abstenção

Se votar mudasse alguma coisa, seria proibido. Abstém-te!


galo

O circo eleitoral está de volta. Ainda não nos livrámos da hipocrisia impressa nos cartazes das eleições europeias e já nos vemos obrigados a suportar novas arruadas, programas eleitorais e carinhas sorridentes de falsos profetas de esquerda, de direita, de centro, de cima, de baixo;. Dizem-se socialistas, comunistas, liberais, ecologistas, animalistas, pensionistas, étecetera.

No dia 6 de outubro a canalha partidária volta a pedir os nossos votos para mais uma vez legitimar o roubo das nossas vidas. Como se servisse realmente para melhorar alguma coisa, o sistema democrático quer fazer-nos acreditar que o voto é uma “oportunidade”, uma forma activa de participar nas decisões que regem o nosso quotidiano, uma maneira de expressar o nosso consentimento e/ou dissentimento em decisões que nos concernem.

A realidade, no entanto, é bem diferente, o sistema democrático permite-nos simplesmente escolher quem nos vai “representar” na tomada de decisões, com uma carta branca para beneficiarem dessa enorme chucha onde todos os políticos mamam: a democracia parlamentar.

E é desta forma, pelo bem da cidadania, pelo bem do país, na defesa da tão “ameaçada” democracia e do “milagre económico português” que vemos os impostos e a exploração laboral a aumentar, os ordenados cada vez mais baixos, as rendas cada vez mais altas, a repressão e o racismo sempre presentes, as prisões a abarrotar, a agricultura intensiva a envenenar populações e a confiança cega num progresso que sempre beneficia uma minoria sedenta de lucro; e após cada ida às urnas o que se reduz drasticamente é a possibilidade de nos opormos a tudo isto.

«Em democracia, existe uma oposição para representar a opinião contrária», dizem eles; mas não são o governo e a oposição as duas caras da mesma moeda? O sistema democrático é um truque de magia bem encenado para nos iludir e fazer crer que a nossa escolha pode fazer a mudança, uma canção de embalar para que durmamos tranquilos.

No entanto, enquanto dormimos, o senhorio vem bater à nossa porta para nos despejar, o patrão telefona-nos para nos despedir, as finanças enviam um email para cobrar mais um imposto, a polícia ajuda estes todos e o político promete-nos que as coisas vão mudar.

«Em breve. Cedo. Talvez. Quando? Vote em mim e depois logo se vê…». É o circo eleitoral! Os palhaços do costume, alguns palhaços novos e a mesma arena cheia de merda onde chafurdam arrivistas, chupistas e lobbistas.

A abstenção é a única resposta digna, uma abstenção activa que mostre que não precisamos de nenhum governo, a organização das nossas vidas é feita em cada casa, em cada rua, em cada bairro, em cada bocado de terra cultivado, promovendo aquilo que sempre soubemos fazer em pequena escala: a entre-ajuda, as decisões tomadas cara a cara, os conflitos solucionados sem personagens fardados pelo meio (padres, juízes, militares ou polícias), uma vida livre de mediadores profissionais que servem sempre os mesmos interesses (pessoais, do partido, do capital étecetera), uma vida livre de políticos!

Contra todos os governos, recuperemos as nossas vidas!

aqui: https://www.facebook.com/disgracadiycenter/posts/2082773715364435

Quando as paredes falam: cartazes anarquistas nas ruas de Lisboa contra o voto nas eleições de 2019


Anarquista_20190916_153805

5

6

3

4

1

2

aqui: https://ephemerajpp.com/2019/09/17/eleicoes-legislativas-de-2019-cartazes-anarquistas-contra-o-voto/

Europeias: a abstenção cada vez conta mais e é um enorme trunfo para os descontentes


Capturar

É confrangedor ouvir algumas “análises” sobre a abstenção nas eleições europeias que ontem em Portugal quase chegou aos 70 por cento. A maioria dos analistas continua a considerar que 7 milhões de portugueses não foram votar porque se estão nas tintas, preferiram ir à praia ou que acham que isso da Europa não lhes diz respeito ou porque não são “democratas” nem respeitam a “democracia”. São análises duma arrogância a toda a prova, como se só eles, os ditos analistas, soubessem cumprir direitos e deveres e que os restantes 70 por cento se estivessem completamente borrifando para o seu futuro, ou o dos seus filhos, ou para as condições de vida adversas que todos os dias enfrentam.

Curiosamente, é exactamente porque estão atentos e preocupados, que a maioria dos não votantes decidiu não ir às urnas. É claro que as motivações para o não voto são muitas e múltiplas, tal como o são para o voto, mas, em termos gerais, uma abstenção desta ordem significa um profundo descontentamento sobre o sistema politico e social em Portugal, em que abundam os casos de completa fusão entre o mundo da politica, dos partidos e dos negócios, com sucessivos casos de corrupção e gestão fraudulenta a serem conhecidos, mas nunca suficientemente escalpelizados nem as suas consequências tiradas na totalidade.

A ideia que os portugueses em geral têm, e que os levou a absterem-se em massa, é que a classe política é totalmente corrupta, coloca os interesses pessoais e partidários por cima dos interesses colectivos; que os impostos, tão elevados como nos países mais desenvolvidos,  são-lhes sugados sem quaisquer contrapartidas: os serviços públicos estão pelas ruas da amargura; a saúde cada vez é mais só para os ricos; o ensino mediocrizou-se; pagamos a electricidade mais cara da Europa, tal como os combustíveis,  e os portugueses, em geral, cada vez têm menos acesso às contrapartidas públicas, reservadas a uma verdadeira casta que ocupa os lugares de topo da administração pública e privada ou então, apenas, a sectores profissionais com elevada capacidade reivindicativa.

Este sentimento de repulsa generalizado face a uma classe política apenas preocupada com os seus espaços partidários, que mantêm opacos, quais bunkers e casa fortes, onde tudo se joga em torno das redes de poder e de influência entre comparsas, leva a que os abstencionistas portugueses tenham dito, duma forma tão assertiva como a daqueles que foram votar, à sua maneira, que é preciso pôr um termo a tudo isto.

Claro que os partidos e a classe política, os analistas e os académicos, assobiam e passam ao lado. Seja com 20 ou 70 por cento de abstenção têm as suas benesses, regalias  e tachos assegurados. É o que, apesar dos choradinhos à abstenção e à necessidade de mudar as campanhas eleitorais (!) e a comunicação (!) – como se fosse esse o problema –, acontece: assobiam como se não fosse nada com eles, garantido que têm de novo o poder por mais uns pares de anos.

No entanto, a erosão que a falta de uma continuada legitimidade eleitoral vai cavando, o distanciamento cada vez maior entre grande parte da população e os seus “soi-disant” representantes, a falta de vasos comunicantes entre os que militam, se agitam e tratam da coisa pública como se fosse algo apenas seu, para usufruto do seu espaço partidário, e os que se recusam a entrar nesse barco onde se jogam influências, poderes e empregos a troco de favores e alinhamentos espúrios, faz com que os números, cada vez maiores, da abstenção tenham que ter consequências.

Um dessas consequências – embora grande parte do que será o futuro  ainda não seja visível ou compreensível – é que a insatisfação que reina entre a população, e manifestada na abstenção de quase 70 por cento, já não é canalizada pelos partidos políticos, nem pelos seus agendamentos mediáticos. Não é que tenha deixado de existir: procura sim outras formas de se materializar.

Outra consequência, que se anuncia, é o cada vez menor alinhamento entre o discurso partidário e os anseios populares. Distantes uns dos outros, autónomos entre si, o peso dos partidos vai diminuindo progressivamente na sociedade e abrindo janelas de auto-organização e espontaneidade que até agora têm aprisionado as lutas e as movimentações por uma vida diferente.

Para os que diziam que não votar não vale nada, não tem qualquer valor ou sentido político, a realidade demonstra o contrário. Po certo o dado mais saliente destas eleições, e que  é preciso reter, é, de facto, o da abstenção, e não o da pequena subida ou descida, deste ou daquele partido, num sistema de vasos comunicantes, onde cada vez circula menos energia, imaginação e criatividade.

(CNT) Eleições no Estado Espanhol: “ganhe quem ganhe são sempre os trabalhadores que perdem”


WEBcnt-abstencion-26J-2016-CNT

No próximo domingo os eleitores do Estado Espanhol vão outra vez às urnas para escolherem um novo Parlamento. As últimas eleições, há seis meses, resultaram na vitória do PP, mas sem condições para formar um governo de maioria absoluta. As projecções actuais dão o mesmo cenário, apenas com a possibilidade do Podemos poder superar a votação do PSOE, o que não alterará muito o quadro de formação de um futuro governo, que será sensivelmente idêntico ao de há seis meses atrás. Na luta, no dia a dia, onde se forjam as dinâmicas de mudança – e não nos Parlamentos ou sedes de Governo – aí estão e estarão os anarquistas ajudando a construir um mundo mais justo e plural. Daí o apelo da central anarcosindicalista CNT à abstenção activa contra o “ilusionismo eleitoral”.

Umas novas? eleições

Não é preciso ser adivinho para saber quem vai perder as próximas eleições. Vamos perdê-las as trabalhadoras e os trabalhadores. Eleição após eleição, governo atrás governo, é sempre o mesmo: perdemos direitos, pagamos os cortes, perdemos condições de trabalho, vivemos de forma mais precária… Já são vezes de mais em que se repete a mesma farsa para podermos esperar que algo possa melhorar caso ganhe este ou aquele partido. E não nos referimos apenas ao regime pós 1978 no Estado Espanhol , mas em toda a Europa não encontramos outro panorama.

O ilusionismo eleitoral é, desde que existe, uma armadilha para a classe trabalhadora. Qualquer melhoria, qualquer avanço, foi, como disse aquele insigne franquista transubstanciado em democrata de toda a vida, “tornar normal nas leis o que é normal na rua”. Ou seja, são as lutas quotidianas que transformam a sociedade de um modo que favoreça as classes populares e não os governos ou parlamentos. O Governo serve para o que serve, para defender a propriedade, a ordem estabelecida e favorecer os negócios das empresas nacionais e multinacionais. As liberdades, direitos, avanços, são sempre um reflexo das lutas.

Na CNT sabemos bem o efeito que têm tido todas as reformas e contra-reformas que nos foram impostas os partidos políticos pela mão das empresas capitalistas. Temo avançado de forma solitária na defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras. Às vezes com outros sindicatos, mas sim, a dependerem de interesses eleitorais. Os partidos só aparecem para sair na foto e pedir votos. Sem dúvida que há pessoas que, duma forma bem intencionada, pretendem defender a partidos dos partidos políticos os interesses da classe trabalhadora. Tanto como nos sindicatos que são correia de transmissão destes partidos. Mas, uma e outra vez, estes mesmos partidos atraiçoaram o sindicalismo, e o que é pior, excepto o Anarcosindicalismo, o resto do sindicalismo colou-se aos interesses dos partidos políticos.

A CNT não vota nas eleições nem pede o voto para ninguém, a CNT propugna o abstencionismo activo. Organizar-se no dia a, a partir do nosso lugar de trabalho – se o tens – até ao modo como consumimos é o motor da mudança social. Só se muda a sociedade se houver mudanças reais, os governos apenas mantêm a ordem existente. É na unidade da classe trabalhadora, na organização da classe trabalhadora, no dia a dia e no apoio mútuo, que se geram as dinâmicas de mudança.

Ninguém sabe quem ganhará as eleições, mas na CNT sabemos o resultado: nós faremos frente ao governo. Desde o primeiro dia. Nós lutaremos em cada fábrica em que estejamos, na rua, na fila do INEM, nas faculdades e escolas, nos mercados … no dia a dia.

Porque já retrocedemos muito. Porque já sabemos que todo o aparelho político está ao serviço das multinacionais e das classes dominantes. Porque o capitalismo já perdeu todos os freios que alguma vez possa ter tido… Por tudo isto não acreditamos na farsa eleitoral. Não há caminho eleitoral quando todas as instituições são hierárquicas e no cimo da pirâmide apenas estão as empresas.

Faças o que fizeres no dia 26 de Junho sabes que na CNT sempre vamos defender os interesses da classe trabalhadora. Que a CNT sempre vai estar aqui. A democracia e a autogestão constroem-se no dia a dia, não se espera que cheguem do céu através das estruturas actuais e da lei. A primeira prioridade não é cristalizar o momento de agitação social em que vivemos em maiorias eleitorais, apressadas e sem programa nem consenso político, mas sim aprender a gerir na prática construindo as nossas próprias estruturas e alternativas em todos os aspectos da vida. Não é fácil, não é rápido, mas não nos confrontamos com problemas fáceis de resolver, nem existem soluções rápidas. Na negociação sobre as nossas vidas não estamos na mesa ao lado do patrão, nem ao lado do dirigente político, mas sentados do lado oposto a eles.

Pela abstenção activa, pelo comunismo libertário, organiza-te e luta!

CNT (aqui)

(opinião) Os anarquistas não trocam a transformação social por um “prato de lentilhas” eleitoral


voto

Em dia de eleições presidenciais, aqui em casa uma parte da família votou, outra não. É uma democracia alargada. Cada qual segue aquilo que a sua consciência determina. O voto é um direito, logo pode ser usado da forma como cada qual melhor entende. Eu estou entre os que não fui votar. E explico porquê.

Antes do mais porque não me sinto representado por qualquer dos candidatos. Nenhum fala a minha linguagem, nem coloca as questões que me parecem relevantes: o papel do Estado como garante da sociedade de classes; o trabalho assalariado; a propriedade privada; o porquê da existência de forças armadas, entre muitos outros.

(mais…)

(este domingo) Eleições em Espanha: os parlamentos não nos servem!


base-eleccions

*

Domingo é dia de eleições no Estado Espanhol. Os anarquistas não votam. Apelam à transformação radical da sociedade e não à mediação e à manutenção do “status quo” capitalista de que o sistema parlamentar e representativo é um dos principais garantes. A Federação Anarquista da Catalunha tem sido particularmente activa na defesa da abstenção através de diversos materiais de propaganda, nomeadamente através deste vídeo, em catalão: “envolvamo-nos, decidamos, actuemos”.

*

*

OUTRAS MANEIRAS: Os parlamentos não nos servem

Os parlamentos existem e também existem as filas de desempregados ou os salários baixos, o pagamento pela educação ou pela saúde, a falta de creches e de assistência ao domicílio, a falta de acesso a três refeições por dia ou as terras ao abandono, o transvase do rio, o fracking ou a construção de obras que ninguém pediu. E isso demonstra que não nos servem; não nos servem se aquilo que pretendemos mudar é o nosso dia-a-dia.

(mais…)

(opinião) O partido invisível


tiagosousa_dr

Tiago Sousa

Pela primeira vez, desde que sou um cidadão de pleno direito, abstive-me num acto eleitoral. Votei sempre em todas eleições, nas legislativas, nas autárquicas, mesmo nas europeias, nunca falhei, nem uma, mas desta vez foi diferente.

Gostava apenas de partilhar este facto porque, não raras vezes, assumimos a abstenção como uma consequência da despolitização. A minha foi um acto político.

Se é verdade que nunca achei particular interesse no regime parlamentar e na democracia representativa, sinto-me politicamente alinhado com ideais anarquistas, sempre preservei uma ideia, que agora entendo como absolutamente fictícia, de que faria alguma diferença contribuir para a constituição de um parlamento mais diverso de modo a contrariar as ideias políticas hegemónicas.

Nunca votei em partidos de poder, sempre assumi uma lógica de reforço de minorias parlamentares que fizessem oposição ao Governo, pensando que seriam os parlamentares aqueles que primeiro podem fazer o escrutínio das acções governativas.

Não votava em programas mas segundo essa lógica oposicionista, claro que considerava alguns aspectos referentes à política económica, mas nunca encontrei um partido no qual conseguisse votar com convicção.

Ora, o último ano mudou muita coisa. O esbarranço total do Syriza face à política hegemónica na Europa relembrou-me uma coisa evidente. Podemos viver num regime que contempla o acto eleitoral sem nos encontrarmos num regime democrático.

Acho que essa é a grande conclusão desta apoteose crítica da luta entre classes a que chamamos crise. Do mesmo modo, a actividade política cidadã não se restringe apenas ao acto eleitoral.

Por isso, apelo a todos cuja motivação política persegue o objectivo de uma sociedade de indivíduos livres e emancipados para que considerem a subversão deste sistema como objectivo número um. Encontremo-nos no espaço físico e etéreo, o partido invisível, para operar a perversão deste sistema, abrir brechas que intensifiquem a tensão social e travem o “business as usual”. Estamos cansados mas não vencidos.

aqui: http://p3.publico.pt/actualidade/politica/18394/o-partido-invisivel