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Memórias de Abril: a autogestão das empresas pelos trabalhadores, à margem dos patrões e dos comissários políticos


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A seguir ao 25 de Abril de 1974 dezenas e dezenas de fábricas entraram em regime de autogestão. Muitas porque os patrões as abandonaram e ameaçaram mesmo levar as máquinas; outros porque os trabalhadores as ocuparam devido à deficiente gestão patronal que, em geral, acumulavam salários em atraso. Por todo o país sucederam-se as ocupações de fábricas, ainda antes das ocupações de terras. Foi um movimento generalizado que demonstrou as virtualidades da auto-organização operária. De referir que muitas destas empresas atogestionadas tinham uma parcela muito importante de mulheres, já que foram muitas as empresas da área do textil e das confecções que encetaram processo de luta no período inicial pós-25 de Abril. Uma dessas empresas foi a Sogantal. O libertário José Maria Carvalho Ferreira acompanhou este processo e relatou-o nas páginas duma pequena publicação (“O Futuro era Agora”) destinada a assinalar os 20 anos do 25 de Abril e que recolheu diversos testemunhos de militantes de diversas áreas políticas. Entre os jornais que se fizeram eco deste movimento à margem dos patrões e dos comissários politicos e sindicais estiveram na primeira linha “A Batalha” e o “Combate” (aqui o 1º número com um grande destaque sobre a luta das trabalhadoras da Sogantal) , um jornal que se destacou pelo apoio às lutas autónomas dos trabalhadores (e que, nesta mesma publicação, é objecto de um artigo do Júlio Henriques, que fez parte do seu corpo redactorial) .

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Autogestão na Sogantal

 José Maria Carvalho Ferreira, professor, 48 anos

Cheguei de Paris em Junho de 74, convencido de que vinha encontrar uma revolução democrático-burguesa clássica, controlada pelos militares, mas logo comecei a aperceber-me de que algo muito mais importante estava a acontecer.

Foi para mim uma grande experiência ter entrado em contacto com a luta da fábrica de confecções Sogantal, pertencente a patrões franceses, situada no Samouco (Montijo). Tinha umas 50 operárias, que ocuparam a empresa em Junho de 74, quando o gerente tentou responder com represálias às suas reivindicações de maiores salários, férias pagas e 13º mês.

Casos semelhantes estavam a dar-se noutras empresas mas aqui a ocupação assumiu uma radicalidade invulgar: supressão das cadências e dos horários obrigatórios; abolição das hierarquias; igualização dos salários; rotação das tarefas, inclusive de direcção; e, mais subversivo ainda, a decisão de encetar a venda directa da produção.

Estas decisões foram tomadas em assembleias gerais que se reuniam regularmente e às quais podiam assistir pessoas estranhas à fábrica. A comissão de trabalhadores era também de composição rotativa.

Tudo isto teve uma outra consequência da maior importância: as mulheres começaram a libertar-se da autoridade do marido e da família, dos valores patriarcais vigentes. Até aí, passavam o dia a trabalhar e a obedecer passivamente a ordens, tanto na fábrica como em casa, e não podiam deslocar-se sozinhas para lado nenhum. A partir daí, raparigas, na maioria de dezoito, vinte anos, passavam do trabalho na produção à discussão nas assembleias, faziam as contas da empresa, participavam nos piquetes de vigilância nocturna, deslocavam-se a vários pontos do país para vender a mercadoria, davam opinião sobre tudo. Claro que surgiram conflitos familiares e houve mesmo alguns divórcios.

A audácia sem paralelo deste grupo de operárias pode compreender-se se tivermos em conta que partidos e sindicatos tinham nessa altura muito pouca influência na empresa. Entretanto, os problemas acumulavam-se. Foi primeiro a incursão dum grupo de mercenários, armados de pistolas, granadas, matracas, gases lacrimogéneos e com cães, que se introduziram na fábrica de madrugada. Dado o alerta por uma operária, uma parte da população do Montijo cercou as instalações e travou-se luta de que resultou um incêndio. Os sabotadores só foram retirados a salvo graças ao socorro da GNR e do COPCON.

Mas o principal problema era a dificuldade em vender a produção. A venda das roupas pelas próprias operárias era mal vista, mesmo pelos habitantes na zona, assustados por este atentado directo à sagrada e intocável propriedade privada. No Verão, com o apoio da solidariedade externa, ainda foi possível entrar em contacto com em presas em luta, como a Timex e sobretudo a TAP, que era na altura um cadinho revolucionário, e cujos operários passaram a absorver boa parte da produção da Sogantal.

Quando se desencadeia a greve na TAP e as oficinas são invadidas pela tropa, havia já um conjunto de empresas, creio que eram 36, com CTs que não estavam subordinadas ao PC, embora estivessem a ser infiltradas por grupos esquerdistas. A CT da TAP convocou uma reunião no Clube Atlético de Campo de Ourique (CACO), onde se formou a Interempresas e se apelou à greve geral de solidariedade contra a repressão militar. O apelo foi para ser impresso no sindicato dos têxteis mas o Agostinho Roseta, que viu, achou aquilo altamente incendiário e sabotou a impressão do manifesto.

Entretanto, na Sogantal, as dificuldades em escoar a produção foram-se acumulando. As diligências junto do Ministério do Trabalho e do Sindicato dos Têxteis, com vista à nacionalização da empresa ou à sua transformação em cooperativa, ficaram sem efeito. As operárias chegaram à conclusão de que a sua experiência fora muito além das das outras empresas. Tiveram que assentar os pés na terra e parar de sonhar. Enquanto isto, o Sindicato, a troco do apoio prestado à luta, começou a imiscuir-se nas decisões internas e a fomentar divisões. Por fim, depois duma longa agonia em que já não havia meios para subsistir, cada uma foi para seu lado. Isto foi já em 1976.

A pesar deste epílogo negativo – inevitável nas condições de isolamento em que este punhado de operárias se encontrou – a luta da Sogantal ficou como um a das mais avançadas experiências de autogestão operária em Portugal.

aqui; https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/futuro/O%20futuro%20era%20agora.pdf

mais sobre a sogantal: https://ephemerajpp.com/2018/04/27/luta-das-operarias-da-sogantal-agosto-1974/

jornais da sogantal: https://ephemerajpp.com/2012/11/10/jornal-da-sogantal/

Lorenzo Orsetti: Agora e sempre, viva a Anarquia!


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“Vermelha pela quantidade de sangue derramado, preta pelo luto de milhões de mortos. Esta é a cor da bandeira dos anarquistas, que esteve sempre desfraldada, que agrupa todos os homens que amam a humanidade. Que lutam pela liberdade e combatem todas as injustiças sociais. E é por esses sentimentos nobres que os anarquistas sempre foram difamados, caluniados, torturados, perseguidos, encarcerados, assassinados de maneira ignóbil, vergonhosa, que repugna a consciência humana. Os anarquistas querem viver numa sociedade humana e fraterna, sem estado, soldados, dinheiro, patrões, sem polícia, sem prisões e sem exploradores. Onde todos trabalhem para produzir coisas úteis, e possam viver intensamente a nossa curta existência, sem ódio, medos ou preocupações com o amanhã.

Agora e sempre, viva a Anarquia. “

(Penúltimo post colocado na sua página no facebook pelo anarquista Lorenzo Orsetti,assassinado pelo Isis no Curdistão esta segunda-feira.)

Lorenzo Orsetti: mais um anarquista assassinado pelo Estado Islâmico no Curdistão


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Lorenzo Orsetti, italiano, natural de Florença, foi morto pelo ISIS na Síria, segundo anunciaram os fundamentalistas islâmicos nas últimas horas.

“Nós matámos um cruzado italiano”, anunciaram militantes do Estado Islâmico no Twitter, pondo a circular algumas fotos .

Orsetti, de 33 anos, e há cerca de ano e meio integrando as milicias curdas terá sido morto em combate em Baghuz, a última fortaleza do Estado Islâmico no leste da Síria.

Orsetti, que contou sua experiência na Síria no Facebook com o nome de Orso Dellatullo, estava na Síria há cerca de um ano e meio.

O último post remonta a 12 de março passado, onde ele escreveu: “Aparentemente, várias trincheiras permaneceram. Não preciso de dizer duas vezes que se tudo correr bem, amanhã vou-me embora!”.

Para Lorenzo “”meglio aggiungere vita ai giorni che giorni alla vita”, era “melhor juntar vida aos dias que dias à vida”.

Que a terra te seja leve companheiro!

https://www.facebook.com/orso.dellatullo.1

https://www.firenzetoday.it/cronaca/lorenzo-orsetti-isis-ucciso.html

https://www.facebook.com/anarquismoenpdf/

(Cova da Piedade) Morreu Manuel Vieira


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Recebemos a informação que morreu o companheiro Manuel Vieira, residente na Cova da Piedade e colaborador do jornal “A Batalha”. Manuel Vieira faleceu a 14 de Agosto, tendo o funeral sido realizado no dia seguinte para o cemitério do Feijó.

Manuel Vieira esteve também ligado à alteração da designação de algumas ruas de Almada, fazendo com que nelas figurasse a presença libertária.

As nossas condolências à família, aos amigos e à redacção do jornal “A Batalha”. Que a terra te seja leve, companheiro!

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/01/28/rua-francisco-ferrer-na-cova-da-piedade/

http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=12&id=1598