CGT

Nos 100 anos de “A Batalha”, um documento a recordar: ‘Às armas, portanto!’


Capturar.JPG

 

PROCLAMAÇÃO AO OPERARIADO DE LISBOA

     Mais uma vez no desenrolar dos acontecimentos políticos para os quais em nada contribuímos, se põem em jogo macabro a sorte dos operários, das vítimas seculares de todas as suas tranquibérnias.

     Apesar, porém, da situação especial e do alheamento que devemos manter ante o escabujar da demência burgueza, neste agonizar de lutas sangrentas provocadas pela sêde de mando, não podemos, contudo, na presente emergência, conservarmo-nos impassíveis, em apertada obediência aos princípios por que nos norteamos. É que a fatalidade dos acontecimentos adregados no meio em que sômos forçados a viver, arrastam-nos para o fragôr da contenda, se não quizermos perder as débeis liberdades que fruímos.

     Já não se trata só de defender políticos: é preciso defender camaradas nossos, é preciso manifestarmos a todos os dominantes que a classe trabalhadora existe como uma força organizada, com quem se deve contar, e que, apesar de tudo, ainda mais uma vez está disposta a combater pela República, não pelas garantias que lhe têm dado, mas pelo princípio de liberdade que ela encarna e que os trabalhadores antevêem no horizonte amplo das suas aspirações.

     É certo, indubitável e tristemente certo, que a acção dos operários por significativa e valiosa que seja, é esquecida ao outro dia da vitória quando as corujas se começam a apropinquar da célebre lâmpada de azeite; mas há um princípio sagrado a defender, princípio a que todo o operário consciente imola os seus justificados ressentimentos: é o princípio da liberdade.

     Ele está prestes a sossobrar. Os próceres de Ditadura sufocaram a voz da Imprensa, derrogaram o princípio da greve, restringiram e burocratizaram o direito de reunião e avolumaram, pelos seus incongruentes actos de administração, a crise do trabalho.

     Amanhã, quando vencedores, senhores absolutos dos destinos deste pobre povo, repetenados na sua empáfia, agindo descricionariamente, não terão pêjo em reduzir todos os trabalhadores à deprimente condição de sudras e deportar para as plagas africanas os que não se prosternem ante os seus suzeranos caprichos.

     CAMARADA:

     Chegou o momento de te decidires ! Estão em perigo as tuas poucas liberdades e o teu pão. Dum lado, a tôrva reacção, com todo o cortejo de expoliações e velharias, empunhando o ceptro e a corôa ; do outro, ainda que mal representada, a liberdade na efígie da República. Contudo, é preferível decidirmo-nos por esta. Então, ÀS ARMAS !

     Que o sacrifício do nosso sangue em revolta sagre as ideias que nos animam e faça arripiar caminho àqueles que dele se têm servido em conjunturas idênticas.

     A nossa liberdade tem que ser conquistada com o nosso esforço. Reivindiquemos com a nossa acção uma parte dessa liberdade !

     Que nenhum operário deixe de cumprir o seu dever !

     ÀS ARMAS, POIS !

     O encerramento do nosso órgão, A Batalha, as prisões em massa levadas a efeito por um governo despótico, devem ser incentivo suficiente para que todos os operários abandonem o trabalho e acorram aos pontos que oportunamente lhes serão indicados para agirem em defesa da liberdade.

     A partir de hoje, a Câmara Sindical de Trabalho e o Comité Pró-Unidade declaram a greve geral revolucionária.

     Cumprindo com esta deliberação o seu dever, esperam que todos os operários saibam cumprir o seu.

     ÀS ARMAS, PORTANTO !

A Câmara Sindical de Trabalho

O “Comité” Pró-Unidade

     Em virtude de se encontrarem seladas as sedes das centrais operárias de Lisboa, esta proclamação, não pode, por este facto, levar o respectivo label confederal.

__________________________________

Este apelo das centrais operárias de Lisboa à greve geral revolucionária e à insurreição armada contra a ditadura fascista não está datado, mas é seguramente de 5 ou 6 de Fevereiro de 1927, pois A Batalha e a CGT foram assaltadas pela polícia na noite de 5, sendo presos todos quantos lá se encontravam, e, em Lisboa, a tentativa revolucionária deu-se no dia 7.

Sobre a revolta de Fevereiro de 1927 veja-se nomeadamente:

http://www.jornalmapa.pt/2014/02/28/a-revolta-de-fevereiro-de-1927/

por: angelo barreto

Anúncios

“A Batalha” 277-278 em PDF


a batalha

Aqui: Nº 277 278

99 anos de A Batalha
 
A 23 de Janeiro de 1919 surgia o primeiro número do diário
A Batalha. Inicialmente, o jornal era propriedade da União
Operária Nacional, mas, poucos meses mais tarde, com a
formação da Confederação Geral do Trabalho, passaria
para a égide deste nova organismo sindical. O porta-voz
da organização operária portuguesa teve uma vida
atribulada: foi proibido de se publicar em 1927, aquando do
assalto policial à antiga redacção na Calçada do Combro;
teve um regresso efémero como semanário em 1930;
publicou-se na clandestinidade, perante o olhar saloio do
salazarismo; regressou a 21 de Setembro de 1974 como
quinzenário. Quase um século depois, A Batalha deixou
cair o epíteto de jornal sindicalista revolucionário e
tornou-se um bimestral de expressão anarquista, que se
publica devido à vontade de um grupo de associados do
Centro de Estudos Libertários e de inúmeros colaboradores
que, graciosamente, lhe oferecem a sua pena. Assim,
da actualidade política ao espaço público, da cultura à
reflexão ideológica, da sátira à poesia e ao conto, da
cidade ao indivíduo, A Batalha prepara-se para festejar os
seus 100 anos criticando e ridicularizando a dominação
quotidiana.
Rede de colaboradores
 
É desejo da redacção de A Batalha e dos associados do
Centro de Estudos Libertários evitar que este jornal se
mantenha centralizado em Lisboa e arredores. Com a
renovação da rede de distribuição de jornais, do norte ao
sul e nas ilhas, com as assinaturas a percorrerem todo o
país, é importante que A Batalha espelhe essa diversidade
nas suas páginas e se descentralize. Assim, convidam-se
os leitores e assinantes do jornal a entrarem em contacto
com a redacção, caso desejem colaborar regular ou
ocasionalmente com artigos, reportagens ou entrevistas
sobre as suas lutas locais ou no âmbito das criações
culturais de margem, que tanto nos movem na feitura de A
Batalha.
Novo apartado do CEL / A Batalha e novas condições de
assinatura
 
Notificam-se todos os interessados em corresponder-se
ou em enviar publicações para o Centro de Estudos
Libertários / A Batalha que devem fazê-lo para o nosso
novo apartado: CEL/A BATALHA, APARTADO 4037, 1501-
001 LISBOA, PORTUGAL. A Batalha deixa de disponibilizar
a opção de envio do jornal com cinta que, daqui em diante,
será sempre enviado em envelope.
Apoia A Batalha com uma assinatura
 
CONDIÇÕES DE ASSINATURA
Continente | 6 nºs: 6,98€ / 12 nºs: 12,97€
Ilhas, via aérea | 6 nºs: 7,98€ / 12 nºs: 15,46€
Ilhas, via económica | 6 nºs: 6,98€ / 12 nºs: 12,97€
Europa | 6 nºs: 11,97€ / 12 nºs: 22,45€
Extra-Europa, via aérea | 6 nºs: 15,56€ / 12 nºs: 27,93€
Extra-Europa, via económica | 6 nºs: 11,97€ / 12 nºs: 22,45€
O pagamento poderá ser efectuado para o NIB do CEL: 0033
0000 0001 0595 5845 9.
Saudações libertárias,

CEL (Centro de Estudos Libertários) / Jornal ‘A Batalha

PCP: o que fazer com esta palavra comunismo?


pcp

*

“Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” 

Bakunin

*

Historicamente, o PCP foi fundado exactamente há 97 anos, no dia 6 de Março de 1921, numa reunião em Lisboa, quatro anos depois, e sob o impacto ainda, da Revolução russa.

Dizem as notícias da época que a reunião terminou com vivas ao PCP e à CGT, a central sindical da altura, anarcosindicalista e hegemónica no meio dos trabalhadores em Portugal.

Ao contrário de outros países, os anarquistas não tiveram qualquer papel na criação do PCP, que foi obra de antigos marxistas e sindicalistas sem qualquer marca ideológica que, muito depressa, começaram a combater os anarquistas nos sindicatos e a criar um movimento sindical paralelo, à margem da CGT, sempre que podiam.

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e com a acentuada repressão sobre a CGT e o movimento operário de índole anarquista, o PCP vive um período relativamente calmo, só interrompido pela jornada de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos. Por proposta da CGT e do movimento libertário, os comunistas e os socialistas decidem participar numa jornada de protesto contra a tentativa do governo fascista de controlar totalmente as estruturas sindicais, cujas direcções teriam que, a partir de então, ser aprovadas pelo poder político e sujeitas a estatutos uniformes elaborados pelo governo.

Esta ingerência era inadmissível para o movimento operário organizado na CGT, que decretou uma greve geral à margem do “status quo” salazarista. A greve mobilizou milhares de trabalhadores nos locais onde a CGT tinha uma forte influência: margem sul (Almada, Barreiro, Alentejo, Silves…), enquanto que nos locais onde o PCP era mais influente redundou em fogachos de poucas horas (Marinha Grande, por exemplo) ou até em acções meramente provocatórias – a explosão de uma bomba na véspera do início do movimento na Póvoa de Santa Iria, pondo a polícia de sobreaviso. (Fátima Patriarca: Sindicatos contra Salazar)

Anos depois, Bento Gonçalves (secretário-geral do PCP) diria que o movimento foi uma “anarqueirada”, eventualmente referindo-se às acções que os seus camaradas na altura levaram a cabo…

Presos às centenas os anarquistas, conhecidos por estarem na direcção dos sindicatos e por serem os elementos políticos mais activos e combativos, as suas organizações são desmanteladas e os seus líderes exilados (muitos irão, pouco depois, abrir o Campo de Concentração do Tarrafal).

Alguns comunistas são presos nesta ocasião, mas com uma actividade mais limitada e sem uma verdadeira inserção no movimento operário, algumas das suas estruturas são deixadas incólumes (nomeadamente as Juventudes) e, mais tarde, sob a ajuda directa da União Soviética, e dos seus apoios económicos, reconstruidas em termos de equipamentos e funcionários. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril)

Ao mesmo tempo que os sindicatos dirigidos pelos anarquistas eram fechados por não aceitarem a tutela governamental, diversos comunistas aceitavam participar nos sindicatos fascistas, assumindo um colaboracionismo que os anarquistas nunca aceitaram.

Com a União Soviética em plena época expansionista – em que a palavra de ordem era dar força aos partidos comunistas nacionais para servirem de retaguarda e de forças avançadas da “pátria do socialismo” – , com a derrota anarquista na revolução espanhola, com os seus militantes mais esclarecidos e determinados presos, o que aconteceu em Portugal (e também na generalidade dos países da Europa e do continente americano) era previsível: a pouco e pouco os anarquistas foram cedendo o espaço e o palco aos comunistas, num mundo bipolarizado entre a União Soviética e o “Ocidente”.

Apesar desta profunda separação ideológica, os que lutavam na trincheira de revolução social – anarquistas e comunistas – pouco se diferenciavam em termos sociais: operários, trabalhadores agrícolas, povo explorado a lutar por melhores condições de vida e por uma sociedade mais justa, sem explorados nem exploradores, sem opressores nem oprimidos. Muitos, de um e de outro lado, sofreram na prisão, outros com a morte, o desejo de um mundo novo.

Os que os diferenciava e diferencia é a postura ideológica, os princípios que estão na base da construção dos ideais com que cada um conforma a sua visão da realidade. E que teve claras consequência práticas, como a história hoje nos demonstra.

O pensamento marxista-leninista, ainda hoje reivindicado pelo PCP, assenta numa visão autoritária da sociedade, hierárquica e modelada por um estado-maior que tudo dirige e controla. Aspira a conquistar o poder e , a partir do Estado, “mudar” a sociedade. Em seu nome cometeram-se os maiores crimes da humanidade no século XX, só comparáveis com os crimes do nazi-fascismo.

Ditaduras imensas, para os povos que as sofreram, de Stalin a Pol Pot, dos ditadores africanos à Coreia do Norte há muito para escolher, mas com um mesmo denominador: regimes sanguinários que fizeram com que palavras como socialismo ou comunismo, antes sinónimos de igualdade e liberdade, sejam hoje sinónimos de barbárie e despotismo.

O marxismo, como antes já Bakunin sublinhara, ao fazer tábua rasa da liberdade e da autonomia individual e colectiva, serviu de alimento teórico às ditaduras que, em nome do proletariado e do povo, no último século destruíram por completo o legado socialista e revolucionário dos precursores do movimento operário, que propugnava um mundo novo, igualitário e fraterno,  para o género humano

O PCP é cúmplice destes crimes contra a humanidade. Não por ter exercido o poder (se o tivesse exercido teria sido, teoria oblige!, tão miserável como aqueles de cuja história se reivindica e que usaram e abusaram do poder – URSS, democracias de leste, etc.), mas por ter sido cúmplice de muitas décadas de espezinhamento dos direitos mais elementares em várias partes do mundo e se ter aproveitado do apoio económico e logístico desses regimes em troca do seu silêncio e aplauso. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril )

Hoje, 100 anos depois da revolução russa, palavras como socialismo ou comunismo, que mobilizaram, exaltaram, deram esperança e alento a milhões de trabalhadores, de pobres e de excluídos por todo o mundo, transformaram-se em sinónimo de opressão, morte e exploração. O autoritarismo marxista, que está na base das propostas políticas do PCP, a isso conduziu. Como conduziu, mais abruptamente, o leninismo. O stalinismo e os outros regimes despóticos saídos do socialismo real foram apenas a consequência lógica de uma ideologia que refuta a liberdade e a autonomia individuais e colectivas, dando primazia a um grupo de “escolhidos” ou eleitos (sabe-se lá por que deuses) para gerirem a sociedade no seu todo.

Pela data que hoje se assinala, o PCP está de parabéns. Mas, apesar de ter tido um papel importante na luta contra o fascismo em Portugal, nada o diferencia dos regimes que sempre apoiou – e que representam regimes bárbaros, autocráticos e violadores dos valores mais elementares de liberdade e igualdade que, no século XX, só tiveram paralelo com os regimes fascistas e totalitários da extrema-direita.

São a cara e a coroa da mesma moeda.

Merecerá que alguém lhe dê os parabéns?

A.Nunes (recebido por email)

Capturar

http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/29_BNP_AHS2376.pdf

 

(CGT) ‘Libre Pensamiento’ com dossier sobre ‘Feminismos’


Capturar

Para ler e download: http://cgt.org.es/sites/default/files/LP%2091_0.pdf

“Libre Pensamiento”, a revista teórica da CGT espanhola, relativa ao Verão de 2017, já está disponível na internet. Esta edição – já vai no número 91 – dedica especial atenção aos feminismos na óptica do anarquismo.

(Estado Espanhol) Revista ‘Libre Pensamiento’ com dossier sobre as “Enseñanzas vivas de Mayo de 1937”


Screenshot

Já está disponível na internet a edição 90 da revista Libre Pensamiento da CGT espanhola, com um dossier dedicado às lições que nos ficaram de Maio de 1937, ano da ruptura entre comunistas e anarquistas na Revolução Espanhola.

(memória libertária) Francisco António Ximenes, alentejano de Via Glória – Mértola


21014122_1623172204381126_5852697530011877370_o

Francisco António Ximenes, trabalhador rural, anarquista, membro do grupo anarquista “Via Anárquica”, de S. Bartolomeu de Via Glória – Mértola, aqui evocado pela antropóloga Paula Godinho:

“Pertenceu a uma geração em que o anarquismo cativava, nos campos do sul. O meu pai falava dele, como de Gonçalves Correia, com admiração, e o meu avô foi amigo de ambos. A PIDE perseguiu-o toda a vida, pois sabia-o capaz de levantar os ceifeiros e outros trabalhadores por melhor salário e redução de horário. Crimes terríveis, claro. Mas do que mais gostava o tio Ximenes era de falar de vegetarianismo, de milenarismos niveladores e de soltar pássaros que viviam em gaiolas. Perigosos, estes alentejanos.” (Paula Godinho)

(Portugal) Programa libertário para a construção de uma nova organização social após a II Guerra Mundial


capturar

Ler (em PDF) Os problemas actuais do anarquismo e do sindicalismo

também aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=12&id=1317

“Opomos ao critério centralista da unidade o princípio libertário da união” escreviam os libertários portugueses em 1945

Com o desenrolar da II Guerra Mundial e a previsível vitória dos Aliados, os antifascistas portugueses, incluindo os anarquistas, estavam, em geral, convencidos de que o regime fascista de Salazar tinha os dias contados. Não foi isso que aconteceu, Salazar – tal como Franco – conseguiu sobreviver à queda de Hitler e Mussolini, mas os sectores oposicionistas festejaram a queda do nazi-fascismo como a antecâmara do fim da ditadura em Portugal.

Preso na Penitenciária de Coimbra e a cumprir uma pena de 16 anos de cárcere por ter sido um dos organizadores e um dos autores do atentado a Salazar, em Julho de 1937, Emídio Santana elaborou um documento onde analisa a situação que se vive em Portugal, o posicionamento dos diversos sectores oposicionistas, a necessidade do reforço da presença anarquista e esboça um programa futuro para a concretização de uma sociedade de características libertárias assente numa Confederação Sindical (a CGT) e numa Confederação de Municípios que cobrisse todo o território, numa aproximação às teses proudhonianas, mais tarde retomadas por Murray Bookchin.

(mais…)