Boletim Acção Directa

(Lisboa) Esta quarta-feira concentração em defesa de transportes públicos para todos


concentração

Concentração junto ao terminal do Metro e Autocarros do Campo Grande (Lisboa), esta quarta-feira, dia 19 de Março, às 18 horas

Abra os olhos e combata a fraude capitalista!
Queremos transportes públicos para todos!

Recentemente, a Carris e o Metro de Lisboa gastaram 9 900€ (*)numa campanha nojenta a apelar a que as pessoas denunciem quem não paga bilhete.

Não somos bufos e não aceitamos que nos venham culpabilizar pela degradação dos transportes “públicos”!

Exigimos respeito!
Exigimos melhores transportes públicos e gratuitos!

Unidos e auto-organizados, nós damos-lhes a crise!

Concentração no Campo Grande, junto ao terminal do metro e autocarros. Apareçam!!!

(*) http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Artigo/CIECO328582.html

aqui: Ait-sp Lisboa

Sobre o anarquismo, o leninismo e o capitalismo, por Noam Chomsky


NoamChomsky

Noam Chomsky é um libertário norte-americano, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho como linguista e por ser uma voz muito crítica relativamente ao capitalismo e à estratégia dos Estados Unidos na sua relação com os países do terceiro mundo. Nesta entrevista (de que publicamos alguns excertos) à revista anarquista irlandesa “Red and Black Revolution”, em Maio de 1995, já depois da queda do muro de Berlim, Chomsky fala do anarquismo, do marxismo-leninismo e do capitalismo numa linguagem simples e clara. A conclusão a que chega é a de que Bakunin teve razão quando criticou o projecto de “socialismo” autoritário de Marx. E os tempos comprovam-no.

Sobre o anarquismo, o leninismo e o capitalismo…

Noam Chomsky

1.“Fui atraído pelo anarquismo logo a partir da adolescência, quando comecei a pensar o mundo para além das coisas pequeninas, e desde então não tive muitas razões para corrigir essa atitude inicial. Penso que, de facto, o que faz sentido é investigar e identificar as estruturas de autoridade, hierarquia e domínio, em todos os aspectos da vida, para depois nos confrontarmos com elas. A menos que tenham uma justificação são ilegítimas e deveriam ser desmanteladas de forma a que a liberdade humana pudesse ser ampliada. Isto inclui o poder político, a propriedade e a administração, as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, o nosso controlo sobre o destino das gerações futuras (o imperativo moral básico por trás do movimento para o meio ambiente, segundo penso), e muito mais. Naturalmente isto significa um desafio às poderosas instituições de coerção e controlo: o Estado, as inúmeras tiranias privadas que dominam a maior parte da economia nacional e internacional, etc.. e mais do que isto. Foi tudo isso que sempre entendi ser a essência do anarquismo: a convicção de que o ónus da prova deve ser dado pela própria autoridade, e que ela deve ser desmantelada se não conseguir dar uma resposta positiva. É que, por vezes, essa prova existe. Se eu for dar um passeio com os meus netos e eles se precipitarem para uma rua movimentada, eu usarei não só da minha autoridade mas também da coerção física para os impedir de atravessarem a rua. É um exemplo típico. E existem outros casos; a vida é uma coisa complexa, há muitas coisas que não entendemos sobre o ser humano e a sociedade, e grandes declarações são frequentemente fonte de mais sofrimentos do que de benefícios. Mas penso que a perspectiva é válida e que nos pode levar longe. (…)

2. A crítica à “democracia” entre os anarquistas tem sido frequentemente a crítica à democracia parlamentar, porque ela surgiu em sociedades com características profundamente repressivas. Tomemos os EUA por exemplo, que foram livres desde as suas origens. A democracia americana foi fundada no princípio, sublinhado por James Madison na Convenção Constitucional de 1787, de que a primeira função do governo é “proteger a minoria da maioria.” Deste modo ele argumentava que na Inglaterra, o único modelo quase-democrático da época, se fosse dada palavra à população em geral, nos destinos públicos, ela implementaria uma reforma agrária ou outras atrocidades, e que o sistema americano devia ser cuidadosamente concebido para evitar tais crimes contra “os direitos da propriedade,” os quais devem ser defendidos (de facto, devem prevalecer). A democracia parlamentar dentro deste quadro merece uma crítica aguda pelos libertários genuínos, e deixei de fora muitas outras características que dificilmente se podem considerar subtis – a escravatura, para mencionar apenas uma, ou a escravatura do salário que foi amargamente condenada por gente trabalhadora que nunca ouviu falar de anarquismo ou comunismo durante o século XIX, e para além deste.

Marxismo- Leninismo

3.(…) Se por esquerda é suposto incluir o “bolchevismo”, então eu dissocio-me terminantemente da esquerda. Lenine foi um dos maiores inimigos do socialismo, na minha opinião, pelas razões que temos discutido. Os avisos de Bakunine sobre a “Burocracia Vermelha” que instituiria “o pior de todos os governos despóticos” foram feitos muito antes de Lenine, e eram dirigidos contra os seguidores de Marx. Existiam, de facto, seguidores de muitos tipos diferentes: Pannekoek, Luxembourg, Mattick e outros estão muito distantes de Lenine, e as suas posições convergem frequentemente com elementos do anarco-sindicalismo. Korsch e outros manifestaram  simpatia pela revolução em Espanha..Existe uma relação de continuidade entre Marx e Lenine, mas também existe uma continuidade mesmo até aos marxistas que eram severos críticos de Lenine e do bolchevismo. O trabalho de Teodor Shanin nos últimos anos sobre as atitudes tardias de Marx em relação à revolução camponesa também é relevante. Eu não sou propriamente um estudioso de Marx, e não arriscaria nenhum julgamento sério sobre qual destas continuidades reflecte o “verdadeiro Marx”, mesmo que exista uma resposta a essa questão.(…)

 4.O Marx inicial aproxima-se consideravelmente do meio em que viveu, e encontram-se muitas semelhanças com o pensamento que animou o liberalismo clássico, aspectos do Iluminismo, e do Romantismo francês e germânico. Uma vez mais, não sou um grande estudioso de Marx para pretender dar um julgamento com opinião autorizada. A minha impressão, sem qualquer garantia, é que o Marx inicial era uma figura do Iluminismo tardio, e o Marx posterior era um activista altamente autoritário, e um analista crítico do capitalismo, que tinha pouco a dizer sobre alternativas socialistas. Mas isto são impressões. (…)

5.A minha reacção ao fim da tirania soviética foi semelhante à minha reacção à derrota de Hitler e Mussolini. Em qualquer dos casos foi uma vitória do espírito humano. Devia ter sido particularmente festejada pelos socialistas, uma vez que um grande inimigo do socialismo tinha por fim caído. Tal como você, fiquei admirado ao ver como as pessoas — incluindo gente que se tinha considerado anti-estalinista e anti-leninista — estavam desmoralizadas pelo colapso da tirania. O que revela que elas estavam mais profundamente comprometidas com o leninismo do que acreditavam.

6.Existem, contudo, outras razões a considerar acerca da eliminação deste sistema brutal e tirânico que tinha tanto de “socialista” como de “democrático” (lembre-se que ele se reclamava de ambos, e a última pretensão era ridicularizada no Ocidente, enquanto a primeira era ansiosamente aceite, como uma arma contra o socialismo — um dos muitos exemplos do serviço prestado pelos intelectuais do ocidente ao poder). Uma das razões tem a ver com a natureza da Guerra Fria. Do meu ponto de vista, isto deveu-se, sobretudo ao caso especial do “conflito Norte-Sul,” para usar um eufemismo que descreve a conquista europeia da maior parte do mundo. A Europa Oriental tinha sido o “terceiro mundo” original e a Guerra Fria desde 1917 não tinha a mais ligeira semelhança com a resposta às tentativas de prosseguir um caminho independente desencadeado por outros países do terceiro mundo, embora, neste caso, as diferenças de escala tenham dado ao conflito leste-oeste uma vida própria. Por esta razão, era razoável esperar que a região voltasse ao seu estatuto anterior: para algumas zonas do Ocidente, como a República Checa ou a Polónia Ocidental, existia a expectativa que se voltasse ao espaço europeu,, enquanto outras reverteriam ao tradicional papel de prestadora de serviços, com a ex-Nomenklatura a tornar-se na habitual elite terceiro-mundista (com a aprovação do poder corporativo-estatal do Ocidente, que normalmente os prefere às alternativas). Isto não era uma perspectiva agradável e levou a muito sofrimento.

Outro motivo de preocupação tem a ver com a intimidação e o não-alinhamento. Apesar de grotesco, o império soviético pela sua existência oferecia um certo espaço para o não-alinhamento e, por razões absolutamente cínicas, por vezes oferecia assistência às vítimas dos ataques ocidentais. Essas opções acabaram, e o Sul sofre agora as consequências.

Uma terceira razão tem a ver com aquilo a que a imprensa económica denomina de “trabalhadores ocidentais mal-habituados” com o seu “estilo de vida luxuoso.” Com a maior parte da Europa Oriental a voltar ao rebanho, o patronato e os gestores têm armas novas e poderosas contra as classes trabalhadoras e os pobres dos seus próprios países. A GM e a VW podem não só transferir a sua produção para o México ou para o Brasil (ou pelo menos ameaçar fazê-lo, o que geralmente vai dar no mesmo), mas também para a Polónia e Hungria, onde podem encontrar trabalhadores experientes e qualificados por uma fracção do custo. E, compreensivelmente,  estão a regozijar-se com isso, dados os valores vigentes.

Podemos aprender muito sobre o que significou a Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) ao procurar quem lucrou ou quem ficou prejudicado depois dela acabar. Por esse critério, nos vencedores da Guerra Fria incluem-se as elites ocidentais e a ex-Nomenklatura, agora mais ricos do que alguma vez sonharam, e nos derrotados inclui-se uma parte substancial da população do Leste, lado a lado com os trabalhadores e os pobres do Ocidente, bem como sectores populares do Sul que procuraram seguir um caminho independente.

aqui: https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/06/acc3a7c3a3o-directa-7.pdf

entrevista integral: http://www.wsm.ie/c/noam-chomsky-anarchism-marxism-future-interview

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Dia 27 de Junho: à greve, companheiros (laboral, de consumo, de lazer, etc.)


As centrais sindicais do sistema, CGTP e UGT, convocaram para o próximo dia 27 de Junho uma greve geral em protesto contra as medidas que o governo tem vindo a pôr em prática contra os trabalhadores. Razões para esta greve geral não faltam e só é pena que o reformismo das duas centrais sindicais maioritárias não lhes permita irem mais além e convocarem uma greve geral, de duração indeterminada, que só terminasse quando o governo revogasse as medidas mais gravosas que atingem quem trabalha  (nomeadamente o corte de salários e as reestruturações que apenas visam o despedimento de trabalhadores) ou aceitasse a redução do horário de trabalho para as 30 horas semanais de forma a permitir combater o desemprego e não o aumento para as 40 horas que anuncia.

Apesar das limitações da greve e de todos sabermos que ela pouco irá mudar na situação em que vivem os trabalhadores portugueses é nas ruas que os anarquistas e os anarco-sindicalistas devem estar, explicando as limitações deste tipo de luta proposto pelas centrais sindicais reformistas e incentivando os trabalhadores a outras formas organizativas e de combate.

Os últimos grandes movimentos de jovens, trabalhadores, desempregados na ruas das principais cidades brasileiras, turcas e gregas indicam o caminho:  só através da mobilização generalizada e da criação de estruturas antiautoritárias, assembleárias e de base,  horizontais, é possível combater o Estado e o capital . Não através de desfiles do “faz de conta” ou de greves em que, no dia seguinte, se conclua que nada mudou. Sabemos que é assim, mas até chegarmos a esse momento e a esse patamar de organização é preciso aproveitarmos todas as oportunidades para fazer com que a influência das ideias libertárias cresça e se afirme.

Por isso, é tão importante estarmos presentes em todas as lutas que vão acontecendo, marcando presença e influenciando-as no sentido de uma maior radicalidade e de uma mais rigorosa definição de objectivos: para nós, anarquistas e anarco-sindicalistas, é irrelevante que este governo caia ou não. Lutamos para que todos os governo desapareçam e sejam substituídos pela auto-organização dos explorados e oprimidos.

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A Batalha Está Proclamada a Greve Geral

Boletim Acção Directa Nº 7


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Sumário:

À greve, companheiros!

O que é o anarco-sindicalismo

O Estado e o governo numa deriva cada vez mais autoritária

Entrevista a Noam Chomsky: o anarquismo, o leninismo, o capitalismo…

Polícia: bater, reprimir e matar não é trabalho!

Memória Libertária: Aquilino Ribeiro

A Greve dos Grãos de Trigo

Turquia: do lado solidário da barricada

Brasil: viva o protesto popular

Para descarregar:

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Memória Libertária: Emídio Santana


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Emídio Santana discursando na manifestação  anarquista do 1º de maio de 1975, na Praça da Figueira, em Lisboa. (AHS). Foto de Carlos Vidigal.

Emídio Santana foi uma das figuras de referência do anarquismo em Portugal durante todo o século XX e um dos elementos de ligação entre o anarco-sindicalismo do princípio do século e os novos movimentos libertários que apareceram no pós 25 de Abril, muito influenciados pelo Maio francês de 1968.

Emídio Santana nasceu a 4 de Julho de 1906 e nesse mesmo dia, trinta e um anos depois, foi um dos autores do único atentado que visou Salazar, tendo o ditador saído ileso, apenas devido a um erro de posicionamento da bomba (colocada num local da rua Barbosa do Bocage, em Lisboa. onde Salazar costumava passar diariamente), que desviou a onda de choque e não surtiu o efeito desejado.

Muitos militantes anarquistas foram presos nos dias que se seguiram ao atentado, mas Emídio Santana só será detido alguns meses depois, em Outubro, em Inglaterra, sendo entregue às autoridades portuguesas. Passa 16 anos na prisão.

Também nesse ano de 1937, na noite de 20 para 21 de Janeiro, com a guerra civil em Espanha já a decorrer, os anarquistas portugueses efectuam uma série de atentados contra diversos alvos, nomeadamente contra o Rádio Clube, uma estação de rádio que fazia abertamente propaganda à sublevação fascista e contra várias instalações estatais.

Mas a militância de Emídio Santana começara logo aos 15 anos como aprendiz de carpinteiro de moldes, filiado no Sindicato dos Metalúrgicos da CGT e secretário das Juventudes Sindicalistas.

Em Dezembro de 1931 aparece como director do boletim “Solidariedade Mineira e Metalúrgica”, porta-voz dos Sindicatos Mineiros e Metalúrgicos.

As prisões sucedem-se já na altura. Emídio Santana conhece a sua  primeira prisão, de sete meses, logo em 1928, com a ilegalização da CGT na sequência das revoltas de 1927. Sucedem-se os ataques a instalações e jornais operários.

Pouco depois da constituição da Federação Anarquista da Região Portuguesa, Santana é de novo preso e deportado  para os Açores, de Fevereiro de 1932 a Agosto de 1934.

Em 1936, um ano antes do atentado a Salazar, vai a Espanha, onde participa, em representação da CGT, no Congresso da CNT.

Depois de sair da prisão, Emídio Santana continuou a ser um elemento activo e agregador do que restava do movimento anarquista e anarco-sindicalista, muito debilitado devido à repressão que se abateu sobre ele, especialmente nos primeiros anos da ditadura. Esteve ligado aos grupos que durante o fascismo mantiveram tipografias clandestinas onde era impresso material anarquista (nomeadamente edições clandestinas da Batalha) e teve um papel fundamental na reedição de obras e textos operários da I República (sobretudo devido à sua forte ligação com o historiador César de Oliveira), textos esses que influenciaram fortemente muitos jovens que desconheciam esse período da história – totalmente proscrito do ensino oficial. Manteve também contactos importantes com outros sectores da oposição ao Estado Novo, tendo participado, enquanto anarquista, em diversas iniciativas oposicionistas.

Depois do 25 de Abril, com a ajuda e o esforço do pequeno grupo de anarquistas que se tinha mantido coeso durante os últimos anos do fascismo, Emídio Santana foi um dos principais impulsionadores da reedição de “A Batalha”, enquanto jornal sindicalista revolucionário e anarco-sindicalista e da criação quer da Cooperativa Editora da Batalha, quer da Aliança Libertária e Anarco-Sindicalista, quer do Centro de Estudos Libertários.

Nos primeiros anos depois do 25 de Abril, Emídio Santana foi também dos rostos mais conhecidos do anarquismo em Portugal, tendo usado da palavra em diversos comícios realizados em várias zonas do país.

Morreu em 1988, sem nunca ter deixado a militância anarco-sindicalista de que foi um dos grande paladinos durante quase todo o século XX, tendo passado cerca de 20 anos na prisão por coerência com os seus ideais.

CJ (com: http://www.esquerda.net/content/um-militante-corajoso  e  http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/ )

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Apenas guardaste no ouvido uma palavra: ditadura


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CapturarWilhelm Reich, hoje de alguma forma esquecido pelas novas gerações, foi um psiquiatra e psicanalista austríaco, nascido numa família abastada de proprietários judeus germanizados, especializado sobretudo em temas relacionados com a sexualidade . Em 1933 é forçado pelo nazismo a sair da Alemanha, mudando-se para Oslo, na Noruega, onde trabalhou no Instituto de Psicologia da universidade local. Ali vive até 1939, altura em que se muda para Nova Iorque. Publicou diversos livros defendendo a força libertadora do orgasmo e da sexualidade livre tendo sido investigado e preso pelas autoridades norte-americanos. Morreu na prisão em Novembro de 1957, 12 anos depois de ter escrito “Escuta Zé Ninguém” um verdadeiro manifesto libertário, num tempo dominado pelos totalitarismos de raiz capitalista ou marxista. A seguir ao 25 de Abril foram impressos várias centenas  de exemplares deste livro pelo movimento anarquista em Portugal (na tipografia de “A Rabeca,” em Portalegre, onde pontificava Nicolau Saião) e vendidos em bancas quase diárias nas universidades e na zona lisboeta do Rossio e Santa Apolónia.

“Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio.

Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para a cama só para  provar que és “homem”. Nem sabes o que é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes. Cheiras mal e a tua pele é pegajosa, desagradável. Não sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se em ruminações sexuais.

Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à  noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar e trabalhar. Que te faria ter nos braços uma mulher sorridente em vez de desesperada, ver os teus filhos sãos em vez de pálidos, amorosos em vez de cruéis. Mas quando ouves falar de economia sexual dizes: “O sexo não é tudo. Há outras coisas importantes na vida”. És assim, Zé Ninguém.

Ou suponhamos que és um “marxista”, um “revolucionário profissional”, um futuro “dirigente dos Proletários do Mundo”. Dizes querer libertar as massas do seu sofrimento. As massas enganadas fogem-te desiludidas e tu gritas enquanto corres no seu encalço:

“Parai, massas proletárias! Sou o vosso libertador! Abaixo o capitalismo!” Enquanto eu falo às massas, pequeno-revolucionário, e lhes digo da miséria das suas pequenas vidas. Ouvem-me, com entusiasmo e esperança. Acorrem às tuas organizações onde esperam encontrar-me. É, então que dizes: “A sexualidade é uma invenção pequeno-burguesa. O que conta é o factor económico”. E lês os livros de Van de Velde sobre técnicas sexuais.

Quando um grande homem dedicou a sua vida a tentar dar à tua emancipação económica uma base científica, deixaste-o morrer de fome. Mataste a primeira via de verdade que surgiu no teu desvio das leis da vida. Quando a sua primeira tentativa foi bem sucedida, tomaste-lhe as rédeas da administração e cometeste segundo crime.

Da primeira vez, o grande homem dissolveu a organização.

Da segunda, estava já morto e nada podia contra ti.

Não entendeste que ele havia descoberto no teu trabalho o poder de vida que cria os valores. Não entendeste que a sua reflexão sociológica pretendias ser a salvaguarda da tua sociedade contra o teu Estado. Não entendes nada! E mesmo com os teus factores económicos não vais longe.

Outro grande homem matou-se a trabalhar para provar-te que terás de melhorar as tuas condições económicas para que a tua vida tenha sentido e gosto; que indivíduos com fome jamais farão progredir a cultura; que todas as condições de vida terão de ter lugar aqui e agora, sem excepção, que terás de emancipar-te, tu e a tua sociedade, de todas as formas de tirania. Este outro grande homem apenas cometeu um erro ao tentar esclarecer-te: acreditou deveras na tua capacidade de emancipação. Acreditou que uma vez conquistada a tua liberdade serias capaz de a preservar. E cometeu ainda outro erro: consentir que tu, proletário, te tornasses “ditador”.

E sabes o que tu fizeste, Zé Ninguém, do manancial de sabedoria e criação que te legou este homem? Apenas guardaste no ouvido uma palavra: ditadura. De tudo o que te doara um grande espírito e um grande coração apenas uma palavra restou: ditadura! Tudo o mais deitaste fora, a liberdade, a clareza e a verdade, a solução dos problemas da servidão económica, a metodologia da planificação do futuro – tudo pela borda fora! E apenas a escolha infeliz, embora bem intencionada, de só uma palavra, te caiu em graça: ditadura!

Sobre esta pequena negligência de um grande homem construíste todo um sistema gigantesco de mentiras, perseguição, tortura, deportações, enforcamentos, polícia secreta, espionagem e denúncia, uniformes, marechais e medalhas – enquanto deitavas fora tudo o mais. Começas a perceber como funcionas, Zé Ninguém? Ainda não?

Ora tentemos novamente: As “condições económicas” do teu bem-estar na vida e no amor confundiste-as com “mecanização”; a emancipação dos homens, com “grandeza do Estado”; o levantamento das massas, com o desfilar da artilharia; a libertação do amor, com a violação de todas as mulheres a que pudeste deitar a mão ao chegar à Alemanha; a eliminação da pobreza, com a erradicação dos pobres, dos fracos e dos desadaptados; a assistência à infância, com a “formação de patriotas”; o controle da natalidade, com medalhas às “mães de dez filhos”. Não tinhas já sofrido bastante, com esta tua ideia da “mãe de dez filhos”?

Mas também noutros países o infeliz vocábulo “ditadura” te ficou no ouvido. Aí, vestiste-o de uniformes resplandecentes e geraste no teu próprio seio o funcionariozinho místico, sádico e impotente que te levou ao Terceiro Reich e enterrou sessenta milhões da tua espécie enquanto ias gritando “Viva! Viva!”.”

Wilhelm Reich

aqui: https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/04/acc3a7c3a3o-directa-6.pdf

“Uma cidade sem muros nem ameias”: comemorar o 25 de Abril em nome da Utopia


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Para a geração que viveu o 25 de Abril de 1974, o golpe militar que pôs fim a 48 anos de fascismo foi, independentemente das ideologias individuais, um abrir de portas e janelas,  um entrar de ar e liberdade na sociedade portuguesa que, hoje, os mais novos têm dificuldade em imaginar.

O 25 de Abril de 1974 não resolveu muitos problemas estruturais, tais como a posse dos meios de produção por parte de uma minoria que continua a explorar a grande maioria; o militarismo e o autoritarismo muito presentes na sociedade portuguesa; o papel do Estado ou a necessidade de uma profunda revolução na estrutura administrativa do país, nem isso fazia parte do seu programa.

No entanto, trouxe algumas transformações bastante relevantes, que, em muitos aspectos, mudaram profundamente o país e as mentalidades. O fim da guerra colonial; a liberdade de associação e expressão (com os limites conhecidos, é verdade); uma maior regulação, controlo e denúncia das arbitrariedades e violência policial; a garantia de direitos sociais, sindicais e políticos, etc., foram algo de adquirido com o 25 de Abril e com as movimentações que se lhe seguiram e que não podem ser esquecidos.

Hoje, num momento em que o capital e o Estado juntam forças para cortarem direitos e regalias à generalidade dos trabalhadores e da sociedade, a força criativa que irrompeu no pós-25 de Abril deve ser tomada como exemplo e, nalguns casos, como bandeira para erguer de novo. É o caso, por exemplo, da autogestão que esteve sempre presente a seguir ao 25 de Abril de 1974, seja por fuga dos proprietários das fábricas, seja por ocupação dos trabalhadores. Importante foi também a ocupação de casas e de bairros inteiros por pessoas que viviam em barracas ou que, simplesmente, não tinham um tecto para se abrigarem.

Comemorar o 25 de Abril é trazer para os dias de hoje o sonho colectivo da transformação da sociedade, que nos foi roubado muito cedo, e a utopia de um mundo sem senhores nem escravos, sem ricos nem pobres,  sem explorados  nem exploradores. Um sonho difícil de concretizar, mas como dizia o anarquista Gustave Landauer (1870-1919) “os homens crêem que chegará um dia em que serão livres e iguais, quando tiverem destruído os obstáculos que os impedem de o ser, sem se darem conta de que só o são enquanto lutam para o conseguir”.

e.m.

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aqui:  https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/04/acc3a7c3a3o-directa-6.pdf

Ásia e América Latina: das economias emergentes aos novos movimentos operários


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Numa altura em que se torna cada vez mais claro que a economia  e os movimentos financeiros se estão a deslocar da Europa para várias regiões emergentes, como algumas zonas da Ásia e da América do Sul, é preciso saber que resposta vão dar ao capitalismo a classe operária e os trabalhadores desses países-. Quais as formas organizativas que vão determinar a sua actuação frente ao Estado e aos senhores do dinheiro.  São zonas onde o marxismo já teve uma grande implantação, mas cujas experiências de “socialismo real” terminaram no maior descalabro (sem “mundo novo” e com dezenas de milhões de mortos), sendo o capitalismo chinês, por exemplo, dirigido pelo próprio partido marxista-leninista. Nessas sociedades, a resposta revolucionária frente ao capital e ao Estado ditará muito daquilo que será o futuro próximo do movimento operário a nível internacional – ou repetindo as experiências autoritárias que foram a marca da última metade do século XX em grande parte do globo, ou retomando a prática libertária, de base, horizontal e autogestionária que esteve na génese do movimento de trabalhadores na Europa e noutras partes do mundo.

A ideia que subjaz aos cortes que estão a ser feitos pelo governo, com o apoio da troika, é empobrecer os portugueses, retirar-lhes poder de compra, embaratecer o trabalho, desqualificá-lo e desregulá-lo. Já todos o percebemos. É este o programa preparado para os países do sul da Europa, no âmbito de uma transformação do capitalismo que está a levar as reservas monetárias, as grandes empresas e os principais fundos de investimentos para outras zonas do mundo, como a Ásia ou a América do Sul, que se estão a transformar em grandes potências económicas, enquanto a Europa e a América do Norte entraram em declínio. Muitos dos modelos que ainda nos servem de bandeira têm que ser analisados e actualizados neste contexto: em breve, sob a pressão do capital, os trabalhadores dessas novas zonas vão ter uma palavra a dizer e vamos ter que  ouvi-la. Em que sentido ela se vai fazer ouvir? Num reforço das correntes libertárias e anti-autoritárias ou, pelo contrário, num reavivar das frentes de luta autoritárias que marcaram grande parte do século XX? O sabermos isso vai ser determinante para sabermos que mundo e que solidariedades podemos construir.

e.m

em Boletim Acção Directa nº 4

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Anarcosindicalistas espanhóis pretendem julgamento do genocídio franquista cometido entre 1936 e 1977


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Em Portugal isso nunca aconteceu. Nunca houve um julgamento do regime fascista. No Estado Espanhol, a CNT pretende levar para a frente o processo do franquismo e associou-se às  acções que estão a ser levadas a cabo, nos tribunais argentinos, por iniciativa de familiares de vítimas e associações que lutam contra o branqueamento do fascismo. Entre 1936 e 1977, a CNT contabiliza 50 mil fuzilados, 73 mil assassinados e 30 mil desaparecidos.

A Confederação Nacional do Trabalho apresentou recentemente  em Madrid a denúncia que juntou no passado mês de Dezembro ao processo que está a transitar nos tribunais argentinos e que pretende julgar o genocídio cometido pelo regime de Franco desde 1936 até 1977. Deste modo a CNT associa-se às acções empreendidas por parte de familiares de assassinados e desaparecidos, associações de recuperação da memória histórica e outras entidades interessadas.

A CNT pretende assim trazer para a luz do dia a repressão sofrida pela organização e pelo Movimento Libertário desde o golpe militar de 18 de Julho de 1936 até à lei da amnistia de 1977, uma lei que pretende passar em branco mais de 40 anos de um regime instaurado pela força e baseado na violência física e social. O seu máximo dirigente e executor, o general Francisco Franco, contou para isso com a colaboração de diferentes sectores militares, financeiros, políticos e eclesiásticos católicos, todos eles implicados na autoria e direcção do golpe.

Neste acto público participaram Alfonso Alvarez, secretário geral da CNT, José Ramon Palacios, presidente da Fundação Anselmo Lorenzo e Javier Antón, coordenador do Grupo de Trabalho da Memória Histórica –CNT. Além destes, prestaram o seu testemunho três sobreviventes da repressão franquista, Félix Padin, Antonio Amate e Aurora Tejerina,

Com esta acção a CNT pretende proclamar “publica e energicamente, face a um esquecimento cúmplice, o seu desejo e interesse em por a claro e divulgar o desastre que foi a instauração do franquismo, assim como os terríveis danos causados à organização confederal que foi o alvo principal da acção repressiva do regime durante décadas”.

Um balanço objectivo da repressão, passados já quase três quartos de séculos do golpe militar e após consulta à numerosa bibliografia especializada sobre a Guerra Civil espanhola, dá-nos a números dramáticos, alguns baseados inclusivamente em fontes oficiais do governo franquista: 50 mil fuzilados, 73.000 assassinados na retaguarda, 30.000 desaparecidos; 500.000 levados para campos de concentração, 300.000 presos e um número indeterminado de violações, raptos e roubo de crianças.

(com: Secretariado Permanente del Comité Confederal CNT-AITprensa@cnt.es )

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Doidinhos por eleições


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Uma parte da esquerda política parece não ter encontrado outra saída para o estado de emergência que se vive em Portugal a não serem eleições. Os que mais gritam são aqueles que menos possibilidades têm de vir a ocupar a mesa do poder, mas já se contentam apenas com umas migalhas que seja. Incapazes estrategicamente de qualquer coisa que se pareça com transformação social ficam encantados com o carrossel eleitoral e fazem disso a sua vida: mesmo as pequenas engrenagens partidárias, com assento parlamentar, transformaram-se em rentistas do Estado com muitas bocas para alimentar. E as eleições sempre mostram que estão vivos. Mesmo que só lhes toque uns tostões, comparativamente aos “grandes”, mais vale pouco do que nada.

Há na chamada esquerda política uma profunda atracção pelo voto. Percebe-se: está ali o seu ganha-pão, seja nas tricas eleitorais ou seja nas rendas parlamentares que, para ela, são sempre verdadeiras garrafas de oxigénio. Recebem os subsídios do Estado por cada voto que arrecadam, recebem subsídios para as campanhas eleitorais, recebem ordenados dos eleitos e dos assessores. É para isto que existem: para arranjarem empregos aos seus  correligionários e encherem os cofres do partido. Em cada acto eleitoral, por mais votos que percam mais alto hão-de proclamar que ganharam: se não foram mais um ou dois deputados foi porque o seu rival mais directo também perdeu ou porque aumentaram umas décimas na votação geral. É este o seu objectivo e de pouco mais são capazes. Nas eleições, seja de que tipo forem, é onde estes partidos se realizam e a chamada rua só lhes serve para canalizarem os protestos para a urna de voto.

A cada acto eleitoral que se aproxima, mesmo aqueles que sabem que nunca irão ganhar e que serão sempre meramente críticos dos chamados partidos do “arco do poder” (os tubarões do bloco central que alternam, aqui e em todos os países ditos democráticos, na gestão do Estado), agitam-se, entram em frenesim, como se tomados de uma bebedeira eleitoral intensa: são capazes de todos os sonhos e dão largas à ambição – do mais minúsculo ao mais musculado todos se arrogam como vencedores. E sê-lo-ão.

Há muito que todos eles já deixaram de ser instrumento de qualquer transformação social, para serem apenas um modo de vida para os seus funcionários, para os seus eleitos, para os seus dirigentes, para o funcionalismo político que espalham por toda a administração pública, mas também em muitas empresas sedentas de estarem de bem com o poder político. Nesta febre eleitoralista, em que apenas se revezam no poder o PS e o PSD/CDS, mesmo assim os minorcas do PCP e do BE ainda conseguem umas migalhas que os enchem de felicidade. É vê-los por estes dias nas ruas gritando “Demissão Já”, (e o que nós gostaríamos de ver este governo e todos os outros no olho da rua!!!…)como se fossem a seguir eles os escolhidos para a mesa do poder. Sabem que não, mas servem-lhes as migalhas que sempre sobram da mesa dos partidos grandes em qualquer momento eleitoral. E estes partidos, mesmo pequenos, têm muitas bocas para alimentar. Têm que dar  ao seu corpo de funcionários e de eleitos o “pão” que recebem do Estado em nosso nome, enquanto “nossos representantes”. É isto que os alimenta e o único fim já que perseguem: auto-alimentam-se da política e da representação. Tudo o resto é a fingir.

Rui.T.