CCL

(para memória futura) Almada, 18 de Janeiro de 1934


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«O concelho de Almada tem então cerca de 23 000 habitantes e a vila pouco mais de 8000, sendo uma parte população flutuante, como nos dias de hoje. A população operária é mais heterogénea em termos sócio-profissionais do que a da Marinha Grande, centro essencialmente vidreiro, ou do que a de Silves, exclusivamente formada por corticeiros.

Em Almada a eclosão do movimento é marcada, na madrugada de 18, pelo corte da linha telefónica e pela sabotagem do cabo submarino entre a Trafaria e Porto Brandão, únicos actos violentos dignos de registo.

Com muitas ou poucas acções espectaculares — menos, em todo o caso, do que as verificadas na vizinha Lisboa, para já não falar da Marinha Grande ou de Coimbra —, os trabalhadores, esses, aderem à greve, ainda que surjam dois comportamentos diferentes.

Trabalhadores há que se apresentam ao serviço, iniciam normalmente a sua actividade às 8.30 e a instâncias de grupos de grevistas que percorrem os locais de trabalho apelando à greve acabam por abandoná-lo e recolher a suas casas. Estão neste caso os operários fabris de Cacilhas, os chauffeurs de táxis que fazem serviço no Largo Costa Pinto, os motoristas das empresas de camionagem que servem todo o concelho e ainda os operários dos estaleiros da Parry & Son.

Outros — o operariado da vila de Almada e o do restante concelho — nem sequer comparecem nos locais de trabalho. Estão neste caso os corticeiros da vila, designadamente os das fábricas Harry Bucknall & Sons, Rankin & Sons, Armstrong & Cork, bem como os que trabalham no Caramujo, Cova da Piedade, Ginjal, Margueira, Banática, Mutela e arredores, ou seja, todos os corticeiros do concelho. E também os operários das fábricas de moagem Aliança e dos Moinhos Reunidos, ambas situadas na Cova da Piedade, os operários dos estaleiros de barcos de madeira da Mutela, os operários de algumas fábricas de conservas, todos os operários da construção civil com obras na Mutela, Cova da Piedade, Porto Brandão, Trafaria, Caparica e Almada, com destaque para os 500 operários que nesta última localidade trabalham então na construção do Arsenal do Alfeite. E o mesmo se passa com os operários de serviços metalúrgicos do concelho e com os operários dos depósitos da Shell, situados na Banática, com os da fábrica de gelo da Companhia Portuguesa de Pesca, no Olho de Boi, e, enfim, com os estivadores e descarregadores de cais.

De uma maneira ou de outra, toda a população industrial do concelho adere à greve. E nem as forças da polícia locais, nem a chegada de 30 praças da GNR, nem a de 40 marinheiros e 2 sargentos da Armada, com os respectivos tenentes, nem as operações de policiamento e de demonstração de força que a sua permanência nas ruas representa — a que se juntará ainda no próprio dia 18 a suspensão do jornal local O Almadense —, levarão a maior parte dos grevistas a apresentarem-se ou a retomarem o trabalho. Apenas os motoristas de camionagem, após terem sido requisitados pelo administrador do concelho, rompem a greve ao fim do dia 18.

Mesmo a 19, se a maioria do operariado retoma o trabalho, alguns impenitentes se mantêm. Os operários corticeiros — com excepção dos da Margueira — e os operários das fábricas de moagem vão permanecer em greve, o que levará à prisão de 24 dos principais dirigentes sindicais do concelho de Almada, e só regressam ao trabalho a 20.»

Maria de Fátima Patriarca, “O «18 de Janeiro»: uma proposta de releitura”, Análise Social, vol. XXVII (123-124), 1993, pp. 1137-1152

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(Cacilhas) Centro de Cultura Libertária recebe sessão sobre Maria de Lurdes este sábado, dia 19 de Novembro


19nov
Dia 19 de Novembro, SÁBADO, 20 horas | Sessão de Esclarecimento com Mário Gomes (com jantar vegetariano)

ENCONTROS DA RADICALIDADE IMPOSSÍVEL

LIBERDADE PARA A MARIA DE LURDES

A Maria de Lurdes Lopes Rodrigues é uma activista que integrou mas últimas décadas múltiplos movimentos sociais e uma investigadora a quem foi recusada, em 1996, uma bolsa de longa duração no estrangeiro concedida pelo Ministério da Cultura através do Gabinete de Relações Culturais Internacionais, então, com a Direcção de Patrícia de Salvação Barreto. Este autêntico processo kafkiano em que a rebelde artista Maria de Lurdes se envolveu, concordando com as palavras do seu amigo de longa data Mário Gomes, começou há 20 anos e depois de ter estudado no curso de escultura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. No seguimento da decisão administrativa que falseava as normas regulamentares para a atribuição da bolsa de estudos, Maria de Lurdes insistiu tenazmente na sua situação iniciando um escabroso caminho de processos em tribunais administrativos, tendo na altura sido condenada a três anos de prisão suspensa por: «difamação agravada, injúria agravada, denúncia caluniosa e ofensa a pessoa colectiva, organismo e serviço e perturbação de funcionamento de órgão constitucional». Quando intimada pelo tribunal a receber tratamento psiquiátrico, comprovado não ter necessidade, recusou a tal ser submetida. A activista Maria de Lurdes foi detida no dia 29 de Setembro último, culminando a sentença em três anos de prisão efectiva que cumpre no Estabelecimento Prisional de Tires.

Carlos Gordilho

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