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Cuba: o fim do encantamento social da “revolução”


O encantamento social repressivo que mantinha pacificado o museu de grande parte da esquerda internacional desapareceu. Sob a chamada ′′ Revolução Cubana “, e a contra-ciclo da sua benigna imagem, surgiu publicamente, em toda a sua crueza e grandiloquência repressiva, o ′′ Estado cubano “. O mesmo Estado cubano criador – para enfrentar o imperialismo ianque – de uma Polícia política omnipresente que combate a sociedade e a mantém sob o seu controle. O mesmo Estado cubano destruidor – em nome do socialismo – de todas as organizações populares e operárias que, com as suas histórias de luta, pudessem tornar realidade quotidiana as declaradas conquistas socialistas. Esse mesmo Estado cubano que transformou a solidariedade numa marca de identidade internacional, mas que nos mantêm imersos na desconfiança e no medo entre vizinhos. O mesmo Estado cubano que – no meio do reforçado bloqueio ianque – constrói mais hotéis para turistas estrangeiros do que infraestruturas para produzir comida, frutas ou leite. O mesmo Estado cubano que produziu as únicas vacinas na América Latina contra a covid-19, mas que mantém o seu pessoal de saúde na condição de assalariados da polícia política.

Esse Estado cubano nestes dias de julho de 2021 mostrou o que é: uma oligarquia comum e vulgar, zelosa para manter a todo custo o seu poder absoluto; uma cleptocracia vulgar com pretensões humanistas e iluminadas; uma pirâmide de poder tão sólida e desproporcional como as pirâmides das teocracias egípcias, mas rodeada de areia de praias paradisíacas.

Defender agora argumentos geopolíticos sobre o lugar de Cuba na estratégia imperialista global, sustentar que os protestos antigovernamentais em Cuba são inevitavelmente pagos pela direita cubana de Miami, esgrimir que os manifestantes são simples delinquentes em busca de saque, que o verdadeiro povo revolucionário está com o seu governo – todos esses são argumentos que descrevem uma parte significativa da realidade, mas não a esgotam num ponto: o povo de Cuba tem tanto direito e tanto dever de protestar como o da Colômbia ou do Chile. Qual é a diferença? – Que são oligarquias com origens diferentes? Com práticas mais ou menos brutais? Com maquilhagens ideológicas mais ou menos diferenciáveis? Com posições mais ou menos servis face ao governo dos EUA? Com ideais mais ou menos sublimes para justificar os seus privilégios? Todas essas imensas diferenças entre as oligarquias colombianas, chilenas e cubanas reduzem-se a zero quando, numa bela manhã de domingo, você percebe que, além das oligarquias mafiosas na Colômbia e no Chile, a oligarquia cubana também está – frente a um povo sem armas – armada até os dentes, um pouco mais ou um pouco menos, para o esmagar a si e aos seus irmãos, o seu corpo e a sua mente, basta você pensar apenas em questionar verbalmente a normalidade que eles gerem.

Tudo o que o Estado cubano tem feito para produzir vacinas nacionais contra a covid-19, todos os subsídios laborais, todas as melhorias salariais que ofereceu a muitos setores no meio da pandemia, evaporam-se rapidamente, não só pela espiral inflacionária e a falta de abastecimento alimentar endémico em Cuba, mas também porque se tornou visível que tudo isso fazia parte do emaranhado macabro da ′′ tolerância repressiva “, algo que agora qualquer pessoa decente em Cuba pode perceber, sem ter que ler nenhum livro brilhante sobre contracultura. A quem venha agora adoçar essa tolerância repressiva neste país e levantar sobre ela a miragem da harmonia  militarizada, podemos defini-los serenamente como o novo rosto do que não deve ter lugar no nosso futuro. Aqueles que, em nome de uma futura democracia ou do bom funcionamento da economia, vêm desacreditar as afinidades e fraternidades e as energias que surgiram nos protestos, ou reduzem o que aconteceu nestes dias  a ′′ simples vandalismo da crápula social ′′, falam em nome e com a linguagem das decrépitas oligarquias que de novo levantam sem vergonha a sua voz no nosso país.

As “massas” voltaram a ser “gente”, com todas as suas luzes e sombras, ao deixar de obedecer às pesadas cadeias de comando e confiar nos afetos, afinidades e capacidades mínimas de fazer e pensar juntos, que ressurgiram na desobediência. e solidariedade entre iguais, no meio da espiral de violência, da pandemia e da escassez. Essa é a nova realidade que nasceu em Cuba nestes dias de julho de 2021, e é dessa nova realidade, como anarquistas em Cuba, que queremos fazer parte.

Taller Libertario Alfredo López

aqui: https://www.facebook.com/TallerLibertarioAlfredoLopez/photos/a.390620534995486/882000245857510/

(#REDE_LIBERTARIA)Em que pé estamos?


M. Ricardo Sousa

Caros companheiros,

Esta lista que iniciou as suas actividades a partir do debate da crise sanitária provocada por um vírus há muito ficou silenciosa quanto a esse tema. No entanto, já passou tempo suficiente para que se tirem algumas conclusões desta crise sanitária-política-social. Embora o processo ainda esteja em curso e com um grau acentuado de imprevisibilidade pelo menos nos seus aspectos de saúde pública, o modelo de gestão está consolidado e as consequências económicos e sociais não parecem poder surpreender nos tempos mais próximos.

Mesmo que a crise social e económica tenha sido profunda e com aspectos inéditos de uma quase paralisação de grande parte da actividade produtiva  nas principais sociedades capitalistas as consequências económicas e sociais não chegaram a ser catastróficas, como se esperava inicialmente, embora tenha aprofundado, por todo o lado, a fome, a pobreza e as desigualdades sociais. Isso deve-se ao facto que as respostas políticas e económicas adoptadas pelos Estados, e pelas principais instituições da economia mundial, foram no sentido de apoiar e subsidiar empresas e pessoas no sentido de conter os impactos destrutivos da paralisação económica causada pela pandemia. As políticas neoliberais e o darwinismo social tiveram que dar lugar a intervenções estatais acentuadas seja na Europa, nos EUA, na China e nos países asiáticos, mesmo em países da América Latina. Até em países governados por políticos negacionistas (Trump, Bolsonaro e Boris Johnson) essas medidas foram sendo adoptadas, mesmo contra as  suas vontades, pois nenhum governante fica imune à queda da popularidade nem consegue bloquear a informação e o discurso hegemónica que se vai difundindo numa situação como esta. As teorias conspirativas, negacionistas, paranóicas, mesmo que se popularizem alguns sectores sociais, não conseguem deter um discurso hegemónico científico e político que se foi construindo globalmente.

Uma política global para enfrentar a pandemia foi sendo tecida pelos diversos estados e instituições incluindo um discurso e uma estratégia de intervenção sanitária, política e económica. Fomos vendo ao longos destes muitos meses como de um país para outro, de um continente para outro, se foram definindo, e uniformizando, essas políticas de tal forma que bastava, e basta ainda, ler sobre o que vai acontecendo num país para perceber o que irá ocorrer nos outros, logo em seguida ou algum tempo depois.

Não encontramos variações substanciais independentemente de quem detém o poder ou das características dos regimes. Obviamente que os sistemas mais autoritários, desde logo a China, pode aplicar medidas sanitárias ou tomar decisões económicas que outros não podem fazer usando o mesmo modelo. Mas é uma diferença de grau.

As medidas de controlo social excepcionais sob a capa de uma racionalidade científica foram sendo adoptadas sem grande resistência social mesmo quando se mostravam pouco claras e contraditórias. Pela primeira vez nas nossas sociedades os especialista, técnicos, médicos e cientistas, tiveram um papel central na determinação das políticas públicas de curto prazo com implicações claras na liberdade individual e no direito.

Podemos assim dizer que esta crise ajudou também a delinear o cenário de uma futura crise global ambiental catastrófica e perceber como o capitalismo global irá gerir essa situação, ou outras de pandemia e desastre natural, e de como a sociedade poderá delegar nas instituições a busca de soluções, mesmo autoritárias, em nome da sua saúde, segurança ou sobrevivência.

Resumindo:

Esta crise aprofundou a presença do Estado, legitimando a sua necessidade a partir da justificativa da saúde pública, as sociedades em nome da sua segurança abdicaram ainda mais da sua capacidade de auto-organização e de crítica, o capitalismo global reforçou os seus laços e as classes dominantes foram capazes de definirem em comum estratégias económicas, políticas e sanitárias acentuando-se os mecanismos de gestão global do sistema. A  crise acelerou também mudanças tecnológicas na economia e novos mecanismos de controlo social. Apesar da crise o sistema político foi gerido dentro da rotina habitual do sistema representativo sem haver sequer o aumento descontrolado da conflitualidade mesmo em países como o Brasil e os EUA que traziam detrás graves fracturas causadas por governantes populistas conservadores. Neste cenário os partidos ditos de esquerda e os sindicatos não foram capazes de definir estratégias alternativas, demonstrando como hoje são cogestores deste sistema.

Não me parece ser possível tirar conclusões optimistas destes largos meses de pandemia mesmo que muitas manifestações espontâneas de solidariedade e soluções auto-organizativas de entreajuda permitam perceber que há muitos indivíduos e grupos que continuam a tentar eles próprios buscar autonomamente soluções para os seus problemas. A questão central é que continuam a não existir alternativas sociais e políticas que sejam reconhecidas como tal por uma parte significativa das sociedades e sendo assim o cenário da transformação social profunda parece não estar presente no futuro próximo…

Por tudo isso podemos dizer que hoje, mais que nunca, faz falta o pensamento e a acção libertária.

(COVID19) Perplexidades: desce o numero de mortos e internamentos, mas as medidas de exceção continuam.


Há pouco mais de um ano, quando foi instaurado o primeiro estado de emergência, o argumento é de que era necessário “preservar e defender” o SNS que corria o risco de rutura com o aumento de casos de contágio e de hospitalizações. Criaram-se hospitais e unidades de campanha, tendo a maioria sido desmontados, meses depois, sem terem sido utilizados. A primeira vaga estendeu-se por todo o verão e, nos primeiros meses, o medo e o confinamento rigorosos contiveram a doença, apesar de alguns casos excecionais, sobretudo a norte e na zona de Lisboa, e tendo, quase sempre os lares de idosos, como centros nevrálgicos das infeções mais graves e que, muitas vezes, conduziram a mortes.

A segunda vaga começou, lentamente, em finais de Novembro e atingiu o seu pico em Janeiro/Fevereiro com milhares de contágios por dia e ultrapassando, nalguns casos, as 300 mortes diárias. O SNS entrou, nalguns casos e em quase todas as regiões, em rutura, com os números de internamentos e de cuidados intensivos muito perto do máximo. No entanto, este máximo, nunca foi atingido no dizer dos próprios responsáveis.

Agora, pelos vistos, estamos a braços com mais uma vaga. Se a segunda estava ligada à variante inglesa, esta agora está relacionada com a variante indiana, ou delta, que já é dominante no país. Apesar disso, as mortes não ultrapassam um digito por dia (ontem não morreu ninguém devido á COVID19), os internamentos também estão baixos, o mesmo acontecendo com os cuidados intensivos, que permitiriam acomodar, em caso de necessidade, muitos mais doentes.

A verdade é que a situação se alterou. Apesar desta ser uma variante de maior contágio, a vacinação dos grupos de risco e o elevado número de infetados recuperados fazem com que uma parte da população ou esteja já imunizada ou desenvolva quadro de doença menos graves. É, por isso, natural que os mais novos, que não estão vacinados, sejam os mais facilmente vitimas de contágio – o que não é muito grave (e daí o baixo número de mortos e de internamentos) dado serem estes os grupos de menor risco no desenvolvimento de doença grave ou mortal.

As medidas de exceção que estão a ser tomadas são, por isso, cada vez mais desnecessárias e mesmo muitas autoridades de saúde por esse mundo fora estão a começar a dizer o óbvio: a imunização total à doença é um mito, ela nunca será erradicada, vai-se tornar crónica e, como tal,  – tendo a vacinação como arma – é preciso habituarmo-nos a viver com ela sem estados de emergência ou exceção.

Dado os números (onde os contágios pouco querem dizer) referentes a internamentos e a mortes serem neste momento – e a partir da vacinação em massa – muito pequenos nada justifica a paralisação da vida, da economia e das liberdades de reunião e movimentos que se mantêm na maioria dos países ocidentais, Portugal incluído.

Só a pulsão autoritária e de limitação das liberdades e dos direitos individuais e coletivos pode justificar as restrições atualmente em vigor em grande parte do país, gerando maior miséria, desemprego e atuações descabidas e desproporcionadas por parte da policia junto dos cidadãos, como tem sido o caso de Lisboa e de várias zonas do Algarve, com exibições musculadas de força, sem que nada o justifique, visando criar um clima de medo e respeito pela autoridade que faz lembrar os velhos tempos do fascismo.

(União Libertária) RESPOSTA AO REVISIONISMO HISTÓRICO DO PCP


Em defesa dos militantes antifascistas libertários face às tentativas de apagamento levadas a cabo pelo PCP. Texto do PCP: https://www.pcp.pt/100anos

É histórica a tendência dentro do movimento operário de se realizarem ataques a outras correntes comunistas e socialistas dentro do mesmo. Existiu ao longo do último século particularmente uma luta pela hegemonia dentro do movimento, sempre à custa da vontade de milhares de operários. Nós reconhecemos isso com plena sobriedade. Contudo cremos existirem limites para a mesquinhice e a desonestidade intelectual a roçar a falta de respeito para com os milhares de operários que resistiram à ditadura dentro e através da CGT. Nós não temos qualquer interesse em lutar por uma hegemonia fictícia do que foi um movimento de massas, e não de ideologias ao contrário do que alguns parecem querer fazer. Depois do centenário do PCP os camaradas decidiram, e bem, escrever alguns textos a descrever o que foram então estes 100 anos de luta. Contudo, as heranças stalinistas parecem teimar em não desaparecer desde os anos da criação do partido e sendo assim, mais importante do que descrever a verdade e os factos da época, assistimos a uma tentativa falaciosa de pintar uma imagem de que só com a criação do PCP a classe operária portuguesa obteve uma “correcta posição de classe”.

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O movimento anarquista durante o salazarismo


Mário Rui Pinto (*)

O anarquismo tem grandes tradições em Portugal onde, por intermédio da sua concepção anarco-sindicalista — consubstanciada na Confederação Geral do Trabalho (CGT) (1) e no seu porta-voz, o jornal A Batalha (2) —, chegou a ser, até finais da década de 30, a corrente ideológica predominante entre a classe operária. Apesar de estar, novamente, em franco progresso, ele ainda se encontra pouco divulgado, não possuindo sequer uma História própria que trace a sua evolução até ao presente. Com este breve trabalho pretende-se, despretensiosamente, adiantar alguns dados sobre um importante e agitado período da sua existência (1926-1950), levantando, ao mesmo tempo, determinadas questões fundamentais e, ainda, insuficientemente esclarecidas.

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Documentário “RUA” (2021, 18 minutos)


RUA from Left Hand Rotation on Vimeo.

Este documentário é um registo em imagens da Lisboa durante a pandemia, com as ruas desertas e em contraposição as lutas que ocuparam o espaço público no últimos anos: Feminismo, Antirracismo, Habitação e Clima, com algumas desocupações com policia de choque como aconteceu na greve climática de 2019. Um filme sobre a crise de saúde e disputas políticas que explodem na cidade.
Trata-se de uma peça feita perante a necessidade urgente de voltar para as ruas e não perder o espaço público como já está a acontecer com a massificação de esplanadas, sair para a rua para fazer mais alguma coisa que não seja apenas o consumo.
Como dizia o Comité Invisível: Todas as razões para fazer a revolução existem. Todas as razões estão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão à frente dos écrans.

Em memória de Bayram Mammadov, anarquista do Azerbeijão.


Morreu Bayram Mammadov, anarquista do Azerbeijão. Lamentamos a sua morte: um ser humano não pode ser substituído por nenhum outro. As circunstâncias suspeitas da sua morte fazem-nos recordar de novos as práticas desumanas da violência estatal. O nosso companheiro foi encontrado morto no mar em Istambul (Turquia) em princípios de Maio. A policia turca e os meios de comunicação do Azerbeijão falam de suicídio ou de acidente. Os acativistas da oposição, contudo, põem em causa esta versão. Amigos e familiares exigem que sejam explicadas as circunstâncias da sua morte.

Bayram foir perseguido durante anos enquanto anarquista e conhecido crítico do presidente autocrático Ilham Aliyev no Aerbeijão. Quando era um jovem activista, em 2016, foi condenado a mais de 10 anos de prisão, conjuntamente com Giyas Ibrahimov por fazer pichagens na estátua do ex- presidente do Azerbeijão (e pai do actual). Acusados e condenados, foram severamente torturados em várias ocasiões e foi-lhes encontrada droga (colocada pela polícia)pelo que foram condenados a uma pena pesada pela posse de drogas. Depois de uma onda de solidariedade a nível europeu Bayram e Giyas foram finalmente indultados por um decreto presidencial em 2019. No principio de 2020, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos determinou que o julgamento e a condenação dos dois activistas tinha uma motivação política e, por isso, eram ilegais.

Bayram e Giyas viviam na Turquia desde 2019. Giyas foi deportado para o Azerbeijão duas semanas antes da morte de Bayram, sem que tivesse sido dada qualquer explicação. Giyas foi um dos muitos activistas e figuras da oposição que pediram asilo á Turquia por serem alvo de perseguição no Azerbeijão e cujo caso foi recusado devido às relações amigáveis entre o Azerbeijão e a Turquia. Os regimes autoritários apoiam-se sempre mutuamente e sempre coperarão na perseguição a activistas e opositores políticos. Até onde chegou a acção conjunta dos dois países contra Bayram? Quando entrou no país algumas semanas antes da sua morte, Bayram foi interrogado durante horas pelas autoridades turcas. Não é o/a primeiro/a critico/a do regime de Baku que morre no estrangeiro em circunstâncias suspeitas

Se Bayram não foi assassinado pelo Estado, existe ainda a possibilidade da sua morte ter sido causada por acidente e pela falta de assistência por parte das autoridades que estavam presentes durante o seu afogamento, ou por suicídio. Este último é também uma consequência angustiante e duradoura da violência estatal: o suicídio como uma decisão contra a vida que se tornou insuportável devido á perseguição, à prisão e à tortura.

Não esqueceremos Bayram. Não esqueceremos o que aconteceu. Recordaremos como sempre fizemos desde que começámos a lutar. Uma, duas, mil vezes. Então como agora. A nossa memória colectiva perdurará mais do que o seu poder e a sua historiografia distorcida. Solidarizámo-nos com ele em 2016 e fazemo-lo agora. As nossas condolências aos amigos e familiares de Bayram. Como Bayram continuaremos a lutar pelos nossos sonhos e por um mundo melhor.

Pelos/as perseguidos/as, pelos/as mortos/as!

Hoje como no passado.

A nossa solidariedade contra a opressão!

Por Bayram!

(aqui: https://fda-ifa.org/in-erinnerung-an-bayram/)

*

(versão em castelhano)

¡En memoria de Bayram!

Bayram Mammadov, anarquista de Azerbaiyán, ha muerto. Lamentamos su pérdida: un ser humano no puede ser sustituido por nadie. Las sospechosas circunstancias de su muerte nos recuerdan de nuevo los efectos inhumanos de la violencia estatal. Nuestro compañero fue recuperado muerto en el mar en Estambul a principios de mayo. La policía turca y los medios de comunicación azerbaiyanos hablan de suicidio o de accidente. Los activistas de la oposición, sin embargo, lo discuten. Amigos y familiares exigen una explicación de las circunstancias de su muerte.

Bayram ha sido perseguido durante años como anarquista y conocido crítico del presidente autocrático Ilham Aliyev en Azerbaiyán. Fue condenado a más de 10 años de prisión en 2016, cuando era un joven activista, junto a Giyas Ibrahimov por realizar pintadas en la estatua del ex presidente azerbaiyano (y padre del actual). Los acusados y condenados fueron severamente torturados en varias ocasiones y se les puso droga para que fueran condenados a una larga pena de prisión por posesión de drogas. Tras una ola de solidaridad a nivel europeo, Bayram y Giyas fueron finalmente indultados por un decreto presidencial en 2019. A principios de 2020, el Tribunal Europeo de Derechos Humanos dictaminó que el enjuiciamiento y la condena de los dos activistas tenían una motivación política y, por tanto, eran ilegales.

Bayram y Giyas vivían en Turquía desde 2019. Giyas fue deportado a Azerbaiyán dos semanas antes de la muerte de Bayram, sin que se diera ninguna razón. Esto convierte a Giyas en uno de los muchos activistas y figuras de la oposición que pidieron asilo en Turquía por la persecución en Azerbaiyán y cuyo caso fue aplastado por las relaciones amistosas entre Azerbaiyán y Turquía. Los regímenes autoritarios siempre se apoyarán mutuamente; siempre cooperarán en la persecución de activistas y opositores políticos. ¿Hasta dónde llegó la acción conjunta contra Bayram en los dos países? Cuando entró en el país hace unas semanas, Bayram fue interrogado durante horas por las autoridades turcas. No es el/la primer/a crítico/a del régimen de Bakú que muere en el extranjero en circunstancias sospechosas.

Si no hubo un asesinato de Bayram motivado por el Estado, quedan como posibles causas el accidente y la falta de asistencia por parte de las autoridades que estaban presentes durante el ahogamiento o el suicidio. Este último es también una consecuencia profundamente angustiosa y duradera de la violencia estatal: el suicidio como una decisión contra la vida que se hizo insoportable debido a la persecución, el encarcelamiento y la tortura.

No olvidaremos a Bayram. No olvidaremos lo ocurrido. Recordaremos como lo hemos hecho desde que empezamos a luchar y ser derrotados/as. Una, dos, mil veces. Entonces como ahora. Nuestra memoria colectiva durará más que su dominio y su historiografía distorsionada. Nos solidarizamos en 2016 y lo hacemos hoy. Nuestras condolencias a los/as amigos/as y familiares de Bayram. Como Bayram, seguimos luchando por nuestros sueños y por un mundo mejor.

¡Por los/as perseguidos/as, por los/as muertos/as!

Hoy como en el pasado.

¡Nuestra solidaridad contra su opresión!

¡Por Bayram!

*

(versão em inglês)

In memory of Bayram!

Bayram Mammadov, an anarchist from Azerbaijan, is dead. We mourn his loss, a human being cannot be replaced by anyone. The suspicious circumstances of his death bring home to us again the inhuman effects of state violence. Our comrade and companion was recovered dead from the sea in Istanbul in early May. The Turkish police and Azerbaijani media write of suicide or an accident. Opposition activists, however, dispute this. Friends and family are demanding an explanation of the circumstances of his death.

Bayram has been persecuted for years as an anarchist and well-known critic of the autocratic president Ilham Aliyev in Azerbaijan. He was sentenced to over 10 years in prison in 2016 as a young activist along with Giyas Ibrahimov for graffiti on the statue of the former Azerbaijani president (and father of the current one). The accused and convicted were severely tortured several times and drugs were planted on them so that they could be sentenced to a long prison term for drug possession. After a European-wide wave of solidarity, Bayram and Giyas were finally pardoned in a presidential decree in 2019. In early 2020, the European Court of Human Rights ruled that the prosecution and conviction of the two activists was politically motivated and therefore unlawful.

Bayram and Giyas had been living in Turkey since 2019. Giyas was deported to Azerbaijan two weeks before Bayram’s death, with no reason given. This makes Giyas one of many activists and opposition figures who sought asylum in Turkey for persecution in Azerbaijan and whose case was steamrolled by the friendly relations between Azerbaijan and Turkey. Authoritarian regimes will always support each other. They will always cooperate in the persecution of political activists and opponents. How far did the joint action against Bayram go in the two countries? When he entered the country a few weeks ago, Bayram was interrogated for hours by the Turkish authorities. He is not the first critic of the regime in Baku to have died abroad under suspicious circumstances.

If there was no state-motivated murder of Bayram, accident and failure by the authorities who were present to render assistance during the drowning or suicide remain as possible causes. The latter is also a deeply distressing and enduring consequence of state violence: suicide as a decision against life that became unbearable due to persecution, imprisonment and torture.

We will not forget Bayram. We will not forget what happened. We will remember as we have done since we started to fight and be defeated. Once, twice, a thousand times. Then as now. Our collective memory will last longer than their dominance and their distorting historiography. We showed solidarity in 2016 and we do so today. Our sympathies go out to the friends and family of Bayram. Like Bayram, we continue to fight for our dreams and for a better world.

For the persecuted, for the dead!

Today as in the past.

Our solidarity against their oppression!

For Bayram!

(Lisboa) Apresentação do livro “Anarquia e Anarquismos” na Livraria Ler Devagar, 29 de maio, às 19 horas


Com textos de vários autores sob a coordenação de José Maria Carvalho Ferreira e João da Mata, e editado no Brasil pela editora Nau, o livro já foi apresentado em Portugal no dia 14 de maio, no Porto, na livraria-café Gato Vadio.

A partir do entrecruzamento de diversas áreas de conhecimento, este livro é uma articulação de forças para pensar o exercício da liberdade, no presente e na história. Nas palavras de Jorge Vasconcellos, professor da UFF e teórico ativista do Coletivo 28 de Maio, os textos aqui reunidos apresentam “questões que mobilizam, em uma perspectiva libertária, à Política, aos modos de vida, aos processos de subjetivação, às práticas de liberdade em nossa Atualidade, constituem-se, como dissemos, de um duplo modo: como livro e arma, como crítica e clínica…”

Aqui, você encontrará uma multiplicidade de análises sobre a anarquia e os anarquismos. Longe de esgotar a abrangência e importância do tema, ao longo dos 21 capítulos, o leitor é convidado a pensar junto as possibilidades de vida livre no presente.

Dividido em duas partes, a primeira – ‘Cultura Libertária’ – na qual há um esforço de pensamento conceitual-crítico em que vislumbramos desde uma alvissareira e urgente recusa à falaciosa e esperançosa ideia de utopia, tão cara ao otimismo político imobilizador, a necessários debates sobre como construir práticas anarquistas de educação, passando pela incontornável questão da representação política micro e macro societárias que hoje inundam desde as redes sociais aos bancos universitários.

Por sua vez, os organizadorxs/autorxs na segunda parte do Livro – ‘Narrativas Biográficas e Anarquia’ – articulam textos que nos apresentam um debate urgente, que pode ser lido por duas questões: como relacionar uma vida (não propriamente uma biografia) com as lutas políticas (libertárias) de nosso tempo? Ou ainda, formulando de outra maneira: como articular narrativas de vida e demandas minoritárias a contrapelo no tempo presente? Estes textos ao propor essas e muitas outras questões que mobilizam, em uma perspectiva libertária, a Política, aos modos de vida, aos processos de subjetivação, às práticas de liberdade em nossa Atualidade, no Brasil e em Portugal, constitui-se como de um duplo modo: como livro e arma, como crítica e clínica… ao nosso tempo presente e aos nossos (im)possíveis futuros”.

Sumário

Cultura Libertária

1- Dos equívocos existentes entre Anarquia e os Anarquismos, José Maria Carvalho Ferreira

2- As lutas anarquistas no presente como experiências, Acácio Augusto

3- Anarquismo da vida cotidiana e subjetividades libertárias, João da Mata

4- Anarquismo e Falência da Representação, Camila Jourdan

5- Anarquismo, Educação e Autoformação, Silvio Gallo

6- Educação libertária: desafios e caminhos de esperança, Ana Paula Morel e Rodrigo de Almeida Ferreira Luz Camera

7- Zonas libertárias: corpo e espaço sob a aura da resistência, Andre Bocchetti

8- Sob o signo da guerra: Proudhon e as relações internacionais, Thiago Rodrigues

9- Decrescimento e Anarquia: Articulações do decrescimento abrupto e da reinvenção do anarquismo, Jorge Leandro Rosa

10- Para a história de uma revista anarquista em Portugal, António Cândido Franco

11- A liberdade de ser livre: poesia e anarquia, Manuela Parreira da Silva

Narrativas Biográficas e Anarquia

12- A prática da liberdade em discurso direto: a voz de anarquistase libertários de todo o mundo na revista Utopia, Isabel Castro

13- António Pinto Quartin (1887-1970): ideário e vida, Paulo Eduardo Guimarães

14- Preâmbulo de entrevista a João Freire: pensador e organizador do anarquismo em Portugal, José Maria Carvalho Ferreira

15- Roberto Freire, um amante anarquista, Gustavo Ferreira Simões Gustavo Galo

16- Edgar Rodrigues, memorialista do Anarquismo, Carlos Augusto Addor

17- Há ordem oculta – contextos empoderadores, Isabel Rufino

18- Sobre heterotopias: reflexão sobre os espaços libertários em Belo Horizonte (uma homenagem a Brian), Lucas Carvalho de Aguiar Pereira Lu Cas

19- Trajetória intelectual do anarquista Jaime Cubero (1927-1998), Rogério Nascimento Nascimento

20- História de vida e memórias das práticas de liberdade: uma puta mulher, Amanda Calabria e Juniele Rabêlo de Almeida

21- Experimentações de vida universitária e mulheres libertárias, Lúcia Soares da Silva

Posfácio, José Maria Carvalho Ferreira

Porque comemoramos o 25 de abril


Comemora-se este domingo o 47º aniversário do movimento insurreccional de cariz militar que pôs fim a 48 anos de fascismo.

Militares de carreira, convencidos de que a guerra colonial não tinha saída senão através de conversações e da independência das colónias, desencadearam o golpe militar que, desde logo, teve um imenso apoio popular e que desencadeou, nos dias e nos meses que se lhe seguiram, um verdadeiro movimento popular de desmantelamento das estruturas fascistas e de construção de espaços de afirmação autónomos de trabalhadores, moradores, estudantes, etc.

Foi o tempo de ocupação de fábricas, casas, terras, da autogestão colocada como forma possível e necessária de gestão das nossas vidas, sem estruturas intermediárias, fossem elas estatais ou meramente representativas. Durante vários meses o “sonho” esteve nas ruas e mobilizou milhões de portugueses por todo o país, transformando o que tinha sido um golpe militar num caudal de transformações sem paralelo na história recente em Portugal.

Para trás ficaram anos de repressão inaudita, com proibição de toda a actividade sindical e politica autónomas e a prisão – e em muitos casos, a morte – de quem se opunha ao regime repressor de Salazar e depois de Caetano.

O movimento anarquista e anarco-sindicalista, que nos primeiros anos do fascismo constituiu a primeira frente de batalha ao movimento autoritário imposto pelo golpe militar de 28 de maio de 1926, foi particularmente perseguido até à sua quase destruição, os seus militantes presos, deportados e mortos. A sua imprensa, as suas sedes e espaços sociais vandalizados, destruídos e finalmente ocupados pelo regime, que deles se apropriou.

Mas a resistência manteve-se sempre, até ao fim do regime fascista, pela voz e acção dos seus militantes mais determinados como foi o caso de Emidio Santana, António Machado, Moisés Silva Ramos, Francisco Quintal, Acácio Tomás Aquino e muitos outros. Outros ainda ficaram esquecidos pela história, embora os seus gestos de recusa e de luta tenham também sido determinantes para o fim do regime fascista.

Nesta madrugada do 47º aniversário do 25 de Abril de 1974 convém sobretudo recordar os nossos mortos, os mortos do campo libertário que, através da sua acção – quase sempre directa, organizada, mas sem mediadores – foram eles também peças essenciais na corrosão e destruição do regime autoritário e fascista que governou Portugal durante 48 anos.

Entre estes estão os que deram a vida no Tarrafal, vítimas das maiores violências por parte do Estado e da sua polícia.

Foi uma mão cheia de homens para quem a luta pela liberdade, pela solidariedade e pela autogestão das suas vidas sempre foi o principal lema e estandarte.

Ontem como hoje, também por eles, mantém-se acesa a luta por um outro mundo, um mundo novo, que vive intensamente nos nossos corações, como tão bem sintetizou Buenaventura Durruti.

Por tudo isso, também, enquanto anarquistas, comemoramos o 25 de abril de 1974, embora não nos identificando com o regime que as forças do dinheiro e do poder foram construíndo nos anos que se lhe seguiram e que torna hoje, como sempre, urgente a transformação social no sentido de uma sociedade libertária, autogestionária e de acção directa.

Por isso, também por isso, aqui estamos e dizemos presente!