surrealismo

“Teses Sobre a Visita do Papa”, por António José Forte


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Numa altura em que faltam exactamente 2 meses para que o papa visite Portugal e o seu espectáculo maior que dá pelo nome de Fátima, com a lotação esgotada e os preços a fazerem corar de vergonha os administradores de outros espaços de culto e luxo, nada melhor do que trazer, de novo, para a ribalta este texto do poeta surrealista António José Forte, publicado no jornal “A Batalha” há 35 anos, aquando da visita de um outro papa ao mesmo espectáculo, em cena desde 1917 e que bons cobres e dividendos ideológicos tem proporcionado à troika formada pelo Estado, pelo Capital e pela Igreja, os três na sua santa missão de injectarem “esperança” entre os explorados.

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1. Ó Estado, mais uma vez podes limpar as mãos à parede do cu do papa, ficarás com as mãos mais brancas para os teus crimes. Ó partidos, da esquerda e da direita, mais uma vez podeis beijar os pés ao papa, ficareis com a boca abençoada para mentir melhor. Explorados, escolhei o crime, escolhei a mentira. Sois livres. Tu poeta, range os dentes e indigna-te.

2. Que o Estado venere a Deus na figura do papa, que os partidos venerem o Estado na figura do papa; que os explorados venerem a Deus, o Estado, o Partido – a trindade omnipresente. Enfim, o poder temporal subordinado ao poder sobrenatural. Nem Deus nem senhor? Maldita incurável doença infantil do comunismo. Explorado, escolhe o explorador.

3. O Estado que te submete é republicano e reverencia a Igreja, o Partido em que militas é marxista e felicita o papa, o Sindicato onde estás inscrito é revolucionário e saúda a reacção. A greve geral é uma arma que não deve ferir o papa. Nada contra o obscurantismo. Paz ao inimigo. Quem disse que a religião é o ópio do povo? Explorados, que escolheis?

4. Sobretudo, nada de escândalo. Uma pedra branca sobre o crime, uma pedra negra sobre a crítica. Ecrasez l’ infâme, dizia Voltaire. O silêncio dos ateus é o ouro do Vaticano. Explorado, escolhe a pedra para a tua cabeça.

5. Conquistar a liberdade de expressão para não usar a liberdade de expressão. Não denunciar o opressor, não ousar atirar-lhe à cara a revolta, sequer na forma de um cravo. Ver, ouvir, receber o papa com o medo do 24 de Abril. Explorado, porque não vomitas?

6. Explorado, sê manso e obedece. Pode ser que entres no reino dos céus, de camelo ou às costas de um rico. Obedece. Pode ser que vás para a cama com a pátria. Obedece. Pode ser que o teu cadáver ainda venha a ser estandarte glorioso do Partido. Nunca percas a esperança, explorado, jamais.

7. Abaixo a união livre. Viva a coexistência pacífica. O casamento do capital e do trabalho vai ser o grande casamento do século. Não haverá oposição dos pais nem da polícia. Sobretudo, tudo menos a erotização do proletariado. Felicidades, explorado.

8. Ouvi falar da luta de classes e da revolução e do mundo que o proletariado tem a ganhar e nada a perder. Ouvi falar das armas da crítica e da crítica pelas armas. Ouvi falar em transformar o mundo e mudar a vida. Ouvi falar de que enquanto um homem, um só que seja, e ainda que seja o último, existir desfigurado, não haverá figura humana sobre a terra. Nunca tinha ouvido uma sereia assim. Ouviste, explorado?

9. O diálogo? Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo? O diálogo é entre amantes, entre amigos, entre camaradas. Fora disso não há diálogo. Tens a palavra, explorado.

António José Forte 

In: jornal “A Batalha” – Lisboa. – Ano IX, VI série, Nº 90 (Dez. 1982)
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(Lisboa) Cruzeiro Seixas na apresentação da revista de cultura libertária “A Ideia” relativa a 2016


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Foi ontem apresentado em Lisboa o número quadruplo da revista de cultura libertária “A Ideia (nºos 77, 78, 79 e 80), referente a 2016, numa sessão muito concorrida e que juntou largas dezenas de pessoas no Museu do Aljube. Para apresentação deste número, o seu director António Cândido Franco promoveu um debate sobre as prisões portuguesas – não só pela acuidade e actualidade do tema, mas também pelo facto da sessão decorrer na antiga prisão do Aljube onde estiveram tantas centenas de presos libertários e de outras correntes políticas.
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Foi um debate interessante e participado com uma excelente intervenção e muito informada (com power point) do Manuel Almeida Santos sobre a degradação das condições no interior das prisões portuguesas e a arbitrariedade dos directores prisionais; comovente também o testemunho de Hipólito Santos (muito abatido e com quebra de saúde) sobre a vida dele no Aljube em 1962, depois do golpe de Beja, em cuja organização participou; também Filipe Nunes e Margarida Almeida (do jornal Mapa) intervieram com  informação preciosa sobre a actividade de António Dores, do Observatório das Prisões, que não pôde estar presente.
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Relevo ainda para a presença do pintor e poeta surrealista Cruzeiro Seixas que abriu e fechou a sessão. Embora esteja prestes a fazer 97 anos, e praticamente cego, este decano dos surrealistas portugueses (foi amigo e companheiro de António Maria Lisboa e de Mário Cesariny, entre outros) interveio no principio e no fim da sessão, tendo dito alguns poemas de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro. Deste último declamou o poema QUASE:

Saudando este número da revista “A Ideia”, em que participou com material inédito, Cruzeiro Seixas disse ter já muita dificuldade em ler e desejou, como futuro, “um mundo de imaginação liberta em todos nós”.

Esta edição da revista “A Ideia”, com mais de 400 páginas,  está disponível em papel e os pedidos podem ser feitos para  Revista A IDEIA:  Rua Celestino David n.º 13-C, 7005-389 Évora, Portugal, mas pode ser também consultada na web. aqui (1ª parte) e aqui (2ª parte)

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No rescaldo do mundial….


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CHAMAS DESPORTIVAS…NUM TEMPO SOB MEDIDA

Este pequeno mas esclarecedor e creio que oportuno texto de Radovan Ivsic foi dado a lume pela primeira vez no catálogo da exposição internacional “L’ECART ABSOLU (1965) e, depois, republicado no volume de ensaios do autor intitulado “CASCADES” (Editora Gallimard 2006).  Agradecimentos são devidos a Laurens Vancrevel por mo ter enviado, bem como a Joaquim Simões que pulcramente o traduziu. – ns
 
 “Estou firmemente convicto de que o desporto é o melhor meio de produzir uma geração de cretinos perniciosos”, escrevia Léon Bloy, sem suspeitar de que estas palavras proféticas poderiam em breve ser aplicadas a numerosas gerações de todos os continentes. Sob a máscara do jogo, de que é a caricatura senão mesmo a negação, ou, melhor ainda, do apolitismo e desta forma falaciosa do internacionalismo acerca do qual já Charles Maurras dizia: «esse internacionalismo não eliminará as pátrias, antes as fortificará», o desporto alastra desde há um século como uma elefantíase imunda. Nele não poupam os dirigentes de todos os países, não somente por o considerarem um complemento do serviço militar mas porque – denuncia-o também Benjamin Péret – enquanto «meio de embrutecimento» leva seguramente a palma aos demais. O célebre treinador americano Knut Rockne não imaginava até que ponto era certeiro quando afirmava: «Logo a seguir à Igreja, a melhor coisa é o futebol». Mais explícito ainda, o barão Pierre de Coubertin, promotor dos Jogos Olímpicos modernos, esclarece: «A primeira característica essencial do antigo olimpismo bem como do olimpismo moderno é o de ser uma religião. Ao cinzelar o corpo pelo exercício à semelhança do escultor modelando a sua estátua, o atleta antigo “honrava os deuses”. Copiando-o, o atleta dos nossos dias exalta a pátria, a raça, a bandeira». Esta passagem torna-se tanto mais significativa quanto é extraída de um prefácio à escandalosa olimpíada de 1936, inaugurada em Berlim por Hitler, onde o barão desportivo, promotor da «arte de criar o puro-sangue humano», saudará «um dos maiores espíritos construtores do nosso tempo», que «serviu magnificamente, sem o desfigurar, o ideal olímpico».
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Os ensurdecedores espectáculos dos ringues e dos estádios retratam a organização da vida contemporânea, baseada na rivalidade e na concorrência, numa palavra, na competição, cujos efeitos não poderiam ser mais prejudiciais ao associativismo de Fourier. O campeão torna-se, em geral, graças a ela, num profissional, num trabalhador modelo que, à força de abstinência, paciência e suor, conquista o seu lugar ao sol poeirento das grandes provas. Far-se-á dele um homem-sanduíche à escala da grande imprensa e da televisão ou, melhor ainda, uma vedeta nacional, desde que, note-se, a sua vida em família seja exemplar. Quer para o adepto activo quer para o infame passivo, a suposta cultura física é habilmente erguida numa barragem aos excessos da vitalidade libertadora do indivíduo, que tenta escapar às garras do progresso técnico sem derramamento de sangue ou aos danos de uma educação esclerosada. De origem escolar, o desporto transforma-se numa dura escola onde, sob a orientação do instrutor técnico, se aprende «a paixão da docilidade». O estádio é a porta grande que leva ao mundo dos robots.
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No centro desta exposição, a máquina de lavar todos os jornais, de L’Aurore ao L’Humanité, e do New York Herald Tribune ao Quotidiano do Povo, de Pequim, terá de branquear, entre outras, uma profusão de omnipresentes páginas desportivas. Tanto pior para algumas raras e, por vezes, magníficas fotos de bólides em chamas invadindo arquibancadas a transbordar, antes de explodirem: tal flash solene é a única luz apropriada a estes locais sinistros.
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(enviado por mail por n.s.)
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