Autor: colibev

Comunicado da Federação Anarquista Francófona sobre os Coletes Amarelos



entête communiqués

Um movimento de cólera como já há muito tempo não se via em França surgiu  há várias semanas, desorientando completamente o poder do Estado. É um movimento compreensível e legítimo face à violência social que existe; a diversidade dos seus actores é o sintoma do grau de frustração causado pelas políticas sucessivas de austeridade mais ou menos maquilhada. Esta revolta, mesmo que seja espectacular, junta-se aos mais recentes movimentos sociais que ocorrem em vários locais: hospitais, caminhos de ferro, faculdades, escolas secundárias, etc.

A principal característica deste movimento é a sua rejeição da representação política e ainda mais de quaisquer líderes auto-proclamados. Nas rotundas ocupadas inventam-se novos modos de socialização.

Os anarquistas não podem senão aprovar uma atitude que tem sido a sua desde sempre. No entanto, a revolta é inútil se não for acompanhada por propostas. Estas existem, como por exemplo em Saint-Nazaire ou Commercy e, mesmo se não satisfazem totalmente os anarquistas, merecem ser apoiadas desde que vão no sentido  da emancipação.

Denunciamos e condenamos também os muitos actos de violência repressiva do Estado (detenções arbitrárias, prisões imediatas, ferimentos devido a disparos de flashball e outras armas ofensivas da polícia, etc.) como as únicas respostas às reivindicações.

A vitória deste movimento não será a dissolução da Assembleia Nacional (sobretudo se for para aí instalar demagogos/populistas e/ou nacionalistas que nem sequer tolerariam tais manifestações), mas o seu fim para não pôr em causa a instauração da autogestão e do federalismo libertário.

Federação Anarquista

http://www.federation-anarchiste.org/
ifa@federation-anarchiste.org
09/12/2018

aqui: https://www.monde-libertaire.fr/?article=Gilets_jaunes_Communique_de_la_Federation_anarchiste

Gilets-jaunes-apres-les-annonces-du-gouvernement-quelles-suites-pour-le-mouvement

Anúncios

‘Os “Coletes Amarelos” mostram como o chão se move debaixo dos nossos pés’, por David Graeber


capturar

Por David Graeber

david-graeber-420x420Se uma característica de qualquer momento verdadeiramente revolucionário é o completo fracasso das categorias convencionais para descrever o que está acontecer ao nosso redor, então esse é um bom sinal de que estamos vivendo  tempos revolucionários.

Parece-me que a profunda confusão, até mesmo a incredulidade, exibida pelos comentadores dos media franceses e estrangeiros diante de cada novo “acto” do drama dos Gilets Jaunes, que agora se aproxima rapidamente do seu clímax insurreccional, é o resultado de uma incapacidade quase total de levar em linha de conta  as formas como o poder, o trabalho e os movimentos de contrapoder mudaram nos últimos 50 anos e, em particular, desde 2008. Os intelectuais, na maior parte das vezes, entenderam muito mal essas transformações.

(mais…)

Nos cem anos de “A Batalha” há quem se proponha dar nova vida ao seu hino


capturar (1)capturarb

João Gouveia deixou no Grupo de Debate UAP, no facebook, a seguinte mensagem, que reproduzimos com o intuito de lhe dar maior visibilidade.

“Partilho aqui o instrumental d’A Batalha por Del Negro que reescrevi em formato digital.

Existem partes que foram ligeiramente modificadas que (admito que possa ser erro meu) não consegui ler ou interpretar corretamente, por isso gostava de pedir ajuda a alguém que também estivesse ligado à música para diminuir os erros nesta versão digital.

Por isso mesmo além de apenas partilhar o ficheiro .mp3, também partilho a minha versão da partitura original.”

Recorda-se que não existe qualquer gravação do “Hino de A Batalha”, cantado em muitas sessões, festas e comícios anarcosindicalistas, sobretudo da CGT , de que “A Batalha” foi o jornal diário oficial.

“A Batalha” foi fundada a 23 de Fevereiro de 1919, tendo-se publicado diariamente até ao dia 26 de maio de 1927, quando a sua tipografia foi destruída e a sua publicação proibida pelo regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926.

No entanto, “A Batalha” sobreviveu publicando-se na clandestinidade durante várias décadas (até finais da década de 40) e vendo, de novo, a luz do dia, de forma legal, após o 25 de Abril de 1974

“A Batalha” comemora os seus cem anos a 23 de Fevereiro do próximo ano. Seria bonito dar, de novo, vida àquele que foi o seu hino!

hino original: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2018/01/22/recordando-o-hino-revolucionario-de-a-batalha/

 

Manuel Fiúza Júnior, um anarquista de Viana do Castelo, assassinado pela PIDE em 1957


fi

Placa toponímica da Rua Manuel Fiuza Junior, em Viana do Castelo, onde – como é regra quando se trata de anarquistas – é omitida a sua militância libertária.

Manuel Fiúza Júnior nasceu em 1887, na cidade de Viana do Castelo, onde editou, por alguns anos, o quinzenário anarquista A Voz dos Famintos. Apesar de modesto na colaboração e no aspecto, este jornal, que juntava o seu grito ao clamor dos que, em todo o mundo, reclamam mais um pouco de pão, de justiça e liberdade, exerceu uma profunda influência doutrinária entre a juventude da região minhota, alfobre, desde recuados tempos, de grandes rebeldes e revolucionários, que ilustraram com o seu nome e a sua acção fecunda as páginas da história do movimento operário, principalmente do anarco-sindicalismo.

Veio, no entanto, a quartelada do 28 de Maio de 1926 e com ela o fascismo que navegou nas suas águas, obrigando Manuel Fiúza Júnior aos subterrâneos da luta clandestina, para prosseguir a batalha que redime os homens de todas as vilezas e de todas as debilidades. Nesta cruzada foi encontrar a morte violenta, melhor dizendo, foi assassinado na sede da PIDE na Rua do Heroísmo, 329, no Porto, para onde fora conduzido sob prisão, contando então 70 anos de idade.

Viviam-se os anos de 1957, quando é preso e, 15 dias depois, morto, na sede da P.I.D.E, do Porto, Joaquim Lemos de Oliveira, natural de Fafe. Denunciando este crime, foram distribuídos milhares de manifestos e pela responsabilidade do seu aparecimento em Viana do Castelo é preso Manuel Fiúza Júnior. Conduzido pelos carrascos inspector Costa Pereira e chefes Pinto Soares e Patacho, colocado na tortura da “Estátua”, não resistiu ao suplício e morreu.

Foi mais um anarquista que deu a vida em holocausto ao ideal libertário.

Fonte: E. Rodrigues (1982). A oposição Libertária em Portugal. 1939-1974. Lisboa. Sementeira.

aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=13&p=creators&char=J&id=1458

também aqui: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/02/17/memoria-libertaria-manuel-fiuza-junior/

a-voz-do-faminto

Frank Mintz sobre os coletes amarelos


gilets-jaunes-1

Maio/junho de 1968 – novembro/dezembro de 2018

Frank_Mintz_2014

Frank Mintz, um anarco-sindicalista francês, expressa a sua solidariedade para com a luta dos coletes amarelos

Estamos a viver em França um movimento social de um novo tipo que está a sacudir os cimentos do neoliberalismo e da democracia burguesa: os coletes amarelos.

Viu-se como Maio e Junho de 1968 começaram por uma repressão policial impensável de estudantes e manifestantes durante a noite de 10 de Maio de 1968 no Quatier Latin de Paris.

Agora, desde 17 de Novembro, através de convocatórias colocadas por gente desconhecida na internet, generalizou-se o protesto de milhares de utilizadores de automóveis afectados pelo aumento do preço do gasóleo. Aparentemente uns 200.000.

Vivem em capitais, em cidades pequenas e médias, em zonas rurais e todos têm que percorrer diariamente dezenas de quilómetros uma vez que os locais de trabalho estão longe, tal como as zonas comerciais e os centros médicos; faltam também comboios de proximidade, há poucas linhas de autocarros. Vão rareando os hospitais e as clínicas, as escolas, o comércio em concelhos com populações reduzidas.

A isto juntam-se os problemas dos salários mínimos insuficientes, das reformas exíguas, da diminuição dos subsídios aos deficientes, dos impostos que estão a aumentar para toda a população ao contrário do imposto sobre as grandes fortunas que foi suprimido pelo actual presidente e das ajudas estatais às grandes empresas concedidas pelo mesmo presidente.

E também se questiona o atraso nas medidas anunciadas pelo actual presidente para erradicar a extrema pobreza dos SDF (Sem Domicilio Fixo, ou seja, não só os mendigos, mas também alguns assalariados que dormem em carros); a quase nula política de luta contra a contaminação, o nuclear.

Que classes sociais, níveis etários, géneros? Pois bem, todos, empregados e desempregados, pequenos comerciantes e reformados, velhos, jovens, homens, mulheres, etc..

Inimaginável antes de 17 de Novembro de 2018 há agora o repúdio generalizado por parte dos coletes amarelos de qualquer espécie de classe política seja de direita, centro ou de esquerda e dos grupúsculos de activistas de uns e de outros.

«Não nos representam!», «Há 40 anos que não prestam!», «Não queremos representantes que não possamos controlar!»

Obviamente que os coletes amarelos exigem a demissão do presidente da República, mas vão mais além:«Deve-se reformar a Constituição!»

Mais especificamente a fonte de inspiração ideológica dos coletes amarelos são os cadernos de propostas («Cahiers de doléances») de 1789 antes da queda da monarquia dos Borbones.

Ninguém cita ou parece conhecer Marx, Lenin, a Direcção revolucionária do Partido Proletário ou Bakunin,  1917 dos sovietes ou a Espanha anarcosindicalista de 1936.

Um detalhe importante é que 80 por cento dos franceses nas sondagens oficiais aprova a luta dos coletes amarelos: no entanto, a televisão estatal mais popular apresenta-os como gente violenta, quase terrorista.

Outro detalhe: é graças à incrível teimosia e incapacidade de resposta do Presidente da República que o movimento dos coletes amarelos se pôde expandir  e continuar a crescer com a participação e o apoio diário de novos sectores laborais: bombeiros, maqueiros, ferroviários…

Como é que tudo isto vai acabar? Ou levam o Presidente ao manicómio, ou vem outro, mas os coletes amarelos saíram à rua para vencerem: espancados pela polícia desde há dois sábados, no terceiro (esta semana) qualquer tragédia pode acontecer.

Os coletes amarelos não querem representantes mas apresentam 42 reivindicações no âmbito da precariedade, reformas, fiscalidade e banca, transição ecológica, instituições, emprego e salário, emigração, saúde e outras áreas.

Selecciono algumas:

  • Fim à subida do preço dos carburantes
  • Salário mínimo de 1.300 euros (livres de encargos sociais)
  • Salário máximo de 15.000 euros
  • Reforma mínima de 1.200 euros
  • Reforma aos 60 anos e para toda a gente que tenha trabalhado em profissões de desgaste físico (por exemplo pedreiros ou talhantes) o direito à reforma a partir dos 55 anos
  • Reformas solidárias, ou seja reguladas a nível nacional.
  • Favorecer o transporte de mercadorias por caminho-de-ferro.
  • Acabar com as indemnizações presidenciais vitalícias.
  • Isolamento térmico dos prédios
  • Incentivar o pequeno comércio nas aldeias e outros centros urbanos.
  • O mesmo sistema de segurança social para todos
  • Apoios maiores para a Justiça, a Polícia, e o Exército.
  • Protecção para os emigrantes estrangeiros.
  • Salas de aula com um máximo de 25 alunos/estudantes desde o jardim-de-infância até ao último ano do bacharelato.

Frank Mintz 03.12.18

aqui: http://alasbarricadas.org/noticias/node/41070

Coletes amarelos : Quem semeia miséria, colhe cólera


police_battue-98151

Um pouco por toda a França, a mesma cólera, a mesma determinação e o mesmo desejo de não se deixar enganar. Em toda a parte, manifestações selvagens que desafiam a vigilância policial. Por toda a parte, manifestantes que expressam a sua raiva pela repressão.

Em Puy-en-Velay (43), a violência policial enfureceu uma multidão de vários milhares de pessoas que acabaram a atacar a prefeitura.

Em Paris, a polícia isolou os Champs-Élysées e causou a dispersão dos coletes amarelos por todos os bairros burgueses da capital que foram literalmente tomados de assalto.

As forças de repressão acharam por bem utilizar os grandes meios  (barreiras de gás lacrimogéneo, canhões de água, granadas), enquanto os trabalhadores  e trabalhadoras em cólera mostraram que a rua lhes pertencia: no boulevard Haussmann, nas Tuileries, na Rua do Rivoli, na Praça Vendôme, os coletes amarelos invadiam as ruas, provocavam a polícia e às vezes atacavam símbolos de poder e riqueza. Assim, as montras das grandes lojas de luxo foram partidas enquanto alguns grupos tentavam atacar a Bolsa.

Em Martigues (13) e em Vichy (03), coletes amarelos e sindicalistas desfilaram  juntos numa agradável solidariedade de classe, mas em muitas cidades, é lamentável que os sindicatos combativos ainda não tenham sido visíveis e não tenham, sobretudo, estendido a mão aos coletes amarelos.

No entanto, este é uma das etapas essenciais para a vitória: é necessário que os sindicatos combativos, que organizam verdadeiramente a resistência face aos patrões nas empresas, se juntem aos coletes amarelos e façam frente a um governo desprezível, que multiplica as benesses para os mais ricos e deixa o resto da população afundar-se na miséria. É preciso que os sábados de cólera se transformem em segundas-feiras de greve, terças-feiras de greve, quartas-feiras de greve.

Face a um governo que continua  surdo, face a  patrões que lucram cada vez maisdos empregados/as, devemos continuar a pressionar e isso passa por uma paragem completa da produção.

O governo e os patrões apenas percebem a lei do dinheiro? Por isso, vamos mexer-lhes na carteira: bloquear os transportes, bloquear as empresas, bloquear os serviços públicos. Nós somos quem faz a economia funcionar, eles não são nada sem nós.

Retomar o que os capitalistas nos roubaram

A cólera existe. É preciso agora que nos organizemos para permitir que ela dure e para construir uma relação de forças que nos permita ganhar. Mas ganhar o quê? O principal slogan que foi  repetido de Paris a Marselha e de Rennes a Toulouse é  ” Macron demission”. Porque Macron simboliza todo o desprezo da burguesia em relação aos trabalhadores, porque é ele quem dirige os ataques contra os assalariados/as. Mas não é fazendo saltar Macron ou o governo que se fará realmente mudar as coisas.

O que é preciso meter à cabeça são reivindicações concretas, que tornem possível sair da espiral infernal (em que nos encontramos) para retomar tudo o que os capitalistas nos roubaram e conquistar novos direitos.

Para isso, devemo-nos organizar na base, construir assembleias que nos permitam discutir as nossas  reivindicações, não deixando que outros as apresentem em nosso nome. Não  iremos encontrar as soluções que pretendemos nas promessas de políticos e de políticas que já estão a querer recuperar a mobilização. Nós só encontraremos as soluções que queremos através do intercâmbio, do debate e da coordenação para todos juntos sermos mais fortes.

Macron está com medo e tem razão para ter medo. Cinquenta anos depois de maio de 68, sopra uma aragem vermelha.

Alternative libertaire, le 3 décembre 2018

França, 1 de Dezembro: a luta saiu à rua


Sábado, 1 de Dezembro, o dia foi de ferro e fogo em muitas cidades de França, sobretudo em Paris.

Confrontos violentos opuseram manifestantes do movimento dos coletes amarelos com a polícia. Houve mais de uma centena de feridos e cerca de 400 detidos só em Paris.

O movimento, de origem popular, reúne gente muito díspar, notando-se em muitos casos a presença de elementos de extrema-direita, anti-Macron, nas manifestações.

No entanto, o fundo popular deste movimento tem feito que muitos sectores do movimento anarquista o acompanhem e tentem radicalizá-lo dirigindo-o para uma luta não apenas anti-governamental, mas sobretudo antisistema. Os ataques a bancos foram um exemplo dessa mudança de perspectiva.

Ainda que muito em cima do acontecimento, um grupo de anarquistas que esteve nas manifestações de sábado elaborou, a quente, um testemunho do que aconteceu no sábado em Paris e em que participaram activamente. A reportagem pode ser lida aqui (francês) e aqui (espanhol).

A conclusão que estes companheiros tiram, para já, é a seguinte:

“É difícil fazer o balanço de um dia tão louco, especialmente porque apenas presenciámos uma pequena parte do que aconteceu. No entanto, vários elementos podem guiar-nos para os próximos dias: 

  • O clima é verdadeiramente insurreccional. As pessoas querem realmente a pele do governo e não têm medo de a verem cair. Obviamente não é uma insurreição no sentido comunista e revolucionário do termo, mas as pessoas não têm medo de saltarem para o vazio… Para ver o que nos pode trazer o vazio.
  • A polícia não controla os tumultos. Não pode. As forças são demasiado díspares, dispersas e decididas.
  • A presença da esquerda e especialmente da esquerda revolucionária transformou a frente da manifestação. Os ataques contra os bancos são, por exemplo, o fruto do trabalho político realizado num sentido ascendente. Os nossos lemas foram parcialmente assumidos e a iniciativa do colectivo Adama foi muito efectiva. Em resumo, agora existimos politicamente no movimento.
  • Apesar disto devemos permanecer cautelosos sobre as perspectivas emancipadoras deste movimento em que a extrema-direita está realmente presente. Este elemento deve ser tomado sempre em linha de conta e devemos lutar contra esta presença.
  • Os distúrbios e os actos de revolta não se concentraram apenas em Paris. Houve distúrbios em toda a França, tanto em cidades grandes como em outras mais pequenas, como por exemplo a prefeitura que foi incendiada em Puy-en-Velay ou atacada em Dijon, distúrbios em Charleville-Mezieres ou em Toulouse. A repressão também foi muito feroz, com muitas lesões graves, a maioria provocadas por granadas GLI-F4 (como em Tours) e muitas detenções.

Uns anarquistas”