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João Freire: a rendição de um ex-anarquista


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sociologo__investigador_joao_freire-33400948João Freire, sociólogo e antigo anarquista, editou há meses um livro a que chamou Um projecto libertário, sereno e racional (Lisboa, Colibri, 2018).   João Freire desempenhou um papel importante na divulgação do movimento anarquista logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, esteve na origem da revista A Ideia, fez parte de diversos colectivos de índole libertária (mas no seu seio também conviveu de perto com figuras como a ex-ministra da educação Lurdes Rodrigues, de triste memória), mas ao longo dos anos foi abandonando a perspectiva anarquista ganha em França após ter desertado da guerra colonial e enveredou pelos caminhos de uma social-democracia serôdia, que assenta no capitalismo como gerador de riqueza e no Estado como regulador dos antagonismos sociais – temas que o afastam diametralmente dos pilares fundamentais daquilo que é o pensamento libertário.

João Freire está no seu pleno direito de ter mudado de opinião e, no campo libertário, não condenamos quem muda de ideias. O que condenamos é que, quem muda de ideias, continue a falar em nome de projectos que já não são os seus. E o projecto libertário deixou, claramente, de ser o projecto de João Freire. Há muito que este antigo militante anarquista já não faz parte do espaço cultural, social e político dos que querem transformar a sociedade com base num projecto libertário. Por isso o título do livro cheira a engodo – mas isso não seria grave ou não fosse o saber-se, como se sabe, que há quem esteja a convocar um encontro para o dia 25 de setembro, no auditório da Biblioteca Nacional, em Lisboa, para debater este livro, sob a hipótese de constituição “dum partido libertário”.

Tudo isto é triste. Mas tudo isto é fado, pelos vistos.

Introduzindo algumas achas nesta fogueira, mas duma forma assertiva, vem agora José Rodrigues dos Santos, também ele professor universitário e amigo de décadas de João Freire dizer o que todos sabíamos: João Freire não traiu, não se despediu, está arrependido das ideias que foram as suas, e está totalmente rendido à realidade vigente.

José Rodrigues dos Santos não é anarquista, nem nunca o foi, mas disseca duma forma certeira o testamento político de João Freire, ex-anarquista, hoje rendido ao politicamente correcto e à social-democracia mais corriqueira.

Escreve José Rodrigues dos Santos:

“Arrependimento”, conforme disse de início: respeito. Voltar atrás e reconhecer erros (ou o que agora lhe parecem ter sido tais), é um exercício que goza de plena legitimidade. Mas confesso que, deixando agora de lado os termos com que o JF indexa o livro, me ocorre uma palavra bem mais cruel: rendição. Não posso escondê-lo. Desagradável mas verdadeiro, o sentimento que o JF abdica do fundamento mesmo das principais teses que perfilhou (e não só desta ou daquela modalidade prática). O JF rende-se à cartilha liberal(ista), no corpo central da análise e não apenas em opções concretas. O capitalismo, o mercado (o tal auto-regulado, etc.), são para o JF, no final de contas, inultrapassáveis. Não há horizonte fora e para além deles. Curiosa atitude para quem, com tanto trabalho histórico para trás, deveria saber que capitalismo, mercado, etc., são formas culturais (instituições) produtos da história que passarão com a história. Talvez, meu caro JF, em vez de nos entregarmos à vã esperança dum “milagre”, como dizes, o nosso dever seja verdadeiramente explorar as aberturas através das quais, no presente, começa a ser visível (pelo menos um) outro futuro. A rendição que me entristece, não é rendição “à realidade”, mas sim à doxa que nos diz o que se quer que acreditemos que essa realidade é. Desistir da crítica dos fundamentos do sistema actual, nunca.”

ler aqui o artigo completo de José Rodrigues dos Santos

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(Porto) Este sábado vai-se falar de decrescimento


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CONVITE

O DECRESCIMENTO VEM AO PORTO

7 de Julho, duas sessões: Espaço Gazua e Gato Vadio

Descobrimos, nas últimas semanas de preparação deste encontro, que o decrescimento é um tema que já vinha interpelando muitos de nós. Esse interesse contrasta com a religião laica do crescimento diariamente praticada pelo Estado e pelos meios de comunicação. Embora aparentemente incontestada, essa crença expõe hoje a sua falência nos planos ecológico, sócio-económico e simbólico.

Ao longo dos anos, disseram-nos que vivíamos numa sociedade miraculosa, onde o crescimento tudo assegurava: o bem-estar e a igualdade de oportunidades, a democracia e a sociedade de consumo para todos. A nenhum de nós escapa que tudo isso está na iminência de se perder, embora os sacerdotes do «Crescimento» continuem a invocar os mesmos deuses. E como acontece com as divindades que já não parecem capazes de operar prodígios, estas começam a pedir-nos sacrifícios, enquanto tudo se torna mais caótico, mais imprevisível e presa de novos «homens fortes».

Podemos contrariar o enlouquecimento geral trazido pelo fim iminente da «sociedade de crescimento» que as fontes energéticas fósseis instalaram e agora já não podem assegurar. Podemos ainda travar a destruição, hoje extrema, dos ecossistemas de que os humanos dependem. Podemos criar alternativas à entrada da sociedade na desigualdade nunca antes vista, nos autoritarismo e nacionalismo crescentes, na xenofobia, na guerra e no fascismo tecnológico. E, mudando de rumo, podemos construir vidas felizes mesmo sabendo que os recursos disponíveis serão menos abundantes a breve prazo.

Ao contrário da globalização, o decrescimento viceja na pequena e na média escala: nas bio-regiões, nas comunidades locais, nos circuitos de proximidade, na resiliência dos espaços locais e regionais. Por isso convidámos os nossos amigos da «Rede Decrecemento Eo-Navia, Galiza, O Bierzo». São nossos próximos no ecossistema, na língua, nos problemas partilhados. Queremos conhecer a origem, o percurso e os objectivos dessa rede de decrescimento. Queremos, também aqui, construir redes de decrescimento.

Eis o programa:

Sábado, 7 de Julho, às 16h, no Espaço Gazua (Rua João das Regras, 151):
Apresentação da Rede de decrecemento Eo-navia, Galiza i O Bierzo e do 1º Congresso do Decrescimento.
Debate sobre bio-regiões, redes de resiliência e organização de iniciativas de decrescimento, com Álvaro Fonseca, Iolanda Teijeiro Rey e Miguel Anxo Abraira.


7 de Julho, às 21h30, no Gato Vadio (
Rua do Rosário, 281):
O decrescimento: escolha colectiva ou inevitabilidade? Um debate com Jorge Leandro Rosa, Miguel Anxo Abraira e Iolanda Teijeiro Rey.

(Participantes: Álvaro Fonseca, activista eco-social,  ex-docente universitário na área das ciências da vida, Portugal; Jorge Leandro Rosa, ensaísta e tradutor, membro da direcção da Campo Aberto, Portugal; Miguel Anxo Abraira, activista do decrescimento, Associação Véspera de Nada, Galiza; Iolanda Teijeiro Rey, activista do decrescimento, Galiza)

Página do evento (em constante actualização):         

https://www.facebook.com/events/217635588847920

(Lisboa) Jornadas de saúde mental antiautoritária começam esta sexta-feira na Disgraça


Na Disgraça (Rua da Penha de França 217 a/b, Lisboa)

Entre as tantas formas de domínio às quais os nossos corpos estão sujeitos, o esgotamento físico e emocional das nossas mentes é o mais alarmante e, sobretudo, é aquele que parece estar mais longe de ser solucionado, devido à sua complexidade e aos aspetos da esfera social com que ele está relacionado. As pressões que sofremos para que os nossos corpos se encaixem num modelo de vida “normal e normativo” têm repercussões no estado das nossas saúdes mentais, cujas falhas são-nos premeditadamente apresentadas, cada dia mais, como algo de demasiado complexo para serem solucionadas com as práticas da saúde autogestionada. Em realidade, a saúde da mente não é algo de muito diferente da saúde inerente a outras partes do corpo, sendo que é possível desenvolver estratégias de fortalecimento e defesa já a partir de nós proprixs, sem devermos recorrer aos ditames das ciências autoritárias do sistema de saúde dominante. O Grupo de Saúde Antiautoritária (GO.S.A.)organiza dois fins de semana  para repensarmos as práticas para cuidar da nossa saúde mental, a partir de uma perspetiva autogestionada e antiautoritária!

As Jornadas decorrerão no espaço Disgraça (Rua da Penha de França 217 a/b, Lisboa)

Programa 29 de junho – 1 de julho

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(memória libertária) “Greves e lutas insurgentes: a história da AIT e as origens do sindicalismo revolucionário”


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aqui: http://www.historia.uff.br/stricto/td/1735.pdf

Acaba de ser disponibilizada na internet a tese académica “”Greves e lutas insurgentes: a história da AIT e as origens do sindicalismo revolucionário”, de Selmo Nascimento. Mais um contributo para as origens do associativismo internacionalista proletário e do sindicalismo revolucionário.

(anarchist studies network) Envio de ‘abstracts’ para Conferência Internacional sobre Descolonização até 28 de Fevereiro


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Rede de Estudos Anarquistas (Anarchist Studies Network – ASN) // 5ª Conferência Internacional // 12-14 Setembro 2018 // Universidade de Loughborough, Reino Unido

Chamada para papers e painéis.

A luta contra a opressão e a destruição continua sob um céu carregado. A onda global de resistência tem-se feito sentir, à medida que as elites optam pelo nacionalismo, pelo racismo e pela misoginia. Para a maioria mundial, essa opressão não é surpreendente nem nova, devido ao ainda presente legado colonial e às novas formas de exploração neocolonial que têm surgido. Enquanto isto, os discursos hegemónicos mostram uma habilidade desarmante para cooptar e neutralizar: convertendo anti-capitalismo em bem-estar populista, resistência ecológica em consumo verde, e interseccionalidade militante em políticas de identidade liberal. A literatura e a organização anarquistas não estão completamente imunes a esses problemas; propor ideias e práticas que sejam radicalmente não-opressivas requer reflexão crítica sobre pressupostos e verdades, incluindo as nossas próprias. Apesar dos desafios, os anarquistas têm apoiado e criado múltiplos locais de resistência, bem como projetos construtivos, ao mesmo tempo que lideram a luta contra a extrema direita. Confiando que o vento voltará a mudar, a chama permanece acesa.

Nestes tempos de incerteza, a elaboração e a análise anarquistas, que juntam teoria e prática, o rigor académico e as percepções dos movimentos sociais, continuam a ser fundamentais.

A 5ª Conferência Internacional da Rede de Estudos Anarquistas realiza-se na Universidade de Loughborough entre 12 e 14 de setembro de 2018. São bem-vindas propostas para papers individuais, bem como propostas para painéis que juntem 3-4 trabalhos em torno de um tema comum.

Por favor, enviem abstracts até 250 palavras por paper para o endereço:

asn.conference.5@mail.com

Data-limite para abstracts: 28 de Fevereiro 2018

As conferências da ASN visam rasgar novas fronteiras no âmbito dos estudos anarquistas e encorajar o intercâmbio entre disciplinas. Aceitam-se contribuições de dentro e fora da esfera académica oficial, de todas as disciplinas académicas, e sobre qualquer assunto relevante para o estudo e prática do anarquismo como abordagem vital para a transformação social.

O tema central desta conferência é a DESCOLONIZAÇÃO que, esperamos, seja inspiradora de muitas apresentações e painéis. O objetivo é duplo: i. estimular a discussão sobre o colonialismo e o racismo como formas de opressão a que os anarquistas se opõem, mas que continuam a fazer-se sentir também no âmbito das organizações anarquistas; ii. receber pessoas, grupos e comunidades que não tenham participado em eventos anteriores da ASN.

Tendo em conta o legado do pensamento e da ação não-ocidentais e anticoloniais na tradição anarquista, queremos fortalecer os laços entre os anarquistas de hoje e essa teoria e prática em torno da descolonização, no âmbito da luta contra a opressão; pretendemos abrir o evento a grupos marginalizados, reconhecendo a existência de práticas e quadros mentais racistas e eurocêntricos.

Por essa razão, encorajamos particularmente propostas vindas do sul global e de pessoas de cor, bem como de mulheres, pessoas trans e não-binárias e de pessoas com deficiência. Desafiamos também os organizadores de painéis a ultrapassarem eventuais exclusões. Em relação ao tema central da conferência, são bem-vindas apresentações que abordem os seguintes temas:

–  Envolvimento anarquista na teoria da raça e da descolonização

–  Geografias anarquistas da descolonização

– Movimentos anarquistas em África, Ásia, América Latina, Pacífico, etc.

–  Filosofias não-ocidentais, religiões e tradições e as suas ressonâncias anarquistas

–  Anti-nacionalismo e antifascismo

–  A descolonização e as críticas anarquistas

–  A descolonização e as críticas ao Estado

–  Histórias sobre a resistência anarquista contra o colonialismo

–  Interseções entre raça/colonização, idade, classe, género, sexualidade, etc.

–  Anarco-feminismo, anarquismo verde, individualismo não-ocidentais

–   Modos de (anti-)representação não-ocidentais e ocidentais e o movimento entre ambos

Serão também bem-vindas propostas sobre QUALQUER OUTRO TEMA relacionado com o estudo e a prática do anarquismo.

Aceitaremos trabalhos que façam a ponte entre o meio “académico” e outras formas de conhecimento. Receberemos também propostas para a realização de oficinas, eventos de arte/performances e peças experimentais. Estamos ainda abertos a discutir outras ideias que possam surgir.

Acolheremos propostas de papers e painéis noutras línguas (por exemplo, português), mas, por favor, enviem também um abstract em inglês. A tradução será auto-organizada durante a conferência de forma ad hoc e voluntária.

As instalações da Universidade de Loughborough são totalmente acessíveis a cadeiras de rodas e possuem sistema de anel magnético. Contamos ter disponíveis bolsas para apoiar as deslocações dos participantes com baixos rendimentos ou desempregados, especialmente aqueles que são provenientes do sul global, bem como co-organizar o acolhimento de crianças. Apesar de não podermos, no momento, garantir nenhum destes apoios, por favor, façam-nos chegar as vossas necessidades específicas. Daremos o nosso melhor para as satisfazer: asn.conference.5@mail.com

inglês: https://anarchistnews.org/content/anarchist-studies-network-5th-international-conference-loughborough-12-14-sep-2018

CEM ANOS DEPOIS DA CONTRA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE: MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE A DESTRUIÇÃO DAS NOSSAS LUTAS


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Este texto é somente um resumo, uma pequena recordação de um desastre histórico que ainda tem repercussões nas nossas lutas de hoje. Neste outubro de 2017, cem anos depois, cabe-nos a nós lembrar a apropriação bolchevique da Revolução Russa, que constituiu um desastre para a classe trabalhadora, um desastre para o povo russo e para todos os povos submetidos ao Império Russo, um desastre para os movimentos anticapitalistas à escala mundial, um desastre para quem procura liberdade, um desastre para a humanidade.

2Para a frente camaradas – para a contra revolução!

Um Desastre Previsível

A deriva contrarrevolucionária da URSS era previsível. Na verdade, Bakunine previu como uma «ditadura do proletariado» rapidamente se converteria em mais uma ditadura sobre o proletariado 50 anos antes de a Revolução Russa ter acontecido. Nos anos seguintes, muitos outros anticapitalistas chegaram à mesma conclusão. Era uma aposta bem segura, considerando a forma como os líderes da nova ditadura encontraram a sua inspiração noutra figura contrarrevolucionária, Karl Marx.

Não fazemos esta afirmação de ânimo leve, denunciado alguém como «contrarrevolucionário» que, sem sombra de dúvida, foi tão importante para as lutas anticapitalistas. Nem chegaríamos a dar esse passo por causa de simples desacordos teóricos. Foi só depois de um estudo minucioso das consequências das ações de Marx que chegámos a esta conclusão.

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