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(crónica em tempo de selfies) Lá vamos cantando, rindo e votando… (1)


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Évora/Não há cão nem gato que não nos queira representar…

Enquanto anarquistas e libertários, determinados na mudança radical da sociedade e na transformação das relações sociais de poder e de produção, pouco nos diz o folclore eleitoral que, de quatro em quatro anos, arrebanha o gado eleitoral para o levar à mesa de voto, encerrando o seu papelinho numa “urna”, ou seja, num lugar destinado a mortos, em que o voto de nada vale porque todo o jogo está já previamente determinado pelos que gerem os cordelinhos do capital e do poder. Se votar mudasse alguma coisa, como sempre disseram os libertários, o voto já estaria proibido.

No entanto, enquanto colectivo sediado em Évora nada do que aqui acontece nos é indiferente, pelo que, após aturada reflexão, decidimos intervir nestas eleições. Não, claro!, apresentando listas ou participando no espectáculo cómico-doentio das eleições autárquicas – que poderiam ser um momento de afirmação do local e das propostas cidadãs, no espírito assembleario do municipalismo libertário, e se tornaram numa caricatura do que mais retrógrado e reaccionário tem o activismo político partidário na sua recorrente afirmação do “vota em mim que sou melhor do que o parceiro do lado”, transformando a vida local num pântano similar ao existente em termos de política nacional, em que os interesses e o modo de vida dos partidos e dos seus dirigentes (grandes, médios e pequenos) se sobrepõem às necessidades e aos interesses das populações em geral.

Para já não falar, claro, da corrupção que é generalizada a um e outro estrato do poder. Seja local ou nacional, a corrupção e o aproveitamento do público pelo privado (seja pessoal, partidário ou de grupo) está distribuído de forma muito iguaitária.

Não! Não iremos intervir desse modo porque isso significaria que também queríamos participar no banquete da representação e do uso e abuso dos bens públicos em proveito próprio ou de grupo e que, mais do que lutarmos por outra sociedade, estaríamos a aproveitar as migalhas que esta proporciona aos que seguem os seus ditames.

Não! Vamos intervir pela palavra e pela análise. Mostrar que aos pequenos reizinhos e rainhitas que se apresentam para o baile nada os diferencia e que bem podiam bailar juntos, sem esta multiplicidade de siglas e slogans; que à violência palavrosa destes períodos eleitorais, outros períodos houve – e outros haverá – em que reina a concórdia e que tudo se resume a uma questão de lugares e de quem está no poder; que de todas estas cabeças brilhantes, todas juntas, não há uma ideia para mudar o mundo e a sociedade, mas, no máximo, como ajudá-la a sobreviver e a ser mais eficaz no seu esforço de rapina e dominação. ´

É tão doce, é tão bom, ouvi-los na oposição e depois quando, nas cadeiras do poder, executam exactamente aquilo que criticavam na gestão anterior…

Fiquemo-nos, então, por este dado que parece sempre tão essencial nos políticos do costume: a renovação. Ou, como dizem, a mudança de políticas. Sabemos que até podiam ser os melhores candidatos do mundo, mas sabemos também que é impossível mudar o sistema por dentro. Mas, então, o que será possível com estes candidatos que se nos apresentam, tudo gente da política, enfeudados aos partidos, cheios de vícios e manhas e, embora a idade neste caso não seja um posto, mais próximos da reforma do que da capacidade de grandes transformações ou mudanças?

Onde é que está a dita e sugerida renovação? Para quê todo este espectáculo de gosto duvidoso?

A CDU segura o seu candidato, profissional político e autárquico, que conseguiu reconquistar Évora para a coligação do PCP consigo próprio há quatro anos: Carlos Pinto Sá, 59 anos, presidente de Câmara desde 1993 (Montemor, depois Évora);

O PS, depois do descalabro e da derrota há quatro anos, avança com Elsa Teigão, 50 anos, professora e líder da concelhia, tentando recuperar o terreno perdido;

O PSD, com apenas um vereador na Câmara, aposta num seu actual deputado, António Costa e Silva, de 49 anos;

O Bloco de Esquerda, sem qualquer vereador, insiste em Maria Helena Figueiredo, 62 anos, enquanto o CDS, que nunca teve qualquer eleito nos órgãos autárquicos do concelho, avança com Pedro d’Orey Manoel, de 48 anos, só para fazer número.

Admito que já estejam a bocejar. E ainda não chegaram as propostas de cada um deles. Talvez sejam menos ambiciosas que as 20 estações de metro da Cristas para Lisboa, mas haverá promessas para todos os gostos. Daqui até finais de Setembro é época de caça eleitoral.

Cidadão eleitor não te distraias. Se te apanham desprevenido, seja na Praça do Geraldo, junto ao mercado ou mesmo numa travessa suburbana, não há beijo, aperto de mão ou selfie de que possas escapar! E nem imagino o que vai ser a Feira este ano…

De tudo isso iremos dando notícia.

luís bernardes

(a 28 e 29 de Maio) Encontro Libertário de Évora


cartaz encontro1

PROGRAMA

SÁBADO, DIA 28 de MAIO

9,30H -10,45H –

Abertura do Encontro –

Período reservado a uma apresentação e auto-reflexão sobre a situação das organizações/colectivos/indíviduos presentes –

moderação e apresentação: Carlos/Portal Anarquista

11H-12,15H –

A situação económica e social do país e da europa; apresentação e debate

moderação e apresentação: Vitor Lima/Indignados Lisboa

12,30H-13,30H –

A dupla destruição da memória anarquista em Portugal –

moderação e apresentação: Paulo Guimarães/Projecto Mosca

13,30H às 15H –pausa para almoço

15H-16,15H –

Utopias rurais, decrescimento e municipalismo libertário – 

moderação e apresentação: Júlio Henriques/Flauta de Luz

16,30H – 17,45H

Cultura, Arte e Criação numa perspectiva libertária

moderação e apresentação: António Cândido Franco/A Ideia

18,00H às 19,30H –

A educação libertária

 apresentação e debate (a anunciar) 

19,30H- 21H – Pausa para Jantar

21H-22 H –

Conferência: tema a escolher posteriormente

22H-24H Convívio. Música/poesia 

*

DOMINGO, DIA 29 de MAIO

 9H às 10,15H –

O anarquismo no Estado Espanhol no último ciclo de lutas (2011-2015) – 

moderação e apresentação: companheiro do Apoyo Mútuo/Espanha

10,30H às 11,45H –

Anarco-sindicalismo e instrumentos de luta –

moderação e apresentação: companheiro da AIT/SP

12H-13H –

A necessidade de informação libertária e de criação de espaços comunicacionais alternativos –

moderação e apresentação: Guilherme Luz/ Jornal Mapa

13H-15H – Pausa para Almoço

15H – 18H –

Debate final

moderação e apresentação: Mário Rui 

# possibilidade de coordenar campanhas e iniciativas;

# criação de um instrumento de ligação entre as diversas organizações/espaços/ indivíduos anarquistas em Portugal;

#marcação de um novo encontro

#Leitura e aprovação das conclusões do Encontro Libertário de Évora’2016

(todos os participantes poderão intervir e debater cada um dos temas. O moderador servirá apenas para introduzir o tema, moderar a mesa e extrair algumas conclusões do debate que possam integrar as conclusões gerais do encontro)

Organização

Revista “A Ideia”

Projecto Mosca

Portal Anarquista

inscrições para o email: colectivolibertarioevora@gmail.com

programa, regulamento, etc: https://encontrolibertarioevora2016.wordpress.com

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Em Évora: colectivos libertários de Portugal e Espanha estreitam relações


Encontros libertários de Madrid e Évora com agendas similares e coordenados cronologicamente

Nos próximos dias 20, 21 e 22 de Maio vai ter lugar na Escola Popular La Prospe de Madrid um encontro, a nível do Estado Espanhol, de iniciativas libertárias convocado por La Apuesta Directa. Este encontro, que se realiza uma semana antes do Encontro Libertário de Évora foi coordenado, em termos de datas, para não coincidir cronologicamente com a reunião convocada para o fim-de-semana seguinte, 28 e 29 de Maio, no Alentejo, e pelo menos dois companheiros que estão ligados ao encontro de Madrid irão estar em Évora, trazendo-nos também alguns elementos e conclusões dos debates havidos nesta iniciativa.

Na sua convocatória, os companheiros de Madrid referem que: “activistas de diferentes sectores, conscientes da necessidade imperiosa e do crescente interesse existente por encontrar pontos de colaboração entre estes diversos grupos, colectivos e indivíduos que se movem à margem das propostas de colaboração institucional ou eleitoralistas (todas elas de curto prazo) fazemos um apelo para um encontro estatal onde possam ser debatidas as possibilidades de confluência e/ou coordenação.”

O programa detalhado da reunião de Madrid pode ser consultado aqui.

Os companheiros do Estado espanhol referem que “para além disto, consideramos que este encontro, tal como o Encontro Libertário de Évora, o de Municipalismo Libertário/Ecologia Social de Lyon (França), os seminários de Confederalismo Democrático que começam a ter lugar no Estado Espanhol, os já realizados encontros de Democracia Sem Estado ou as contínuas Jornadas de Economia Social e Cooperativa são um exemplo de que a alternativa libertária (que não passa pelas instituições da burguesia e que procura criar as suas próprias) está mais viva que nunca e que está em processo de reformulação e de organização”.

O Encontro Libertário de Évora, convocado pela revista Ideia, Projecto Mosca e Portal Anarquista realiza-se nos dias 28 e 29 de Maio. Conta já com mais de 50 inscrições, vindas na sua grande maioria de Portugal, embora de Espanha também nos estejam a chegar algumas inscrições, nomeadamente de participantes no Encontro Libertário de Madrid e também de Carlos Taibo que há precisamente um ano esteve em Évora e em Lisboa, a convite do Portal Anarquista.

(inscreve-te!) A três semanas do encontro libertário de évora


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Se és anarquista e estás interessado em debater as questões do movimento libertário em Portugal, inscreve-te!

A três semanas da realização em Évora do Encontro Libertário convocado pela revista A Ideia, o Projecto MOSCA e o Portal Anarquista, e já com mais de 50 inscrições, o programa proposto pode ser consultado em https://goo.gl/wCaudc |

Outras indicações (funcionamento, logistica e Ficha de Inscrição em https://encontrolibertarioevora2016.wordpress.com/)

Todos os contactos para colectivolibertarioevora@gmail.com

O local do encontro será comunicado após envio da ficha de inscrição.

(Encontro) Proposta de encontro libertário em Évora durante o ano de 2016


mãos anarquistas

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Divulgação de projecto/ideia para a realização de um encontro libertário em Évora no próximo ano dirigido a todos os grupos, colectivos, organizações e individualidades que se movimentam na região portuguesa.

Num momento de grande renovação a nível mundial do ideário e da praxis libertária, Portugal, que teve na década de 20/30 do século passado um forte movimento anarquista e anarco-sindicalista, não pode passar ao lado deste movimento que tem expressões organizativas diversas um pouco por todo o globo.

Sendo assim, estamos a construir as plataformas necessárias para realizar durante o ano de 2016 um grande encontro libertário da região portuguesa em Évora (ou em local a designar na região sul).

Neste encontro poderão participar organizações existentes, colectivos, grupos temáticos, publicações, espaços de pesquisa e investigação, colectivos de género e especifistas,  individualidades… desde que tenham entre si o espaço libertário como aglutinador.

Pretende-se através de mesas de trabalho criar a possibilidade de estabelecer uma plataforma mínima de trabalho e relacionamento em comum, desde campanhas conjuntas a uma comissão de relações inter-colectivos que consiga manter os contactos inter-grupos e dinamizar acções conjuntas.

Este é um primeiro apelo a este encontro, que terá que ser construído e protagonizado pelos diversos colectivos.

Esperamos contributos e ideias através do email  colectivolibertarioevora@gmail.com  para desenvolvermos as temáticas em discussão e o formato das sessões. Agradecíamos também o envio de sugestões sobre a melhor data para realizar este encontro.

Todos os contributos existentes, desde já, poderão ajudar a formular um encontro mais eficaz e que vá mais ao encontro das necessidades e dos desejos de todos nós.

Esperamos os vossos contributos.

Comissão Organizadora do Encontro Libertário Évora/2016

200 anos do nascimento de M. Bakunin assinalados em Évora


debate

Conforme anunciado realizou-se ao fim da tarde desta sexta-feira na Livraria Fonte de Letras, em Évora, um animado debate sobre o pensamento de Mikhail Bakunin, para assinalar os 200 anos do nascimento do revolucionário russo, cujas ideias tanto marcaram o movimento libertário mundial. Com uma dezena e meia de assistentes, o debate foi introduzido por António Baião, investigador da FCSH da Universidade Nova de Lisboa (na foto, à direita, ao lado de António Cândido Franco), que falou de ““Mikhail Bakunin: Liberdade, Natureza e Revolução”. Seguiu-se um debate sobre a natureza do Estado e o conceito de liberdade bakuninista, tendo esta primeira Conferência Libertária de Évora terminado por volta das 20,30h. Para Julho já está anunciada uma segunda Conferência Libertária, em local e dia a designar, sobre a figura do anarquista alentejano Gonçalves Correia. A sessão de hoje foi gravada e contamos disponibilizar alguns excertos aqui no Portal Anarquista dentro de alguns dias.

(Covilhã) Conferência sobre Pensamento Libertário no próximo dia 27 de Março


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No próximo dia 27 de Março, a partir das 10H15, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UBI (anfiteatro 7.21), terá lugar a conferência “Pensamento Libertário: Passado, Presente e Futuro”.
Além disso, estarão disponíveis para venda, no anfiteatro e durante todo o dia, um conjunto de obras dedicadas ao pensamento libertário, disponibilizadas pela Livraria Letra Livre.

10H15: SESSÃO DE ABERTURA;

10H30: BIBLIOGRAFIA LIBERTÁRIA E CULTURA OPERÁRIA EM PORTUGAL (1890-1936), Eduardo de Sousa, livreiro;

11H00: MIKHAIL BAKUNIN E A CONCEPÇÃO ANARQUISTA DE LIBERDADE, António Baião, bolseiro de investigação do SLHI;

11H30: BIBLIOGRAFIA LIBERTÁRIA DE LÍNGUA PORTUGUESA, Adelaide Gonçalves, docente da Universidade Federal de Ceará.

12H00: Espaço de Debate.

14H00: ESTADO E ANARQUISMO EM PORTUGAL (1890-1934), Diogo Duarte, doutorando da FCSH-UNL;

14H30: TEATRO E ANARQUISMO NO SÉCULO XX PORTUGUÊS, Cláudia Figueiredo, doutoranda da FCSH-UNL;

15H00: APRESENTAÇÃO DA REVISTA “A IDEIA”: 40 ANOS PASSADOS E O FUTURO, António Cândido Franco, docente na Universidade de Évora;

15H30: OS 150 ANOS DA INTERNACIONAL, Paulo Guimarães, docente na Universidade de Évora;

16H00: Espaço de Debate;

16H15: Movimentos de acção e organização militante: AIT/SOV e Portal Anarquista de Évora;

17H15: Espaço de Debate;

17H30: ENCERRAMENTO DO EVENTO

( entrada livre).

aqui: https://www.ubi.pt/Noticia.aspx?id=4568

https://www.facebook.com/events/1392451014359739

Colectivo Libertário de Évora foi dissolvido. Blogue e página no facebook mantêm-se.


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Quando em Outubro de 2012 constituímos o colectivo libertário de évora tínhamos a intenção de criar um espaço alternativo, actuante e agregador para as ideias libertárias na cidade de Évora e, se possível, no Alentejo. A partir do pequeno grupo inicial criámos a página no facebook, um blogue na internet e desenvolvemos diversas iniciativas, entre as quais reuniões semanais durante alguns meses.

Fizemos sessões de cinema, apoiámos a vinda a Évora de outros colectivos, editámos um boletim mensal que teve alguma divulgação, participámos na Feira do Livro de Évora de 2013 e realizámos inúmeras traduções de textos importantes para o dia-a-dia do movimento libertário. Marcámos com a nossa presença um espaço de afirmação libertária na cidade que, no entanto, não teve outros desenvolvimentos.

Gostaríamos de ter agregado à nossa actividade mais pessoas, de termos encontrado um espaço físico onde pudéssemos funcionar, de termos tido uma agenda de iniciativas mais activa e interveniente. Por esta ou por outra razão tal não foi possível.

Um ano e meio depois de termos criado o colectivo libertário de évora anunciamos agora a sua dissolução: não houve dissensões internas, nem discussões, nem falta de empenhamento. Chegámos apenas à conclusão que não valia a pena manter uma estrutura organizada do anarquismo em Évora para a reduzida intervenção de que dispúnhamos. Para isso, basta cada um de nós enquanto militante e activista. O colectivo libertário justificava-se enquanto projecto agregador e potenciador de iniciativas, multiplicador dos esforços individuais. Não como um fim em si mesmo. Entendemos, por isso, que não se justificava a sua existência e decidimos –com a mesma liberdade com que o criámos – dissolvê-lo.

Claro que continuamos anarquistas empenhados e militantes, convencidos de que o Ideal Libertário é o único que nos pode conduzir a um futuro solidário e de bem-estar. E vamos continuar por aqui, umas vezes trabalhando em conjunto, outras não, mas sempre que a acção nos unir será em torno da acção directa, das assembleias de base e da autogestão do nosso próprio destino.

Decidimos, no entanto, manter o blogue do Colectivo Libertário (https://colectivolibertarioevora.wordpress.com) e a página no facebook (https://www.facebook.com/PORTAL.ANARQUISTA) que serão “alimentados” por cada um de nós, individualmente, como o fazíamos até aqui e esperamos com a participação de cada vez mais pessoas. São páginas abertas para a informação e o debate de temas anarquistas, não exclusivas dos elementos que integravam até agora o colectivo libertário de évora.

Vamo-nos continuar a encontrar por aqui e por ali. Nas ruas, mas também na internet. Nos espaços públicos, mas também nas iniciativas que quaisquer de nós, ou outros, do campo libertário levem a cabo.

Para nós, não há dias de desânimo nem de desencorajamento. Sabemos que o caminho se faz andando. E que atrás de um passo outro virá.

Viva a anarquia!

Os membros do ex-colectivo libertário de évora

greve geralFoto de Telmo Rocha

Sobre o anarquismo, o leninismo e o capitalismo, por Noam Chomsky


NoamChomsky

Noam Chomsky é um libertário norte-americano, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho como linguista e por ser uma voz muito crítica relativamente ao capitalismo e à estratégia dos Estados Unidos na sua relação com os países do terceiro mundo. Nesta entrevista (de que publicamos alguns excertos) à revista anarquista irlandesa “Red and Black Revolution”, em Maio de 1995, já depois da queda do muro de Berlim, Chomsky fala do anarquismo, do marxismo-leninismo e do capitalismo numa linguagem simples e clara. A conclusão a que chega é a de que Bakunin teve razão quando criticou o projecto de “socialismo” autoritário de Marx. E os tempos comprovam-no.

Sobre o anarquismo, o leninismo e o capitalismo…

Noam Chomsky

1.“Fui atraído pelo anarquismo logo a partir da adolescência, quando comecei a pensar o mundo para além das coisas pequeninas, e desde então não tive muitas razões para corrigir essa atitude inicial. Penso que, de facto, o que faz sentido é investigar e identificar as estruturas de autoridade, hierarquia e domínio, em todos os aspectos da vida, para depois nos confrontarmos com elas. A menos que tenham uma justificação são ilegítimas e deveriam ser desmanteladas de forma a que a liberdade humana pudesse ser ampliada. Isto inclui o poder político, a propriedade e a administração, as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, o nosso controlo sobre o destino das gerações futuras (o imperativo moral básico por trás do movimento para o meio ambiente, segundo penso), e muito mais. Naturalmente isto significa um desafio às poderosas instituições de coerção e controlo: o Estado, as inúmeras tiranias privadas que dominam a maior parte da economia nacional e internacional, etc.. e mais do que isto. Foi tudo isso que sempre entendi ser a essência do anarquismo: a convicção de que o ónus da prova deve ser dado pela própria autoridade, e que ela deve ser desmantelada se não conseguir dar uma resposta positiva. É que, por vezes, essa prova existe. Se eu for dar um passeio com os meus netos e eles se precipitarem para uma rua movimentada, eu usarei não só da minha autoridade mas também da coerção física para os impedir de atravessarem a rua. É um exemplo típico. E existem outros casos; a vida é uma coisa complexa, há muitas coisas que não entendemos sobre o ser humano e a sociedade, e grandes declarações são frequentemente fonte de mais sofrimentos do que de benefícios. Mas penso que a perspectiva é válida e que nos pode levar longe. (…)

2. A crítica à “democracia” entre os anarquistas tem sido frequentemente a crítica à democracia parlamentar, porque ela surgiu em sociedades com características profundamente repressivas. Tomemos os EUA por exemplo, que foram livres desde as suas origens. A democracia americana foi fundada no princípio, sublinhado por James Madison na Convenção Constitucional de 1787, de que a primeira função do governo é “proteger a minoria da maioria.” Deste modo ele argumentava que na Inglaterra, o único modelo quase-democrático da época, se fosse dada palavra à população em geral, nos destinos públicos, ela implementaria uma reforma agrária ou outras atrocidades, e que o sistema americano devia ser cuidadosamente concebido para evitar tais crimes contra “os direitos da propriedade,” os quais devem ser defendidos (de facto, devem prevalecer). A democracia parlamentar dentro deste quadro merece uma crítica aguda pelos libertários genuínos, e deixei de fora muitas outras características que dificilmente se podem considerar subtis – a escravatura, para mencionar apenas uma, ou a escravatura do salário que foi amargamente condenada por gente trabalhadora que nunca ouviu falar de anarquismo ou comunismo durante o século XIX, e para além deste.

Marxismo- Leninismo

3.(…) Se por esquerda é suposto incluir o “bolchevismo”, então eu dissocio-me terminantemente da esquerda. Lenine foi um dos maiores inimigos do socialismo, na minha opinião, pelas razões que temos discutido. Os avisos de Bakunine sobre a “Burocracia Vermelha” que instituiria “o pior de todos os governos despóticos” foram feitos muito antes de Lenine, e eram dirigidos contra os seguidores de Marx. Existiam, de facto, seguidores de muitos tipos diferentes: Pannekoek, Luxembourg, Mattick e outros estão muito distantes de Lenine, e as suas posições convergem frequentemente com elementos do anarco-sindicalismo. Korsch e outros manifestaram  simpatia pela revolução em Espanha..Existe uma relação de continuidade entre Marx e Lenine, mas também existe uma continuidade mesmo até aos marxistas que eram severos críticos de Lenine e do bolchevismo. O trabalho de Teodor Shanin nos últimos anos sobre as atitudes tardias de Marx em relação à revolução camponesa também é relevante. Eu não sou propriamente um estudioso de Marx, e não arriscaria nenhum julgamento sério sobre qual destas continuidades reflecte o “verdadeiro Marx”, mesmo que exista uma resposta a essa questão.(…)

 4.O Marx inicial aproxima-se consideravelmente do meio em que viveu, e encontram-se muitas semelhanças com o pensamento que animou o liberalismo clássico, aspectos do Iluminismo, e do Romantismo francês e germânico. Uma vez mais, não sou um grande estudioso de Marx para pretender dar um julgamento com opinião autorizada. A minha impressão, sem qualquer garantia, é que o Marx inicial era uma figura do Iluminismo tardio, e o Marx posterior era um activista altamente autoritário, e um analista crítico do capitalismo, que tinha pouco a dizer sobre alternativas socialistas. Mas isto são impressões. (…)

5.A minha reacção ao fim da tirania soviética foi semelhante à minha reacção à derrota de Hitler e Mussolini. Em qualquer dos casos foi uma vitória do espírito humano. Devia ter sido particularmente festejada pelos socialistas, uma vez que um grande inimigo do socialismo tinha por fim caído. Tal como você, fiquei admirado ao ver como as pessoas — incluindo gente que se tinha considerado anti-estalinista e anti-leninista — estavam desmoralizadas pelo colapso da tirania. O que revela que elas estavam mais profundamente comprometidas com o leninismo do que acreditavam.

6.Existem, contudo, outras razões a considerar acerca da eliminação deste sistema brutal e tirânico que tinha tanto de “socialista” como de “democrático” (lembre-se que ele se reclamava de ambos, e a última pretensão era ridicularizada no Ocidente, enquanto a primeira era ansiosamente aceite, como uma arma contra o socialismo — um dos muitos exemplos do serviço prestado pelos intelectuais do ocidente ao poder). Uma das razões tem a ver com a natureza da Guerra Fria. Do meu ponto de vista, isto deveu-se, sobretudo ao caso especial do “conflito Norte-Sul,” para usar um eufemismo que descreve a conquista europeia da maior parte do mundo. A Europa Oriental tinha sido o “terceiro mundo” original e a Guerra Fria desde 1917 não tinha a mais ligeira semelhança com a resposta às tentativas de prosseguir um caminho independente desencadeado por outros países do terceiro mundo, embora, neste caso, as diferenças de escala tenham dado ao conflito leste-oeste uma vida própria. Por esta razão, era razoável esperar que a região voltasse ao seu estatuto anterior: para algumas zonas do Ocidente, como a República Checa ou a Polónia Ocidental, existia a expectativa que se voltasse ao espaço europeu,, enquanto outras reverteriam ao tradicional papel de prestadora de serviços, com a ex-Nomenklatura a tornar-se na habitual elite terceiro-mundista (com a aprovação do poder corporativo-estatal do Ocidente, que normalmente os prefere às alternativas). Isto não era uma perspectiva agradável e levou a muito sofrimento.

Outro motivo de preocupação tem a ver com a intimidação e o não-alinhamento. Apesar de grotesco, o império soviético pela sua existência oferecia um certo espaço para o não-alinhamento e, por razões absolutamente cínicas, por vezes oferecia assistência às vítimas dos ataques ocidentais. Essas opções acabaram, e o Sul sofre agora as consequências.

Uma terceira razão tem a ver com aquilo a que a imprensa económica denomina de “trabalhadores ocidentais mal-habituados” com o seu “estilo de vida luxuoso.” Com a maior parte da Europa Oriental a voltar ao rebanho, o patronato e os gestores têm armas novas e poderosas contra as classes trabalhadoras e os pobres dos seus próprios países. A GM e a VW podem não só transferir a sua produção para o México ou para o Brasil (ou pelo menos ameaçar fazê-lo, o que geralmente vai dar no mesmo), mas também para a Polónia e Hungria, onde podem encontrar trabalhadores experientes e qualificados por uma fracção do custo. E, compreensivelmente,  estão a regozijar-se com isso, dados os valores vigentes.

Podemos aprender muito sobre o que significou a Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) ao procurar quem lucrou ou quem ficou prejudicado depois dela acabar. Por esse critério, nos vencedores da Guerra Fria incluem-se as elites ocidentais e a ex-Nomenklatura, agora mais ricos do que alguma vez sonharam, e nos derrotados inclui-se uma parte substancial da população do Leste, lado a lado com os trabalhadores e os pobres do Ocidente, bem como sectores populares do Sul que procuraram seguir um caminho independente.

aqui: https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/06/acc3a7c3a3o-directa-7.pdf

entrevista integral: http://www.wsm.ie/c/noam-chomsky-anarchism-marxism-future-interview

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Arraiolos: aspectos da repressão fascista nos primeiros anos do Estado Novo


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     Os primeiros anos da ditadura fascista em Portugal foram particularmentos violentos para com o movimento operário organizado na CGT anarco-sindicalista e para com os grupos anarquistas, de raiz operária, existentes um pouco por todo o lado. A fúria fascista contra os trabalhadores e  as suas organizações virou-se sobretudo contra os sindicatos e outras Associações de Classe, nomeadamente nas zonas operárias de Lisboa, Porto, Coimbra ou Setúbal. Mas também contra muitos sectores como o dos corticeiros, mineiros ou o dos trabalhadores rurais alentejanos, reunidos em Associações de Classe disseminadas por toda a região.

     O fascismo dirigiu a sua violência particularmente para o movimento operário, prendendo, torturando, deportando e, em muitos casos, assassinados os seus dirigentes e militantes mais activos.

    Na altura, o PCP era ainda um partido de recente formação, com pouca influência e muito pouca implantação entre os trabalhadores, constituído, sobretudo, por antigos anarquistas seduzidos pela revolução russa, de que circulavam versões idílicas, e nesta fase foi relativamente poupado à repressão. Aliás, por se ter formado recentemente (em 1921, apenas 5 anos antes do golpe fascista de 28 de Maio de 1926), organizou-se de uma forma mais fechada e melhor preparada para a clandestinidade e para enfrentar a repressão do que as organizações sindicais e operárias, bem como as anarquistas – que estavam, regra geral, legalizadas; as portas dos sindicatos e das suas sedes estavam abertas (até a polícia as fechar) e os seus responsáveis eram conhecidos há muitos anos das autoridades políticas e policiais.

     O comunicado que hoje publicamos (disponibilizado a partir da colecção de documentos de Pacheco Pereira, no endereço: http://ephemerajpp.com/2009/04/14/panfleto-da-federacao-anarquista-iberica/), tem a sigla da FAI (Federação Anarquista Ibérica), mas é assinado pela Federação Regional Portuguesa das Juventudes Anarco-Sindicalistas e retrata esses anos de chumbo a partir da prisão de dois trabalhadores de Arraiolos (eventualmente cantoneiros), que são violentamente torturados, acabando um deles – Manuel Tomás Barreto – por enlouquecer.

     São os pequenos grandes dramas de uma história que ainda está por fazer: a da repressão fascista sobre o Alentejo e o Povo Alentejano e a resistência que aqui encontraram. Uma parte desta história foi “confiscada” no pós-25 de Abril pelo PCP como se lhe pertencesse. O que não é verdade. O anarquismo, o anarco-sindicalismo e a bandeira de que “a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores ou não o será”, da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) e da CGT (Confederação Geral do Trabalho), nela filiada, flutuaram, nessas primeiras cinco décadas do século XX, muito alto por toda a região.

  e.m.

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AO POVO

A DITADURA E A SUA OBRA

Um prêso que enlouquece no Aljube de Lisboa

Povo português! Trabalhadores Portugueses! Homens de consciência livre! Mocidade académica! Ó jovens trabalhadores fardados! Ó mulheres de Portugal!

     Um crime, um crime infamíssimo que há longos meses se vinha perpretando, acaba de ter a sua conclusão final!…

     À extensa e negra lista de assassinatos, torturas, violências que a Ditadura já tinha escrito foi-lhe acrescentado um crime mais, cuja características horríveis não podem deixar ninguém, ninguém indiferente!

    Aí por Agosto do ano passado foram presos em Arraiolos (Alentejo) dois modestos trabalhadores de estradas, sob a única acusação de pertencerem aos corpos gerentes da sua Associação de Classe cujo funcionamento estava autorizado por todas as leis vigentes. Levados para a cadeia de Évora foram ali sujeitos aos maiores vexames e torturas físicas e morais, as quais continuaram em Lisboa na tenebrosa sede da moderna inquisição.

     Nos infames calabouços policiais sofreram largos dias de rigorosa incomunicabilidade – suficiente só por si para transtornar o cérebro mais forte – sendo, por fim, aremeçados para a tétrica Cadeia do Aljube onde impera o mais infame dos regimens penitenciários!

     A burla infame da anistia passou, e eles, como tantos outros ficaram esquecidos… Depois de tanto isolamento, de tanta tortura – a visão dos tribunais militares… Apesar de inocentes quem sabe se cairia sobre eles uma pesada sentença condenatória?…

     E lá longe, no vasto Alentejo, a família, sujeita às maiores privações, talvez os filhos, as companheiras sofrendo os horrores da fome…

     Resultado… Manuel Tomaz Barreto, um deles, acaba de enlouquecer!

     Sim, um destes dois martirizados trabalhadores perdeu o uso das faculdades mentais! Não fazemos comentários. Deixamo-los às consciências honestas que nos lerem. Manuel Tomás Barreto talvez consciente da desgraça que o liquidava ainda gritou no princípio da sua loucura violentos morras à Ditadura e vivas à Revolução Social. Os tiranos que o desgraçavam não o esqueciam! O Ideal que, embora rudemente tinha concebido, tardava a apagar-se-lhe da mente!

     Povo português! Trabalhadores portugueses! Mocidade portuguesa. Gritemos com ele: Abaixo a Ditadura! Viva a Revolução Social!

     Mas que o nosso protesto não fique por aqui…

     De armas na mão temos que reparar este e todos os crimes cometidos!

     Sob pêna de merecermos o epíteto de cobardes não podemos consentir que perdure por mais tempo o predomínio infame dos miseráveis que nos oprimem!

     Não! Não!

     Federação Regional Portuguesa das Juventudes Anarco-Sindicalistas

    Lisboa, Março de 1933

    aqui: http://ephemerajpp.com/2009/04/14/panfleto-da-federacao-anarquista-iberica/