CGT

“A Batalha” 277-278 em PDF


a batalha

Aqui: Nº 277 278

99 anos de A Batalha
 
A 23 de Janeiro de 1919 surgia o primeiro número do diário
A Batalha. Inicialmente, o jornal era propriedade da União
Operária Nacional, mas, poucos meses mais tarde, com a
formação da Confederação Geral do Trabalho, passaria
para a égide deste nova organismo sindical. O porta-voz
da organização operária portuguesa teve uma vida
atribulada: foi proibido de se publicar em 1927, aquando do
assalto policial à antiga redacção na Calçada do Combro;
teve um regresso efémero como semanário em 1930;
publicou-se na clandestinidade, perante o olhar saloio do
salazarismo; regressou a 21 de Setembro de 1974 como
quinzenário. Quase um século depois, A Batalha deixou
cair o epíteto de jornal sindicalista revolucionário e
tornou-se um bimestral de expressão anarquista, que se
publica devido à vontade de um grupo de associados do
Centro de Estudos Libertários e de inúmeros colaboradores
que, graciosamente, lhe oferecem a sua pena. Assim,
da actualidade política ao espaço público, da cultura à
reflexão ideológica, da sátira à poesia e ao conto, da
cidade ao indivíduo, A Batalha prepara-se para festejar os
seus 100 anos criticando e ridicularizando a dominação
quotidiana.
Rede de colaboradores
 
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Centro de Estudos Libertários evitar que este jornal se
mantenha centralizado em Lisboa e arredores. Com a
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PCP: o que fazer com esta palavra comunismo?


pcp

*

“Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” 

Bakunin

*

Historicamente, o PCP foi fundado exactamente há 97 anos, no dia 6 de Março de 1921, numa reunião em Lisboa, quatro anos depois, e sob o impacto ainda, da Revolução russa.

Dizem as notícias da época que a reunião terminou com vivas ao PCP e à CGT, a central sindical da altura, anarcosindicalista e hegemónica no meio dos trabalhadores em Portugal.

Ao contrário de outros países, os anarquistas não tiveram qualquer papel na criação do PCP, que foi obra de antigos marxistas e sindicalistas sem qualquer marca ideológica que, muito depressa, começaram a combater os anarquistas nos sindicatos e a criar um movimento sindical paralelo, à margem da CGT, sempre que podiam.

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e com a acentuada repressão sobre a CGT e o movimento operário de índole anarquista, o PCP vive um período relativamente calmo, só interrompido pela jornada de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos. Por proposta da CGT e do movimento libertário, os comunistas e os socialistas decidem participar numa jornada de protesto contra a tentativa do governo fascista de controlar totalmente as estruturas sindicais, cujas direcções teriam que, a partir de então, ser aprovadas pelo poder político e sujeitas a estatutos uniformes elaborados pelo governo.

Esta ingerência era inadmissível para o movimento operário organizado na CGT, que decretou uma greve geral à margem do “status quo” salazarista. A greve mobilizou milhares de trabalhadores nos locais onde a CGT tinha uma forte influência: margem sul (Almada, Barreiro, Alentejo, Silves…), enquanto que nos locais onde o PCP era mais influente redundou em fogachos de poucas horas (Marinha Grande, por exemplo) ou até em acções meramente provocatórias – a explosão de uma bomba na véspera do início do movimento na Póvoa de Santa Iria, pondo a polícia de sobreaviso. (Fátima Patriarca: Sindicatos contra Salazar)

Anos depois, Bento Gonçalves (secretário-geral do PCP) diria que o movimento foi uma “anarqueirada”, eventualmente referindo-se às acções que os seus camaradas na altura levaram a cabo…

Presos às centenas os anarquistas, conhecidos por estarem na direcção dos sindicatos e por serem os elementos políticos mais activos e combativos, as suas organizações são desmanteladas e os seus líderes exilados (muitos irão, pouco depois, abrir o Campo de Concentração do Tarrafal).

Alguns comunistas são presos nesta ocasião, mas com uma actividade mais limitada e sem uma verdadeira inserção no movimento operário, algumas das suas estruturas são deixadas incólumes (nomeadamente as Juventudes) e, mais tarde, sob a ajuda directa da União Soviética, e dos seus apoios económicos, reconstruidas em termos de equipamentos e funcionários. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril)

Ao mesmo tempo que os sindicatos dirigidos pelos anarquistas eram fechados por não aceitarem a tutela governamental, diversos comunistas aceitavam participar nos sindicatos fascistas, assumindo um colaboracionismo que os anarquistas nunca aceitaram.

Com a União Soviética em plena época expansionista – em que a palavra de ordem era dar força aos partidos comunistas nacionais para servirem de retaguarda e de forças avançadas da “pátria do socialismo” – , com a derrota anarquista na revolução espanhola, com os seus militantes mais esclarecidos e determinados presos, o que aconteceu em Portugal (e também na generalidade dos países da Europa e do continente americano) era previsível: a pouco e pouco os anarquistas foram cedendo o espaço e o palco aos comunistas, num mundo bipolarizado entre a União Soviética e o “Ocidente”.

Apesar desta profunda separação ideológica, os que lutavam na trincheira de revolução social – anarquistas e comunistas – pouco se diferenciavam em termos sociais: operários, trabalhadores agrícolas, povo explorado a lutar por melhores condições de vida e por uma sociedade mais justa, sem explorados nem exploradores, sem opressores nem oprimidos. Muitos, de um e de outro lado, sofreram na prisão, outros com a morte, o desejo de um mundo novo.

Os que os diferenciava e diferencia é a postura ideológica, os princípios que estão na base da construção dos ideais com que cada um conforma a sua visão da realidade. E que teve claras consequência práticas, como a história hoje nos demonstra.

O pensamento marxista-leninista, ainda hoje reivindicado pelo PCP, assenta numa visão autoritária da sociedade, hierárquica e modelada por um estado-maior que tudo dirige e controla. Aspira a conquistar o poder e , a partir do Estado, “mudar” a sociedade. Em seu nome cometeram-se os maiores crimes da humanidade no século XX, só comparáveis com os crimes do nazi-fascismo.

Ditaduras imensas, para os povos que as sofreram, de Stalin a Pol Pot, dos ditadores africanos à Coreia do Norte há muito para escolher, mas com um mesmo denominador: regimes sanguinários que fizeram com que palavras como socialismo ou comunismo, antes sinónimos de igualdade e liberdade, sejam hoje sinónimos de barbárie e despotismo.

O marxismo, como antes já Bakunin sublinhara, ao fazer tábua rasa da liberdade e da autonomia individual e colectiva, serviu de alimento teórico às ditaduras que, em nome do proletariado e do povo, no último século destruíram por completo o legado socialista e revolucionário dos precursores do movimento operário, que propugnava um mundo novo, igualitário e fraterno,  para o género humano

O PCP é cúmplice destes crimes contra a humanidade. Não por ter exercido o poder (se o tivesse exercido teria sido, teoria oblige!, tão miserável como aqueles de cuja história se reivindica e que usaram e abusaram do poder – URSS, democracias de leste, etc.), mas por ter sido cúmplice de muitas décadas de espezinhamento dos direitos mais elementares em várias partes do mundo e se ter aproveitado do apoio económico e logístico desses regimes em troca do seu silêncio e aplauso. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril )

Hoje, 100 anos depois da revolução russa, palavras como socialismo ou comunismo, que mobilizaram, exaltaram, deram esperança e alento a milhões de trabalhadores, de pobres e de excluídos por todo o mundo, transformaram-se em sinónimo de opressão, morte e exploração. O autoritarismo marxista, que está na base das propostas políticas do PCP, a isso conduziu. Como conduziu, mais abruptamente, o leninismo. O stalinismo e os outros regimes despóticos saídos do socialismo real foram apenas a consequência lógica de uma ideologia que refuta a liberdade e a autonomia individuais e colectivas, dando primazia a um grupo de “escolhidos” ou eleitos (sabe-se lá por que deuses) para gerirem a sociedade no seu todo.

Pela data que hoje se assinala, o PCP está de parabéns. Mas, apesar de ter tido um papel importante na luta contra o fascismo em Portugal, nada o diferencia dos regimes que sempre apoiou – e que representam regimes bárbaros, autocráticos e violadores dos valores mais elementares de liberdade e igualdade que, no século XX, só tiveram paralelo com os regimes fascistas e totalitários da extrema-direita.

São a cara e a coroa da mesma moeda.

Merecerá que alguém lhe dê os parabéns?

A.Nunes (recebido por email)

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http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/29_BNP_AHS2376.pdf

 

(CGT) ‘Libre Pensamiento’ com dossier sobre ‘Feminismos’


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Para ler e download: http://cgt.org.es/sites/default/files/LP%2091_0.pdf

“Libre Pensamiento”, a revista teórica da CGT espanhola, relativa ao Verão de 2017, já está disponível na internet. Esta edição – já vai no número 91 – dedica especial atenção aos feminismos na óptica do anarquismo.

(Estado Espanhol) Revista ‘Libre Pensamiento’ com dossier sobre as “Enseñanzas vivas de Mayo de 1937”


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Já está disponível na internet a edição 90 da revista Libre Pensamiento da CGT espanhola, com um dossier dedicado às lições que nos ficaram de Maio de 1937, ano da ruptura entre comunistas e anarquistas na Revolução Espanhola.

(memória libertária) Francisco António Ximenes, alentejano de Via Glória – Mértola


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Francisco António Ximenes, trabalhador rural, anarquista, membro do grupo anarquista “Via Anárquica”, de S. Bartolomeu de Via Glória – Mértola, aqui evocado pela antropóloga Paula Godinho:

“Pertenceu a uma geração em que o anarquismo cativava, nos campos do sul. O meu pai falava dele, como de Gonçalves Correia, com admiração, e o meu avô foi amigo de ambos. A PIDE perseguiu-o toda a vida, pois sabia-o capaz de levantar os ceifeiros e outros trabalhadores por melhor salário e redução de horário. Crimes terríveis, claro. Mas do que mais gostava o tio Ximenes era de falar de vegetarianismo, de milenarismos niveladores e de soltar pássaros que viviam em gaiolas. Perigosos, estes alentejanos.” (Paula Godinho)

(Portugal) Programa libertário para a construção de uma nova organização social após a II Guerra Mundial


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Ler (em PDF) Os problemas actuais do anarquismo e do sindicalismo

também aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=12&id=1317

“Opomos ao critério centralista da unidade o princípio libertário da união” escreviam os libertários portugueses em 1945

Com o desenrolar da II Guerra Mundial e a previsível vitória dos Aliados, os antifascistas portugueses, incluindo os anarquistas, estavam, em geral, convencidos de que o regime fascista de Salazar tinha os dias contados. Não foi isso que aconteceu, Salazar – tal como Franco – conseguiu sobreviver à queda de Hitler e Mussolini, mas os sectores oposicionistas festejaram a queda do nazi-fascismo como a antecâmara do fim da ditadura em Portugal.

Preso na Penitenciária de Coimbra e a cumprir uma pena de 16 anos de cárcere por ter sido um dos organizadores e um dos autores do atentado a Salazar, em Julho de 1937, Emídio Santana elaborou um documento onde analisa a situação que se vive em Portugal, o posicionamento dos diversos sectores oposicionistas, a necessidade do reforço da presença anarquista e esboça um programa futuro para a concretização de uma sociedade de características libertárias assente numa Confederação Sindical (a CGT) e numa Confederação de Municípios que cobrisse todo o território, numa aproximação às teses proudhonianas, mais tarde retomadas por Murray Bookchin.

(mais…)

(memória libertária)Biografia de José Correia Pires (1907-1976)


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Almoço de reencontro de anarquistas em Almada logo após o 25 de Abril de 1974. Na foto (da esquerda para a direita), Sebatião Almeida, Correia Pires, Emídio Santana e Francisco Quintal

José Correia Pires, filho de João Correia e de Isabel Pires, nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 17 de Abril de 1907 (1). Seus pais eram analfabetos, mas puseram-no na escola. Aí teve o primeiro contacto com a ideologia libertária. Fez-se amigo de um colega, o filho do destacado anarquista messinense José Inácio. O episódio que marcou a orientação que seguiu foi o de ter assistido a um comício onde José Negrão Büisel, “um dos maior propagandistas no tempo do anarco-sindicalismo”(2), era o orador principal. As suas palavras tiveram em José Correia Pires “um belo receptáculo”(3). A partir daí, aderiu de alma e coração aos ideais do anarquismo.

José Correia Pires teve um papel fundamental no núcleo das Juventudes Sindicalistas de Messines. Foi desde cedo operário de carpintaria.

A sua prisão foi ordenada pelo Administrador do Concelho, em Janeiro de 1931, por causa do incidente com a escola que abrira no Sindicato da Construção Civil. Escapou à Polícia, dessa vez, devido à intervenção de Manuel Caetano de Sousa, a quem recorreu, em Faro, e que o ajudou a livrar-se da prisão certa quando chegasse a Silves.

Em 1932, devido à agitação que provocou junto dos trabalhadores das estradas, para que fosse cumprido o horário de trabalho, teve de se ausentar por uns meses de Messines, sendo preso, posteriormente, no mesmo ano. Foi para o Aljube, onde ficou seis meses e onde contactou com uma plêiade de militantes notáveis, nomeadamente Manuel Joaquim de Sousa, Correia de Sousa, Luís Laranjeira, José Augusto de Castro, Emídio Santana e Miquelino da Silva Pimentel, entre outros.

Em 1933, foi julgado no Tribunal Militar Especial, tendo sido absolvido. A sua defesa esteve a cargo de Mourinho da Silva, advogado do Conselho Jurídico da CGT.

Regressado a Messines, José Correia Pires destacou-se na preparação da greve de 18 de Janeiro de 1934, pelo que reuniu com Mário Castelhano e vários delegados do Barlavento. Durante o Verão de 1933, “com o auxílio de um núcleo de camaradas”(4), trabalhou intensamente pela região. Foi, juntamente com Virgílio Barroso, o principal mentor da acção revolucionária que deveria ter tido lugar em Messines, não tivessem sido descobertos alguns dos explosivos escondidos. Por causa disso, viu-se “constrangido a fugir, mas era tão difícil escapar as garras da PIDE” (5), que teve de recorrer ao exílio. A mesma sorte não teve Virgílio Barroso, que com ele fugira para a serra, aquando da descoberta dos explosivos, e que decidira regressar, passados alguns dias, confiante que o perigo maior já teria passado, acabando por ser preso.

José Correia Pires dirigiu-se a S. Marcos da Serra, onde se manteve escondido algum tempo em casa de José Ventura Vargas(6), um democrata local. Encontrava-se aí, quando a greve de 18 de Janeiro de 1934 estalou, tendo sabido por esse amigo o que se passara. Oito dias mais tarde, resolveu ir para o Alentejo onde tinha família. Circulou clandestinamente pela Funcheira, Mina do Lousal, S. Domingos, Cercal e Ermidas sempre ajudado por anarquistas seus conhecidos e pelos ferroviários do “Sul e Sueste”. Em Ermidas, preparou a sua ida para Espanha, onde permaneceu quinze meses. Dirigiu-se a Sevilha, onde foi solidariamente recebido por camaradas espanhóis. Aí conviveu com Adriano Pimenta, da Federação Anarquista dos Portugueses Exilados (FAPE) (7), ligada à Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP). Passou por Alcalá de Guadayra, onde foi preso. Foi libertado pela intervenção do Comité Pró-Presos dessa localidade. Seguiu depois para Córdova e daí para Madrid em atribulada viagem(8). Aí restabeleceu as ligações, tendo ficado com Reboredo à frente do secretariado da FAPE, no qual desenvolveu notável acção de propaganda e editou um número, em forma de boletim, do Rebelião, órgão dessa organização. Foi a Jaime Cortesão e ao «Grupo dos Budas» a quem José Correia Pires recorreu para arranjar documentação(9) que lhe possibilitasse ir para França. Não tendo conseguido passar a fronteira, ficou algum tempo em S. Sebastian, onde arranjou trabalho. O ambiente tumultuoso e o perigo eminente em Espanha, os riscos que corria e a precariedade da sua situação fizeram com que se decidisse pelo regresso a Portugal. Esteve em Sevilha e entrou em Portugal clandestinamente por S. Domingos, pelo mesmo caminho que tinha saído.

A vida que o esperava na clandestinidade não era menos dura do que a no exílio. Em Lisboa, reencontrou-se com sua mulher, que ficou com ele, juntamente com os seus cinco filhos. Reatou os contactos e adoptou o pseudónimo de “Júlio Rocha” (10). Instalou-se numa casa no Alto de S. João, com o arquivo da organização e uma espécie de tipografia. Mudou várias vezes de casa. Ligou-se a elementos do “Reviralho”, tendo estado presente em reuniões conspirativas (11). Foi numa destas reuniões na casa onde residia que foi preso, a 5 de Novembro de 1936, com Antonino Francisco (12), numa cena digna do cinema. Ficou nos calabouços do Governo Civil, “os mais imundos no tempo” (13). Passou pelas cadeias da 1ª Esquadra e do Aljube (14). Esteve em regime de incomunicabilidade 86 dias. A 5 de Junho de 1937, foi embarcado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde (15), onde iria encontrar muitos conterrâneos. A sua primeira noite no “campo da morte” foi a 12 de Junho de 1937. Três meses após a sua chegada, teve início o violento surto de biliosa (16), que vitimou muitos presos. Acompanhou o sofrimento e sentiu muito a morte do seu amigo Mário Castelhano. “Com o desaparecimento de Mário Castelhano algo desaparece de nós mesmos e que dificilmente tem explicação” (17).

Sendo carpinteiro de profissão, foi José Correia Pires quem fez a maioria dos caixões dos presos que morreram no Tarrafal. Teve a seu cargo a carpintaria do campo, tendo efectuado muitos trabalhos fora do campo. Fazia também tamancos de madeira para os camaradas. Experimentou a célebre “Frigideira” e fez parte da “Brigada Brava” (18).

Oito anos mais tarde, ou mais exactamente depois de 99 meses de prisão preventiva (19), pois não fora julgado, José Correia Pires regressou a 20 de Fevereiro de 1945, para o Forte de Caxias. Amnistiado(20), foi libertado a 9 de Março de 1945.

Depois de solto, e apesar do que sofrera, José Correia Pires continuou a actividade contra o regime, integrando o comité de acção especial anarquista (21) e o Comité Confederal (22). Fixou residência em Almada, onde desenvolveu uma intensa actividade associativa (23), nomeadamente na “Cooperativa Piedense” e na “Incrível Almadense”, da qual foi Presidente da mesa da Assembleia-Geral (24). Pelo 5 de Outubro de 1956, discursou na sessão comemorativa organizada por Câmara Reis, em Almada (25), com o amplo recinto da Piedense a transbordar de gente entusiasta.

A 16 de Julho de 1973, em Almada, oficializou o seu casamento com Maria Guerreiro Correia (26).

Depois de Abril de 1974 fez parte do grupo “Cultura e Acção Libertária de Almada” e colaborou no jornal Voz Anarquista, que ajudou a fundar, entre outras publicações (27). Instado por Edgar Rodrigues (28) a responder a um inquérito com 75 quesitos, o que fez, decidiu aproveitar essas notas para fazer as suas memórias, que designou de Memórias de um Prisioneiro do Tarrafal, onde nos relata, além da sua rica experiência pessoal, as relações dos comunistas e dos anarquistas, e descreve minuciosamente a organização prisional nesse campo de concentração, bem como a vida trágica dos presos, muitos deles os mais notáveis resistentes ao regime ditatorial nos anos 30. Este livro é de especial interesse para os investigadores (29), abordando, além dos aspectos mencionados, muitos outros sobre a clandestinidade, as prisões e a extrema violência do regime salazarista. Publicou ainda A Revolução Social e a Sua interpretação Anarquista (30).

José Correia Pires faleceu em Almada, a 28 de Outubro de 1976 (31).

Notas:

(1) AP de Aurélio Nuno Cabrita, Registo de Baptismo n.º 77, de José Correia Pires, Igreja Paroquial de S. Bartolomeu de Messines, de 27 de Fevereiro de 1908.

(2) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., p. 15.

(3)Idem, Ibidem.

(4) Cf. BN, Arquivo Histórico Social N 61, Núcleo outros militantes, José Correia Pires, Possível resposta, doc. cit., fl. 15.

(5) Ibidem, fl. 14.

(6) José Ventura Vargas, filho de Ventura Vargas e de Maria Catarina, era natural de S. Marcos. Foi um destacado elemento da propaganda republicana. Fez parte da Comissão Municipal republicana de Silves, que tomou posse a 6 de Outubro de 1910. Em 1912 consorciou-se civilmente com Maria Gomes Santinho, associada da Liga das Mulheres Republicanas. Foi amigo íntimo de João José Duarte, sendo seu sócio nas empresas “Duarte & Granadeiro & C.ª” e na “Sociedade Geral de Cortiças”. Foi um acérrimo opositor do regime salazarista. Residia em S. Marcos da Serra. Deu abrigo a muitos que, pela serra, fugiam à perseguição da Polícia, nomeadamente a alguns dos principais intervenientes no 18 de Janeiro de 1934. Pela sua actividade oposicionistas deverá ter sido detido com Álvaro Santinho Coelho e Ataíde Santinho Coelho, em 1937. Fez parte do MUD e das comissões locais de apoio às candidaturas do General Norton de Matos e de Arlindo Vicente. Esteve sob vigilância permanente da PIDE. Faleceu em S. Marcos da Serra, a 20 de Setembro de 1962.

(7) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., Ed. Deagá, Lisboa, 1975, p. 87. (8)Idem, Ibidem, pp. 96 e 97.

(9) Idem, Ibidem, p. 117.

(10) Idem, Ibidem, p. 127.

(11) Cf. IAN-TT, SC PC 422/37, José Correia Pires, fl. 1, de 1 de Abril de 1937.

(12) Cf. IAN-TT, PIDE/DGS, SC SPS 2410 e SC PC 422/37, José Correia Pires. Os arguidos eram José Correia Pires, António Joaquim, Antonino Francisco e Maria Guilhermina de Moura. Segundo a acusação, José Correia Pires estaria ligado a esta última que, por sua vez, estaria ligada ao ex-Tenente Pissara, a Manuel António Correia, a José Santos Rocha e a Francisco Horta Catarino, que estavam escondidos em sua casa.

(13) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., p. 163.

(14) Cf. Presos Políticos no Regime Fascista, Mem Martins, 1982, Vol. II, 1936/1939, p. 154, «Biografia Prisional de José Correia Pires».

(15) No navio «Lourenço Marques» seguiram 41 presos, a 5 de Junho de 1937, sem saberem se iriam para Angra do Heroísmo ou para Cabo Verde. Foram juntar-se aos presos que já se encontravam no Tarrafal.

(16) Vide adiante, na Parte III, o capítulo 5 – «A longa noite: episódios prisionais».

(17) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., p. 238.

(18) Vide adiante, na Parte III, o capítulo 5 – «A longa noite: episódios prisionais».

(19) Cf. Cândido de Oliveira, Tarrafal o pântano de morte, Lisboa, Editorial República, 1974, p. 30.

(20) Em sessão do TME de 7 de Março de 1945, José Correia Pires foi amnistiado nos termos do Decreto 34377 de 12 de Janeiro de 1945.

(21) Cf. João Freire, Anarquistas e operários: ideologia, ofício e práticas sociais, Biblioteca das ciências do homem. Sociologia, epistemologia, 13, Afrontamento, Porto 1992, p. 241. Deste comité faziam parte Adriano Botelho, Carlos Silva e Alberto Dias, pois os restantes membros tinham sido presos.

(22) Cf. João Freire, «Os anarquistas portugueses na conjuntura do após-guerra», in O Estado Novo das origens ao fim da autarcia 1926-1959, Ob. Cit., Vol. II, p. 10.

(23) Cf. Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras do Almada (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, 1978, pp. 70 e 71. (24) Cf. Luís Alves Milheiro, Almada e a resistência antifascista. Contribuição para a compreensão da importância da oposição democrática no concelho de Almada no período 1926-1974, Edição de autor, 2000. p. 90.

(25) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., p. 266.

(26) Cf. Terra Ruiva, n.º 73, Novembro de 2006, p. 15, «José Correia Pires».

(27)Cf. A Ideia, n.º 7, Verão de 1977, p. 36, «Correia Pires».

(28) Cf. José Correia Pires, Ob. Cit., p. 15.

(29) Cf. António Ventura, Memórias da Resistência, Ob. Cit., pp. 94-97. (30) Cf. José Correia Pires, A Revolução Social e a Sua interpretação Anarquista, Lisboa, RPA, 1975.

(31)  AP de Aurélio Nuno Cabrita, Averbamento no Registo de Baptismo n.º 77, de José Correia Pires, Igreja Paroquial de S. Bartolomeu de Messines, de 27 de Fevereiro de 1908

Maria João Raminhos Duarte ( Historiadora e Investigadora)

aqui: silves e a resistência ao fascismo

José Correia Pires. por entre anarquistas alentejanos (aqui)

José Correia Pires: A revolução social e a sua interpretação anarquista

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