biografia

(biografia) Rui Vaz de Carvalho, 1941-2003


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Rui Vaz de Carvalho (1941-2003) foi um dos mais destacados e influentes militantes libertários da geração do pós-25 de Abril de 1974, que o “apanhou” na força da idade. Com uma sólida bagagem teórica, o Rui esteve sempre ligado aos mais diversos projectos editoriais, servindo também de elo entre os militantes mais velhos e os mais novos. Esteve ligado à Batalha, à Merda, à Voz Anarquista, à Acção Directa, à Antítese e à Utopia, bem como a diversos projectos direccionados para o ensino e para o teatro. Pouco tempo depois da sua morte, José Maria Carvalho Ferreira traçava a sua biografia na revista Utopia, nº 16, de 2003, revista de cuja equipa redactorial fazia parte quando se deu o seu desaparecimento.

“Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!” (texto de Júlio Carrapato sobre Gabriel Morato)


acção directa

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O funeral de Júlio Carrapato realiza-se esta sexta-feira, pelas 14h, para o cemitério de Faro. Em jeito de última homenagem, de entre as largas dezenas de textos que podíamos ter escolhido, seleccionámos este artigo, publicado em Outubro de 2005 na revista “Algarve Mais” evocativo da morte, poucas semanas antes, de um outro anarquista de referência no meio libertário português, de que foi amigo próximo e companheiro, em França e em Portugal, nomeadamente no grupo fundador da revista anarquista “Acção Directa”. Neste artigo, Júlio Carrapato revela de forma bem clara a amizade entre os dois libertários, uma amizade baseada na solidariedade e no respeito mútuo entre companheiros, e também fornece alguns elementos para uma melhor compreensão dos relacionamentos políticos e pessoais na época a que o texto se refere – anos 70, antes e depois do 25 de Abril.

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“Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!”

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À MEMÓRIA DE JOÃO GABRIEL DE OLIVEIRA MORATO PEREIRA (1940-2005)
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Morreu o João Gabriel Morato Pereira, o nosso Gabriel, como lhe chamávamos nos vários círculos do movimento libertário português, movimento cuja sobrevivência ele garantiu com mais um punhado de resistentes como Rui Vaz de Carvalho ou Antonio Mota, e que tanto lhe ficou a dever em vários momentos decisivos do pós-25 de Abril de 1974. Ele próprio, porém, a despeito de uma perseverança, de uma pertinácia e de uma firmeza à prova de bala, não resistiu a mais uma cirurgia ao coração (válvula mitral) e uma embolia cerebral, desgraçadamente sobrevinda durante o famigerado período pós-operatório, deitou-o por terra, fulminou-o, no dia 19 de Julho de 2005, à beira dos 65 anos, já que nascera em 28/07/1940. Por mais um capricho da vida, no próprio dia em que eu festejava os meus provectos 58 anos, morria-me um dos meus maiores e mais constantes amigos, deixava de bater aquele coração grande e generoso e de pulsar aquela inteligência clara. Lúcido até o fim, sempre animado por aquela lucidez apaixonada e revolucionária que nada tem a ver com a frieza ou a rigidez cadavérica, precisamente porque é a antítese da morte, era a prova viva de que a razão e emoção não se opõem, e menos ainda se excluem,conforme no-lo ensinam os modernos neurologistas, estudiosos da actividade cerebral e dos processos físicos e psíquicos, porque também se pensa com o corpo. Era, em suma, um homem sensível, porque inteligente, e inteligente porque sensível, e a sua morte revoltante deixou-nos a todos imensamente mais pobres, constituindo mais uma prova da inexistência de Deus, como diria Sébastien Faure. E de nada serve que os materialistas toscos e os “socialistas” arregimentadores, homogeneizadores e massificadores, aparentemente por outro lado, nos venham cá dizer com gélidas inflexões que “ninguém é insubstituível”. Nós anarquistas, que lutamos por uma sociedade de indivíduos (homens e mulheres) livres e iguais, mas únicos e variados, sabemos , pelo contrário, que jamais alguém é substituído,quanto mais o Gabriel! Pode-se, é claro, se for o caso, “ganhar” com a“troca”, mas o conceito de substituição é em si mesmo absurdo e obsceno…

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(livros) “Lutas dos moradores no pós-25 de Abril” e a “Biografia de Agostinho da Silva” para breve nas livrarias


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«Sem Mestres Nem Chefes o Povo Tomou a Rua. Lutas dos Moradores no Pós-25 de Abril», de José Hipólito dos Santos

Apresentação Pública sexta-feira, dia 30 de Janeiro, no Bar de “A Barraca” (Lisboa), às 18,30H

«Ainda em Abril de 1974, moradores de um bairro camarário no Porto designaram uma comissão para acabar com o regulamento municipal, denunciando-o como meio de intromissão abusiva na vida dos moradores, que atenta contra os princípios de dignidade e de liberdade. E, bem conscientes de que não bastava exigir, incitaram outros bairros a fazer o mesmo. Nos dias seguintes, realizaram-se reuniões em todos os bairros e rapidamente se constituíram comissões de moradores, as primeiras de um movimento imparável e que se tornou nacional.»

Prefácio de Rui Canário
230 páginas
12 euros

aqui: http://www.letralivre.com/noticias/detalhes.php?id=271

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“O Estranhíssimo Colosso , Uma Biografia de Agostinho da Silva”, de António Cândido Franco

Agostinho da Silva é um dos maiores filósofos portugueses e uma figura singular e interveniente na sociedade e na cultura do século XX. A sua obra centra-se na ideia de liberdade como atributo supremo da condição humana. «[…] os passos numa aldeia da raia, os estudos na Invicta, os primeiros amores, os trabalhos em Lisboa, as investigações em Paris e em Madrid, as paixões em São Paulo, os entusiasmos em Montevideu, as estranhezas em Buenos Aires, os recolhimentos em Itatiaia, os estudos no Rio, as aulas em Niterói, as campanhas na Paraíba, as descobertas no Ibapuera, as ações em Santa Catarina e na Baía, os novos amores em Brasília, as realizações no Japão, em Timor e em Nova Iorque, os empenhos na Galiza, as explosões em Sesimbra, Monsaraz e Príncipe Real, a participação na Revolução dos Cravos e no novo Portugal livre. Ficou ainda a obra colossal, que o génio do seu espírito, a agilidade da sua mão, a acutilância do seu pensamento nos legou […]. Quem foi George Agostinho Baptista da Silva? A resposta é infinita, tantos os ângulos esquinados desta vida: prosador de altíssimos dons, narrador inventivo, cronista subtil, biógrafo monumental, pedagogo de largo esforço, monitor de fina manha, professor de sucesso, pensador destemido, poeta bissexto, gramático de muita língua, estoico severo, homem de desleixada túnica, entomologista, tradutor, criador do Centro de Estudos Afro-Orientais, escândalo bíblico, trickster, ogã de terreiro baiano, patriarca de larga tribo, povoador, amante, perrexil, poliglota, sonhador, farsante, polígamo, explicador, joaquimita, gato, galo, sábio, escuteiro, pop-star, colosso, bandeirante, franciscano anormal, homem do tá-tá-tá, aprendiz de valsa, cidadão do mundo, aldeão antigo, monstro, vadio truculento, marau divino, criança eterna, biógrafo de Miguel Ângelo, homem de cinco cabeças e 10 instrumentos […], o otimista, o entusiasta, sem a mais pequena mancha de desânimo no futuro.

O autor da biografia de Agostinho da Silva, cujo pensamento libertário tem vindo a ser cada vez mais sublinhado, é o professor, ensaísta e poeta António Cândido Franco, director da revista de cultura libertária “A Ideia” e colaborador assíduo de “A Batalha”.

A edição é da Quetzal e estará à venda nas livrarias a partir do dia 13 de Fevereiro.

http://quetzal.blogs.sapo.pt/o-estranhissimo-colosso-470028

GONÇALVES CORREIA – a utopia de um cidadão, por Francisca Bicho


Capturar1Gonçalves Correia nasceu em 1886, portanto, na vigência do regime  monárquico em Portugal. Quando teve idade para pensar, Gonçalves Correia aderiu, como muitos outros, às ideias republicanas, pois como ele próprio escrevia em 1916 num artigo de discussão temática no Jornal A Questão Social N°.12 “(…) o regime republicano, é como regime político,  um pouco mais lógico que o regime monárquico (…)”. Contudo, e como afirmou na Carta a um Republicano, mesmo  antes da implantação da República já o seu ” (…) espírito pairava por outras  regiões (…) Por que compreendera já que isto de repúblicas e de monarquias é coisa muito parecida”, razão pela qual a alegria que sentiu em 5 de Outubro de 1910 foi uma alegria breve, dado que de imediato “(…)  via o negro interesse pessoal a manchar os intuitos puríssimos dos “idealistas”. (9)

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Mikhail Alexandrovich Bakunin, duzentos anos de anarquia


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Assinalam-se hoje os 200 anos do nascimento de Mikhail Bakunin. Um revolucionário, um pensador e um activista que tinha a emancipação do proletariado como o seu principal objectivo.

Julián Vadillo (*)

A 18 de Maio de 1814 (30 de Maio segundo o calendário ocidental) nasceu em Premukhino, Mikhail Alexandrovich Bakunin. Filho de um diplomata muito próximo da corte do czar, Bakunin  teve formação militar e académica. Mas, apesar disso, muito cedo começou a formar uma personalidade a que não agradava o sistema estabelecido. Bakunin começou a tomar contacto com personagens como Herzen e Ogarev, bebeu da tradição revolucionária russa representada pelas rebeliões cossacas de Stenka Razin no século XVII e Y/emelian Pugachov no século XVIII, aproximou-se do significado da luta dos dezembristas russos em 1825 como reflexo das revoluções de 1820 na Europa ocidental.

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Roberto das Neves: elementos de uma biografia


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  josé maria José Maria Carvalho Ferreira

Escrever sobre Roberto das Neves não é uma tarefa fácil, na medida em que tantos são os fenómenos e as vivências que acompanharam este homem invulgar. Seus diferentes escritos permitem-nos absorver a matriz essencial do seu pensamento e ação. Todavia, muitos dos fatos sócio-históricos que integraram a sua vida quotidiana não são possíveis de reproduzir com a proficiência devida.

Em primeiro lugar a sua trajetória biológica e social foi sempre acompanhada por opções ideológicas, filosóficas, culturais, morais e éticas diversificadas, mas todas elas complementares e interdependentes no que concerne à sua visão do anarquismo e, consequentemente, da anarquia. Por outro lado, a sua incursão na visão utópica do anarquismo permitiu-lhe experienciar de forma muito singular e individual a sua plasticidade social, económica, política e cultural nas sociedades contemporâneas do século XX.

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(memória libertária) Edgar Rodrigues (12 de Março de 1921 – 14 de Maio de 2009)


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josé maria   José Maria Carvalho Ferreira

Para mim, escrever sobre a vida e a obra de Edgar Rodrigues, trata-se de uma questão de amizade, gratidão e admiração. No meu caso específico esse fato decorre, fundamentalmente, de três aspetos cruciais. Em primeiro lugar mantive com Edgar Rodrigues uma amizade única mesclada pelas vicissitudes ideológicas do anarquismo no Brasil e em Portugal. Os conflitos e as contradições emergiram com relativa acuidade, dando azo a uma situação de solidariedade profunda entre ele e eu próprio, desde inícios da década de 80 do século XX até à sua morte em 14 de Maio de 2009. Com esta análise pretendo somente demonstrar que a minha análise sobre Edgar Rodrigues está submersa de subjetividade.

Em segundo lugar, há que realçar o trabalho gigantesco que foi elaborado por Edgar Rodrigues em relação ao número de livros e artigos que publicou. Não obstante sabermos que alguns dos livros publicados tinham um carater repetitivo, a sua complexidade analítica sócio-histórica implica, para os vindouros, um estudo prévio e profundo das fontes que lhes deram conteúdo e forma. É evidente que muitos desses livros dão-nos imensas informações relevantes para a história do movimento social operário no Brasil e em Portugal, mas também do sindicalismo e do anarquismo.

Em terceiro lugar, há que ter presente o autodidatismo e a militância anarquista de Edgar Rodrigues fora dos meios académicas. Para ele não interessava a perfeição formal do ato de escrever e analisar em termos científicos, como é apanágio no meio universitário, mas sobretudo divulgar e desenterrar a ação coletiva dos oprimidos e explorados que tentaram, historicamente, desbravar o terreno da emancipação social. Tratava-se,  no fundo, de resgatar a história social dos vencidos de ontem e enformar o presente e o futuro da palavra do anarquismo conducente à emancipação social.

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