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(anarchist studies network) Envio de ‘abstracts’ para Conferência Internacional sobre Descolonização até 28 de Fevereiro


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Rede de Estudos Anarquistas (Anarchist Studies Network – ASN) // 5ª Conferência Internacional // 12-14 Setembro 2018 // Universidade de Loughborough, Reino Unido

Chamada para papers e painéis.

A luta contra a opressão e a destruição continua sob um céu carregado. A onda global de resistência tem-se feito sentir, à medida que as elites optam pelo nacionalismo, pelo racismo e pela misoginia. Para a maioria mundial, essa opressão não é surpreendente nem nova, devido ao ainda presente legado colonial e às novas formas de exploração neocolonial que têm surgido. Enquanto isto, os discursos hegemónicos mostram uma habilidade desarmante para cooptar e neutralizar: convertendo anti-capitalismo em bem-estar populista, resistência ecológica em consumo verde, e interseccionalidade militante em políticas de identidade liberal. A literatura e a organização anarquistas não estão completamente imunes a esses problemas; propor ideias e práticas que sejam radicalmente não-opressivas requer reflexão crítica sobre pressupostos e verdades, incluindo as nossas próprias. Apesar dos desafios, os anarquistas têm apoiado e criado múltiplos locais de resistência, bem como projetos construtivos, ao mesmo tempo que lideram a luta contra a extrema direita. Confiando que o vento voltará a mudar, a chama permanece acesa.

Nestes tempos de incerteza, a elaboração e a análise anarquistas, que juntam teoria e prática, o rigor académico e as percepções dos movimentos sociais, continuam a ser fundamentais.

A 5ª Conferência Internacional da Rede de Estudos Anarquistas realiza-se na Universidade de Loughborough entre 12 e 14 de setembro de 2018. São bem-vindas propostas para papers individuais, bem como propostas para painéis que juntem 3-4 trabalhos em torno de um tema comum.

Por favor, enviem abstracts até 250 palavras por paper para o endereço:

asn.conference.5@mail.com

Data-limite para abstracts: 28 de Fevereiro 2018

As conferências da ASN visam rasgar novas fronteiras no âmbito dos estudos anarquistas e encorajar o intercâmbio entre disciplinas. Aceitam-se contribuições de dentro e fora da esfera académica oficial, de todas as disciplinas académicas, e sobre qualquer assunto relevante para o estudo e prática do anarquismo como abordagem vital para a transformação social.

O tema central desta conferência é a DESCOLONIZAÇÃO que, esperamos, seja inspiradora de muitas apresentações e painéis. O objetivo é duplo: i. estimular a discussão sobre o colonialismo e o racismo como formas de opressão a que os anarquistas se opõem, mas que continuam a fazer-se sentir também no âmbito das organizações anarquistas; ii. receber pessoas, grupos e comunidades que não tenham participado em eventos anteriores da ASN.

Tendo em conta o legado do pensamento e da ação não-ocidentais e anticoloniais na tradição anarquista, queremos fortalecer os laços entre os anarquistas de hoje e essa teoria e prática em torno da descolonização, no âmbito da luta contra a opressão; pretendemos abrir o evento a grupos marginalizados, reconhecendo a existência de práticas e quadros mentais racistas e eurocêntricos.

Por essa razão, encorajamos particularmente propostas vindas do sul global e de pessoas de cor, bem como de mulheres, pessoas trans e não-binárias e de pessoas com deficiência. Desafiamos também os organizadores de painéis a ultrapassarem eventuais exclusões. Em relação ao tema central da conferência, são bem-vindas apresentações que abordem os seguintes temas:

–  Envolvimento anarquista na teoria da raça e da descolonização

–  Geografias anarquistas da descolonização

– Movimentos anarquistas em África, Ásia, América Latina, Pacífico, etc.

–  Filosofias não-ocidentais, religiões e tradições e as suas ressonâncias anarquistas

–  Anti-nacionalismo e antifascismo

–  A descolonização e as críticas anarquistas

–  A descolonização e as críticas ao Estado

–  Histórias sobre a resistência anarquista contra o colonialismo

–  Interseções entre raça/colonização, idade, classe, género, sexualidade, etc.

–  Anarco-feminismo, anarquismo verde, individualismo não-ocidentais

–   Modos de (anti-)representação não-ocidentais e ocidentais e o movimento entre ambos

Serão também bem-vindas propostas sobre QUALQUER OUTRO TEMA relacionado com o estudo e a prática do anarquismo.

Aceitaremos trabalhos que façam a ponte entre o meio “académico” e outras formas de conhecimento. Receberemos também propostas para a realização de oficinas, eventos de arte/performances e peças experimentais. Estamos ainda abertos a discutir outras ideias que possam surgir.

Acolheremos propostas de papers e painéis noutras línguas (por exemplo, português), mas, por favor, enviem também um abstract em inglês. A tradução será auto-organizada durante a conferência de forma ad hoc e voluntária.

As instalações da Universidade de Loughborough são totalmente acessíveis a cadeiras de rodas e possuem sistema de anel magnético. Contamos ter disponíveis bolsas para apoiar as deslocações dos participantes com baixos rendimentos ou desempregados, especialmente aqueles que são provenientes do sul global, bem como co-organizar o acolhimento de crianças. Apesar de não podermos, no momento, garantir nenhum destes apoios, por favor, façam-nos chegar as vossas necessidades específicas. Daremos o nosso melhor para as satisfazer: asn.conference.5@mail.com

inglês: https://anarchistnews.org/content/anarchist-studies-network-5th-international-conference-loughborough-12-14-sep-2018

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CEM ANOS DEPOIS DA CONTRA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE: MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE A DESTRUIÇÃO DAS NOSSAS LUTAS


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Este texto é somente um resumo, uma pequena recordação de um desastre histórico que ainda tem repercussões nas nossas lutas de hoje. Neste outubro de 2017, cem anos depois, cabe-nos a nós lembrar a apropriação bolchevique da Revolução Russa, que constituiu um desastre para a classe trabalhadora, um desastre para o povo russo e para todos os povos submetidos ao Império Russo, um desastre para os movimentos anticapitalistas à escala mundial, um desastre para quem procura liberdade, um desastre para a humanidade.

2Para a frente camaradas – para a contra revolução!

Um Desastre Previsível

A deriva contrarrevolucionária da URSS era previsível. Na verdade, Bakunine previu como uma «ditadura do proletariado» rapidamente se converteria em mais uma ditadura sobre o proletariado 50 anos antes de a Revolução Russa ter acontecido. Nos anos seguintes, muitos outros anticapitalistas chegaram à mesma conclusão. Era uma aposta bem segura, considerando a forma como os líderes da nova ditadura encontraram a sua inspiração noutra figura contrarrevolucionária, Karl Marx.

Não fazemos esta afirmação de ânimo leve, denunciado alguém como «contrarrevolucionário» que, sem sombra de dúvida, foi tão importante para as lutas anticapitalistas. Nem chegaríamos a dar esse passo por causa de simples desacordos teóricos. Foi só depois de um estudo minucioso das consequências das ações de Marx que chegámos a esta conclusão.

(mais…)

(Amor y Rabia) Contra o nacionalismo


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Para ler e download: CONTRA-EL-NACIONALISMO

A crise catalã acendeu nos meios libertários um intenso debate sobre o nacionalismo, o independentismo, a autodeterminação, o federalismo… Uma parte dos libertários apoia o desejo de autodeterminação dos catalães, outros veêm nas proclamações de independência mais uma manobra das classes dirigentes para perpetuarem o seu poder e mobilizarem os trabalhadores para objectivos que não os seus. No âmbito deste debate, de posições extremadas, por um lado e, por outro, de argumentação viva e sustentada, acaba de sair uma publicação em castelhano totalmente dedicada ao tema do nacionalismo. É uma leitura interessante que dá conta, historicamente, de como apareceram alguns dos nacionalismo modernos na Península Ibérica e de como, no Estado Espanhol, os libertários se têm situado neste confronto entre os nacionalismos e um mundo sem fronteiras.

http://revistaamoryrabia.blogspot.pt/

(Debate) Resposta a “os anarquistas e a organização”


Cuarto-Estado

Car*s comp*s, espero tudo bem (pessoalmente e politicamente) convosco.

Escrevo após ter lido “(Debate) Os anarquistas e a organização”, do companheiro Luís Bernardes, que agradeço reconhecidamente, por ter-se relembrado das minhas palavras (no Encontro Libertário do ano passado) finalizadas a atrair a atenção dos presentes sobre o tema organizacional; foi uma intervenção breve, precária e confusa… mas sincera e motivada.

Permitam-me expressar umas opiniões sobre a questão, tendo presente que quem escreve não é um intelectual mas, e simplesmente, um militante revolucionário anarquista, um activista da luta de classe, um militante politico de base…e, por isso, os companheiros intelectuais (que eu, sem ironia, admiro  -e muito!- especialmente quando colocam os seus recursos intelectuais ao serviço da Causa para a construção duma Sociedade de Livres e Iguais, sem Estado e sem Patrões) poderão, eventualmente e caso seja preciso, corrigir-me.

Vemos um pouco. Quais são os “momentos” capazes de  unir  todos os anarquistas de todas as tendências (numerosas, seguro, mas sempre menos daquelas, por exemplo, do  “cosmo” autoritário, marxista e não só) de todos os tempos e de todas as latitudes? Fácil responder (e decorar), são somente 4: – Primeira Internacional (1864-1872 ; quer se decida que seja em Haia, quando se consuma a “fractura”, ou em Agosto, em Rimini, ou ainda em Setembro, em St. Imier…não importa, estamos sempre no ’72 e, por isso, podemos dizer, sem falta, que o Anarquismo politico tem 145 anos); – Comuna de Paris (1871), primeira real tentativa de libertar-se da tutela de “partidos” e instituições; – Revolução Russa (basta pensar no nascimento dos Soviéte, nas revoltas do 1905-08, em Kronstadt e na Macnovicina); – Revolução Espanhola (1936-1939) e até este ponto, digamos, o consenso é universal.
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Cada País, após, tem os seus “momentos”: estou aqui, em Portugal, e penso, obviamente, na experiência anarco-sindicalista ou em “A Batalha” que chegou a ser o terceiro (há quem diga o segundo) jornal diário mais vendido; na primeira manifestação da “nossa” presença (em Luis Bigotte Chorão, Para uma história da repressão do Anarquismo em Portugal no seculo XIX, Letra Livre, 2015 , se escreve: “…aparecera no Porto, em 1887, o jornal A Revolução Social (Orgão Comunista-Anarquista), cujo número programa deu a conhecer a declaração de princípios do Grupo Comunista-Anarquista em Lisboa”, também se, pessoalmente, tenho alguma perplexidade sobre isto considerando que, se bem relembro, além da Itália, Suiça, parte da França, da Bélgica etc., praticamente toda a península ibérica “tomou o partido” de Bakunin, não de Marx e do seu amigo empresário F. Engels, e, por isto, as sessões da Primeira Internacional, daqui já podemos, e legitimamente, considerá-las as primeiras expressões de inspiração libertária em Portugal…); nas tentativas generosas de libertar o planeta da odiosa presença do “dux” nacional durante a ditadura; no Campo do Tarrafal…; venho de Itália e não posso esquecer a “Settimana Rossa”, os “Arditi del Popolo”, “La Resistenza” e  em suma, seria a mesma coisa (tirando o caso de Cidade do Vaticano), para todos os 196 Estados do mundo; cada um tem a sua especificidade, a sua história e a sua “inspiração”, em relação às nossas ideias comuns.
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Bem, esta premissa, este quadro histórico geral cui prodest? poderíamos perguntar-nos. Primeiro, digamos, para “preservar a memória e história”, para usar as palavras de L. Bernardes; segundo para tentar de ultrapassar a obsessiva tentação de edificar “anarquismos pessoais” (como os cosmos pessoais, os pequenos e grandes rancores pessoais, os sonhos pessoais…em última análise, “as cadeias do meramente pessoal”, para citar A. Einstein ) e esforçar-nos para compreender a inestimável contribuição daqueles que vieram antes e finalmente, terceiro, mas não último por importância, para fixar o simples conceito que segue: “O Anarquismo não é uma fantasia bonita, não é um principio filosófico abstracto; é um movimento social das massas trabalhadoras. Precisamente por esta razão ele deve unir as suas forças numa organização permanente, bem como o exigem a realidade e a estratégia das lutas das classes!” (Delo Truda, 1926).
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E assim abordamos, sinteticamente, o “tema dos temas”: a Organização Politica dos Anarquistas.
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Outra breve e, espero, divertida  premissa. Relembramos o “frango de Diogene” ( “matei o homem…” – “…mas como, não é o homem? não disseste animal-mortal-bípede e implume?…”)? Em suma, ainda não havia a definição aristotélica de homem como “animal-mortal-racional-social”; e é exactamente sobre esta última denotação, “social”, que queria direccionar a atenção. Na verdade, tirando o caso dos eremitas (assumindo a livre escolha dum moderno S. António – não o de Lisboa-Pádua, mas aquele mais antigo de Alexandria, do qual refere Santo Atanásio no seu Vita Antonii – escolha que, imagino, ninguém de nós quereria impedir) os seres humanos vivem em grupo, “constituem-se” (por isto decidem dar-se “constituições”, isto é, as regras do seu próprio estar juntos…). Portanto, se as coisas se configuram deste modo eu pergunto: porque deveríamos constituir uma excepção? E se também sobre isto todos concordamos (e se digo “todos” é porque relembro que até os companheiros individualistas, especialmente nos momentos históricos de máxima criticidade – penso no período entre as 2 guerras, por exemplo – mostraram e demonstraram grande capacidade e atitude organizacional) só resta saber qual é o melhor modo para nos organizarmos.
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“…debate antigo, tão antigo quanto o anarquismo…” escreve Bernardes; como não concordar? Sobretudo em tempos em que “o novo”, sempre e contudo, parece prevalecer na agenda mental de muitos, hoje, como fosse absoluta garantia de bondade e de   melhoria; que tristeza causam estes evidentes comprometimentos cognitivos e déficits menemónicos! “O novo”, na Alemanha do ’33, tinha um nome e um apelido: Adolf Hitler! Por isso, nada preocupações sobre o arcaísmo da questão e do debate. Pensamos, por outro lado, a propósito de “cronologia”, que desde o começo a coisa foi adequadamente considerada (relembramos as “indicações” a Fanelli – que foi também aqui, além de Espanha, se não erro – ou a “Carta aos Amigos da Itália”…) e que “o final” do texto de Bernardes ( “…cada vez mais urgente.”) se converte facilmente num essencial “inicio” para os militantes anarquistas mais conscientes e responsáveis. Ainda, como não pensar nas situações históricas em que a força (militante) moral, a resistência, a firmeza revolucionária de muitos “obscuros” companheiros “de base” constituíram a única garantia para evitar a destruição e a aniquilação de tudo o que se tinha construído até àquele momento?
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Quando, nos anos ’80 do século XIX, em Itália, todos os big estavam fora de jogo, como se costuma dizer (Cafiero anulado pela demência, Cipriani já no Egito, Galleani detido, como Gori e Molinari, Malatesta em fuga para Londres, os outros exilados ou em confinamento…), bem, quem, se não os “Carnéades” de turno (os vários Mingozzi, Monticelli…) colocaram-se como baluarte na defesa daquele pouco ou muito que se concretizou? O mesmo aconteceu poucos anos após; enquanto Malatesta (segundo período londrino) tentava desesperadamente encontrar uma estratégia para contrastar a inelutável avançada reformista (estamos na véspera do Génova, 1892, nascimento do Partido Socialista Italiano), tudo indicava, e todas as reflexões eram neste sentido, a urgência de “reagrupar” o existente, através da tutela da rede organizacional e da salvaguarda das estruturas efectuais; como sempre, foram os companheiros organizados que, simplesmente, garantiram a continuidade.
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E estes constituem só micro exemplos que, naturalmente, deveríamos multiplicar no cenário internacional e por isso concluir, se queremos ser totalmente honestos, que sem estes companheiros eu (politicamente) não existiria e, comigo, toda a área comunista-anarquista (e, claro, dado que não tenho motivo para esconder nada, a sua melhor expressão, que continua a ser a chamada Plataformista), mas, companheiros, não existiriam também os “sintetistas” de todas as formas e natureza, nem os anarco-comunistas, os educacionistas, os individualistas, os anarco-sindicalistas, os tolstoianos, os ilegalistas… em suma, numa palavra, acabaria de existir o Anarquismo, simplesmente.
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Com A. M. Bakunin tivemos a Ideia, mas foram necessários mais de 50 anos (meio século de história ideal e de lutas, de “prémios” e de derrotas…) para ter, enfim, um Projeto. Este o grande mérito e o enorme valor daquela insuperável intuição representada por  “A Plataforma de organização da União Geral dos Anarquistas (Projeto)”. Os companheiros russos, fortes da experiência vivida e, naturalmente, também do conhecimento do que tinha acontecido ao movimento anarquista internacional aqui, na Europa, mas também noutras zonas do planeta…elaboraram uma proposta organizacional desde então sem igual; uma proposta que só as circunstâncias e as “contingências” (histórico-politicas), juntamente com, obviamente, o grande “empenho” e a incessante acção dos “anti-organizadores”, firmemente ao trabalho neste sentido, impediram de desenvolver todo o seu enorme potencial teórico-politico.
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Além de tudo isto, e apreciando a indicação bibliográfica fornecida no texto de Bernardes, permitam-me, a propósito do debate da era e, especialmente, do que E. Malatesta escreveu in toto (antes de concluir em modo talvez “apressado” e “parcial”…) de indicar umas essenciais e breves leituras capazes de dar o “quadro” exacto e, sobretudo, completo, do “confronto” dialéctico-politico:
Resposta aos confusionistas do Anarquismo e à “Resposta à Plataforma” assinada por uns anarquistas russos, Grupo dos Anarquistas Russos no Estrangeiro, Agosto 1927;
Sobre um projeto de organização anarquista, L. Fabbri, Setembro 1927;
Um projeto de organização anarquista, E. Malatesta, Outubro 1927;
A propósito da “Plataforma de organização”, Nestor Makhno (resposta a Malatesta), 1928;
O velho e o novo no Anarquismo, Petr Arsinov (resposta a Malatesta), Maio 1928;
Resposta a Nestor Makhno, Errico Malatesta, Dezembro 1929;
A proposito da “responsabilidade coletiva”, Errico Malatesta, Abril 1930;
Uma segunda carta a Malatesta, Nestor Makhno, Agosto 1930.
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Obrigado pela atenção e Saudações Anarquistas.
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Virgilio Caletti

Bertrand Russell: um filósofo fora do “baralho” das ideias feitas


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Bertrand Russell foi um dos maiores filósofos e matemáticos do século XX, desenvolvendo uma obra e um activismo ímpar ao longo do século em que viveu.

Bertrand Russell simpatizou ao longo de toda a sua vida com o anarquismo, muito embora tenha abraçado a ideia de um Estado Mundial (*) para acabar com as guerras entre as nações. Com a idade de 23 anos, o jovem aristocrata é descrito na sua biografia como alguém com tendências anarquistas.

Russell conhecia o sentido e o significado do anarquismo quando escreve em 1918, pouco antes de ser preso por ter denunciado a legitimidade da I Grande Guerra Mundial, o livro “Roads to Freedom: socialism, anarchism, and syndicalism”, onde inclui uma citação de Lao-Tzu:

Production without possession
Action without self-assertion
Development without domination (**)

Num fundamentado texto da sua autoria, Russell define o anarquismo como a teoria que se opõe a toda a espécie de governo que resulte de uma imposição à força. A liberdade é o supremo bem do credo anarquista, devendo a liberdade ser entendida como a via mais directa para a abolição de todo o controle forçado sobre os indivíduos pela comunidade. Russell defende que o anarquismo deve ser o ideal último para o qual a sociedade deve continuamente aproximar-se. Aliás, o próprio Russell defende que o anarquismo está particularmente ajustado em áreas tão diversas como a arte, a ciência, as relações humanas, a alegria e o gozo de viver.

No entanto, ele confessa que por enquanto, e nos tempos mais próximos, será muito difícil que este sonho se venha a realizar. Numa sua obra de juventude “Principles of Social Reconstruction” (1916), ele admite que o Estado e a propriedade são as duas mais poderosas instituições no mundo moderno. Porém, ao mesmo tempo que tenta demonstrar quanto dispensáveis são muitos dos poderes estatais, também aceita a utilidade de outros a fim de evitar a substituição da lei pela força nas relações humanas. “A anarquia primitiva, que antecedeu a lei, era muito pior que a lei”, escreve Russell. O Estado teria também, segundo ele, um papel positivo a desempenhar na educação obrigatória, na saúde e na administração da justiça económica.

Apesar das fortes críticas de Bakunine e de Kropotkine contra o Estado, Russell admite que alguma coerção da comunidade deva subsistir sob a forma de lei, assim como o Estado é uma instituição necessária para a realização de certas e limitadas tarefas. Sem o Estado o forte poderia oprimir o fraco. Defendia, entre todas as ideologias então referenciadas, o socialismo corporativista (guild socialism), se bem que sempre recordando que “o livre crescimento do indivíduo deva ser o fim supremo de todo o sistema político”. Num dos números do jornal anarquista Freedom (fundado por Kropotkine) o livro “Roads to Freedom” de Bertrand Russell é vivamente recomendado, observando que os trabalhos do autor contêm propostas construtivas para o anarquismo.

Russel visitou a Rússia no Verão de 1920 onde se encontrou com anarquistas como Emma Godman e Alexander Berkman que lhe apresentaram a cidade de Moscovo e vários líderes bolchevistas. O livro que reúne as suas impressões dessa viagem, “The Practice and Theory of Bolchevism” (1920), inclui já várias observações críticas à situação numa altura em que qualquer crítica à ditadura bolchevista era vista, pela esquerda, como uma traição. Dois anos depois, quando Emma Goldman procurou refúgio político na Grã- Bretanha, foi Russell que fez as necessárias diligências junto do Home Office, garantindo que aquela se comprometia a não desenvolver qualquer forma de anarquismo violento no país. No jantar de boas-vindas em Oxford, a única pessoa a aplaudir os violentos ataques feitos por Goldman ao governo soviético foi Russell. A reportagem do Freedom sobre o acontecimento terminava assim: “Mr. Russell, o filósofo mais acutilante da Inglaterra, proferiu então um discurso onde demonstrava as suas mais firmes convicções anarquistas.”

Apesar de tudo, Russell manteve sempre alguma distância para com os anarquistas. Recusou, por exemplo, ajudar Emma Goldman a constituir um comité de ajuda aos prisioneiros políticos russos com o argumento que não via uma alternativa melhor ao governo soviético que não resultasse ainda em maior crueldade. Escreve então a Goldman o seguinte: “Não vejo a abolição de todos os governos como algo que tenha possibilidade de se realizar nas nossas vidas ou mesmo durante o século XX”. Mesmo assim, e depois de constatar a inutilidade da sua tomada de posição, acabou por censurar o tratamento dado pelo governo bolchevista aos seus prisioneiros políticos. E quando Sacco e Vanzetti foram executados, Bertrand Russell não teve dúvidas em afirmar que tinham sido injustamente condenados por motivo das suas opiniões políticas.

As atitudes e as suas afirmações libertárias, bem como toda a sua relutância em seguir à risca as posturas anarquistas resultam da sua singular concepção da humanidade e do universo, e do facto de estar consciente da “falácia naturalistica” a que Kropotkine e outros anarquistas não escapavam ao defenderem argumentos baseados na supremacia das leis da natureza, que deviam ser seguidas, mas que na perspectiva de Russell mais não nos levaria que a sermos escravos da própria natureza. Tal não o impedia contudo em reconhecer que “se a Natureza deve ser o nosso modelo, então os anarquistas teriam o melhor dos argumentos. Com efeito, o universo físico está ordenado, não porque tenha um governo central, mas simplesmente porque todos os seres tudo fazem para que assim seja.”

Como ateísta e atomista, Russell (autor do livro “Porque não sou cristão”)  tem uma sombria concepção da humanidade não obstante as suas esperanças de um mundo melhor. Ele considera que o homem é o resultado de uma “conjugação acidental de átomos” destinada a extinguir-se com a morte do sistema solar. Mas apesar da efémera e acidental posição do ser humano no universo tal não significa que o homem não possa lutar para a melhoria de todos. Só a crença no mais profundo desespero pode construir um mundo melhor.

Como humanista, Russell preocupa-se em lutar pela expansão da liberdade e felicidade humanas. Coisa que não é fácil.

Nos anos 50 e 60 Russell envolve-se mais uma vez com grupos anarquistas no Comité dos Cem no âmbito da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. O velho filósofo bate-se então pela acção directa não-violenta e pela desobediência civil em larga escala

Nos textos de Bertrand Russell perpassa uma forte brisa libertária como se pode ler no seguinte excerto:

“Thought is subversive and revolutionary, destructive and terrible. Thought is merciless to privilege, established institutions and comfortable habits. Thought is anarchic and lawless, indifferent to authority, careless of the well-tried wisdom of the ages”. (***)

Fonte: Blog Pimenta Negra

(*) Talvez não exactamente um Estado mundial, mas uma organização que, a nível planetário, conseguisse uma coordenação global

(**) Produção sem posse/Acção sem arrogância/ Desenvolvimento sem dominação

(***) O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível. Não tem piedade para com as instituições estabelecidas, nem para com os privilegiados, acomodados nos seus hábitos e conforto. O pensamento é anárquico e não obedece às leis, é indiferente à autoridade, e não respeita a bem testada sabedoria de todos os tempos.

Livros de Bertrand Russell em português (PDF): http://pensamentosnomadas.com/livros-de-bertrand-russell-em-portugues-26993

(debate) Os anarquistas e a organização


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Há pouco menos de um ano, na sessão final do Encontro Libertário de Évora, um companheiro italiano, residente em Portugal há vários anos, interveio a dizer que durante as discussões tinha-se falado de tudo, mas o mais importante, o que estava subjacente a todas as intervenções, embora nunca fosse aflorado, era a questão da organização anarquista. Essa era a grande questão, sempre central, no anarquismo há décadas e que nunca era debatida nem abordada de frente. E perguntava ele: sem uma organização específica como vão concretizar as conclusões saídas desse encontro?

Desde aí esta frase nunca mais me deixou de ecoar na cabeça. O busílis, de facto, da questão é a organização, a que permite unir pessoas num projecto, dar-lhes continuidade, preservar a memória e a história, mobilizando para a acção. Este é um velho tema: como anarquistas, trata-se sobretudo de unir para a acção e organizar as tarefas e as actividades, mais do que as pessoas; outros dirão que não, que a existência de uma organização permanente fomenta as lutas e é ela própria uma dinamizadora da consciencialização dos militantes. Este é um debate antigo, tão antigo quanto o anarquismo e que apenas conseguiu ser superado na fase em que o anarco-sindicalismo e as suas organizações operárias, de base sindical, foram pujantes. Hoje, os movimentos libertários, regra geral, vivem atomizados, em lutas parcelares.

Retomamos, por serem actuais e terem influenciado grandemente o anarquismo europeu face às propostas anarquistas oriundas de militantes que viveram e lutaram na Revolução Russa (onde a falta de uma organização anarquista forte foi muitas vezes apontada como a causa para a vitória bolchevique contra os trabalhadores), um artigo escrito na altura por Errico Malatesta onde refuta tais teses. Publicamos também o link para a “Plataforma de organização da União geral dos Anarquistas (Projeto)” a que Malatesta se refere.

Hoje os cenários são diferentes e talvez seja possível fazer uma síntese destas duas posições. A necessidade de um espaço de partilha, coordenação, luta e memória, que não viole a identidade nem os princípios acratas, é cada vez mais urgente.

luís bernardes

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