Revolução russa

(debate) Os anarquistas e a organização


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Há pouco menos de um ano, na sessão final do Encontro Libertário de Évora, um companheiro italiano, residente em Portugal há vários anos, interveio a dizer que durante as discussões tinha-se falado de tudo, mas o mais importante, o que estava subjacente a todas as intervenções, embora nunca fosse aflorado, era a questão da organização anarquista. Essa era a grande questão, sempre central, no anarquismo há décadas e que nunca era debatida nem abordada de frente. E perguntava ele: sem uma organização específica como vão concretizar as conclusões saídas desse encontro?

Desde aí esta frase nunca mais me deixou de ecoar na cabeça. O busílis, de facto, da questão é a organização, a que permite unir pessoas num projecto, dar-lhes continuidade, preservar a memória e a história, mobilizando para a acção. Este é um velho tema: como anarquistas, trata-se sobretudo de unir para a acção e organizar as tarefas e as actividades, mais do que as pessoas; outros dirão que não, que a existência de uma organização permanente fomenta as lutas e é ela própria uma dinamizadora da consciencialização dos militantes. Este é um debate antigo, tão antigo quanto o anarquismo e que apenas conseguiu ser superado na fase em que o anarco-sindicalismo e as suas organizações operárias, de base sindical, foram pujantes. Hoje, os movimentos libertários, regra geral, vivem atomizados, em lutas parcelares.

Retomamos, por serem actuais e terem influenciado grandemente o anarquismo europeu face às propostas anarquistas oriundas de militantes que viveram e lutaram na Revolução Russa (onde a falta de uma organização anarquista forte foi muitas vezes apontada como a causa para a vitória bolchevique contra os trabalhadores), um artigo escrito na altura por Errico Malatesta onde refuta tais teses. Publicamos também o link para a “Plataforma de organização da União geral dos Anarquistas (Projeto)” a que Malatesta se refere.

Hoje os cenários são diferentes e talvez seja possível fazer uma síntese destas duas posições. A necessidade de um espaço de partilha, coordenação, luta e memória, que não viole a identidade nem os princípios acratas, é cada vez mais urgente.

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(100 anos da Revolução russa)  “Para os anarquistas russos, o bolchevismo tinha-se convertido na contra-revolução”


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Acaba de ser apresentado em Espanha o livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, do historiador Julián Vadillo Muñoz, que destaca o papel – sempre tão caluniado e esquecido – dos anarquistas na Revolução russa e a sua defesa intransigente da independência dos sovietes, que tinha sido a grande palavra de ordem, mobilizadora, dos primeiros dias da revolução. A elucidativa entrevista, que traduzimos, foi publicada ontem (28/3/2017) na edição online do jornal alternativo espanhol “La Marea”.

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O ANARQUISMO NA REVOLUÇÃO RUSSA, por Daniel Guérin


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Na continuação da divulgação de artigos e textos sobre a revolução russa, que agora comemora 100 anos, iniciamos a publicação deste texto de Daniel Guérin (Capitulo II do livro “l’anarchisme”) que destaca o impulso libertário que esteve na base da revolução dos sovietes, mas cedo esmagada e controlada pelo partido bolchevique. As greves e o controlo de fábricas pelos trabalhadores, a insurreição de Kronstadt, o amplo movimento de camponeses da Ucrânia e a luta levada a cabo por Makhno foram alguns dos momentos altos desse espírito libertário que atravessou a revolução russa. A tradução é da companheira VTS para o Portal Anarquista.

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(1917-2017) Nos 100 anos da Revolução Russa


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Os anarquistas e anarcosindicalistas russos estiveram entre os militantes mais activos em todo o processo revolucionário russo, mas também foram aqueles que mais depressa denunciaram e combateram o controlo exercido pelo partido bolchevique sobre os sovietes, a militarização da economia e o despotismo de um pequeno núcleo de dirigentes sobre a imensa maioria do povo, gerando, logo desde o início, práticas ditatoriais e não democráticas que transformaram a União Soviética na tumba do socialismo autoritário. As críticas a estes métodos autoritários, próprios do marxismo e acentuados pelo leninismo e pelo partido único, já tinham sido feitas por vários anarquistas, entre os quais Bakunine, e foram retomados no terreno por muitos outros. Entre estes, desde logo, Emma Goldman, de origem lituana, mas que tendo emigrado muito jovem para os Estados Unidos voltou à Rússia depois da revolução. Serviu de intermediária entre o governo do Partido Bolchevique e os marinheiros insurrectos de Kronstadt e foram dela as primeiras críticas e denúncias face ao terror bolchevique sobre os trabalhadores e à deriva da Revolução que tantos sonhos tinha gerado. Nas próximas semanas iremos publicando – aqui no Portal Anarquista – textos sobre a Revolução Russa e a sua degenerescência, de forma a provocar o debate em torno deste acontecimento que, 100 anos depois, permanece ainda submerso na mitologia e na mentira construída por aqueles que em nome da “ditadura do proletariado” ergueram sobre os trabalhadores russos e dos países limítrofes uma das mais ferozes ditaduras do século XX.

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As causas do fracasso da revolução russa

Emma Goldman

Ficam agora bem claros os motivos que fizeram com que a Revolução Russa, tal como foi conduzida pelo Partido Comunista, fosse um fracasso. O poder político do partido, organizado e centralizado no Estado, procurou manter-se utilizando todos os meios de que dispunha. As autoridades centrais tentaram fazer com que o povo agisse de acordo com modelos que correspondiam aos propósitos do Partido, cujo único objetivo era fortalecer o Estado e monopolizar todas as atividades econômicas, políticas e sociais e até mesmo as manifestações culturais. A Revolução tinha objetivos totalmente diferentes pelas suas próprias características, era a negação do princípio da Autoridade e da centralização. Ela lutava para alargar ainda mais os meios de expressão do proletariado e multiplicar as fases do esforço individual e coletivo. Os objetivos e as tendências da Revolução eram diametralmente opostos àqueles do Partido Governante.

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“Abaixo a polícia”, uma canção anarquista da Revolução Russa


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“Abaixo a polícia” é uma canção revolucionária, escrita por anarquistas judeus e muito popular durante o processo revolucionário russo .

“Em todas as ruas
Ouve-se falar de greves
Os rapazes, as raparigas e toda a família
Discutem as greves

Irmãos, basta de sofrer,
Basta de nos endividarmos
Façamos greve
Irmãos, libertemo-nos

Irmãos e irmãs
Demo-nos as mãos
Derrubemos os muros
Do pequeno Micolas
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Irmãos e irmãs
Deixemo-nos de formalismos
E encurtemos os dias
Do pequeno Nicolas
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Ontem ele puxava
Uma pequena carroça de sucata
Hoje tornou-se
Um capitalista
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Irmãos e irmãs
Juntemo-nos
E enterremos o pequeno Nicolas
Com a sua mãe
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia

Cossacos e guardas
Desçam do cavalo
O czar russo está morto e enterrado
Hey, hey abaixo a polícia
Abaixo a classe dirigente da Rússia”

(aqui)

(efeméride) Os livros anarquistas sobre a Revolução Russa sublinham a transformação da esperança em pesadelo para os trabalhadores


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Marinheiros de Kronstadt

Tudo está já, provavelmente, dito sobre a revolução russa. Por isso, deixamos aqui apenas a referência a alguns dos livros mais interessantes para analisar a deriva da revolução russa e a sua transformação num regime totalitário, de capitalismo de estado, sob o comando do partido bolchevique, de raiz marxista-leninista.

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A Revolução Russa nasceu “ da impossibilidade, para o povo, de continuar a guerra e de arrastar uma existência de fome (…) e da obstinação cega do czarismo”. (VOLIN, “A revolução desconhecida”).

No próximo mês de Março assinalam-se os 100 anos do início da revolução russa, cujo primeiro acto ficou assinalado pela queda do czar. Por estes dias há também uma efeméride – os 99 anos do levantamento popular contra o governo provisório, que juntou bolcheviques, socialistas revolucionários e anarquistas – e que tanta expectativa criou junto das classes trabalhadoras de todo o mundo, mas também que posteriormente tanta desilusão trouxe, acabando por associar as palavras socialismo e comunismo a um dos períodos de maior barbárie da humanidade.

A sociedade russa, depois da queda do czar em Março de 1917, estava preparada para a revolução, sobretudo os sectores operários das grandes cidades, bem como os soldados e marinheiros, todos agrupados em sovietes. A palavra de ordem de “Todo o poder aos sovietes” levou a que muitos anarquistas acompanhassem o partido bolchevique nestes primeiros momentos de transformação social. Mas a tomada do poder pelos bolcheviques e o controlo que o partido começou a exercer desde logo sobre os sovietes mostraram bem cedo qual o rumo que os acontecimentos estavam a tomar e que levaram ao restabelecimento autocrático do poder de Estado, agora nas mãos de Lenin e dos seus correlegionários.

Conquista do poder feita à custa de muito sangue operário e camponês e de uma imensa repressão em todos os sectores da sociedade, cuja organização, centrada única e exclusivamente no Partido Comunista e no seu comité dirigente foi, desde logo, criticada por vários sectores do próprio campo marxista, nomeadamente pela comunista alemã Rosa Luxemburgo, que no seu livro “A Revolução Russa” escreveu:

“Algumas dezenas de chefes de uma energia infatigável e de um idealismo sem limites dirigem o governo e, entre eles, quem governa de facto é uma dezena de cabeças eminentes, enquanto uma elite da classe operária é convocada de tempos em tempos para reuniões com o fim de aplaudir os discursos dos chefes e de votar por unanimidade as resoluções que lhe são apresentadas.”

E mais à frente: “O erro fundamental da teoria Lenine e Trotsky está justamente em que, tal como Kautsky, eles opõem democracia e ditadura. “Ditadura ou democracia”, assim se coloca a questão tanto para os bolcheviques como para Kautsky. Este pronuncia-se pela democracia burguesa, contrapondo-a à transformação socialista. Lenine e Trotsky, ao contrário, pronunciam-se pela ditadura de um punhado de pessoas, quer dizer, pela ditadura segundo o modelo burguês jacobino. Estes dois pólos opostos estão ambos muito distantes da verdadeira política socialista.”

A resistência anarquista à ditadura bolchevique, assente numa violenta repressão e na tentativa de tudo controlar, depressa se fez sentir levando a que muitos libertários, que tinham tentado colaborar com as autoridades soviéticas – sem terem percebido, de início, as palavras proféticas de Bakunin de que “liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade” – entrassem em ruptura com os bolcheviques e assumissem movimentos insurreccionais como foram o dos camponeses, liderados por Makhno, logo em 1918 na Ucrânia e a a revolta dos marinheiros e soldados de Kronstadt, em 1921. Inúmeros livros foram publicados sobre a deriva autoritária da revolução russa, a maioria por parte de anarquistas que estiveram no terreno e viveram a repressão contra-revolucionária bolchevique.

Como se aproxima o centenário da revolução russa de Fevereiro (em Março) e as “galinhas cacarejantes” dos “amanhãs que cantam” já devem estar a planear entoar, por essa altura, loas à ditadura que os seus correlegionários de ontem e de sempre implantaram na Rússia e noutros países da sua área de influência, deixamos em baixo a indicação de algumas obras, sempre que possível em português, essenciais para compreender a natureza e a posterior deriva da revolução russa e o carácter contra-revolucionário do socialismo autoritário de raiz marxista-leninista que em vez de – como refere a letra da “Internacional” – significar a “libertação do género humano”, representou a morte, tortura e opressão de milhões de seres humanos. Em nome – pasme-se! – da liberdade, da igualdade e do socialismo.

Alguns livros digitais.

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Alexander Berkman

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a tragédia russa (uma revisão e uma perspectiva – ou panorama)

Alexander Berkman e Emma Goldman

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Kronstadt

Emma Goldman

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Dois anos na Rússia

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Minha outra desilusão na Rússia

G. P: Maximoff

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Sindicalistas na Revolução Russa

Ida Mett

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A comuna de Kronstadt (castelhano)

Juan Ferrario

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As matanças de Anarquistas na Rússia

Rudolf Rocker

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Os sovietes traídos pelos bolcheviques

Volin

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A revolucão desconhecida (volume I) em português

Em francês

Em inglês

(Quem não se sente…) “Podem lavar a história mas não apagam a nossa memória”


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Em protesto contra a “mentira histórica”, branqueadora do despotismo “soviético” e da morte e prisão de milhares de anarquistas, a parede principal do Teatro Municipal de Almada apareceu com a inscrição: “Podem lavar a história mas não apagam a nossa memória. Viva a anarquia”.

Em causa está a nova peça que a Companhia de Teatro de Almada tem em cena da autoria de um dramaturgo russo, bolchevista, que foi correspondente de guerra do jornal Pravda e alinhado ideologicamente com o regime de terror de Lenine e seus sucessores. Uma peça propagandistica, que embora se faça eco da tradição anarquista bem presente entre os marinheiros russos (de que a insurreição de Kronstadt contra o regime comunista “soviético” foi um exemplo marcante), branqueia o regime, centrando a acção na intervenção duma “comissária do povo” que através da argumentação marxista suplantaria os argumentos libertários junto dos marinheiros, levando-os a apoiarem a acção do governo bolchevique. Uma peça ideologicamente manipuladora que, na altura e agora, serve para branquear o regime despótico instaurado pelo partido bolchevique sobre o povo russo.

Basta ler a sinopse apresentada pelo Teatro de Almada para se constatar o facto desta peça nada mais ser do que um elemento de propaganda ao regime “soviético” a que o povo russo e de outras nacionalidades oprimidas soube pôr fim com a queda do Muro de Berlim em 1989.

Sinopse:

Em plena Guerra Civil Russa, a tripulação anarquista de um navio que combatera na I Grande Guerra recebe um comissário bolchevique, que tem como missão mobilizá-la para a causa comunista. O comissário é, surpreendentemente, uma mulher, que muito rapidamente tem de se impor entre marinheiros. Segue-se um intenso debate ideológico, no qual se discutem os valores e os ideais da Revolução. E, pouco a pouco, de uma tripulação anarquista começa a surgir uma vontade comum. A tragédia optimista confronta-nos com o passado, num momento histórico em que importa voltar a pensar a relação entre o interesse individual e o interesse colectivo. Que motivos haverá ainda para que nos unamos em torno de uma causa?

Vsevolod Vichnievski (1900-1951) foi um dramaturgo e escritor russo que celebrou a revolução russa nas suas obras. Para além da sua carreira literária, também se distinguiu como militar, tendo participado, por exemplo, no cerco a Leninegrado. Foi correspondente de guerra para o jornal Pravda. A tragédia optimista é a sua obra mais conhecida, tendo sido levada à cena por Alexander Tairov, em 1933, e adaptada para cinema por Samson Samsonov, em 1963. Em França, esta obra suscitou o interesse de encenadores como Bernard Sobel, Clément Harari ou Jean Jourdheui. (daqui)

notícia e foto daqui: http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/31710

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