Da (não) eficácia das ‘greves simbólicas’


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Sobre o pouco eco da greve da função pública de sexta-feira

Os anarquistas, por definição e historicamente, defendem as greves como um instrumento importante para  a classe trabalhadora se mobilizar e conseguir ganhos em termos de condições de trabalho, salários, etc. . As greves animadas pelo sindicatos anarcosindicalistas assentavam também na ideia de que as greves parcelares, reivindicativas de melhorias pontuais no dia a dia dos trabalhadores, eram ao mesmo tempo um exercício que iria conduzir à grande greve geral expropriadora que poria fim ao capitalismo e à sociedade de classes. Por isso, em cada greve, mesmo parcelar, esse objetivo final estava sempre presente.

Hoje as greves levadas a cabo pela CGTP (ou por outras organizações da mesma índole) são meramente simbólicas, com data para início e termo (geralmente um dia ) e apenas viradas para o sector público, por ser mais fácil enfrentar o Estado-patrão do que os patrões do sector privado.  Paralelamente a este pouco eco sindical, todos nós conhecemos, seja nos nossos locais de trabalho ou a partir dos nossos relacionamentos pessoais, dezenas e dezenas de trabalhadores que, ou, no dia da greve, gozam um dia de férias, para não perderem o salário e o subsídio de alimentação, ou, noutros casos, trabalham normalmente, nas suas tarefas habituais, embora assumam que estão em greve.

Apesar das escolas fechadas (aqui ao lado a criançada diverte-se no parque infantil porque não tiveram escola), das repartições públicas encerradas e de alguns centros de saúde e serviços hospitalares o efeito deste tipo de greve, de um dia à sexta-feira, praticamente sem piquetes de greves que mereçam esse qualitativo, é quase nulo e serve apenas para “picar o ponto” num momento em que se discute o orçamento de estado para 2023 e para que as burocracias sindicais apresentem “trabalho” (em geral enfeudadas ao PCP e, sobretudo agora, queiram mostrar que “o partido está na rua”, seja lá isso o que for).

Do nosso ponto de vista, é cada vez mais urgente pensar outras formas de luta e outras formas organizativas, menos orgânicas e mais criativas, sob risco do ato de “fazer greve” começar a ser tão inócuo que não valha a pena fazer – sobretudo, agora, em que é cada vez mais difícil conseguir que os salários mais baixos “estiquem” até ao fim do mês e em que cada tostão conta no bolso dos trabalhadores.

A. C. (recebido por email)

Nova versão atualizada de “O Anarquismo em Portugal (1796-2022)”, de Carlos Fontes


Clique aqui para abrir (PDF)

Carlos Fontes acaba de divulgar uma nova versão da sua investigação sobre o anarquismo em Portugal, datada de outubro de 2022. Segundo o próprio, “o texto ainda não está concluído, mas esta nova versão tem mais 40 páginas e corrige vários erros.” Substitui, portanto, as edições anteriores.

10 anos de Portal Anarquista


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O Colectivo Libertário de Évora, precursor do Portal Anarquista, surgiu há precisamente 10 anos.

No final de Outubro  de 2012 foi publicado na internet, no blogue com o mesmo nome, um apelo à participação anarquista na greve geral marcada para o dia 14 de novembro e, pouco depois, o Manifesto do Colectivo, que reunia habitualmente na Sociedade Harmonia Eborense. A apresentação pública do grupo aconteceu a 13 de Novembro, num encontro que juntou cerca de 40 pessoas, antecedida da passagem do filme “Terra e Liberdade”, na Associação “É Neste País”, em Évora.

Alguns meses depois o Colectivo decidiu dissolver-se, mantendo-se, no entanto ,a página na internet e no facebook com o nome de Portal Anarquista (embora a página ainda mantenha o endereço de https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/), pretendendo ser um veículo informativo e de memória libertária o mais abrangentes possível e juntando alguns outros companheiros e colaboradores.

Ao longo destes 10 anos a página no facebook cresceu exponencialmente tendo neste momento cerca de 11 mil “amigos”, enquanto que o blogue Portal Anarquista atinge já  quase um milhão e trezentas mil visitas (mais exactamente 1.297.246 visitas) e um total de mais de 2.100 artigos publicados. 

No último ano lançámos também o blogue “Memória Libertária”, no Sapo, para juntar num mesmo espaço todos os textos de carácter histórico e biográfico sobre o anarquismo português.

Liberdade para Kirill Ukraintsev, sindicalista, vítima do regime russo!


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Com mais de 20 anos à frente da Federação Russa, Putin tem travado uma verdadeira guerra contra o povo da Rússia, cuja situação económica e social continua a piorar. Para tentar esconder a situação, além do desenvolvimento de campanhas de intoxicação e propaganda, o regime silencia por todos os meios aqueles que ousam falar alto e lutar por mais liberdade e justiça. Sindicalistas, anarquistas e, em geral, defensores dos direitos humanos estão particularmente na sua mira… A guerra desencadeada após a invasão do território ucraniano aumentou a brutalidade da repressão por parte do Estado russo, que agora nem sequer finge respeitar a sua própria legalidade.

Kirill Ukraintsev é um simples trabalhador precário, um estafeta que faz entrega de refeições, e que com outros colegas, em 2020 teve a coragem de dizer “niet” ao seu patrão-oligarca e de criar um sindicato para exigir respeito pela sua dignidade. Desde 2020, eles já fizeram inúmeras greves, exigindo o pagamento de salários não pagos, a anulação de multas injustas e o fim do aumento de mais encargos sobre os trabalhadores. Reivindicam também contratos de trabalho para os estafetas.

Em abril passado, o chefe do Delivery Club decidiu unilateralmente reduzir os salários dos estafetas em 20%, num momento em que a Rússia está a ter um forte aumento da inflação! Em resposta a essa medida escandalosa, os estafetas iniciaram um movimento grevista. No dia 25 de abril, enquanto o sindicato “Correio” organizava uma manifestação em frente à empresa, a polícia invadiu a casa de do  secretário do sindicato, Kirill Ukraintsev. Foi detido sob custódia e acusado ao abrigo do artigo 212.1 do Código Penal da Federação Russa, que reconhece como delito  convocar ou participar em reuniões não autorizadas. O sindicalista é acusado de apelar a estafetas e a taxistas, através das redes sociais, para protestarem contra a violação de direitos laborais. Por isso, arrisca até 5 anos de prisão por “violação repetida do procedimento de organização de reuniões”.

O julgamento, inicialmente marcado para 25 de junho, foi adiado para o outono. Mas a 17 de outubro, o julgamento foi novamente adiado, desta vez para 7 de abril de 2023. Durante todo esse tempo, Kirill permanece preso e isso em total desrespeito pela lei russa que indica que a duração da prisão preventiva não deve exceder 6 meses! A juíza ignorou o pedido dos advogados para levar o caso ao Ministério Público e, para se afastar da responsabilidade por essa decisão, transferiu o caso para outro tribunal. A arbitrariedade do regime de Putin é agora totalmente assumida pelos seus lacaios e servos.

A seção russa da AIT apela à solidariedade para com o sindicato “Correio” e exige a liberdade incondicional de Kirill!

“O sindicato independente Correio, na Rússia, é uma organização de base que denuncia as negociatas das empresas. Cria e põe em prática novas táticas de luta no campo do trabalho precário. Duarante os últimos dois anos tem existido uma repressão violenta contra os seus militantes, utilizando tanto a tática do estrangulamento económico por meio de repetidos julgamentos, como a coerção física direta. Neste momento, Kirill Ukraintsev, presidente do sindicato Correio, está sob o controle do sistema implantado pelo Delivery Club, propriedade da holding de comunicação O2O. Ao eliminar Kirill, eles querem-nos obrigar a parar de lutar.

Pedimos, por isso,  a todos os camaradas que estão contra a opressão do homem pelo homem e a alienação do trabalho pelo capital, que apoiem a nossa organização de trabalhadores precários (…)

Apelamos aos nossos companheiros no estrangeiro que participem nas ações de solidariedade que vão ser implementadas:

Participem em piquetes e manifestações perto da Embaixada da Rússia no vosso país ou cidade. Podem ter como referência um vídeo com palavras de apoio a Kirill Ukraintsev, à sua família e ao sindicato Correio. Enviem todos os vídeos, fotos e links para o nosso canal do Telegram @CourierUnionFeedbackBot ou um e-mail para muharatgaijima@gmail.com

– Deem o máximo de publicidade a este caso. Publiquem comunicados, informem nos vosso sites, informem os estafetas dos vossos países …

– Produzam e publiquem vídeos,, fotos, autocolantes, cartazes, grafites, etc.

– Precisamos estabelecer contatos com movimento sindical internacional. Trocar experiências. Esta é talvez a melhor ajuda para o desenvolvimento de sindicatos independentes. »

Nas palavras de nossos companheiros: Os estafetas não são escravos! A solidariedade é a nossa arma!

Liberdade para Kirill Ukraintsev!

Companheiros do CNT-AIT (França)  

http://cnt-ait.info 

contact@cnt-ait.info

aqui: http://cnt-ait.info/2022/11/07/liberte-kirill/

Tradução em inglês: Liberdade para Kirill Ukraintsev, sindicalista vítima da arbitrariedade do regime russo! http://cnt-ait.info/2022/11/07/freedom-kirill/

“Esquerdistas” de fora da Ucrânia estão acostumados a ouvir apenas pessoas de Moscovo: entrevista com anarco-sindicalistas no leste da Ucrânia


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Yavor Tarinski, da revista libertária grega Aftoleksi, entrevista dois anarquistas do leste da Ucrânia, politicamente ativos durante décadas naquela região antes da invasão de 2014, altura em que a possibilidade de qualquer ação política sem mediação se tornou inviável. Os dois são aquilo que muitas pessoas tendem a chamar, de forma simplista, como cidadãos da Ucrânia “de fala russa”. Esta entrevista teve como pretexto os referendos realizados pelas forças de ocupação russas naquela região, bem como pelo ressurgimento de notícias falsas sobre a antiga organização anarquista RKAS (Confederação Revolucionária dos Anarco-Sindicalistas), em que eles próprios participaram e de foram membros fundadores. Continuamos a dar voz àqueles que estão diretamente envolvidos nesta guerra bárbara de violência física e difamação. Uma voz que os Estados e os interesses políticos organizados tentam silenciar.

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Atualizada a cronologia do anarquismo em Portugal com a referência aos fundadores do Grupo de Cultura e Acção Libertária de Almada


Segundo informação de Carlos Gordilho foram “ONZE OS ELEMENTOS FUNDADORES, ELIPTICAMENTE, MENCIONADOS NA ACTA Nº1 DE 13 DE MAIO DE 1974, ASSINADA PELO SECRETÁRIO DA ASSEMBLEIA DESTA ASSOCIAÇÃO ANARQUISTA, EM ALMADA: ADELINO, CARLOS GORDILHO, CORREIA PIRES, JOSÉ EDUARDO, JOSÉ DE BRITO, JORGE QUARESMA, PAIVA MOURA, PAULO LOLA, SEBASTIÃO ALMEIDA, TARQUINO E VIRIATO PEREIRA.

Fica a versão actualizada (Outubro de 2022) da cronologia. Ficamos à espera de mais contributos de outros companheiros.

Comité de Resistência: a experiência de quatro meses do pelotão antiautoritário na Ucrânia


A criação do Pelotão Antiautoritário, que integra as Forças de Defesa Territorial da Ucrânia na resistência à invasão russa, tem sido fortemente polémica no meio anarquista mundial desde o início desta guerra. Muitos não entendem este posicionamento dos anarquistas ucranianos (mas também de alguns russos e bielorussos que o integram), outros estão solidários com a resistência libertária e lembram que, apesar da sua especificidade, este não é caso único. Muitos anarquistas, por toda a Europa, lutaram contra  a invasão nazi dos seus países e lembram que inúmeros anarquistas, vencidos em Espanha, integraram a resistência em França e recordam que eram anarquistas, embora integrando forças aliadas, os que entraram em Paris no dia da libertação do jugo nazi.

Polémicas à parte, um membro do Pelotão Antiautoritário decidiu refletir sobre o trajeto desta unidade. Este texto, embora publicado pela primeira vez apenas em Setembro, foi escrito em Julho passado e analisa os primeiros quatro meses de existência do Pelotão. É uma análise séria, embora polémica, no momento em que a unidade estará já na linha da frente, depois de vários meses na retaguarda.

Comité de Resistência: a experiência de quatro meses do pelotão antiautoritário na Ucrânia

Um membro do pelotão antiautoritário na Ucrânia reflete criticamente sobre a atividade do pelotão, a sua relação com as forças armadas tradicionais e o significado político mais amplo da experiência.

(Este artigo foi escrito na primeira parte do mês de julho. Neste momento o pelotão antiautoritário progrediu. Foi transferido para uma nova unidade, onde voltará aos exercícios e a novos recrutamentos e, após a preparação necessária, foi prometido que será deslocado para zonas de combate. Este é o momento para algumas reflexões no fim da primeira fase da existência do pelotão – no quadro da defesa territorial do oblast de Kiev.)

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Entrevista: Anarquistas iranianos falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini


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INTRODUÇÃO

A 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini, de 22 anos, foi presa por uma “patrulha de orientação” iraniana (também conhecida como “polícia da moralidade”). Mahsa foi presa em Teerão por não respeitar as leis relacionadas com o vestuário. Três dias depois, a 16 de setembro, a polícia informou a família de Mahsa de que ela “tivera uma paragem cardíaca” e tinha entrado em coma dois dias antes de morrer.

Relatos de testemunhas oculares, incluindo o do seu próprio irmão, mostram de forma clara que ela foi brutalmente espancada durante a prisão. Exames médicos divulgados indicam que ela sofreu uma hemorragia cerebral e um acidente vascular cerebral  – lesões causadas por uma pancada que levaram à sua morte.

Manifestantes em Istambul, Turquia, seguram uma imagem de Mahsa Amini.

Desde que esta informação se tornou pública, protestos em massa eclodiram em todo o Irão para denunciar o assassinato de Mahsa pela polícia.

Para entender melhor essa situação em rápida mudança, realizamos uma breve entrevista com a Federação Anarquista ERA, uma organização com secções no Irão e no Afeganistão.

Esta entrevista foi realizada entre os dias 20/09/22 e 23/09/22.

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(Lisboa) Conversa com Antti Rautiainen: «Os anarquistas na Rússia e a Guerra na Ucrânia». Dia 2 de Julho, sábado, na Disgraça, às 18,30 horas.


Antti Rautiainen, nasceu e vive na Finlândia, onde é Professor associado (Tenure track) na Jyväskylä University School of Business and Economics (JSBE) e colaborador de várias publicações anarquistas. Utiliza o twitter com assiduidade para veicular as suas posições anti-autoritárias e de solidariedade com a luta dos povos do leste da Europa: https://twitter.com/arautiainen

O Portal Anarquista publicou há algumas semanas um artigo seu sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia e a posição dos anarquistas sobre o imperialismo, intitulado EQUÍVOCOS SOBRE O IMPERIALISMO E TRAUMAS COLETIVOS ANARQUISTAS: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/05/27/equivocos-sobre-o-imperialismo-e-traumas-coletivos-anarquistas/

Comunicado da CNT espanhola a convocar para a manifestação anti-NATO em Madrid este domingo: “As vossas guerras, a nossa morte, a nossa miséria”


E então aconteceu: de um dia para o outro, o militarismo da NATO e o neo-stalinismo capitalista de Putin fizeram-nos voltar ao pesadelo da Guerra Fria que ingenuamente acreditávamos ter sido ultrapassado.

Mísseis intercontinentais, Terceira Guerra Mundial, Guerra Nuclear, destruição da raça humana…, ouvimos novamente palavras terríveis para nosso espanto enquanto políticos irresponsáveis ​​aplaudiam a escalada da morte ao mesmo tempo que, sem dúvida, verificavam os sistemas de ventilação dos seus bunkers antinucleares.

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