Júlio Carrapato

(Faro) Almoço de homenagem à memória de Júlio Carrapato reuniu mais de duas dezenas de familiares e amigos


 

Um almoço evocativo da memória do anarquista Júlio Carrapato teve lugar esta quarta-feira, 19 de Julho, em Faro, no dia em que faria 70 anos, reunindo mais de duas dezenas de familiares, amigos e companheiros de ideal.

Júlio Carrapato, editor, tradutor, professor universitário e uma das referências do anarquismo em Portugal, morreu há um ano, deixando uma profunda saudade entre familiares e amigos.

Este almoço de homenagem ao Júlio foi organizado pela sua companheira e pelo filho de ambos, Daniel Carrapato, que lançou o repto para que todos os presentes escrevessem um pequeno (ou grande) texto sobre um episódio, uma conversa, um debate, um encontro relacionado com Júlio Carrapato, de forma a que daqui a um ano, num almoço deste género, se pudesse organizar um pequeno volume com essas prosas.

Este encontro serviu também para que alguns companheiros, que não se viam há muito, vindos de Lisboa, Almada ou Évora se pudessem reencontrar e partilhar memórias e realidades diversas num ambiente de salutar companheirismo.

Foi bonita a festa, pá!

 

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‘Algumas verdades sobre o individualismo libertário’, por Júlio Carrapato


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Numa altura em que muitos, ainda inebriados pela teologia marxista-leninista, põem em oposição o individualismo ao associativismo ou o individuo ao colectivo, convém recordar aquilo que sempre distinguiu os anarquistas das correntes autoritárias e que foi o acento tónico permanentemente colocado no indivíduo livre e livremente associado a outros indivíduos livres. Só desta associação horizontal poderá resultar uma efectiva e profunda transformação da sociedade, de que as associações serão o gérmen.

Para os anarquistas, que bebem directamente da tradição libertária, só indivíduos autênticos, únicos, autónomos, se podem associar com outros iguais – se não resta a massa, facilmente manobrável e controlável, seja nos regimes de capitalismo de Estado ou de mercado, seja nos países totalitários de marca fascista ou comunista, como bem observou Wilhelm Reich na sua “Psicologia de massa do fascismo” ou Hannah Arendt nos escritos contra o totalitarismo. Ao contrário dos marxistas, que reduzem todo o conteúdo civilizacional à economia e à luta de classes, confundindo a parte com o todo, os anarquistas consideram que são diversos os factores que influem na transformação social e, sem pôr em causa a importância da economia e da luta que opõe as classes detentoras do poder e dos meios de produção às classes exploradas e oprimidas, não menosprezam outras áreas da realidade e centram, quase sempre, o seu olhar sobre o individuo, enquanto tal, base e fim último da transformação individual e colectiva por que lutam e anseiam.

O texto que a seguir se divulga é assinado por Júlio Filipe e foi publicado no jornal “O Meridional”, nº 1, de Abril de 1978. O seu autor é Júlio Carrapato, um dos anarquistas mais influentes nas décadas de 70/80 do século passado no movimento libertário em Portugal. Ele próprio – um admirador de Durruti, tendo traduzido para português a sua biografia –  assumia-se como um colectivista, na velha tradição da CNT espanhola, sem que considerasse que isso entrava em contradição com o individualismo libertário que advogava e  que fora beber a homens como Albert Libertad ou Max Stirner.

Fica aqui este texto, escrito no estilo singular de Júlio Carrapato, em defesa do individualismo libertário. E, como ele, consideramos que a crítica cerrada ao individualismo é um dos grandes mitos construídos pelo marxismo e pelas correntes autoritárias para assim melhor manobrarem no seu interesse as vontades individuais.

Individualismo que, na perspectiva libertária, não se opõe à associação e à solidariedade, nem ao apoio mútuo entre iguais, antes pelo contrário: o livre associativismo pressupõe – e ajuda também a criar – indivíduos livres, autónomos, solidários e… únicos.

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(Júlio Carrapato) Os cães ladram e o indivíduo passa


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(…) Se não pretendemos ser nem professores nem alunos, nem postos emissores nem postos receptores, nem pastores nem carneiros, nem carcereiros nem prisioneiros, nem exploradores nem explorados, nem governantes nem governados, nem elegíveis nem eleitores, nem representantes nem representados, que mossa nos podem fazer as excomunhões? Os cães ladram e o indivíduo passa. O indivíduo que se preza, claro está. E que não quer nada nem ninguém, nem acima nem abaixo dele; nem entronizar nem ser entronizado; nem endeusar nem ser endeusado. E é tão difícil ser-se hoje em dia, nesta sociedade de consumo e de opressão, um indivíduo autêntico, contrariamente ao que dizem os sinistros partidários do nivelamento por baixo, semelhante ao de relva cortada com a tesoura de tosquiar! É tão difícil não se ser um manequim da rebeldia, um estereótipo da revolta ou uma imagem de Epinal da revolução! Ou então uma pessoa não se limitar a ser uma profissão, um estado civil, um número de matrícula, um bilhete de identidade, uma caderneta militar, um boi que é levado ao matadouro, um automóvel que é posto na garagem, um cheque a assinar, uma letra a vencer, um aumento de salário, um posto na hierarquia, um cartão de aderente a um partido, uma carta de cotizante sindical… É tão difícil, em suma, não se ser uma imagem de marca qualquer, no seio de uma sociedade que só vive de encenação e de publicidade, e onde se prefere sempre a imagem à realidade…

Júlio Carrapato – excerto do artigo “Algumas verdades sobre o Individualismo Libertário”, publicado no jornal “O Meridional”, nº 1, Faro, Abril de 1978