eleitoralismo

(crónica em tempo de selfies) Lá vamos cantando, rindo e votando… (1)


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Évora/Não há cão nem gato que não nos queira representar…

Enquanto anarquistas e libertários, determinados na mudança radical da sociedade e na transformação das relações sociais de poder e de produção, pouco nos diz o folclore eleitoral que, de quatro em quatro anos, arrebanha o gado eleitoral para o levar à mesa de voto, encerrando o seu papelinho numa “urna”, ou seja, num lugar destinado a mortos, em que o voto de nada vale porque todo o jogo está já previamente determinado pelos que gerem os cordelinhos do capital e do poder. Se votar mudasse alguma coisa, como sempre disseram os libertários, o voto já estaria proibido.

No entanto, enquanto colectivo sediado em Évora nada do que aqui acontece nos é indiferente, pelo que, após aturada reflexão, decidimos intervir nestas eleições. Não, claro!, apresentando listas ou participando no espectáculo cómico-doentio das eleições autárquicas – que poderiam ser um momento de afirmação do local e das propostas cidadãs, no espírito assembleario do municipalismo libertário, e se tornaram numa caricatura do que mais retrógrado e reaccionário tem o activismo político partidário na sua recorrente afirmação do “vota em mim que sou melhor do que o parceiro do lado”, transformando a vida local num pântano similar ao existente em termos de política nacional, em que os interesses e o modo de vida dos partidos e dos seus dirigentes (grandes, médios e pequenos) se sobrepõem às necessidades e aos interesses das populações em geral.

Para já não falar, claro, da corrupção que é generalizada a um e outro estrato do poder. Seja local ou nacional, a corrupção e o aproveitamento do público pelo privado (seja pessoal, partidário ou de grupo) está distribuído de forma muito iguaitária.

Não! Não iremos intervir desse modo porque isso significaria que também queríamos participar no banquete da representação e do uso e abuso dos bens públicos em proveito próprio ou de grupo e que, mais do que lutarmos por outra sociedade, estaríamos a aproveitar as migalhas que esta proporciona aos que seguem os seus ditames.

Não! Vamos intervir pela palavra e pela análise. Mostrar que aos pequenos reizinhos e rainhitas que se apresentam para o baile nada os diferencia e que bem podiam bailar juntos, sem esta multiplicidade de siglas e slogans; que à violência palavrosa destes períodos eleitorais, outros períodos houve – e outros haverá – em que reina a concórdia e que tudo se resume a uma questão de lugares e de quem está no poder; que de todas estas cabeças brilhantes, todas juntas, não há uma ideia para mudar o mundo e a sociedade, mas, no máximo, como ajudá-la a sobreviver e a ser mais eficaz no seu esforço de rapina e dominação. ´

É tão doce, é tão bom, ouvi-los na oposição e depois quando, nas cadeiras do poder, executam exactamente aquilo que criticavam na gestão anterior…

Fiquemo-nos, então, por este dado que parece sempre tão essencial nos políticos do costume: a renovação. Ou, como dizem, a mudança de políticas. Sabemos que até podiam ser os melhores candidatos do mundo, mas sabemos também que é impossível mudar o sistema por dentro. Mas, então, o que será possível com estes candidatos que se nos apresentam, tudo gente da política, enfeudados aos partidos, cheios de vícios e manhas e, embora a idade neste caso não seja um posto, mais próximos da reforma do que da capacidade de grandes transformações ou mudanças?

Onde é que está a dita e sugerida renovação? Para quê todo este espectáculo de gosto duvidoso?

A CDU segura o seu candidato, profissional político e autárquico, que conseguiu reconquistar Évora para a coligação do PCP consigo próprio há quatro anos: Carlos Pinto Sá, 59 anos, presidente de Câmara desde 1993 (Montemor, depois Évora);

O PS, depois do descalabro e da derrota há quatro anos, avança com Elsa Teigão, 50 anos, professora e líder da concelhia, tentando recuperar o terreno perdido;

O PSD, com apenas um vereador na Câmara, aposta num seu actual deputado, António Costa e Silva, de 49 anos;

O Bloco de Esquerda, sem qualquer vereador, insiste em Maria Helena Figueiredo, 62 anos, enquanto o CDS, que nunca teve qualquer eleito nos órgãos autárquicos do concelho, avança com Pedro d’Orey Manoel, de 48 anos, só para fazer número.

Admito que já estejam a bocejar. E ainda não chegaram as propostas de cada um deles. Talvez sejam menos ambiciosas que as 20 estações de metro da Cristas para Lisboa, mas haverá promessas para todos os gostos. Daqui até finais de Setembro é época de caça eleitoral.

Cidadão eleitor não te distraias. Se te apanham desprevenido, seja na Praça do Geraldo, junto ao mercado ou mesmo numa travessa suburbana, não há beijo, aperto de mão ou selfie de que possas escapar! E nem imagino o que vai ser a Feira este ano…

De tudo isso iremos dando notícia.

luís bernardes

(eleições) “A luta deve continuar até que a liberdade seja uma palavra esquecida, por não haver tirania que a lembre”


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Velhos lutadores anarquistas reunidos em Almada no pós-25 de Abril. Entre eles,  da esquerda para a direita, Sebastião de Almeida, Correia Pires (que esteve largos anos no Tarrafal) discursando, Emídio Santana (anarco-sindicalista, preso por ter realizado um atentado contra Salazar) e Francisco Quintal. Todos eles lutaram para que a liberdade fosse muito mais do que o direito ao voto (foto daqui).

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A luta pelo voto foi uma luta fundamental de conquista de direitos. Uma melhoria significativa em relação ao que havia, um passo decisivo na direcção da auto determinação dos cidadãos. Devemos honrar aqueles que não baixaram os braços perante a tirania, muitas vezes pagando com a própria vida, os direitos de que usufruímos hoje em dia.

Não é honrar esses lutadores baixar os braços agora, parando a luta que deve ser contínua. O direito de voto não é o terminus da luta. Uma melhoria em relação ao que havia está longe de ser o melhor.

O direito de voto transformou o sistema político numa representatividade oligárquica que continua a oprimir e a explorar os cidadãos. Não é o sistema político ideal por muito melhor que seja do que o sistema político que nos negava esse direito

Votar, defender o voto, significa defender o sistema oligárquico de representatividade. Significa ofender e desonrar os que lutaram pelos nossos direitos, parando o que eles começaram.

O fim da linha vem longe. Não ousemos parar agora, abdicar do caminho iniciado ficando pelos direitos que outrora foram conquistados. Uma vitória após outra até que os cidadãos possam enfim, expressar a sua voz directamente, sem necessidade de quem por nós fale, por nós decida e por nós faça.

Os cidadãos não são alienados mentais a precisar de tutores que decidam o que para eles é melhor. E a luta deve continuar até ao dia em que liberdade seja uma palavra esquecida, por não haver tirania que a lembre.

Luís Martins (aqui)