músicas

Morreu Belchior, cantor brasileiro, libertário e inconformista


Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá,
Já tenho este peso, que me fere as costas,
e não vou, eu mesmo, atar minha mão.

O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma
é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar.

Belchior, o cantor inconformista, de canções com letras cuidadas e “de constante denúncia da alienação e da mercantilização do mundo” morreu este domingo em Santa Cruz do Sul.

Nos últimos anos, o movimento libertário brasileiro revia-se na letra das suas canções e na revolta e na denúncia do capitalismo de que elas se faziam eco, como muito certeiramente aponta este artigo publicado há menos de um ano no site brasileiro “Outras Palavras”.

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Zeca Afonso: ‘Sua canção abriu estradas/ cantou nos campos, cidades,/ nunca nos paços de el-rei’


antitese

capturar

José Afonso (1929 – 1987) foi um cantor de intervenção que sempre suscitou admiração em diversos meios libertários. Sem nunca se ter assumido enquanto tal, os temas escolhidos e a textura da sua poesia, aliados ao facto de nunca ter estado partidariamente alinhado (a não ser temporariamente na LUAR, uma organização que agrupava um grande número de libertários) fizeram com que muitos anarquistas tivessem uma grande simpatia por Zeca Afonso (para além da qualidade da sua música e poesia), reforçada por afirmações deste quando referia ser o seu “próprio comité central” ou o que era necessário era “provocar desassossego”.

Canções como “Utopia”, “Vejam Bem”, “Menino do Bairro Negro”, “Os Vampiros”, “Como se Faz um Canalha”, ou “Os Índios da Meia Praia”, entre tantas outras, foram também hinos muitas vezes cantados e adoptados por libertários – embora o movimento anarquista organizado, nesses anos conturbados do pós 25 de Abril de 1974, tivesse pouca expressão pública e mal se conseguisse distinguir da profusão de seitas m-l que apareceram um pouco por todo o lado.

A solidariedade, a liberdade, a igualdade, a utopia foram palavras e conceitos usados habitualmente por José Afonso e que constituíram sempre palavras importantes no vocabulário anarquista, tornando a identificação das canções do Zeca com o ideário libertário uma constante.

Exemplo desta ligação entre o Zeca e muitos libertários foi o destaque dado pela revista anarquista Antítese, no nº 8 de Fevereiro de 1988 (um ano depois da sua morte), com uma evocação de José Afonso na capa e um poema no interior assinado por Rui (Rui Vaz de Carvalho o editor da revista?), a assinalar a relação fraterna com a obra e a figura do Zeca.

23-2-87
Morreu José Afonso.
Morreu de solidão
24-2-87

Colheu palavras nos prados,
bebeu água em suas fontes,
andou pela chuva dos montes
em busca de um arco-íris.

Do amarelo fez um sol
no meu caderno de infância,
vermelha  a rosa pintou
e espalhou a sua fragância,
do roxo nasceram lírios
nos campos da nossa dor.

Na terra onde nasceu
chamaram-lhe o trovador.

De jogral não se vestiu
nem tampouco usou gravata,
inventou meninos d’oiro
em cada bairro de lata.

Rio acima eis a fragata
de que foi timoneiro
rasgando as águas paradas,
as águas turvas da lei.

Sua canção abriu estradas,
cantou nos campos, cidades,
nunca nos paços de el-rei.

Das ondas duma seara
colheu ele a melodia
e seus versos foram rios
nos campos do Alentejo,
foram lágrimas de raiva
nos olhos da poesia.

Ervas daninhas cresceram
nas terras que ele plantou
e os ventos de toda a sorte
moveram os cataventos,

mas o que mais lhe custou
foi ver o seu povo rendido
às vozes do parlamento.

Viu muita vela enfunada
em busca de novas Índias,
viu poetas e cantores
correrem atrás da fama,

mas o que mais lhe custou
foi ver o povo sem chama
seguindo novos senhores.

E a lua em quarto minguante
descia sobre Azeitão
onde o trovador vivia
distante da sua terra,
em sua terra emigrante.

Rio acima eis a fragata
de que foi o timoneiro
rasgando as águas paradas,
as águas turvas da lei.

Sua canção abriu estradas
cantou nos campos, cidades,
nunca nos paços de el-rei.

Rui

relacionado: http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/

zeca

comit

“Abaixo a polícia”, uma canção anarquista da Revolução Russa


*

“Abaixo a polícia” é uma canção revolucionária, escrita por anarquistas judeus e muito popular durante o processo revolucionário russo .

“Em todas as ruas
Ouve-se falar de greves
Os rapazes, as raparigas e toda a família
Discutem as greves

Irmãos, basta de sofrer,
Basta de nos endividarmos
Façamos greve
Irmãos, libertemo-nos

Irmãos e irmãs
Demo-nos as mãos
Derrubemos os muros
Do pequeno Micolas
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Irmãos e irmãs
Deixemo-nos de formalismos
E encurtemos os dias
Do pequeno Nicolas
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Ontem ele puxava
Uma pequena carroça de sucata
Hoje tornou-se
Um capitalista
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Irmãos e irmãs
Juntemo-nos
E enterremos o pequeno Nicolas
Com a sua mãe
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Cossacos e guardas
Desçam do cavalo
O czar russo está morto e enterrado
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia”

(aqui)

(Setúbal) C.O.S.A.: a resistir há 16 anos!


cosa

A Okupa mais antiga de Portugal

A Casa Okupada Setúbal Autogestionada (C.O.S.A.) comemora este fim de semana o seu 16º aniversário. Situada no centro da cidade de Setúbal tem sido um espaço aberto às mais diversas iniciativas. Constantemente ameaçada de despejo pelos proprietários e pela actuação repressiva da Câmara de Setúbal, tem sabido resistir a todas as ameaças, sendo neste momento o espaço ocupado mais antigo em Portugal ainda em funcionamento. Para esta sexta-feira (14) e sábado (15) está previsto um programa intenso, com comidas, música, conversas e filme. Parabéns e longa vida, cheia de actividade, à C.O.S.A.!

Como os próprios contam na primeira pessoa, a história da COSA tem sido assim:

“A 13 de Outubro do ano 2000, um grupo de jovens setubalenses decidiu tomar nas suas mãos a gestão de um espaço comunitário e político, aberto à expressão e accção livre, sem controlo externo, sem lucro, sem autoridade…Okuparam um espaço abandonado transformando a apatia e o vazio em sonhos e experiências de liberdade, autonomia e auto-gestão.

Passaram 16 anos com largas dezenas de concertos, ateliers, debates, exposições, todo o convívio, partilhas de conhecimentos e auto-aprendizagem, a intervenção política e social…Passaram os vários políticos, comandantes das forças policiais, governadores civis, os processos judiciais, a repressão policial e as difamações nos jornais, passou tudo isto e a Casa Okupada resiste.

Passaram 16 anos e nem a polícia, nem os tribunais poderão apagar este capítulo da história insubmissa e rebelde setubalense.

São diversos os exemplos de Lutas daquelxs que deixaram de esperar milagres e tomaram o controlo das suas vidas nas suas próprias mãos, inspirando-nos mutuamente, e reinventando a capacidade de imaginarmos e criarmos colectivamente uma terra livre, solidária e combativa.

ESTES 16 ANOS JÁ NINGUÉM NOS TIRA!!”

http://cosa2015blog.wordpress.com/

aqui: http://pt.indymedia.org/conteudo/agenda/33039

(Lisboa) 1º aniversário da ‘Disgraça’ este fim-de-semana


disgraca

Aniversário #1 da Disgraça

A Disgraça é um centro DIY anticultural cujo objectivo é criar um espaço horizontal livre de racismo, especismo, homofobia e sexismo.

Tem uma cantina autónoma aberta de segunda a sexta, espaço de concertos e oficinas.

Disgraça Birthday Weekend #1 – dia 9, 10 e 11 de Setembro.

Programação (em actualização):

(mais…)

“A las barricadas” em curdo para homenagear as revoluções espanhola e de Rojava


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Para assinalar o 80º aniversário da Revolução espanhola e também o 4º aniversário da Revolução em Rojava foi gravada recentemente uma versão em curdo do hino “Às barricadas” e hoje colocada na internet.

Esta versão curda foi gravada em Qamislo, Rojava, por elementos do Centro de Arte e Cultura Mohamed Sêxo. Os participantes na gravação do hino da CNT em curdo referem que “o que aconteceu em Barcelona a 19 de julho de 1936 repetiu-se 76 anos depois. A nossa revolução começou em Kobane e tivemos que colocar a nossa mais forte resistência na sua defesa. Inúmeros camaradas morreram para defenderem a cidade dos fascistas, tal como inúmeros camaradas deram a vida na Catalunha e em Espanha. O espírito da Barcelona revolucionária vive nas ruas das cidades e vilas de Rojava”.

A principal mudança nesta nova versão torna a letra explicitamente feminista associando-lhe o verso:

“Freedom, autonomy and women’s liberation
Must be defended as the most precious values

através de https://www.facebook.com/WorkersSolidarityMovement/

O compositor Juan de Diego homenageia Durruti e a Barcelona de 1936 com ritmos de jazz


 

O trompetista Juan de Diego (Bilbao, 1968) não é, segundo as suas próprias palavras, “um compositor de modas”. Acostumado a reinventar-se em casa novo disco, o seu quarto trabalho, de uma sonoridade contundente, pode considerar-se a sonoridade da Barcelona de 1936, da revolução antropomorfizada em Buenaventura Durruti. “Uda labur hori (aquele curto verão)” (Errabal 2016) é um disco inusual no panorama jazzístico.

 “Parecia que nunca esteve em Barcelona. Recordas que a Via Laietana levou o seu nome, a massa de gente que, no seu funeral ali se reuniu…Hoje não tem nem sequer uma praça” assinala o trompetista Juan de Diego recordando a figura de Buenaventura Durruti, o anarquista leonês que assoma nos acordes do seu último disco.

Amigo de contar histórias com a sua trompete, Juan encontrou um mundo novo cheio delas quando o seu amigo Guillem lhe ofereceu “O curto verão da anarquia” de Hans Magnus Enzensberger. “É um livro que deixa transtornado. Já tinha lido livros sobre a Guerra Civil… quando te cai um livro entre as mãos, vês um filme, tens uma ideia, vai para a frente. Comecei a escrever um tema muito curto “Aquele curto verão” é breve, mas logo a seguir, chegou às minhas mãos outro livro (‘Cos i revolució. L’espiritisme català o les paradoxes de la modernitat’, de Gerard Horta) com um tema fascinante: o espiritismo que era cultivado pelos anarquistas catalães nos finais do século XIX e princípios do XX; coisas incríveis como um congresso mundial de espiritismo aqui em Montjuic… E assim escrevi o segundo tema da “Suite”, “Espíritos Obreros”. O terceiro é “Pulverizar”: o capitalismo não se conserta, não se pode adoçar, há que pulverizá-lo, destruí-lo, há que mudar tudo, dos pés à cabeça”, afirma, explicando a origem dos três temas do disco que integram a “Anarcosuite”

(…) Três dos temas, a “Anarcosuite”, têm uma relação directa com Durruti, com o verão barcelonês de 1936. “De resto, alguns têm que ver, outros não. São temas que ia compondo antes, durante e depois da “Suite”. Depois agrupas tudo, juntas-te com os músicos – que nem sequer é fácil, Joe vive em Berlim -, mas fica todo esse trabalho prévio de que falava antes. Telefonei a Joe, por volta de Fevereiro de 2015, e experimentámos todo este reportório que tinha escrito no Jamboree e em Junho voltou para a gravação.(…)

Alvaro Hilario

Aqui: http://alasbarricadas.org/noticias/node/36358