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(Portugal) Nova editora libertária edita livro sobre o anarquismo ilegalista


“Preferi roubar a ser roubado”, vários autores, Barricada de Livros, Lisboa 2017. 8 Euros.

Um novo livro de uma nova editora libertária que agora inicia o seu labor em consonância com o aumento da influência que o anarquismo está a ter, mais uma vez, em todo o mundo e, também, na Península Ibérica.

Trata-se do primeiro livro de uma nova editora chamada Barricada de Livros e nele estão incluídos textos, nunca editados em português, de anarquistas ilegalistas sobre o roubo revolucionário.

O ilegalismo é uma corrente minoritária e marginal dentro do anarquismo que defende o roubo das classes dominantes como forma de vida, de luta e de restituição.

Na introdução apresenta-se o ilegalismo na sua origem – a Belle Époque – e os seus fundadores mais importantes: Clément Duval e Alexandre Marius Jacob. Seguem-se as biografias destes e os seus textos. Depois apresenta-se o ilegalismo na Argentina – anarquismo expropriador – com biografia de Miguel Roscigna e o texto “O direito ao ócio e à expropriação individual”.

O título do livro “Preferi roubar a ser roubado!” é uma frase da declaração de Marius Jacob “Porque roubei?” e conta ainda com desenhos originais de José Maria Quadros.

À venda (ou se preferirdes roubar estais à vontade) nas melhores e mais marginais livrarias.

Bertrand Russell: um filósofo fora do “baralho” das ideias feitas


Capturar

Bertrand Russell foi um dos maiores filósofos e matemáticos do século XX, desenvolvendo uma obra e um activismo ímpar ao longo do século em que viveu.

Bertrand Russell simpatizou ao longo de toda a sua vida com o anarquismo, muito embora tenha abraçado a ideia de um Estado Mundial (*) para acabar com as guerras entre as nações. Com a idade de 23 anos, o jovem aristocrata é descrito na sua biografia como alguém com tendências anarquistas.

Russell conhecia o sentido e o significado do anarquismo quando escreve em 1918, pouco antes de ser preso por ter denunciado a legitimidade da I Grande Guerra Mundial, o livro “Roads to Freedom: socialism, anarchism, and syndicalism”, onde inclui uma citação de Lao-Tzu:

Production without possession
Action without self-assertion
Development without domination (**)

Num fundamentado texto da sua autoria, Russell define o anarquismo como a teoria que se opõe a toda a espécie de governo que resulte de uma imposição à força. A liberdade é o supremo bem do credo anarquista, devendo a liberdade ser entendida como a via mais directa para a abolição de todo o controle forçado sobre os indivíduos pela comunidade. Russell defende que o anarquismo deve ser o ideal último para o qual a sociedade deve continuamente aproximar-se. Aliás, o próprio Russell defende que o anarquismo está particularmente ajustado em áreas tão diversas como a arte, a ciência, as relações humanas, a alegria e o gozo de viver.

No entanto, ele confessa que por enquanto, e nos tempos mais próximos, será muito difícil que este sonho se venha a realizar. Numa sua obra de juventude “Principles of Social Reconstruction” (1916), ele admite que o Estado e a propriedade são as duas mais poderosas instituições no mundo moderno. Porém, ao mesmo tempo que tenta demonstrar quanto dispensáveis são muitos dos poderes estatais, também aceita a utilidade de outros a fim de evitar a substituição da lei pela força nas relações humanas. “A anarquia primitiva, que antecedeu a lei, era muito pior que a lei”, escreve Russell. O Estado teria também, segundo ele, um papel positivo a desempenhar na educação obrigatória, na saúde e na administração da justiça económica.

Apesar das fortes críticas de Bakunine e de Kropotkine contra o Estado, Russell admite que alguma coerção da comunidade deva subsistir sob a forma de lei, assim como o Estado é uma instituição necessária para a realização de certas e limitadas tarefas. Sem o Estado o forte poderia oprimir o fraco. Defendia, entre todas as ideologias então referenciadas, o socialismo corporativista (guild socialism), se bem que sempre recordando que “o livre crescimento do indivíduo deva ser o fim supremo de todo o sistema político”. Num dos números do jornal anarquista Freedom (fundado por Kropotkine) o livro “Roads to Freedom” de Bertrand Russell é vivamente recomendado, observando que os trabalhos do autor contêm propostas construtivas para o anarquismo.

Russel visitou a Rússia no Verão de 1920 onde se encontrou com anarquistas como Emma Godman e Alexander Berkman que lhe apresentaram a cidade de Moscovo e vários líderes bolchevistas. O livro que reúne as suas impressões dessa viagem, “The Practice and Theory of Bolchevism” (1920), inclui já várias observações críticas à situação numa altura em que qualquer crítica à ditadura bolchevista era vista, pela esquerda, como uma traição. Dois anos depois, quando Emma Goldman procurou refúgio político na Grã- Bretanha, foi Russell que fez as necessárias diligências junto do Home Office, garantindo que aquela se comprometia a não desenvolver qualquer forma de anarquismo violento no país. No jantar de boas-vindas em Oxford, a única pessoa a aplaudir os violentos ataques feitos por Goldman ao governo soviético foi Russell. A reportagem do Freedom sobre o acontecimento terminava assim: “Mr. Russell, o filósofo mais acutilante da Inglaterra, proferiu então um discurso onde demonstrava as suas mais firmes convicções anarquistas.”

Apesar de tudo, Russell manteve sempre alguma distância para com os anarquistas. Recusou, por exemplo, ajudar Emma Goldman a constituir um comité de ajuda aos prisioneiros políticos russos com o argumento que não via uma alternativa melhor ao governo soviético que não resultasse ainda em maior crueldade. Escreve então a Goldman o seguinte: “Não vejo a abolição de todos os governos como algo que tenha possibilidade de se realizar nas nossas vidas ou mesmo durante o século XX”. Mesmo assim, e depois de constatar a inutilidade da sua tomada de posição, acabou por censurar o tratamento dado pelo governo bolchevista aos seus prisioneiros políticos. E quando Sacco e Vanzetti foram executados, Bertrand Russell não teve dúvidas em afirmar que tinham sido injustamente condenados por motivo das suas opiniões políticas.

As atitudes e as suas afirmações libertárias, bem como toda a sua relutância em seguir à risca as posturas anarquistas resultam da sua singular concepção da humanidade e do universo, e do facto de estar consciente da “falácia naturalistica” a que Kropotkine e outros anarquistas não escapavam ao defenderem argumentos baseados na supremacia das leis da natureza, que deviam ser seguidas, mas que na perspectiva de Russell mais não nos levaria que a sermos escravos da própria natureza. Tal não o impedia contudo em reconhecer que “se a Natureza deve ser o nosso modelo, então os anarquistas teriam o melhor dos argumentos. Com efeito, o universo físico está ordenado, não porque tenha um governo central, mas simplesmente porque todos os seres tudo fazem para que assim seja.”

Como ateísta e atomista, Russell (autor do livro “Porque não sou cristão”)  tem uma sombria concepção da humanidade não obstante as suas esperanças de um mundo melhor. Ele considera que o homem é o resultado de uma “conjugação acidental de átomos” destinada a extinguir-se com a morte do sistema solar. Mas apesar da efémera e acidental posição do ser humano no universo tal não significa que o homem não possa lutar para a melhoria de todos. Só a crença no mais profundo desespero pode construir um mundo melhor.

Como humanista, Russell preocupa-se em lutar pela expansão da liberdade e felicidade humanas. Coisa que não é fácil.

Nos anos 50 e 60 Russell envolve-se mais uma vez com grupos anarquistas no Comité dos Cem no âmbito da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. O velho filósofo bate-se então pela acção directa não-violenta e pela desobediência civil em larga escala

Nos textos de Bertrand Russell perpassa uma forte brisa libertária como se pode ler no seguinte excerto:

“Thought is subversive and revolutionary, destructive and terrible. Thought is merciless to privilege, established institutions and comfortable habits. Thought is anarchic and lawless, indifferent to authority, careless of the well-tried wisdom of the ages”. (***)

Fonte: Blog Pimenta Negra

(*) Talvez não exactamente um Estado mundial, mas uma organização que, a nível planetário, conseguisse uma coordenação global

(**) Produção sem posse/Acção sem arrogância/ Desenvolvimento sem dominação

(***) O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível. Não tem piedade para com as instituições estabelecidas, nem para com os privilegiados, acomodados nos seus hábitos e conforto. O pensamento é anárquico e não obedece às leis, é indiferente à autoridade, e não respeita a bem testada sabedoria de todos os tempos.

Livros de Bertrand Russell em português (PDF): http://pensamentosnomadas.com/livros-de-bertrand-russell-em-portugues-26993

(100 anos da Revolução russa)  “Para os anarquistas russos, o bolchevismo tinha-se convertido na contra-revolução”


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Acaba de ser apresentado em Espanha o livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, do historiador Julián Vadillo Muñoz, que destaca o papel – sempre tão caluniado e esquecido – dos anarquistas na Revolução russa e a sua defesa intransigente da independência dos sovietes, que tinha sido a grande palavra de ordem, mobilizadora, dos primeiros dias da revolução. A elucidativa entrevista, que traduzimos, foi publicada ontem (28/3/2017) na edição online do jornal alternativo espanhol “La Marea”.

(mais…)

Nova edição da revista “Flauta de Luz” vai ser apresentada em Lisboa e Évora


flauta de luz

DIA 8 DE ABRIL ÀS 18H, NA LIVRARIA TORTUGA (Rua da Penha de França nº 217-A, Lisboa), HAVERÁ DUAS APRESENTAÇÕES: Revista Flauta de Luz nº 4 & Alucinar o Estrume, em que estará presente Júlio Henriques, editor da revista e autor do livro.

Flauta de Luz nº 4

Num novo formato e com mais páginas, o recém-publicado nº 4 desta revista apresenta-se mais diversificado e sob o signo da crítica da cultura. Vários blocos temáticos abordam questões centrais: adaptação do ecologismo ao «capitalismo verde»; reformulações ambientalistas decorrentes desta contradição mortal; diversos aspectos da actual importância política das culturas vernaculares; crise terminal do modo de produção capitalista em algumas das suas expressões materializadas; dimensão tentacular da tecnociência como aprofundamento e interiorização das relações sociais capitalistas.

Uma parte dedicada à história sociopolítica portuguesa aborda o papel da música como tortura durante o fascismo, a grudada presença da mitologia colonial na «identidade lusíada» e o teatro de temática operária. São de sublinhar duas extensas contribuições: a do cineasta britânico Peter Watkins sobre a crise dos média audiovisuais e a do ensaísta sérvio Ljubodrag Simonovic sobre «o desporto como religião do capitalismo». E ainda uma primeira longa abordagem do cinema de José Vieira, e a ausência e presença do surrealismo em Portugal na sua relação com o pensamento libertário. Este número contém também várias participações de arte visual, poesia e ficção.

alucinar o estrume

Alucinar o Estrume

Nas franjas indefinidas de uma sociedade que avança, absurda e doente, para o abismo que superiormente cria e quer, vão surgindo, às apalpadelas, núcleos de gente em busca de sentido. De um sentido central, que clama a partir da entidade viva que é o solo. Entre os que migram da cidade para o campo, em busca de uma utopia à mão de semear, o naturalista Estêvão Vao exprime uma oposição liminar à demência do astronauta, ao paradigma que corporiza a indigente ambição de se viver na Terra fora da terra. (Antígona, 2017)

Rua da Penha de França nº 217-A
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A apresentação do número 4 da Revista “Flauta de Luz” terá também lugar em Évora, no dia 29 de Abril, na Livraria Fonte de Letras, com a presença do editor, Júlio Henriques.

Enciclopédia Histórica do Anarquismo Espanhol disponível na internet


Miguel Iñiguez - Enciclopedia historica del Anarquismo español. Asociacion Isaac Puente [2008]

Estão disponíveis na internet os três volumes da Enciclopédia Histórica do Anarquismo Espanhol, de Miguel Iñiguez. O download pode ser feito na totalidade ou volume a volume.

aqui: https://mega.nz/#F!8NgnECDR!_-CXx4fscr3y3s4qaAPz6w

 

(efeméride) Os livros anarquistas sobre a Revolução Russa sublinham a transformação da esperança em pesadelo para os trabalhadores


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Marinheiros de Kronstadt

Tudo está já, provavelmente, dito sobre a revolução russa. Por isso, deixamos aqui apenas a referência a alguns dos livros mais interessantes para analisar a deriva da revolução russa e a sua transformação num regime totalitário, de capitalismo de estado, sob o comando do partido bolchevique, de raiz marxista-leninista.

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A Revolução Russa nasceu “ da impossibilidade, para o povo, de continuar a guerra e de arrastar uma existência de fome (…) e da obstinação cega do czarismo”. (VOLIN, “A revolução desconhecida”).

No próximo mês de Março assinalam-se os 100 anos do início da revolução russa, cujo primeiro acto ficou assinalado pela queda do czar. Por estes dias há também uma efeméride – os 99 anos do levantamento popular contra o governo provisório, que juntou bolcheviques, socialistas revolucionários e anarquistas – e que tanta expectativa criou junto das classes trabalhadoras de todo o mundo, mas também que posteriormente tanta desilusão trouxe, acabando por associar as palavras socialismo e comunismo a um dos períodos de maior barbárie da humanidade.

A sociedade russa, depois da queda do czar em Março de 1917, estava preparada para a revolução, sobretudo os sectores operários das grandes cidades, bem como os soldados e marinheiros, todos agrupados em sovietes. A palavra de ordem de “Todo o poder aos sovietes” levou a que muitos anarquistas acompanhassem o partido bolchevique nestes primeiros momentos de transformação social. Mas a tomada do poder pelos bolcheviques e o controlo que o partido começou a exercer desde logo sobre os sovietes mostraram bem cedo qual o rumo que os acontecimentos estavam a tomar e que levaram ao restabelecimento autocrático do poder de Estado, agora nas mãos de Lenin e dos seus correlegionários.

Conquista do poder feita à custa de muito sangue operário e camponês e de uma imensa repressão em todos os sectores da sociedade, cuja organização, centrada única e exclusivamente no Partido Comunista e no seu comité dirigente foi, desde logo, criticada por vários sectores do próprio campo marxista, nomeadamente pela comunista alemã Rosa Luxemburgo, que no seu livro “A Revolução Russa” escreveu:

“Algumas dezenas de chefes de uma energia infatigável e de um idealismo sem limites dirigem o governo e, entre eles, quem governa de facto é uma dezena de cabeças eminentes, enquanto uma elite da classe operária é convocada de tempos em tempos para reuniões com o fim de aplaudir os discursos dos chefes e de votar por unanimidade as resoluções que lhe são apresentadas.”

E mais à frente: “O erro fundamental da teoria Lenine e Trotsky está justamente em que, tal como Kautsky, eles opõem democracia e ditadura. “Ditadura ou democracia”, assim se coloca a questão tanto para os bolcheviques como para Kautsky. Este pronuncia-se pela democracia burguesa, contrapondo-a à transformação socialista. Lenine e Trotsky, ao contrário, pronunciam-se pela ditadura de um punhado de pessoas, quer dizer, pela ditadura segundo o modelo burguês jacobino. Estes dois pólos opostos estão ambos muito distantes da verdadeira política socialista.”

A resistência anarquista à ditadura bolchevique, assente numa violenta repressão e na tentativa de tudo controlar, depressa se fez sentir levando a que muitos libertários, que tinham tentado colaborar com as autoridades soviéticas – sem terem percebido, de início, as palavras proféticas de Bakunin de que “liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade” – entrassem em ruptura com os bolcheviques e assumissem movimentos insurreccionais como foram o dos camponeses, liderados por Makhno, logo em 1918 na Ucrânia e a a revolta dos marinheiros e soldados de Kronstadt, em 1921. Inúmeros livros foram publicados sobre a deriva autoritária da revolução russa, a maioria por parte de anarquistas que estiveram no terreno e viveram a repressão contra-revolucionária bolchevique.

Como se aproxima o centenário da revolução russa de Fevereiro (em Março) e as “galinhas cacarejantes” dos “amanhãs que cantam” já devem estar a planear entoar, por essa altura, loas à ditadura que os seus correlegionários de ontem e de sempre implantaram na Rússia e noutros países da sua área de influência, deixamos em baixo a indicação de algumas obras, sempre que possível em português, essenciais para compreender a natureza e a posterior deriva da revolução russa e o carácter contra-revolucionário do socialismo autoritário de raiz marxista-leninista que em vez de – como refere a letra da “Internacional” – significar a “libertação do género humano”, representou a morte, tortura e opressão de milhões de seres humanos. Em nome – pasme-se! – da liberdade, da igualdade e do socialismo.

Alguns livros digitais.

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Alexander Berkman

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a tragédia russa (uma revisão e uma perspectiva – ou panorama)

Alexander Berkman e Emma Goldman

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Kronstadt

Emma Goldman

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Dois anos na Rússia

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Minha outra desilusão na Rússia

G. P: Maximoff

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Sindicalistas na Revolução Russa

Ida Mett

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A comuna de Kronstadt (castelhano)

Juan Ferrario

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As matanças de Anarquistas na Rússia

Rudolf Rocker

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Os sovietes traídos pelos bolcheviques

Volin

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A revolucão desconhecida (volume I) em português

Em francês

Em inglês