriano Botelho e Aurélio Quintanilha. (Arquivo Histórico-Social)

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Há dias M. Ricardo Sousa escrevia na Rede Libertária (uma rede de contactos que liga diversos acratas, de tendências diversas), que “já há algum tempo chamo a atenção para um combate oculto que se vem travando em torno da história do movimento operário e social, o caso da história de Peniche é sintomático, em que historiadores comunistas, ex-comunistas e até alguns hoje liberais tentam fazer desaparecer o anarquismo e o anarco-sindicalismo da história contemporânea portuguesa.

Recentemente verifiquei que na página: https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/posts/1321949087914467, na maioria dos casos a condição de anarquista desaparece nas biografias dos militantes libertários que passam a ser apresentados como «trabalhadores» e «anti-fascistas», quando os comunistas são identificados como tais…

Penso que deveríamos denunciar tal situação e forçar as correcções de tais biografias. Trata-se, antes de tudo, de impedir o revisionismo histórico desta esquerda autoritária que mesmo quando não dispõe do poder do Estado tenta impor uma leitura unilateral e manipulada da história social.”

Partilhamos esta opinião e criticamos o facto de quem produz essas páginas – por desconhecimento, ignorância ou má fé – fazer classificações estapafúrdias – ou claras omissões – quando se trata de militantes anarquistas ou anarco-sindicalistas. Em contraponto, quando são do PCP, mesmo sem cargos de relevância, são apresentados de forma real e condigna.

Só para dar alguns exemplos, numa biografia de Emidio Santana, este é apresentado como “Cidadão fundador e militante do anarco-sindicalismo”. Sabe-se lá, fundador do quê…., e no esboço biográfico de Aurélio Quintanilha nem uma referência existe à sua militância e colaboração com o movimento libertário.  São apenas dois exemplos, mas que se repetem de forma sucessiva.

Que o anarquismo sofreu uma forte perda de influência a partir do momento em que se constituiu a URSS, apoiando tudo o que era movimento comunista no mundo, e os anarquistas perderam um dos seus baluartes, com a derrota da guerra e da revolução em Espanha, ninguém nega. Mas que durante décadas houve dezenas e centenas de anarquistas que se organizaram, militaram e lutaram contra a ditadura também é uma verdade que ninguém pode negar. Mas há quem o queira fazer, apoiado numa falsa história, a que há que pôr cobro de uma vez por todas.

O prisioneiro 94250 de Dachau era um anarquista português


José Agostinho das Neves. Jornalista. Anarquista. Deportado pelos alemães de França durante a II Guerra Mundial, esteve preso no campo de concentração de Dachau. Sobreviveu às sevícias nazis e manteve-se libertário até ao fim da vida.

Segundo a referência biográfica inserida no Projecto MOSCA (Arquivo Histórico-Social) foi “membro do Grupo Anarquista “Pão e Liberdade” (Lisboa, 1921). Ferido na explosão de 29-12-1921. Preso em 1922/24. Militante da UAP (União Anarquista Portuguesa). Preso em 1927 em Coimbra e Leiria, por suspeita de pertença à Legião Vermelha. Preso em 1928 e deportado para a Guiné. Fugiu. Espanha e FAPE (Federação Anarquista dos Portugueses Exilados). Expulso de Espanha para França em 1934. Animador do jornal “Liberdade”, (Paris, cerca de 1937) com Jaime Brasil, Abílio Faria. Trabalha na rádio francesa [(deportado pelos alemães (?)] e posteriormente em jornais ligados à emigração portuguesa e consulado.”

Entrevistado em 1945, depois do fim da II Guerra Mundial, em Paris, para o “Diário Popular” (I, II, III, IV), pelo Jornalista Fernando Teixeira, conta as atrocidades do campo de concentração. Mantém-se anarquista até ao fim da vida e o seu percurso biográfico foi traçado no número 66 da revista “Jornalistas & Jornalismo”, pelo jornalista Gonçalo Pereira da Rosa, entrevista que (re)publicamos de seguida.

A figura de José Agostinho das Neves vai ser também objecto de análise por parte da investigadora Cristina Clímaco no decurso do Colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais…”, a decorrer em Lisboa nos próximos dias 23 e 24 de setembro, numa intervenção intitulada: “Figuras esquecidas e trajectórias desmemorializadas: o percurso de José Agostinho das Neves e outros no exílio europeu no entre-guerras”.

No mesmo colóquio participa ainda, no painel sobre Anarquismo, o investigador Paulo Guimarães com uma comunicação sobre “Os anarquistas portugueses nos anos ‘40: tempos de esperança e desilusão”.

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Comunicado da Federação Anarquista Era (organização anarquista presente no Afeganistão e no Irão)


Os talibãs estão prestes a estabelecer o seu próprio governo no Afeganistão. Os países poderosos do mundo não farão nada para impedir ou evitar o projeto talibã. Infelizmente, mais uma vez, o povo afegão vai cair nas mãos dos talibãs e voltarão a produzir-se atrocidades inimagináveis.

Testemunhos presenciais em várias cidades do Afeganistão que caíram na mão dos talibãs, disseram que estes estão a tentar identificar os críticos e oposicionistas às suas crenças politicas ou religiosas. Assassinam escritores, jornalistas e outros ativistas sociais, ou levam-nos para paradeiros desconhecidos.

A tomada do poder pelos talibãs no Afeganistão, com as suas reacionárias ideias religiosas e a sua história de derramamento de sangue, e a imposição de outro governo teocrático sobre o povo, é uma ameaça para as lutas desse mesmo povo pela liberdade.

O povo tomou as armas para se defender contra os talibãs e evitar o pesadelo de um estado islâmico fundamentalista. Mas tiveram que se confrontar com a derrota e a traição do governo afegão. A sua luta foi constantemente reprimida e apropriada por governos e partidos políticos sem visão do futuro. Segundo as últimas notícias e informações, os talibãs entraram em Cabul e querem tomar o controlo do Afeganistão.

Num primeiro momento esse governo vai ajustar contas com os intelectuais e a geração mais jovem, que não partilha a visão reacionária dos talibãs. Tememos que os/as nossa companheiros/as e outras lutadores pela liberdade serão massacrados/as ante os nossos olhos, como aconteceu no início do regime islâmico no Irão. O mundo observou, sem fechar os olhos, ao assassinato da oposição à Republica islâmica.

Os talibãs divulgaram que o Irão e a Rússia acordaram com a instauração de um estado islâmico no Afeganistão. O Irão recebeu uma delegação talibã de alto nível no dia 7 de julho, e os talibãs apoderaram-se se várias passagens fronteiriças entre o Irão e o Afeganistão a 9 de julho sem quaisquer confrontos com as forças do Irão. Apesar da atual crise, os países que acolheram refugiados afegãos não pararam os processos de deportação. Só a Alemanha devolveu 27 refugiados ao Afeganistão, na terça-feira, 7 de julho. Os governos mundiais parecem estar decididos a deixar o povo afegão sofrer debaixo do governo talibã ou a serem escravos dos seus próprios fins imperialistas e capitalistas. Desde modo, não há dúvida de que quando os talibãs tomem o poder, prenderão e executarão muitos ativistas sociais.

O anarquismo no Afeganistão é muito recente e as nossas forças muito pequenas. No entanto, estamos a pensar em diferentes maneiras de resistir ao avanço talibã porque existe uma, ainda que pequena, potencialidade revolucionária para uma sociedade livre, autónoma e democrática no Afeganistão que deve ser defendida. Infelizmente vão existir planos globais e desumanos para bloquear qualquer actividade eficaz nesse sentido.

Alguns dos nossos companheiros no Afeganistão estão a preparar-se para uma imigração ilegal, mas vão enfrentar controlos de estrada e não poderão escapar da crise. Agora que tudo está a terminar e quando os talibãs estão prestes a tomar o poder, o perigo para as vidas dos/das anarquistas está no seu nível máximo.

Neste momento, devemos coordenar os nossos esforços em encontrar um caminho para que deixem o país. Isto será possível através de uma cooperação económica que lhe permita chegar aos países vizinhos, legalmente ou por rotas de contrabando nas fronteiras, ou através de relações formais e informações no sentido de conseguirem asilo em países seguros.

Os/as companheiros/as anarquistas de fora do Afeganistão podem também enviar pedidos de imigração para os nossos companheiros/as, às embaixadas que ainda continuem em funções, antes que os talibãs possam estabelecer de maneira total o seu governo e as suas próprias agências de segurança e espionagem.

Por outro lado, como resultado de mais de 40 anos de guerra no Afeganistão, e especialmente a recente guerra contra os talibãs, muita gente necessita de ajuda económica porque foi deslocada internamente ou perdeu o seu trabalho devido à guerra e à situação de conflito. Neste sentido, qualquer ajuda económica seria muito eficaz e necessária para os militantes anarquistas afegãos.

aqui: https://asranarshism.com/donation/

Sites anarquistas e anarco-sindicalistas do Afeganistão, Irão e Paquistão.

Federação Anarquista Era (Afeganistao e Irão).

Web: www.asranarshism.com

Conta de Twitter: https://twitter.com/asranarshism

Conta de Instagram: https://www.instagram.com/asranarshism/

Conta de Facebook: https://www.facebook.com/asranarshism

Workers Solidarity Federation-IWA (Seccção paquiistanesa da AIT).

Web: www.wsipakistan.pk

Conta de Twitter: https://twitter.com/workerssolidar1

Conta de Facebook: https://www.facebook.com/WsiPK/

Cuba: o fim do encantamento social da “revolução”


O encantamento social repressivo que mantinha pacificado o museu de grande parte da esquerda internacional desapareceu. Sob a chamada ′′ Revolução Cubana “, e a contra-ciclo da sua benigna imagem, surgiu publicamente, em toda a sua crueza e grandiloquência repressiva, o ′′ Estado cubano “. O mesmo Estado cubano criador – para enfrentar o imperialismo ianque – de uma Polícia política omnipresente que combate a sociedade e a mantém sob o seu controle. O mesmo Estado cubano destruidor – em nome do socialismo – de todas as organizações populares e operárias que, com as suas histórias de luta, pudessem tornar realidade quotidiana as declaradas conquistas socialistas. Esse mesmo Estado cubano que transformou a solidariedade numa marca de identidade internacional, mas que nos mantêm imersos na desconfiança e no medo entre vizinhos. O mesmo Estado cubano que – no meio do reforçado bloqueio ianque – constrói mais hotéis para turistas estrangeiros do que infraestruturas para produzir comida, frutas ou leite. O mesmo Estado cubano que produziu as únicas vacinas na América Latina contra a covid-19, mas que mantém o seu pessoal de saúde na condição de assalariados da polícia política.

Esse Estado cubano nestes dias de julho de 2021 mostrou o que é: uma oligarquia comum e vulgar, zelosa para manter a todo custo o seu poder absoluto; uma cleptocracia vulgar com pretensões humanistas e iluminadas; uma pirâmide de poder tão sólida e desproporcional como as pirâmides das teocracias egípcias, mas rodeada de areia de praias paradisíacas.

Defender agora argumentos geopolíticos sobre o lugar de Cuba na estratégia imperialista global, sustentar que os protestos antigovernamentais em Cuba são inevitavelmente pagos pela direita cubana de Miami, esgrimir que os manifestantes são simples delinquentes em busca de saque, que o verdadeiro povo revolucionário está com o seu governo – todos esses são argumentos que descrevem uma parte significativa da realidade, mas não a esgotam num ponto: o povo de Cuba tem tanto direito e tanto dever de protestar como o da Colômbia ou do Chile. Qual é a diferença? – Que são oligarquias com origens diferentes? Com práticas mais ou menos brutais? Com maquilhagens ideológicas mais ou menos diferenciáveis? Com posições mais ou menos servis face ao governo dos EUA? Com ideais mais ou menos sublimes para justificar os seus privilégios? Todas essas imensas diferenças entre as oligarquias colombianas, chilenas e cubanas reduzem-se a zero quando, numa bela manhã de domingo, você percebe que, além das oligarquias mafiosas na Colômbia e no Chile, a oligarquia cubana também está – frente a um povo sem armas – armada até os dentes, um pouco mais ou um pouco menos, para o esmagar a si e aos seus irmãos, o seu corpo e a sua mente, basta você pensar apenas em questionar verbalmente a normalidade que eles gerem.

Tudo o que o Estado cubano tem feito para produzir vacinas nacionais contra a covid-19, todos os subsídios laborais, todas as melhorias salariais que ofereceu a muitos setores no meio da pandemia, evaporam-se rapidamente, não só pela espiral inflacionária e a falta de abastecimento alimentar endémico em Cuba, mas também porque se tornou visível que tudo isso fazia parte do emaranhado macabro da ′′ tolerância repressiva “, algo que agora qualquer pessoa decente em Cuba pode perceber, sem ter que ler nenhum livro brilhante sobre contracultura. A quem venha agora adoçar essa tolerância repressiva neste país e levantar sobre ela a miragem da harmonia  militarizada, podemos defini-los serenamente como o novo rosto do que não deve ter lugar no nosso futuro. Aqueles que, em nome de uma futura democracia ou do bom funcionamento da economia, vêm desacreditar as afinidades e fraternidades e as energias que surgiram nos protestos, ou reduzem o que aconteceu nestes dias  a ′′ simples vandalismo da crápula social ′′, falam em nome e com a linguagem das decrépitas oligarquias que de novo levantam sem vergonha a sua voz no nosso país.

As “massas” voltaram a ser “gente”, com todas as suas luzes e sombras, ao deixar de obedecer às pesadas cadeias de comando e confiar nos afetos, afinidades e capacidades mínimas de fazer e pensar juntos, que ressurgiram na desobediência. e solidariedade entre iguais, no meio da espiral de violência, da pandemia e da escassez. Essa é a nova realidade que nasceu em Cuba nestes dias de julho de 2021, e é dessa nova realidade, como anarquistas em Cuba, que queremos fazer parte.

Taller Libertario Alfredo López

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