liberdade

Nos 60 anos da Revolução Húngara: um sopro de liberdade esmagado pelos tanques soviéticos


Se a queda do muro de Berlim constituiu a 9 de Novembro de 1989, simbolicamente e na prática, o fim do bloco soviético e de mais de 70 anos de terror em nome do “socialismo” e do “comunismo” autoritários, como tinha sido antecipado por Bakunin (1), já há muitos anos que os regimes de tipo marxista-leninista, ditatoriais e de capitalismo de estado, eram contestados por largos estratos da população nos mais diversos países do chamado “Pacto de Varsóvia”.

Sem considerar os levantamentos protagonizados por grandes movimentos de trabalhadores logo no início da ditadura dita soviética, como Kronstadt ou a luta dos camponeses ucranianos, com Makhno, a revolução Húngara, em 1956, com a formação de conselhos operários (2) e o levantamento popular nalgumas das principais cidades do país, é um marco importante na história da dissidência e do combate pela liberdade desses povos.

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Texto de Raquel Varela em solidariedade com Ana Nicolau, bisneta de Gonçalves Correia, o fundador da Comuna da Luz


Gonçalves Correia e Ana Nicolau, dois tempos diferentes, uma mesma luta pela liberdade
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A historiadora Raquel Varela escreveu no facebook um pequeno texto sobre Ana Nicolau, a activista que vai a julgamento em Março, por ter exigido das galerias do Parlamento a demissão do governo de Passos Coelho. Ana Nicolau é bisneta – e não neta, como Raquel Varela afirma – de Gonçalves Correia, o anarquista alentejano do concelho de Castro Verde (São Marcos da Atabueira), cuja memória ainda perdura, bem viva, por terras do Baixo Alentejo. Fica bem a Raquel Varela esta forma solidária de estar e a lembrança de Gonçalves Correia (… na Comuna da Luz eram crudíveros, mas – ao que se sabe – não andavam nus, a não ser, talvez, em certos dias de calor intenso, que o sol aperta a doer aqui no Alentejo…), o anarquista tolstoiano (mas não só…) responsável por dar corpo à primeira cooperativa de trabalhadores agrícolas e artesãos no Alentejo em finais da primeira década do século passado. Para além de uma intensa actividade em prol dos trabalhadores e do anarquismo, coube também a Gonçalves Correia proferir a conferência “A Felicidade de todos os seres na sociedade futura” realizada no V Congresso dos Trabalhadores Rurais, no teatro Garcia de Resende, em Évora, no dia 16 de Dezembro de 1922, um texto ainda hoje cheio de frescura e actualidade pelo respeito que demonstra por todas as espécies viventes – humanas e não humanas.
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TEXTO DE RAQUEL VARELA:
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Uma distinta senhora – imagino que já perto dos 40 anos mas que os media tratam como «activista»- ainda aguardo o dia em que um ministro que nacionaliza bancos será tratado como «activista» dos mercados – , regressemos, perdão, uma senhora, dizia eu, será levada a julgamento porque pediu nas galerias do Parlamento a demissão de Passos Coelho. Gritou «demissão!». Parlamento da qual ela é, creio, uma espécie de…como dizer…, co-proprietária, junto com 10 milhões de cidadãos. Nunca é muito lembrar que isto é uma democracia representativa, farrusca, em mau estado, mas onde o poder é do povo, e o Parlamento mero representante desse poder.

Ana Nicolau, de sua graça. Nacionalizou um banco? Despediu milhares de pessoas? Subiu a conta de electricidade? Mandou os jovens emigrarem? Não. Gritou «demissão». Um inconseguimento. O representante não gostou. Já dizia o Salazar, se «soubesses o que custa mandar, preferias toda a vida obedecer…». Curiosamente Ana Nicolau é neta de um dos mais singulares homens deste país, Gonçalves Correia. Foi até à morte, já nos anos 60, um destemido opositor a Salazar, e um homem de uma humanidade e bondade raras. Conheço com detalhe a sua história, por razões profissionais e pessoais – ensinou o meu pai a ler Tolstói, um dos maiores escritores de sempre, e que, entre outras maravilhas, distribuiu as terras de que era proprietário pelos camponeses que nela trabalhavam. De quanta terra, de quanta terra precisa um homem?

Eu, confesso, jamais iria viver na sua comuna vegetariana, onde consta, se andava nu. Vegetarianismo para mim é tortura. Nu intimidade. Mas é difícil encontrar na história do século XX um punhado de homens tão generosos e que tenham feito tanto, tão bem e a tanta gente como este anarquista tolstoiano, que foi preso defendendo os mais pobres dos mais pobres assalariados agrícolas do Alentejo, quando em plena República não se hesitou em esmagar o movimento operário – muito antes de Salazar, apesar da historiografia positivista tentar atribuir à República uma aura de protecção social, que nunca existiu de facto. Gonçalves Correia foi fundador do jornal A Questão Social. No seu primeiro editorial escreveu «o nosso jornal é para afastar o ódio e proclamar a harmonia. Mas o nosso jornal, porque à Verdade se quer sujeitar, terá de dizer muita coisa que não agrade a certos magnates nacionais e estrangeiros».

Aqui um artigo do antropólogo João Carlos Louçã sobre o extraordinário percurso de Gonçalves Correia. Que a neta não se sinta intimidada e siga o seu caminho, para que todos possamos mandar e, assim, ninguém tenha que obedecer.
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