livros

Carlos Taibo em Portugal: o colapso e a sociedade que aí vem animaram debates no Porto, Lisboa e Montemor-o-Novo


b.jpg
.

c.jpg

Carlos Taibo encerrou este domingo em Montemor-o-Novo o seu périplo por várias localidades portuguesas, que o levou ao Porto, Lisboa (2 sessões) e ao Alentejo para a apresentação da tradução do seu livro “Colapso – capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo”, editado pela Letra Livre e pelo jornal Mapa.

Durante estes quatro dias, Carlos Taibo manteve contacto directo com largas dezenas de pessoas que estiveram presentes nas diversas sessões (Gato Vadio, RDA49, Universidade Nova, Oficinas do Convento), todas elas animadas por uma assistência numerosa e interveniente.

Em Montemor-o-Novo a sala polivalente das Oficinas do Convento recebeu cerca de três dezenas de pessoas que ouviram Carlos Taibo explicar que o colapso que se avizinha (e do qual disse não ter uma certeza absoluta, mas existir uma probablidade elevada de ele ser inevitável), derivado da necessidade constante de mais energia e do esgotamento das reservas naturais, poderia ser também uma oportunidade para a construção de uma sociedade que não esteja dependente do lucro, mas da satisfação das necessidades básicas do ser humano (materiais, imateriais, cognitivas e sensoriais…) e que esteja assente em premissas como a descomplexização, a destecnologização, a reruralização, a despatriarcalização e a autogestão.

Considerando que o capitalismo hoje é global, a superação do colapso – ou o momento que se lhe seguirá – terá que apontar no sentido de uma sociedade não hierárquica, não autoritária e não centralizada, assente na transição ecossocial e não no modelo oposto, centralizado e hierárquico, que os movimentos ecológicos de raíz capitalista propõem e que representam um perigo real de ecofascismo, uma vez que, conscientes da exiguidade de recursos que existe no planeta, defendem a sua utilização por uma minoria de eleitos, excluindo deles a maioria da população, que seria marginalizada ou mesmo eliminada.

No entanto estes debates foram apenas o início. O livro está aí cheio de informação, de ideias, de propostas, numa excelente tradução, “como já não é comum”, de Pedro Morais, como salientou o próprio Carlos Taibo.

colapsocapa.jpg

CARLOS TAIBO 
Professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid, é um dos mais activos autores libertários da actualidade. Entre os seus interesses, aparecem destacadas as questões do decrescimento e a análise do colapso social, económico e ambiental. O colapso não é um acontecimento do futuro mas antes um processo já plenamente instalado nas nossas sociedades industriais. Taibo propõe-se explicar as causas e os processos que apontam hoje para um colapso global e os dilemas, e alternativas, que se colocam.
.
«Colapso. Capitalismo terminal, Transição ecossocial, Ecofascismo».
Carlos Taibo
Letra Livre / Mapa
Lisboa, 2019.
241pp. 12,00 €
.

(21, 22, 23 e 24 de março) Carlos Taibo em Portugal para sessões no Porto, Lisboa e Montemor-o-Novo


Capturar

Cartaz Taibo Montemor_24Mar

O académico, autor e activista Carlos Taibo* estará em Portugal para o lançamento da tradução portuguesa do seu livro mais recente “Colapso. Capitalismo terminal, transiçãoecosocial, ecofascismo” (2016) pela mão do Jornal Mapa e da Letra Livre (co-editores). A Rede DC junta-se a esta iniciativa co-organizando sessões no Porto (21 Mar) e em Lisboa (23 Mar).

Segue-se o programa completo do périplo de Carlos Taibo:

Quinta, 21 Março, 21h – Porto

Apresentação da tradução portuguesa do livro «Colapso», de Carlos Taibo (co-edição Jornal Mapa e Letra Livre), seguida de conversa sobre Decrescimento e Autonomia com o autor e com elementos da Rede para o Decrescimento.

Gato Vadio, Rua do Rosário, 281

Sexta, 22 Março, 21h Lisboa

Apresentação da tradução portuguesa do livro «Colapso», de Carlos Taibo (co-edição Jornal Mapa e Letra Livre)

RDA49 – Regueirão dos Anjos, 49

Sábado, 23 Março 16-18h – Lisboa

“Perspectivas decrescentistas para a transição eco-social”, conversa participativa com Carlos Taibo

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, NOVA, Sala 1.11, Edif. B1

Domingo, 24 Março 15h/18h – Montemor-o-Novo

15h – Apresentação do livro ‘Colapso’ com conversa com o autor

18h – Conversa sobre o jornal Mapa

+ jantar vegetariano no final do dia

Oficinas do Convento (associação)

O Jornal Mapa publicou uma curta entrevista a Carlos Taibo na última página do seu número mais recente (nº22: http://www.jornalmapa.pt/2019/01/09/nas-bancas/).

Aproveitamos ainda para partilhar ‘link’ para entrevista ao jornal digital galego adiante.gal sobre colapso e descrescimento (Out 2018):

https://adiante.gal/a-proximidade-do-colapso-pode-estimular-iniciativas-contestatarias-que-hoje-ainda-nom-vemos/

*Carlos Taibo é Professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid, autor de vários livros, entre os quais: “En defensa del decrecimiento. Sobre capitalismo, crisis y barbarie” (2009); “Por qué el decrecimiento? Un ensayo sobre la antesala del colapso” (2014); “Colapso. Capitalismo terminal, transición ecosocial, ecofascismo” (2016). É possível aceder ao pdf do seu livro ‘Decrescimento, crise e capitalismo’ (2010) através do ‘link’:

http://estaleiroeditora.blogaliza.org/files/2010/09/descrecimento_web.pdf

Apareçam e/ou divulguem pelos vossos contactos.

Saudações decrescentistas,

Álvaro Fonseca

(pelo grupo coordenador da Rede DC)

(7 de Novembro) Emma Goldman, os anarquistas e a Revolução Russa


Capturar

“Durante um breve período da revolução de Outubro, os
trabalhadores rurais e urbanos, soldados e marinheiros foram
de verdade os donos da situação. Mas de pronto a invisível
mão de ferro do bolchevismo começou a manejar os assuntos
do Estado e separou a revolução do povo; e o povo separou-se
da Revolução. Naquele momento começou o Estado Bolchevique.
Os Bolcheviques formaram a Ordem dos Jesuítas de Marx.
Não quero dizer com isto que os bolcheviques não sejam
sinceros. Foi o seu marxismo que determinou sua actuação. Os
diversos métodos empregues destruíram a realização dos seus
objectivos. Comunismo, Socialismo, Liberdade, Igualdade, tudo
o que o povo russo suportou de sofrimento e porque fez a revolução,
caíram no descrédito pelos meios empregados, pela jesuística
desculpa de que o fim justifica os meios.
O cinismo mais desenfreado tomou o lugar do Idealismo
que distinguiu a revolução de Outubro. A inspiração caiu
paralisada, o interesse popular desapareceu; a apatia e a
indiferença suprimiram o entusiasmo e a energia criadora.
Não foi nem a intervenção, nem o bloqueio. Pelo contrário: a
politica interna do Estado Bolchevique é a única responsável
pelo fracasso da revolução e a única responsável também pelo
ódio que o povo russo sente por tudo o que dela emana.”

Emma Goldman

No dia em que passam 100 anos sobre o início da Revolução Russa, que tanta esperança semeou entre os trabalhadores de todo o mundo, convém recordar esta série de artigos* de Emma Goldman, ela própria de naturalidade russa,  e que viveu intensamente durante dois anos a esperança, mas também a desilusão provocada pela barbárie bolchevique sobre o conjunto dos trabalhadores e do povo russo.

Também neste outro longo artigo Emma Goldman dá conta da violenta repressão aos anarquistas russos pelo governo bolchevista logo nos primeiros tempos da Revolução.

(*Há que assinalar a péssima tradução de algumas partes desta brochura, mas é a única disponível em português.)

(Escritos contra Marx) Bakunin sempre actual e à frente do seu tempo


Screenshot (3)

para ler e download: escritos-contra-marx-mikhail-bakunin

A revolta é um instinto da vida; até mesmo o verme se revolta contra o pé que o esmaga, e pode-se dizer que, em geral, a energia vital e a dignidade relativa de qualquer animal se pode avaliar pela intensidade do instinto de revolta que ele traz em si. No mundo selvagem, bem como no mundo humano, não há faculdade ou hábito mais degradante, mais estúpido e mais covarde do que obedecer e resignar-se.
– Mikhail Bakunin (Escritos contra Marx)

*

“Um Estado, um governo, uma ditadura universal! O sonho dos Gregório VII, dos Bonifácio VIII, dos Carlos V e dos Napoleão, reproduzindo-se sob novas formas, mas sempre com as mesmas pretensões, no campo da democracia socialista!

Pode-se imaginar algo de mais burlesco, mas também de mais revoltante? Sustentar que um grupo de indivíduos, mesmo os mais inteligentes e os mais bem intencionados, será capaz de tornar o pensamento, a alma, a vontade dirigente e unificadora do movimento revolucionário e da organização económica do proletariado de todos os países é de uma tal heresia contra o senso comum e contra a experiência histórica que nos perguntamos, com perplexidade: como um homem tão inteligente quanto o Sr. Marx pôde concebê-la?

Os papas, ao menos, tinham por desculpa a verdade absoluta que eles diziam ter em mãos pela graça do Espírito Santo e na qual eram obrigados a crer. O Sr. Marx não tem absolutamente esta desculpa e não lhe farei a injúria de pensar que ele crê ter inventado cientificamente algo que se aproxime da verdade absoluta. Mas a partir do momento que o absoluto não existe, não pode existir para a Internacional dogma infalível nem, consequentemente, teoria política ou económica oficial, e nossos congressos nunca devem assumir o papel de concílios ecuménicos proclamando princípios obrigatórios para todos os associados e fiéis.

Só existe uma única lei realmente obrigatória para todos os membros, indivíduos, seções e federações da Internacional, da qual esta lei constitui a verdadeira, a única base: é, em toda a sua extensão, em todas as suas consequências e aplicações, A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES DE TODAS AS PROFISSÕES E DE TODOS OS PAÍSES EM LUTA ECONÓMICA CONTRA OS EXPLORADORES DO TRABALHO. É na organização real desta solidariedade, pela ação espontânea das massas operárias de todas as línguas e de todas as nações, e não em sua unificação por decretos, nem sob a batuta de um governo qualquer, que reside unicamente a unidade real e viva da Internacional.

É desta organização cada vez mais ampla da solidariedade militante do proletariado contra a exploração burguesa que deve sair e surge, com efeito, a luta política do proletariado contra a burguesia. Quem pode duvidar disso? Os marxistas e nós somos unânimes nesse ponto. Entretanto, apresenta-se de imediato a questão que nos separa tão profundamente dos marxistas.

Pensamos que a política, necessariamente revolucionária, do proletariado deve ter por objetivo imediato e único a destruição dos Estados. Não compreendemos que se possa falar da solidariedade internacional quando se quer conservar os Estados, — a menos que se sonhe com o Estado universal, isto é, com a escravidão universal, como os grandes imperadores e os papas, — o Estado, por sua própria natureza, por ser uma ruptura desta solidariedade, é, em consequência, uma causa permanente de guerra. Também não concebemos que se possa falar da liberdade do proletariado ou da libertação real das massas no Estado e pelo Estado. Estado quer dizer dominação, e toda dominação supõe a subjugação das massas e, desta forma, a sua exploração em proveito de uma minoria governamental qualquer.

Não admitimos, nem mesmo como transição revolucionária, as Convenções Nacionais, as Assembleias Constituintes, os governos provisórios ou as ditaduras pretensamente revolucionárias; porque estamos convictos de que a revolução só é sincera, honesta e real, nas massas, e que, quando ela se encontra concentrada nas mãos de alguns indivíduos governantes, torna-se inevitável e, imediatamente, reação. Tal é a nossa crença, e este não é o momento para desenvolvê-la.

Os marxistas professam ideias totalmente contrárias. Eles são adoradores do poder do Estado, e necessariamente também os profetas da disciplina política e social, os campeões da ordem estabelecida de cima para baixo, sempre em nome do sufrágio universal e da soberania das massas, às quais reservam a felicidade e a honra de obedecer a chefes, a mestres eleitos. Os marxistas não admitem absolutamente outra emancipação senão a que eles esperam de seu Estado pretensamente popular (Volksstaat). Eles são tão pouco inimigos do patriotismo que a sua própria Internacional traz muito frequentemente as cores do pangermanismo. Existe entre a política bismarckiana e a política marxista uma diferença sem dúvida muito sensível, mas entre os marxistas e nós há um abismo. Eles são governamentais; nós, anarquistas.

Tais são as duas principais tendências políticas que hoje separam a Internacional em dois campos.”

Mikhail Bakunin – CARTA AO JORNAL LA LIBERTE, DE BRUXELAS 

(Portugal) Nova editora libertária edita livro sobre o anarquismo ilegalista


“Preferi roubar a ser roubado”, vários autores, Barricada de Livros, Lisboa 2017. 8 Euros.

Um novo livro de uma nova editora libertária que agora inicia o seu labor em consonância com o aumento da influência que o anarquismo está a ter, mais uma vez, em todo o mundo e, também, na Península Ibérica.

Trata-se do primeiro livro de uma nova editora chamada Barricada de Livros e nele estão incluídos textos, nunca editados em português, de anarquistas ilegalistas sobre o roubo revolucionário.

O ilegalismo é uma corrente minoritária e marginal dentro do anarquismo que defende o roubo das classes dominantes como forma de vida, de luta e de restituição.

Na introdução apresenta-se o ilegalismo na sua origem – a Belle Époque – e os seus fundadores mais importantes: Clément Duval e Alexandre Marius Jacob. Seguem-se as biografias destes e os seus textos. Depois apresenta-se o ilegalismo na Argentina – anarquismo expropriador – com biografia de Miguel Roscigna e o texto “O direito ao ócio e à expropriação individual”.

O título do livro “Preferi roubar a ser roubado!” é uma frase da declaração de Marius Jacob “Porque roubei?” e conta ainda com desenhos originais de José Maria Quadros.

À venda (ou se preferirdes roubar estais à vontade) nas melhores e mais marginais livrarias.

Bertrand Russell: um filósofo fora do “baralho” das ideias feitas


Capturar

Bertrand Russell foi um dos maiores filósofos e matemáticos do século XX, desenvolvendo uma obra e um activismo ímpar ao longo do século em que viveu.

Bertrand Russell simpatizou ao longo de toda a sua vida com o anarquismo, muito embora tenha abraçado a ideia de um Estado Mundial (*) para acabar com as guerras entre as nações. Com a idade de 23 anos, o jovem aristocrata é descrito na sua biografia como alguém com tendências anarquistas.

Russell conhecia o sentido e o significado do anarquismo quando escreve em 1918, pouco antes de ser preso por ter denunciado a legitimidade da I Grande Guerra Mundial, o livro “Roads to Freedom: socialism, anarchism, and syndicalism”, onde inclui uma citação de Lao-Tzu:

Production without possession
Action without self-assertion
Development without domination (**)

Num fundamentado texto da sua autoria, Russell define o anarquismo como a teoria que se opõe a toda a espécie de governo que resulte de uma imposição à força. A liberdade é o supremo bem do credo anarquista, devendo a liberdade ser entendida como a via mais directa para a abolição de todo o controle forçado sobre os indivíduos pela comunidade. Russell defende que o anarquismo deve ser o ideal último para o qual a sociedade deve continuamente aproximar-se. Aliás, o próprio Russell defende que o anarquismo está particularmente ajustado em áreas tão diversas como a arte, a ciência, as relações humanas, a alegria e o gozo de viver.

No entanto, ele confessa que por enquanto, e nos tempos mais próximos, será muito difícil que este sonho se venha a realizar. Numa sua obra de juventude “Principles of Social Reconstruction” (1916), ele admite que o Estado e a propriedade são as duas mais poderosas instituições no mundo moderno. Porém, ao mesmo tempo que tenta demonstrar quanto dispensáveis são muitos dos poderes estatais, também aceita a utilidade de outros a fim de evitar a substituição da lei pela força nas relações humanas. “A anarquia primitiva, que antecedeu a lei, era muito pior que a lei”, escreve Russell. O Estado teria também, segundo ele, um papel positivo a desempenhar na educação obrigatória, na saúde e na administração da justiça económica.

Apesar das fortes críticas de Bakunine e de Kropotkine contra o Estado, Russell admite que alguma coerção da comunidade deva subsistir sob a forma de lei, assim como o Estado é uma instituição necessária para a realização de certas e limitadas tarefas. Sem o Estado o forte poderia oprimir o fraco. Defendia, entre todas as ideologias então referenciadas, o socialismo corporativista (guild socialism), se bem que sempre recordando que “o livre crescimento do indivíduo deva ser o fim supremo de todo o sistema político”. Num dos números do jornal anarquista Freedom (fundado por Kropotkine) o livro “Roads to Freedom” de Bertrand Russell é vivamente recomendado, observando que os trabalhos do autor contêm propostas construtivas para o anarquismo.

Russel visitou a Rússia no Verão de 1920 onde se encontrou com anarquistas como Emma Godman e Alexander Berkman que lhe apresentaram a cidade de Moscovo e vários líderes bolchevistas. O livro que reúne as suas impressões dessa viagem, “The Practice and Theory of Bolchevism” (1920), inclui já várias observações críticas à situação numa altura em que qualquer crítica à ditadura bolchevista era vista, pela esquerda, como uma traição. Dois anos depois, quando Emma Goldman procurou refúgio político na Grã- Bretanha, foi Russell que fez as necessárias diligências junto do Home Office, garantindo que aquela se comprometia a não desenvolver qualquer forma de anarquismo violento no país. No jantar de boas-vindas em Oxford, a única pessoa a aplaudir os violentos ataques feitos por Goldman ao governo soviético foi Russell. A reportagem do Freedom sobre o acontecimento terminava assim: “Mr. Russell, o filósofo mais acutilante da Inglaterra, proferiu então um discurso onde demonstrava as suas mais firmes convicções anarquistas.”

Apesar de tudo, Russell manteve sempre alguma distância para com os anarquistas. Recusou, por exemplo, ajudar Emma Goldman a constituir um comité de ajuda aos prisioneiros políticos russos com o argumento que não via uma alternativa melhor ao governo soviético que não resultasse ainda em maior crueldade. Escreve então a Goldman o seguinte: “Não vejo a abolição de todos os governos como algo que tenha possibilidade de se realizar nas nossas vidas ou mesmo durante o século XX”. Mesmo assim, e depois de constatar a inutilidade da sua tomada de posição, acabou por censurar o tratamento dado pelo governo bolchevista aos seus prisioneiros políticos. E quando Sacco e Vanzetti foram executados, Bertrand Russell não teve dúvidas em afirmar que tinham sido injustamente condenados por motivo das suas opiniões políticas.

As atitudes e as suas afirmações libertárias, bem como toda a sua relutância em seguir à risca as posturas anarquistas resultam da sua singular concepção da humanidade e do universo, e do facto de estar consciente da “falácia naturalistica” a que Kropotkine e outros anarquistas não escapavam ao defenderem argumentos baseados na supremacia das leis da natureza, que deviam ser seguidas, mas que na perspectiva de Russell mais não nos levaria que a sermos escravos da própria natureza. Tal não o impedia contudo em reconhecer que “se a Natureza deve ser o nosso modelo, então os anarquistas teriam o melhor dos argumentos. Com efeito, o universo físico está ordenado, não porque tenha um governo central, mas simplesmente porque todos os seres tudo fazem para que assim seja.”

Como ateísta e atomista, Russell (autor do livro “Porque não sou cristão”)  tem uma sombria concepção da humanidade não obstante as suas esperanças de um mundo melhor. Ele considera que o homem é o resultado de uma “conjugação acidental de átomos” destinada a extinguir-se com a morte do sistema solar. Mas apesar da efémera e acidental posição do ser humano no universo tal não significa que o homem não possa lutar para a melhoria de todos. Só a crença no mais profundo desespero pode construir um mundo melhor.

Como humanista, Russell preocupa-se em lutar pela expansão da liberdade e felicidade humanas. Coisa que não é fácil.

Nos anos 50 e 60 Russell envolve-se mais uma vez com grupos anarquistas no Comité dos Cem no âmbito da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. O velho filósofo bate-se então pela acção directa não-violenta e pela desobediência civil em larga escala

Nos textos de Bertrand Russell perpassa uma forte brisa libertária como se pode ler no seguinte excerto:

“Thought is subversive and revolutionary, destructive and terrible. Thought is merciless to privilege, established institutions and comfortable habits. Thought is anarchic and lawless, indifferent to authority, careless of the well-tried wisdom of the ages”. (***)

Fonte: Blog Pimenta Negra

(*) Talvez não exactamente um Estado mundial, mas uma organização que, a nível planetário, conseguisse uma coordenação global

(**) Produção sem posse/Acção sem arrogância/ Desenvolvimento sem dominação

(***) O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível. Não tem piedade para com as instituições estabelecidas, nem para com os privilegiados, acomodados nos seus hábitos e conforto. O pensamento é anárquico e não obedece às leis, é indiferente à autoridade, e não respeita a bem testada sabedoria de todos os tempos.

Livros de Bertrand Russell em português (PDF): http://pensamentosnomadas.com/livros-de-bertrand-russell-em-portugues-26993

(100 anos da Revolução russa)  “Para os anarquistas russos, o bolchevismo tinha-se convertido na contra-revolução”


pan

Acaba de ser apresentado em Espanha o livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, do historiador Julián Vadillo Muñoz, que destaca o papel – sempre tão caluniado e esquecido – dos anarquistas na Revolução russa e a sua defesa intransigente da independência dos sovietes, que tinha sido a grande palavra de ordem, mobilizadora, dos primeiros dias da revolução. A elucidativa entrevista, que traduzimos, foi publicada ontem (28/3/2017) na edição online do jornal alternativo espanhol “La Marea”.

(mais…)