David Graeber

Voltando a David Graeber: “Dívida sempre foi uma questão de poder”


debt

Guilherme Freitas entrevista David Graeber no Globo

Em setembro de 2011, o antropólogo americano David Graeber estava no grupo que planejou um acampamento coletivo no Parque Zuccotti, em Nova York, para protestar contra a desigualdade econômica. Foi o início do movimento Occupy Wall Street, que nos meses seguintes mobilizou milhares de pessoas e colocou em circulação slogans como “Nós somos os 99%”. Até então um acadêmico pouco conhecido, autor de uma pesquisa de campo no arquipélago africano de Madagascar, Graeber havia publicado meses antes o livro “Dívida: os primeiros 5.000 anos” (Três Estrelas), que se tornou um inesperado best-seller ao retratar a história da economia do ponto de vista da relação entre credores e devedores. Graeber falou ao GLOBO por e-mail sobre o livro, que chega ao Brasil ao mesmo tempo que “Um projeto de democracia” , seu ensaio sobre a história e o legado do Occupy Wall Street. (Outras Palavras, 8 de Abril de 2016)

(mais…)

Anúncios

(David Graeber) Entrevista do anarquista norte-americano a propósito do seu último livro


Capturar

David Graeber “O neoliberalismo fez-nos entrar na era da burocracia total”

Por AGNÈS ROUSSEAUX, RACHEL KNAEBEL(*)

Papelada e formulários invadiram as nossas vidas e cada vez mais pessoas consideram que o seu trabalho é inútil e não traz qualquer contributo ao mundo. Apesar do que martelam os ultraliberais não é por causa do Estado e dos seus funcionários, mas por causa dos mercados e da sua financeirização. “Qualquer reforma para reduzir a ingerência do Estado terá como efeito último fazer crescer o número de regulamentos e o volume da papelada”, explica David Graeber, antropólogo dos Estados Unidos e cabeça de fila do movimento Occupy Wall Street no seu novo livro “Burocracia” (**). Ele apela à esquerda para que renove a critica a esta “burocracia total” com que nos debatemos quotidianamente.

(mais…)

(Reino Unido) Depois dos posters junto à Scotland Yard, metro de Londres apareceu ontem com cartazes contra os “trabalhos de merda”


Screen-Shot-2015-01-06-at-13.19.28

15360-1t52ze3

“É assim que os anarquistas nos dão as boas vindas no regresso ao trabalho”

A revista anarquista cujos posters apareceram no exterior do edifício da Scotland Yard voltou com uma série de cartazes no metro de Londres no dia em que muitas pessoas regressaram aos empregos depois do Natal.

Embora a revista STRIKE! não tenha assumido a responsabilidade pelos posters no exterior da Scotland Yard, um comunicado na sua página de Facebook diz que uma ala mais militante da revista, intitulada Special Patrol Group, reivindicou a responsabilidade pela campanha contra os trabalhos de merda (#bullshitjobs campaign)

As citações foram tiradas de um artigo da revista,  escrito pelo antropólogo David Graeber – a quem é também atribuído ter criado a frase “nós somos os 99 por cento”, uma expressão que foi central no movimento Occupy.

Neste artigo, Graeber explica que muitas pessoas “passam toda a sua vida profissional na execução de tarefas que, no fundo, consideram completamente desnecessárias” e que é como se alguém estivesse apenas a criar empregos para simplesmente nos manter ocupados.

Ele cita o economista  John Maynard Keynes que previu em 1930 que até ao final do século a tecnologia teria avançado o suficiente para que em países desenvolvidos as pessoas tivessem que trabalhar apenas 15 horas por semana – enquanto hoje muitas pessoas trabalham entre 40-50 horas em trabalhos que não são vitais para a sociedade e que são inadequados para alcançar o que cada um quer realmente da sua vida.

“Diga o que se disser sobre enfermeiros, empregados do lixo ou mecânicos, é óbvio que se eles desaparecessem numa nuvem de fumo, os resultados seriam imediatos e catastróficos. Um mundo sem professores ou trabalhadores portuários não tardaria a estar em apuros e um mundo sem escritores de ficção científica ou músicos de ska seria, sem dúvida, um mundo pior. Ainda não está totalmente claro quanto sofreria a humanidade se todos os investidores de capital privado, lobyistas, investigadores, seguradores, operadores de telemarketing, oficiais de justiça ou consultores legais se esfumassem da mesma forma.” (David Graeber).

aqui: http://i100.independent.co.uk/article/this-is-how-anarchists-welcomed-us-back-to-work–g1We1j9Lcl

relacionado: http://www.huckmagazine.com/perspectives/activism-2/bullshit-jobs/

http://www.vice.com/en_uk/read/david-graeber-pointless-jobs-tube-poster-interview-912

15360-15go6ls

(David Graeber) O Occupy Democracy não é considerado notícia. Mas devia ser.


Police arrest Occupy Democracy protesters on Trafalgar Square. 21 October, 2014.

davidgraeber_140x140

 David Graeber (*)

“The Guardian”, 27/10/2014

Pode dizer-se muito sobre a qualidade moral de uma sociedade por aquilo que é, ou não é, considerado notícia.

Desde terça-feira passada, a Praça do Parlamento foi embrulhada por uma rede de arame. Numa das cenas mais surreais da história política britânica recente, polícias com pastores-alemães treinados estão de sentinela todos os dias, a distâncias calculadas no relvado, rodeados por uma rede gigante de cercas com três metros de altura – tudo para garantir que nenhum cidadão entre para pôr em prática ilegalmente a democracia. No entanto, algumas grandes agências de notícias consideram que isto não vale uma peça.

O Occupy Democracy, uma nova encarnação do Occupy London, tentou usar este espaço para uma experiência de organização democrática. A ideia era fazer com que a Praça do Parlamento voltasse de novo ao objectivo para o qual foi, afinal de contas, originalmente criada: um lugar para reuniões e discussões públicas, na perspectiva de voltar a trazer para o debate público todas as questões ignoradas pelos políticos em Westminster. Foram planeados seminários e assembleias, torres coloridas de bambu e sistemas de som foram colocados no local, a seguir planeavam-se uma biblioteca temporária, cozinha e casas de banho.

(mais…)

Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria?


rojava

Mulheres curdas em armas na defesa de Kobane

davidgraeber_140x140David Graeber (*)

Em 1937, o meu pai ofereceu-se para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República Espanhola. Um possível golpe fascista foi temporariamente interrompido por uma revolta operária, liderada pelos anarquistas e socialistas, a que se seguiu, em grande parte de Espanha, uma verdadeira revolução social, levando a que cidades inteiras fossem geridas de forma directa e democrática, as indústrias ficassem sob o controle dos trabalhadores e tivesse havido uma participação radical das mulheres.

(mais…)

Artigo de David Graeber no The Guardian: “Importar-se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras.”


Matt Kenyon illustration on the working class

Ilustração de Matt Kenyon

Porque é que a lógica básica da austeridade foi aceite por todos? Porque a solidariedade começou a ser vista como um flagelo.

“O que eu não consigo entender é:  porque é que não há tumultos populares nas ruas?” é algo que oiço aqui e ali de pessoas de estratos ricos e poderosos. Há uma espécie de incredulidade. “Afinal de contas”, parece ler-se nas entrelinhas, “nós ficamos furiosos quando alguém põe em perigo os nossos paraísos fiscais; se alguém cortasse o nosso acesso à comida ou a um abrigo eu estaria, com certeza, a queimar bancos e a tomar o parlamento. O que há de errado com estas pessoas?” (mais…)

David Graeber: o que é o anarquismo


9789722351232

O que é, então, o anarquismo?

Na verdade, o termo significa simplesmente «sem governantes». Tal como no caso da democracia há duas formas distintas de se contar a história do anarquismo. Por um lado, podemos examinar a história da palavra «anarquismo», que foi inventada por Pierre-Joseph Proudhon em 1840 e depois adoptada por um movimento político na Europa em finais do século XIX, implantando-se em força especialmente na Rússia, em Itália e em Espanha, para depois se difundir pelo resto do mundo; por outro, podemos olhá-lo como uma sensibilidade política bem mais abrangente.

A maneira mais fácil de se explicar o anarquismo, tanto num sentido como no noutro, é dizendo que se trata de um movimento político cujo objectivo é criar uma sociedade genuinamente livre – e que define uma «sociedade livre» como aquela onde os homens apenas estabelecem entre eles aqueles tipos de relacionamento que não tenham de ser concretizados pela constante ameaça de violência. A História já nos revelou que as extremas desigualdades de riqueza, as instituições como a escravatura, os casos de devedores à mercê dos seus credores por causa do que lhes devem ou o trabalho assalariado apenas podem existir quando contam com o apoio de exércitos, de prisões e de uma polícia. Até mesmo desigualdades estruturais mais profundas como o racismo e o sexismo se fundamentam, em última análise, na (mais subtil e insidiosa) ameaça da força. Assim, os anarquistas têm em vista um mundo baseado na igualdade e na solidariedade, onde os seres humanos seriam livres de se associar entre si para lutarem por uma infindável variedade de sonhos, projectos e concepções daquilo que consideram valioso na vida. Quando alguém me pergunta que tipos de organização poderiam existir numa sociedade anarquista, eu respondo sempre: qualquer forma de organização que se possa imaginar e, provavelmente, muitas que hoje não nos passam pela cabeça, com uma única condição: estariam limitadas àquelas que pudessem existir sem que ninguém tivesse a capacidade de, a qualquer momento, contar com a ajuda de homens armados para dizer: «Não me importa qual é a tua opinião sobre este assunto; cala-te e faz aquilo que te mandam.» (…)

O anarquismo possui infindáveis variedades, gradações e tendências. Pela minha parte, gosto de me dizer um anarquista com um «a minúsculo». Não estou tão interessado em descobrir que espécie de anarquista sou, mas sobretudo em colaborar em coligações abrangentes que operem de acordo com os princípios anarquistas:  movimentos que não procuram agir através de ou tornarem-se num governo; movimentos sem interesse em assumir, na prática, o papel de instituições governamentais, como associações profissionais ou firmas capitalistas; grupos que se concentrem em fazer das nossas relações uns com os outros um modelo do mundo que desejamos criar. Ou, por outras palavras: pessoas que estejam a trabalhar para criar sociedades verdadeiramente livres. No fim de contas, é difícil perceber qual o tipo de anarquismo que faz mais sentido quando há tantas questões que apenas poderão ser respondidas mais adiante. Haveria lugar para os mercados numa sociedade verdadeiramente livre? Como podemos saber? Pela minha parte, e baseando-me na História, sinto-me confiante em que, mesmo que tentássemos manter uma economia de mercado nessa sociedade livre – isto é, uma onde não haveria um Estado que nos obrigasse a assinar contratos, para que os acordos passassem a basear-se apenas na confiança -, as relações económicas depressa se transformariam em algo que os libertários não conseguiriam reconhecer e depressa não se pareceriam a nada que estejamos sequer habituados a associar à ideia de «mercado». Decerto não consigo imaginar ninguém a aceitar trabalhar a troco de um salário caso tenha outra opção. Mas quem sabe? Talvez esteja enganado. Estou menos interessado em estabelecer a arquitectura detalhada de uma sociedade livre do que em criar as condições que nos permitiriam descobri-lo.

Quase não fazemos ideia do tipo de organizações – ou mesmo de tecnologias – que surgiriam caso pessoas livres não tivessem qualquer constrangimento em usar da imaginação para resolver de facto os problemas colectivos, em lugar de apenas os piorarem. Mas a questão fundamental é esta: como podemos sequer lá chegar? O que seria necessário para que os nossos sistemas económico e político se transformassem em ferramentas para resolver colectivamente os problemas, em vez de, como agora acontece, serem um modo de guerra colectiva?

David Graeber (excerto de “Projecto Democracia”, Editorial Presença)

niDieuNiMaitre