Revolução russa

Revista ‘Erva Rebelde’ nº 2 totalmente dedicada à Revolução Russa.


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erva rebelde nº 2

«Passados cem anos, grande parte dos mitos do comunismo da Rússia soviética foram derrubados e as suas atrocidades desvendadas. Mas reduzir o que aconteceu na Rússia, no início do século vinte, a uma data em particular, a alguns nomes conhecidos e algumas decisões políticas descarta o importante legado da experiência de um movimento popular, da natureza da sua organização e práticas, do impacto que teve nos meios anarquistas e do consecutivo debate que se iniciou entre plataformistas e sintetistas, entre método insurreccionalista e método sindicalista. Talvez possa parecer anacrónico ou nostálgico, quiçá até será! Mas pouco importa ao desafio que se fez o colectivo Gera, porque lhe permitiu remexer na História para falar do pequeno povo, das suas lutas e mortes, revisitar um importante movimento popular e fazer uma recolha histórica dando relevo às anarquistas e aos anarquistas da Rússia desde 1880.

Entendemos a revolução russa como uma mudança profunda que se construiu no seio da sociedade e que se desenvolveu a partir do final do século dezanove. Foi um movimento popular de descontentamento e sofrimento com aspirações à liberdade e dignidade que levou ao movimento insurreccional contra o poder do Czar em 1905 e à sublevação popular que antecipava alterações profundas nas estruturas sociais, políticas e económicas em Fevereiro de 1917.

Assim, este número da Erva Rebelde dedica-­se exclusivamente ao tema da revolução russa, não para trazer novamente os grandes nomes da História, mas para visitar os outros nomes destas histórias da História. Aquelas pessoas que se envolveram nas actividades anarquistas de 1903 a 1917, aquelas que morreram em 1905, as que foram fuziladas, assassinadas, deportadas, exiladas, as que voltaram com a miragem de uma possibilidade em 1917, as que morreram na Grande Guerra 1914-­1918 ou na guerra civil de 1917-­1921, todas as que pereceram ou sofreram por acreditar num ideal anarquista.

Este número da Erva Rebelde apresenta textos de reflexão, traduções, notas de leituras, mas também uma separata composta apenas por mulheres que empreenderam um trabalho de investigação e escrita criativa sobre anarquistas russas, intitulada “O Manuscrito encontrado na Utopia”. Contém, além disso, um DVD com documentos (uma cronologia, uma bibliografia, um índice biográfico e outros textos), várias pastas de imagens (fotografias, gravuras, mapas, pinturas, retratos), vídeos e ficheiros de som.»

Separata da Erva Rebelde nº2: O Manuscrito Encontrado na Utopia: https://archive.org/details/VisualGlobalManuscritoEncontradoNaUtopia

número anterior: https://archive.org/details/ErvaRebeldeN0

https://ervarebelde.noblogs.org/

(“A IDEIA” à Conversa com Carlos Taibo) Sobre a Revolução Russa


taibo

Carlos Taibo (n. 1956) é um sociólogo e activista ligado ao movimento libertário espanhol. Com vasta obra, o seu pensamento singulariza-se em cruzar a tradição libertária – apoio mútuo, autogestão, federalismo – com a ideia de decrescimento (Sérgio Latouche). Acabou agora de publicar Anarquismo y revolución en Rusia [1917-1921] (Los Libros de la Catarata, Madrid, 2017, 288 pp.), um largo estudo em oito capítulos em que se abordam os tópicos libertários da revolução russa – a oposição conselhista bolchevique, as diversas correntes do anarquismo russo, a comuna rural, a participação libertária nos sovietes, a aberração produtivista, a revolta de Cronstadt, a guerrilha camponesa na Ucrânia e a figura de Nestor Makno. Mantivemos com ele uma conversa sobre o livro e as questões mais escaldantes da revolução.

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(Fotos & texto) Apresentação da revista de cultura libertária “A Ideia” na antiga prisão do Aljube


Com um público muito próximo daquilo que tem sido habitual nos últimos anos, decorreu no Museu do Aljube na tarde de sábado de 16 de Dezembro a apresentação do número triplo da revista A Ideia respeitante ao ano de 2017, cuja pasta central versa os acontecimentos político-sociais que tiveram lugar na Rússia há cem anos.

O volume publica textos clássicos de duas testemunhas presenciais dos eventos, Emma Goldman e Ida Mett, e ainda um vasto acervo de textos da imprensa operária portuguesa da época (jornal A Batalha, jornal Avante de Évora e revistas A Sementeira e Renovação), dando conta da recepção que os eventos então tiveram, logo a partir de Dezembro de 1917, no meio operário português. Apresenta-se ainda uma entrevista com Carlos Taibo, autor dum importante estudo sobre a Revolução Russa saído este ano, e outra com Ana da Palma, tradutora portuguesa do conhecido livro de John Reed, Dez dias que abalaram o mundo.

A apresentação do tema central da revista esteve a cargo de Mário Rui Pinto e de Paulo Eduardo Guimarães. O primeiro falou das manifestações libertárias na Rússia de há cem anos, com destaque para a gesta de Nestor Makno e para a sublevação de Cronstadt em Março de 1921, e da atenção internacional que o movimento tem dedicado este ano ao acontecimento um pouco por todo o mundo, enquanto o segundo centrou a sua atenção nas apreciações que o evento mereceu por parte da organização sindical portuguesa da época, com enfoque particular na Confederação Geral do Trabalho, fundada em Fevereiro de 1919.

O evento contou também com a apresentação dum livro antológico, Anarquismo moderno mas não pós-moderno (Colibri, 2017), colectânea de textos publicados na revista A Ideia na década de 80 e onde estão representados autores tão marcantes para a renovação do pensamento libertário na segunda metade do século XX como Colin Ward, Murray Bookchin, George Woodcock, Amedeo Bertolo, Nico Berti, Tomás Ibañez e Thom Holterman. A apresentação desta colectânea esteve a cargo de José Bragança de Miranda, tradutor e estudioso da obra e do pensamento de Max Stirner.

O encontro teve ainda no final a presença do Teatro Independente de Loures, activo desde 1968, que, com interpretação de Luís Paniágua e Pedro Pina, representou duas curtas peças (“A paragem de autocarro” e “O escadote”) do dramaturgo e poeta português Jaime Salazar Sampaio (1925-2010), um dos autores em destaque neste número triplo da revista A Ideia, a par das homenagens poético-pictóricas a Cruzeiro Seixas, Cesariny, Virgílio Martinho, Fernando Alves dos Santos, Luiz Pacheco, António Maria Lisboa, Baptista-Bastos e Maria Natália Duarte Silva.

[Fotografias e vídeos da responsabilidade de Luís de Barreiros Tavares]

CEM ANOS DEPOIS DA CONTRA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE: MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE A DESTRUIÇÃO DAS NOSSAS LUTAS


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Este texto é somente um resumo, uma pequena recordação de um desastre histórico que ainda tem repercussões nas nossas lutas de hoje. Neste outubro de 2017, cem anos depois, cabe-nos a nós lembrar a apropriação bolchevique da Revolução Russa, que constituiu um desastre para a classe trabalhadora, um desastre para o povo russo e para todos os povos submetidos ao Império Russo, um desastre para os movimentos anticapitalistas à escala mundial, um desastre para quem procura liberdade, um desastre para a humanidade.

2Para a frente camaradas – para a contra revolução!

Um Desastre Previsível

A deriva contrarrevolucionária da URSS era previsível. Na verdade, Bakunine previu como uma «ditadura do proletariado» rapidamente se converteria em mais uma ditadura sobre o proletariado 50 anos antes de a Revolução Russa ter acontecido. Nos anos seguintes, muitos outros anticapitalistas chegaram à mesma conclusão. Era uma aposta bem segura, considerando a forma como os líderes da nova ditadura encontraram a sua inspiração noutra figura contrarrevolucionária, Karl Marx.

Não fazemos esta afirmação de ânimo leve, denunciado alguém como «contrarrevolucionário» que, sem sombra de dúvida, foi tão importante para as lutas anticapitalistas. Nem chegaríamos a dar esse passo por causa de simples desacordos teóricos. Foi só depois de um estudo minucioso das consequências das ações de Marx que chegámos a esta conclusão.

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(7 de Novembro) Emma Goldman, os anarquistas e a Revolução Russa


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“Durante um breve período da revolução de Outubro, os
trabalhadores rurais e urbanos, soldados e marinheiros foram
de verdade os donos da situação. Mas de pronto a invisível
mão de ferro do bolchevismo começou a manejar os assuntos
do Estado e separou a revolução do povo; e o povo separou-se
da Revolução. Naquele momento começou o Estado Bolchevique.
Os Bolcheviques formaram a Ordem dos Jesuítas de Marx.
Não quero dizer com isto que os bolcheviques não sejam
sinceros. Foi o seu marxismo que determinou sua actuação. Os
diversos métodos empregues destruíram a realização dos seus
objectivos. Comunismo, Socialismo, Liberdade, Igualdade, tudo
o que o povo russo suportou de sofrimento e porque fez a revolução,
caíram no descrédito pelos meios empregados, pela jesuística
desculpa de que o fim justifica os meios.
O cinismo mais desenfreado tomou o lugar do Idealismo
que distinguiu a revolução de Outubro. A inspiração caiu
paralisada, o interesse popular desapareceu; a apatia e a
indiferença suprimiram o entusiasmo e a energia criadora.
Não foi nem a intervenção, nem o bloqueio. Pelo contrário: a
politica interna do Estado Bolchevique é a única responsável
pelo fracasso da revolução e a única responsável também pelo
ódio que o povo russo sente por tudo o que dela emana.”

Emma Goldman

No dia em que passam 100 anos sobre o início da Revolução Russa, que tanta esperança semeou entre os trabalhadores de todo o mundo, convém recordar esta série de artigos* de Emma Goldman, ela própria de naturalidade russa,  e que viveu intensamente durante dois anos a esperança, mas também a desilusão provocada pela barbárie bolchevique sobre o conjunto dos trabalhadores e do povo russo.

Também neste outro longo artigo Emma Goldman dá conta da violenta repressão aos anarquistas russos pelo governo bolchevista logo nos primeiros tempos da Revolução.

(*Há que assinalar a péssima tradução de algumas partes desta brochura, mas é a única disponível em português.)

(Tierra y Libertad) Edição de Novembro do mensário da FAI com dossier sobre a revolução russa


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aqui: https://www.nodo50.org/tierraylibertad/

Solidariedade internacionalista com o anarquista russo Piotr Riabov, preso e em greve de fome


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Informação relacionada: Ataque policial
https://pramen.io/ru/2017/10/militsiya-atakovala-lektsiyu-petra-ryabova-v-grodno-obnovlyaetsya/
Julgamento
https://pramen.io/ru/2017/10/petra-ryabova-sudyat-v-baranovichah/
Preso pela policia
https://pramen.io/ru/2017/10/petra-ryabova-osudili-na-6-sutok/
Conferências do historiador
https://pramen.io/ru/2017/10/lektsii-petra-ryabova-v-grodno/
página do historiador
http://mpgu.su/staff/ryabov-petr-vladimirovich/

O ANARQUISMO NA REVOLUÇÃO RUSSA, POR DANIEL GUÉRIN


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O anarquismo, depois de haver descoberto uma segunda fonte de inspiração no sindicalismo revolucionário, encontrou uma terceira na Revolução russa. Esta afirmação pode, à primeira vista, surpreender o leitor habituado a considerar a grande mutação revolucionária de Outubro de 1917 como obra e apanágio exclusivo dos bolchevistas. Na realidade, a Revolução russa iniciou-se por um vasto movimento de massas, uma onda de base popular que submergiu as formações ideológicas. Não pertenceu a ninguém, senão ao povo. Na medida em que esta revolução foi autêntica, impulsionada de baixo para cima, produzindo espontaneamente órgãos de democracia direta, apresentou todas as características de uma revolução social de tendências libertárias. Todavia, a relativa fraqueza dos socialistas libertários russos impediu-os de explorar as condições excepcionalmente favoráveis à vitória das suas ideias.

A Revolução foi, por fim, confiscada e desnaturada pela maestria, dirão uns, astúcia, dirão outros, da equipe de revolucionários profissionais agrupados à volta de Lenin. Mas esta derrota para o anarquismo e para a autêntica revolução popular não foi inteiramente estéril para as ideias libertárias. Para começar, a apropriação coletiva dos meios de produção foi realizada, o que permitirá, um dia, que o socialismo de baixo para cima venha a prevalecer sobre o capitalismo de Estado; depois, a experiência da URSS proporcionou aos anarquistas russos e de outros países a possibilidade de extrair lições complexas de um temporário fracasso — lições das quais o próprio Lenin parecia ter tomado consciência pouco antes de falecer — e a possibilidade de reformular os problemas da revolução e do anarquismo no seu conjunto. Segundo a expressão de Kropotkin, retomada por Volin, a Revolução ter-lhes-ia ensinado, se necessário fosse, como não se deve fazer uma revolução. Longe de provar a impraticabilidade do socialismo libertário, a experiência soviética, em larga medida, confirmou o contrário, a precisão profética dos pontos de vista expressos pelos fundadores do anarquismo e, nomeadamente, da sua crítica ao socialismo “autoritário”.

1 – UMA REVOLUÇÃO LIBERTÁRIA

2 – UMA REVOLUÇÃO “AUTORITÁRIA”

3 – O PAPEL DOS ANARQUISTAS

4 – A “MAKHNOVITCHINA”

5 – KRONSTADT

6 – O ANARQUISMO MORTO E RESSUSCITADO

aqui: https://bibliotecaterralivre.noblogs.org/o-anarquismo-na-revolucao-russa-por-daniel-guerin/

e aqui (partes 1 e 2): https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2017/02/10/o-anarquismo-na-revolucao-russa-por-daniel-guerin/

(debate) Os anarquistas e a organização


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Há pouco menos de um ano, na sessão final do Encontro Libertário de Évora, um companheiro italiano, residente em Portugal há vários anos, interveio a dizer que durante as discussões tinha-se falado de tudo, mas o mais importante, o que estava subjacente a todas as intervenções, embora nunca fosse aflorado, era a questão da organização anarquista. Essa era a grande questão, sempre central, no anarquismo há décadas e que nunca era debatida nem abordada de frente. E perguntava ele: sem uma organização específica como vão concretizar as conclusões saídas desse encontro?

Desde aí esta frase nunca mais me deixou de ecoar na cabeça. O busílis, de facto, da questão é a organização, a que permite unir pessoas num projecto, dar-lhes continuidade, preservar a memória e a história, mobilizando para a acção. Este é um velho tema: como anarquistas, trata-se sobretudo de unir para a acção e organizar as tarefas e as actividades, mais do que as pessoas; outros dirão que não, que a existência de uma organização permanente fomenta as lutas e é ela própria uma dinamizadora da consciencialização dos militantes. Este é um debate antigo, tão antigo quanto o anarquismo e que apenas conseguiu ser superado na fase em que o anarco-sindicalismo e as suas organizações operárias, de base sindical, foram pujantes. Hoje, os movimentos libertários, regra geral, vivem atomizados, em lutas parcelares.

Retomamos, por serem actuais e terem influenciado grandemente o anarquismo europeu face às propostas anarquistas oriundas de militantes que viveram e lutaram na Revolução Russa (onde a falta de uma organização anarquista forte foi muitas vezes apontada como a causa para a vitória bolchevique contra os trabalhadores), um artigo escrito na altura por Errico Malatesta onde refuta tais teses. Publicamos também o link para a “Plataforma de organização da União geral dos Anarquistas (Projeto)” a que Malatesta se refere.

Hoje os cenários são diferentes e talvez seja possível fazer uma síntese destas duas posições. A necessidade de um espaço de partilha, coordenação, luta e memória, que não viole a identidade nem os princípios acratas, é cada vez mais urgente.

luís bernardes

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(100 anos da Revolução russa)  “Para os anarquistas russos, o bolchevismo tinha-se convertido na contra-revolução”


pan

Acaba de ser apresentado em Espanha o livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, do historiador Julián Vadillo Muñoz, que destaca o papel – sempre tão caluniado e esquecido – dos anarquistas na Revolução russa e a sua defesa intransigente da independência dos sovietes, que tinha sido a grande palavra de ordem, mobilizadora, dos primeiros dias da revolução. A elucidativa entrevista, que traduzimos, foi publicada ontem (28/3/2017) na edição online do jornal alternativo espanhol “La Marea”.

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