Gonçalves Correia

(1918) A greve geral em Vale de Santiago e o assassinato de Sidónio Pais


 

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Bilhete-Postal de 1919, retratando o assassinato do Presidente Sidónio Pais na Estação Ferroviária de Lisboa-Rossio, no dia 14 de Dezembro de 1918

Passam hoje 98 anos sobre o assassinato de Sidónio Pais, presidente da 1ª República e um dos precursores do fascismo europeu. A sua morte está ligada à greve geral de Novembro de 1918, que teve um eco particular no concelho de Odemira, no Vale de Santiago, e que foi violentamente reprimida. Num e noutro caso, aparece como figura destacada José Júlio da Costa, o alentejano que matou Sidónio Pais, na Estação do Rossio, em Lisboa, com 25 anos de idade.

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Gonçalves Correia: “A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura”


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Para ler em pdf: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/42_BNP_AHS424.pdf

Numa altura em que tanto se discutem os “direitos” dos animais e a necessidade de serem poupados à tortura e ao sofrimento, convém relembrar o texto da conferência produzida em 1922, em Évora, no Teatro Garcia de Resende, no quadro do V Congresso dos Trabalhadores Rurais pelo anarquista Gonçalves Correia. Este anarquista alentejano foi um dos fundadores da Comuna da Luz, nas Fornalhas Velhas, onde o regime alimentar era essencialmente vegetariano e crudívoro. Nesta conferência subordinada ao tema “A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura”, Gonçalves Correia defende o fim  da propriedade privada e da exploração quer do homem pelo homem, quer do animal pelo homem, entrando a humanidade numa nova era em que todos os seres serão tratados de forma digna e sem serem violentados.

“A sociedade futura, sem propriedade individual, que será de todos, como o sol, como a lua, como o próprio ar, inundará o mundo de ternas, de quentes alegrias. O ódio, que é filho do egoísmo e do erro, dará lugar à estima de todos, que deixarão de se guerrearem como inimigos, para se estimarem como irmãos!

O próprio irracional não terá, como o boi simpático e paciente, olhos mortiços, o corpo cansado e esquelético. Compreenderá o homem, enfim, que ser rei dos animais não significa ter o direito à sua tortura. Os próprios irracionais terão lugar no grande banquete da vida, inundando-se a terra de pura, de generosa alegria!”

Para ler e, sobretudo, para perceber a importância desta conferência num Congresso de Trabalhadores Rurais, em 1922, alertando para a necessidade de um novo tempo de igualdade e de solidariedade entre todos os seres viventes, pondo fim à exploração e à opressão.

Algo bem diferente daquilo que ainda hoje se passa com alguns “animalistas”, que se levantam em defesa dos direitos dos animais, mas que se calam bem caladinhos, quando estão em causa a opressão e a exploração de quem trabalha por conta de outrem.

Décimas a António Gonçalves Correia


gonçalves correia

António Gonçalves Correia (São Marcos da Atabueira, Castro Verde, 3 de Agosto de 1886 — Lisboa, 20 de Dezembro de 1967) foi um anarquista, vegetariano, ensaísta, poeta e humanista português. Fundador da Comuna da Luz, a primeira comunidade anarquista em Portugal.

*

Ele levava a Liberdade
A todo o lugar que ia.
A toda a gente que via
Dizia em sinceridade
Da sua ideia, a bondade.
Em qualquer lado que estava
Esse sonho que levava,
Nascido do coração
Quase como uma oração,
A todos ele o contava.

O Gonçalves Correia andou
De caixeiro-viajante
Quem o viu até garante
Que alguma coisa ficou.
Que se ele tanto adubou
O seu sonho vai crescer
E vai outra vez viver
Logo que chegue seu tempo,
É só esperar o momento,
Da semente florescer.

Incansável lutador
No seu Alentejo viveu
Com todos ele conviveu
Levantando seu clamor
Sempre c’ um mesmo fervor
A todos os trabalhadores
Falava dos seus amores
Liberdade, Revolução
Paz com comunhão
De iguais, sem mandadores.

Nem passarinhos, queria presos
Abria gaiolas nas feiras
Soltava-os como bandeiras
Lutava p’los indefesos
Deixava todos surpresos
Com as coisas que fazia.
Sempre que ele aparecia
A liberdade trazendo
Seu ideal defendendo
A opressão estremecia.

Hoje tem nome na rua
No Alentejo é lembrado
Um pouco por todo o lado
Sua bandeira flutua
Negra, de noite com Lua
Nada pode a opressão
Contra livre coração.
Gonçalves Correia via
P’ra onde o futuro corria
Deixou-nos essa lição.

por António Pereira

aqui: http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.pt/2014/09/decimas-antonio-goncalves-correia.html

Texto de Raquel Varela em solidariedade com Ana Nicolau, bisneta de Gonçalves Correia, o fundador da Comuna da Luz


Gonçalves Correia e Ana Nicolau, dois tempos diferentes, uma mesma luta pela liberdade
*
A historiadora Raquel Varela escreveu no facebook um pequeno texto sobre Ana Nicolau, a activista que vai a julgamento em Março, por ter exigido das galerias do Parlamento a demissão do governo de Passos Coelho. Ana Nicolau é bisneta – e não neta, como Raquel Varela afirma – de Gonçalves Correia, o anarquista alentejano do concelho de Castro Verde (São Marcos da Atabueira), cuja memória ainda perdura, bem viva, por terras do Baixo Alentejo. Fica bem a Raquel Varela esta forma solidária de estar e a lembrança de Gonçalves Correia (… na Comuna da Luz eram crudíveros, mas – ao que se sabe – não andavam nus, a não ser, talvez, em certos dias de calor intenso, que o sol aperta a doer aqui no Alentejo…), o anarquista tolstoiano (mas não só…) responsável por dar corpo à primeira cooperativa de trabalhadores agrícolas e artesãos no Alentejo em finais da primeira década do século passado. Para além de uma intensa actividade em prol dos trabalhadores e do anarquismo, coube também a Gonçalves Correia proferir a conferência “A Felicidade de todos os seres na sociedade futura” realizada no V Congresso dos Trabalhadores Rurais, no teatro Garcia de Resende, em Évora, no dia 16 de Dezembro de 1922, um texto ainda hoje cheio de frescura e actualidade pelo respeito que demonstra por todas as espécies viventes – humanas e não humanas.
*
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TEXTO DE RAQUEL VARELA:
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Uma distinta senhora – imagino que já perto dos 40 anos mas que os media tratam como «activista»- ainda aguardo o dia em que um ministro que nacionaliza bancos será tratado como «activista» dos mercados – , regressemos, perdão, uma senhora, dizia eu, será levada a julgamento porque pediu nas galerias do Parlamento a demissão de Passos Coelho. Gritou «demissão!». Parlamento da qual ela é, creio, uma espécie de…como dizer…, co-proprietária, junto com 10 milhões de cidadãos. Nunca é muito lembrar que isto é uma democracia representativa, farrusca, em mau estado, mas onde o poder é do povo, e o Parlamento mero representante desse poder.

Ana Nicolau, de sua graça. Nacionalizou um banco? Despediu milhares de pessoas? Subiu a conta de electricidade? Mandou os jovens emigrarem? Não. Gritou «demissão». Um inconseguimento. O representante não gostou. Já dizia o Salazar, se «soubesses o que custa mandar, preferias toda a vida obedecer…». Curiosamente Ana Nicolau é neta de um dos mais singulares homens deste país, Gonçalves Correia. Foi até à morte, já nos anos 60, um destemido opositor a Salazar, e um homem de uma humanidade e bondade raras. Conheço com detalhe a sua história, por razões profissionais e pessoais – ensinou o meu pai a ler Tolstói, um dos maiores escritores de sempre, e que, entre outras maravilhas, distribuiu as terras de que era proprietário pelos camponeses que nela trabalhavam. De quanta terra, de quanta terra precisa um homem?

Eu, confesso, jamais iria viver na sua comuna vegetariana, onde consta, se andava nu. Vegetarianismo para mim é tortura. Nu intimidade. Mas é difícil encontrar na história do século XX um punhado de homens tão generosos e que tenham feito tanto, tão bem e a tanta gente como este anarquista tolstoiano, que foi preso defendendo os mais pobres dos mais pobres assalariados agrícolas do Alentejo, quando em plena República não se hesitou em esmagar o movimento operário – muito antes de Salazar, apesar da historiografia positivista tentar atribuir à República uma aura de protecção social, que nunca existiu de facto. Gonçalves Correia foi fundador do jornal A Questão Social. No seu primeiro editorial escreveu «o nosso jornal é para afastar o ódio e proclamar a harmonia. Mas o nosso jornal, porque à Verdade se quer sujeitar, terá de dizer muita coisa que não agrade a certos magnates nacionais e estrangeiros».

Aqui um artigo do antropólogo João Carlos Louçã sobre o extraordinário percurso de Gonçalves Correia. Que a neta não se sinta intimidada e siga o seu caminho, para que todos possamos mandar e, assim, ninguém tenha que obedecer.
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relacionado:

(estudo) A utopia concreta de Gonçalves Correia: percurso e contexto de um anarquista alentejano singular


agc

Gonçalves Correia, ao centro, anos 60 (em Beja?)

Tem sido grande o interesse suscitado pela vida e obra do anarquista alentejano, natural de São Marcos da Atabueira (Castro Verde), António Gonçalves Correia (1889-1967). Editor do jornal “A Questão Social” e principal impulsionador da “Comuna da Luz”, nas Fornalhas, é recordado num artigo da autoria de João Carlos Louçã, doutorando em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa,  publicado na revista digital brasileira Em Debate .  O artigo em questão tem como título “A utopia concreta de Gonçalves Correia: percurso e contexto de um anarquista alentejano singular”.

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GONÇALVES CORREIA – a utopia de um cidadão, por Francisca Bicho


Capturar1Gonçalves Correia nasceu em 1886, portanto, na vigência do regime  monárquico em Portugal. Quando teve idade para pensar, Gonçalves Correia aderiu, como muitos outros, às ideias republicanas, pois como ele próprio escrevia em 1916 num artigo de discussão temática no Jornal A Questão Social N°.12 “(…) o regime republicano, é como regime político,  um pouco mais lógico que o regime monárquico (…)”. Contudo, e como afirmou na Carta a um Republicano, mesmo  antes da implantação da República já o seu ” (…) espírito pairava por outras  regiões (…) Por que compreendera já que isto de repúblicas e de monarquias é coisa muito parecida”, razão pela qual a alegria que sentiu em 5 de Outubro de 1910 foi uma alegria breve, dado que de imediato “(…)  via o negro interesse pessoal a manchar os intuitos puríssimos dos “idealistas”. (9)

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