Porque comemoramos o 25 de abril


Comemora-se este domingo o 47º aniversário do movimento insurreccional de cariz militar que pôs fim a 48 anos de fascismo.

Militares de carreira, convencidos de que a guerra colonial não tinha saída senão através de conversações e da independência das colónias, desencadearam o golpe militar que, desde logo, teve um imenso apoio popular e que desencadeou, nos dias e nos meses que se lhe seguiram, um verdadeiro movimento popular de desmantelamento das estruturas fascistas e de construção de espaços de afirmação autónomos de trabalhadores, moradores, estudantes, etc.

Foi o tempo de ocupação de fábricas, casas, terras, da autogestão colocada como forma possível e necessária de gestão das nossas vidas, sem estruturas intermediárias, fossem elas estatais ou meramente representativas. Durante vários meses o “sonho” esteve nas ruas e mobilizou milhões de portugueses por todo o país, transformando o que tinha sido um golpe militar num caudal de transformações sem paralelo na história recente em Portugal.

Para trás ficaram anos de repressão inaudita, com proibição de toda a actividade sindical e politica autónomas e a prisão – e em muitos casos, a morte – de quem se opunha ao regime repressor de Salazar e depois de Caetano.

O movimento anarquista e anarco-sindicalista, que nos primeiros anos do fascismo constituiu a primeira frente de batalha ao movimento autoritário imposto pelo golpe militar de 28 de maio de 1926, foi particularmente perseguido até à sua quase destruição, os seus militantes presos, deportados e mortos. A sua imprensa, as suas sedes e espaços sociais vandalizados, destruídos e finalmente ocupados pelo regime, que deles se apropriou.

Mas a resistência manteve-se sempre, até ao fim do regime fascista, pela voz e acção dos seus militantes mais determinados como foi o caso de Emidio Santana, António Machado, Moisés Silva Ramos, Francisco Quintal, Acácio Tomás Aquino e muitos outros. Outros ainda ficaram esquecidos pela história, embora os seus gestos de recusa e de luta tenham também sido determinantes para o fim do regime fascista.

Nesta madrugada do 47º aniversário do 25 de Abril de 1974 convém sobretudo recordar os nossos mortos, os mortos do campo libertário que, através da sua acção – quase sempre directa, organizada, mas sem mediadores – foram eles também peças essenciais na corrosão e destruição do regime autoritário e fascista que governou Portugal durante 48 anos.

Entre estes estão os que deram a vida no Tarrafal, vítimas das maiores violências por parte do Estado e da sua polícia.

Foi uma mão cheia de homens para quem a luta pela liberdade, pela solidariedade e pela autogestão das suas vidas sempre foi o principal lema e estandarte.

Ontem como hoje, também por eles, mantém-se acesa a luta por um outro mundo, um mundo novo, que vive intensamente nos nossos corações, como tão bem sintetizou Buenaventura Durruti.

Por tudo isso, também, enquanto anarquistas, comemoramos o 25 de abril de 1974, embora não nos identificando com o regime que as forças do dinheiro e do poder foram construíndo nos anos que se lhe seguiram e que torna hoje, como sempre, urgente a transformação social no sentido de uma sociedade libertária, autogestionária e de acção directa.

Por isso, também por isso, aqui estamos e dizemos presente!

Actualização sobre Gabriel Pombo Da Silva


Desde o último comunicado sobre o nosso companheiro (difundido publicamente na Internet em Julho do ano passado), não houve nenhuma mudança substancial na sua situação, mas ocorreram alguma coisas interessantes para o caso de alguém querer aprofundar o seu conhecimento sobre a «engenharia jurídica» e os seus labirintos.

Os tempos fisiológicos da hierarquia dos tribunais continuam a ser muito lentos, mas se estes tempos são a única arma de que o poder judicial dispõe, ainda se tornam mais lentos!

Não falta muito para que Gabriel volte a saborear a liberdade, e quem pretende encerrá-lo vivo sabe-o muito bem… sabe muito bem que não deveria sequer estar preso… sabe muito bem que até lhe deveriam devolver anos de vida!

Todas as portas estratégicas necessárias para tirá-lo da jaula estão abertas e aos poucos vai-se vendo algo… algo se vai movendo. Aplicam pequenas doses de «direito» como se fossem gotas homeopáticas… todos os perdões que lhe deveriam reconhecer parecem um «favor» ou são fruto de um esforço sobre-humano. Mas desde quando xs anarquistas acreditam no «Estado de Direito»?

Dado que o Tribunal dos Direitos Europeus do Luxemburgo (ao qual se está a recorrer para obter a anulação da OEDE – Ordem Europeia de Detenção e Entrega –, em virtude da qual voltaram a deter Gabriel) demora muito tempo a tomar decisões, o trabalho da defesa está actualmente centrado na extinção da pena (já extinta porque, na verdade, já foi cumprida) por cúmulo jurídico de penas.

A juíza Alcazár Navarro do Tribunal n.º 2 de Girona pretende que o nosso companheiro cumpra outros 16 anos de prisão, mas «esqueceu-se» de que a este número devem ser extraídos todos os perdões que ao longo de três décadas Gabriel acumulou e a que há muito tempo tem «direito». Mas a lei é tão perversa que, mesmo estando bem patentes, é preciso que um juiz as reconheça, caso contrário de nada valem (este «pormenor» na boca dxs advogadxs soa assim: «uma coisa é ter razão, outra é que ta dêem!»).

Lentamente, parte da razão está a ser reconhecida, e até agora sobram-lhe quase 6 anos (de perdões calculados só ao longo de 8 anos). Nesta última folha de cálculo aparece «Novembro de 2030» como data de «fim de pena»… é alguma coisa, porém não podemos ficar entusiasmadxs nem sentir-nos satisfeitxs com este resultado mínimo. Falta muitíssima matemática. Se lhe aplicaram realmente todos os perdões, teriam de libertá-lo já. Uma pergunta legítima seria: «porque é que só lhe estão a fazer todos estes cúmulos agora e porque é que até ao presente momento nenhum juiz os reconheceu?»… obviamente, é uma pergunta retórica, por vezes a matemática também é política!

Entretanto, xs advogadxs apresentaram, há poucas semanas, um recurso no Tribunal Supremo para reivindicar o direito que Gabriel tem a que a pena seja revista para 20 anos (e não para 30 anos como foi sentenciado em 1990 pelo Tribunal de Ourense com base no Código Penal de 1973 então em vigor), dado que em 1995 entrou em vigor outro Código Penal, que possibilitaria esse mesma revisão (lembramos que qualquer pessoa teria o «direito» de que lhe fosse aplicado o código mais favorável com efeito retroactivo). Ao longo destes meses, o referido Tribunal de Ourense negou três vezes este «direito» e o tempo de espera do Tribunal Supremo é de cerca de 6 a 8 meses (fisiológicos e sem vingança). Mais uma vez, é legítimo questionar: porque é que depois de tantos anos temos de tentar resolver questões tão básicas como estas? A resposta é simples e tem que ver com a «natureza» e a «cultura humana»: a natureza digna de um indivíduo anarquista contra a cultura do poder de uma maquinaria jurídica intrinsecamente perversa.

Na verdade, nenhum juiz nos últimos 25 anos declarou claramente como previsto que Código Penal estão a aplicar a Gabriel, e a juíza Alcazár Navarro (que seria quem o deveria fazer agora) continua a não responder aos diversos pedidos de esclarecimento. Nesse sentido, o tempo nas suas mãos transforma-se numa arma muito poderosa.

De qualquer forma, apesar da espera desesperante, a situação não é de desespero: se falarmos de 20 anos, Gabriel seria imediatamente libertado, se falarmos de 30, teriam de lhe reconhecer todos os perdões para depois «se darem conta» de que a pena já tinha sido cumprida…. é «só» uma questão de tempo.

No caso de se confirmarem os 30 anos, Gabriel teria «direito» a sair (já) de precária e a que lhe fosse aplicado o terceiro grau para depois sair em liberdade condicional. Ficaremos a saber isto em breve… o «conselho técnico» está mais especializado em escrever relatórios e em preencher formulários, onde, no caso de um recluso nunca se mostrar submisso, o seu passado continua a ser a sua pena.

Gabriel encontra-se muito bem de saúde e de ânimo, continua firme e coerente na sua autodisciplina feita de desporto, livros e cartas. Envia um forte abraço a todxs xs solidárixs e lutadorxs do mundo!

Liberdade para o nosso companheiro Gabriel Pombo!

Viva a Anarquia!

(07/04/2021)

Os 100 anos da morte de Kropotkin no número 291 de A Batalha


Acaba de sair A Batalha #291, com 48 páginas!

Os assinantes vão começar a receber na próxima semana. 

Amanhã, A Batalha começa já a circular por pontos de venda em todo o país.
A BATALHA #291 – dez-abr 2021
Capa de Mattias Elftorp

 A Abrir: Rateia-me, irmão.
[Russo + Dois Vês]
 Duas Cartas da Rússia: Sobre os protestos de 23 de Janeiro
 Não é possível circular entre conselhos
[Gonçalo Duarte + Ana Baliza]
 A eutanásia num país de suicidas
[M. Ricardo de Sousa + André Coelho]
 Ihor: um nome
[António da Cruz + Mattias Elftorp]
 XÁRÁPANPLEIYÓRGHITÁR
[MM]
 Vanguardismo e Rostidade
[Oriano + Marcos Farrajota]
 Não podes descolonizar o voto
[Indigenous Action]
 A maior greve da história: a revolta dos agricultores na Índia
[Oriano + Matilde Feitor]
 Motins, extrema-direita e uma previsível história de amor
[P.M. + André Pereira]
 Sobre o impacto de género do confinamento covid-19
[Hollie Mollie]
 Anarquismo e feminismo: em direcção a um casamento feliz?
[Chiara Bottici]
 Grupo anarca-feminista de Amesterdão responde à inaguração de Biden
[Grupo anarca-feminista de Amesterdão + Alexandra Saldanha]
 Sobre a criação da União Libertária
[Colectivo da União Libertária]
 Mãos das massas: construir o anarquismo revolucionário em Portugal
[Colectivo Pró-Organização Anarquista em Portugal]
 Entrevista a Ricard de Vargas Golarons a propósito do livro Salvador Puig Antich e a Luta Armada Anticapitalista na Catalunha nos Últimos Anos do Franquismo
[Pedro Morais e Fernando Silva]
 Piotr Kropotkin: recordações e críticas de um velho amigo
[Errico Malatesta]
 Na encruzilhada: Kropotkin etc. e tal
[José Tavares]
 Joguem ferozmente! As nossas vidas estão em risco! A prática anarquista como jogo de subversão
[Wolfi Landstreicher]
 Hitler do Terceiro Mundo
[Manuel Figueiredo]
 Dois poemas de Paul Goodman
[trad. André Tavares Marçal]
 Retratos à la minuta: Oskar Kokoschka, Auto-retrato
[Emanuel Cameira]
 O meu próximo livro de bd trata de surtos
[Marcos Farrajota]
 Se queremos salvar o mundo, temos de deixar de trabalhar
[David Graeber + Bruno Borges]
 Epitáfio (atrasado) a Aragorn!
[Pedro Morais]
 Editar
[Aragorn!]
 Na volta do correio: Condenado a um poço de silêncio. Escravatura no séc. XXI
[Francisco Coutinho]
 Na volta do correio: Paradigma civilizacional e colonialismo
[José Augusto]
 Há um século: a criação do PCP
[João Freire]
 À lupa
[recensões a A Ideia #87-88-89; L’Éclaireur; La Espiral; La Ville; Muses Land; Not-Human, Not-Fly; O Silêncio; Pão e Dignidade #4; Pão e Dignidade #5; Paying the Land]
 Milli Violini
[Walt Thisney]
 Centro Anarquista Internacional de Artes Modestas
[Marcos Farrajota]

Condições de assinatura de A Batalha:
Portugal: 6 nºs: 9,00€ / 12 nºs: 17,00€
Europa: 6 nºs: 16,00€ / 12 nºs: 31,00€
Extra-Europa: 6 nºs: 17,00€ / 12 nºs: 33,00€
O pagamento poderá ser efectuado para o NIB do CEL:
0033 0000 0001 0595 5845 9.
email: jornalabatalha@gmail.com

(REDE_LIBERTÁRIA) A crise reforçou as tendências estatistas da direita e da esquerda


M. Ricardo Sousa

Há cerca de um ano, no começo da pandemia, especulei nesta lista sobre os vários cenários que estavam a definir-se face a uma crise sanitária, económica e social sem precedentes para as gerações nascidas depois da II Guerra Mundial.

Escrevi então:

“Apesar de ainda estarmos na fase inicial desta pandemia, trágica e imprevista, predominam as incertezas e dúvidas sobre as suas consequências sanitárias, económicas e sociais. Mas atrevo-me a apresentar dois, ou talvez três, cenários, possíveis: A pandemia vai parar a economia de grande parte dos países por mais de um trimestre – já se fala um ano -, provocando, no melhor cenário, dezenas de milhares de mortos, encerrando milhares de empresas, gerando milhões de desempregados e introduzindo por muito tempo medo entre os consumidores, e capitalistas, o que vai travar investimentos, consumo, viagens etc. Uma crise só com paralelo nos anos 20 do século passado, com a Grande Depressão.

1- As instituições multilaterais, BM, FMI, BCE, Reserva Federal Americana e governos do G7, acertam um programa mundial, tipo New Deal, Plano Marshall em grande escala, para salvar e relançar a economia capitalista, consolidando-se os mecanismos de governo global, mas assente ainda em governos regionais e nacionais fortalecidos e com maior poder sobre as sociedades. Neste caso as pessoas, atemorizadas, vão tornar-se ainda mais dependentes do Estado, conformistas, criando-se assim condições para um sistema mais regulado, mais uniformizado e estabilizado, mantendo, no entanto, um referencial formal de democracia representativa, mas com mecanismos de controle tecnológico que até hoje nunca existiram (supercomputação, grandes bases de dados, GPS, reconhecimento biométrico, meios de desinformação de massas etc. etc.). Se quiserem podem usar o conceito do João Bernardo, de democracia totalitária (…)”

Ao que podemos constatar agora este cenário descrito é o dominante. Tudo leva a crer que o “neo-liberalismo”, que vinha numa ofensiva vitoriosa desde os anos 80, não pode oferecer soluções ao Sistema neste momento. Saindo assim reforçadas as tendências estatistas da direita e da esquerda. Não só em sectores básicos da saúde, educação e segurança social, mas na economia em geral onde o Estado está a intervir por todo o lado para salvar o capitalismo de uma crise sem precedentes.

Por essa razão a crise social e económica que previa não se concretizou integralmente pois foi adiada com todas as medidas económicas adoptadas para sustentar empresas e empregos. Falta saber se o prolongamento desta crise, que ainda está aí para durar, vai continuar a ser amortecida pela sistemática injecção de recursos por parte dos Estados de forma a relançar a economia em força logo que a crise sanitária esteja controlada. Se assim for a crise económica e os conflitos sociais previsíveis poderão não se agravar de forma perigosa para o Sistema, apesar da destruição de muitas pequenas empresas e de um aumento substancial do desemprego.

Também é certo que a estratégia global vai ser de acelerar as transformações da economia numa direcção da sua digitalização e da chamada transição energética que pode representar um novo fôlego para o capitalismo ultrapassando de vez o modelo da velha revolução industrial.

A meu ver uma coisa é certa: a esperança de um agravamento dos conflitos sociais e da clivagem profunda entre a sociedade e o Estado não se deu, a cultura dominante de uma dependência das pessoas face ao Estado só se agravou, pelo que continuamos num grave impasse em relação a uma transformação profunda da sociedade capitalista. Como dizia Marcuse “a revolução necessária é a mais improvável”.

O combate dos anarquistas, a minoria das minorias nesta sociedade de massas e de rebanhos, é, mais que nunca, o combate pela difusão de uma cultura libertária, entendida num sentido amplo, na nossa sociedade, pois sem essa cultura a sociedade fica indefesa face ao capitalismo e ao Estado. E não há transformação social radical, ou revolução social possível, sem que a absoluta maioria das pessoas, a começar pelas classes e grupos subalternos destituídos de poder e riqueza, a desejem.

Saúde e liberdade

(Outros artigos em Rede Libertária sobre a Covid-19)

Num ano os portugueses passaram seis meses em estado de emergência. De que serviu?


Quando no dia 16 de Março se completar este 12º estado de emergência imposto por Marcelo e pelo Governo, os portugueses sofreram na pele 6 meses de confinamento rigoroso em nome de uma situação sanitária complexa que nas mãos dos politicos rapidamente se transformou numa “questão securitária” em que foram proibidos actos tão “perigosos” como a abertura do pequeno comércio de proximidade, o usufruto das centenas de quilómetros de praias ou de passeios à beira-mar de que o país dispõe, as mais simples deslocações e a arbitrariedade de um descontrolo policial, qual tropa de choque, usada para criar o medo entre os cidadãos e a trancá-los em casa.

Tratando-se de uma questão de saúde como tal devia ser tratada pelo Governo- e não deixando o SNS ir à ruptura, por falta de precisão e planeamento, como aconteceu a partir de Novembro até inícios de Fevereiro. Ao invés, as medidas que têm sido tomadas situam-se ao nível das proibições, sem qualquer evidência da sua necessidade.

É verdade que o confinamento absoluto impediria a circulação do vírus, mas essa é uma medida impossível. O governo coloca parte dos funcionários do Estado em teletrabalho, fecha as escolas e proíbe o pequeno comércio de estar aberto. No entanto, grande parte da população continua a ter que trabalhar e a deslocar-se diariamente e, apesar das dificuldades de circulação e dos transportes públicos apinhados, todos os dias estão presentes nas mais diversas actividades, da construção civil à grande distribuição, da agricultura à saúde.

Dados revelados recentemente indicam que a circulação actual , durante a semana, (e que tem vindo a aumentar dia após dia) representa já 72% por cento da actividade habitual – ou seja, apenas 28 por cento das pessoas permanecem confinadas e, entre estas as que estão ligadas ao sistema escolar, que em termos númericos são bastante signficativas.

E, apesar do presidente e do Governo continuarem a bater na tecla de que só haverá “abertura” depois da Páscoa, a verdade é que muitas das lojas já estão a funcionar e muitas das actividades, antes interditas, já estão a acontecer, ainda que de forma clandestina ou contornando a lei – cabeleireiros vão a casa, as lojas de proximidade estão abertas para “arrumações”, os cafés vendem bebidas de forma oculta, etc.

O país que está confinado – no momento em que a crise aperta e os apoios prometidos pelo Estado nunca mais chegam – é o país que tem alguns recursos, seja devido às reformas, ao teletrabalho (sobretudo no sector público) ou a rendas que permanecem intocáveis. Todo o resto da população vive a agrura da falta de trabalho (só no Algarve o número de inscritos nos centros de emprego subiu mais de 60 por cento no último trimestre).

Por isso, cada vez é mais difícil explicar à população porque é que todos os movimentos dos cidadãos estão sujeitos a limitações e proibições e o comércio e a restauração encerrados, quando os números de contágios e de internamentos estão a descer dia após dia e quando, por exemplo, num destes dias, um dos maiores concelhos do Algarve, com mais de 50 mil habitantes, registou apenas um contágio devido a Covid e o próprio hospital de retaguarda há muito que foi desactivado. Toda a vida parada por um só e único contágio?

A birra de Marcelo e de Costa em não abrir as escolas (creches, infantários e primeiro ciclo) já esta quinzena e remeter tudo para depois da Páscoa é, por isso, incompreensível – ou só se compreende se se mantiver a mistificação de que o surto de Janeiro teve apenas e só a ver com as “facilidades” do Natal.

A realidade é que Portugal, com seis meses de confinamentos e proibições, escolas fechadas e polícia nas ruas, multando a torto a e a direito e usando de todas as prepotências face à liberdade de circulação e movimentação, que deveria ser um dos direitos mais básicos, constantemente violada pelos estados de emergência, tem hoje mais mortos do que a Suécia (com menos cerca de 3.400 mortos que Portugal e sensivelmente a mesma população), onde os níveis de ensino para os mais jovens nunca fecharam, os parques de lazer e os restaurantes estiveram sempre abertos, nunca houve confinamento e o uso da máscara, na maior parte das situações, nunca foi obrigatório.

É caso para nos questionarmos: de que vale este confinamento e este estado de emergência que nos têm tornado a vida insuportável neste último ano e cujas consequências, na sua totalidade, ainda não somos hoje capazes de prever? A nosso ver, muito pouco. Mas sabemos que governar em estado de excepção sempre foi, para quem governa, um “obscuro” objecto de desejo.

(Pablo Hasel) O estado mostra o seu verdadeiro rosto: a repressão


Foto da manifestação em Coimbra em solidariedade com Pablo Hasel

Há dias foi preso no Estado Espanhol o rapper Pablo Hasel. A maioria das organizações e colectivos anarquistas e anarco-sindicalistas prestaram-lhe solidariedade, defendendo a liberdade de expressão e de opinião. Muitos anarquistas saíram para a rua em protestos por toda a Península. No entanto, sabemos bem o que nos distancia do rapper. Conhecemos as letras de Hasel, defensoras do estalinismo e duma visão machista da sociedade, que estão nos antípodas da nossa visão de uma sociedade igualitária. Contudo, somos contra toda a violência de estado e contra as leis mordaça que impedem a liberdade de expressão. Por isso, e neste sentido, traduzimos e partilhamos um excerto do comunicado da Cruz Negra Anarquista que sublinha o que nos motiva e solidariza com Pablo Hasel e o que dele nos distancia.

“O rapper Pablo Hasel não nos merece nenhum respeito. Estalinista declarado, misógino empedernido e machista, defende valores que estão nos antípodas do anarquismo. Algumas das suas letras e comentários também expressam o facto da rejeição ser recíproca. A sua conhecida rejeição do anarquismo e do movimento okupa é bem conhecida, enquanto enaltece o capitalismo de estado e o comunismo autoritário.

No entanto, a sua detenção e prisão devido a uma série de denúncias pelas suas letras contra a monarquia, no mesmo dia em que a ex-presidente da comunidade (de Madrid) Cristina Cifuentes (do PP) saiu impune após julgamento por falsificação de títulos universitários, deixou muito claro que o poder judicial em Espanha está coxo, sempre submisso aos poderosos e arrogantes e implacável com os de baixo.

Temos a certeza de que se triunfasse a opção política defendida por Hasel, os anarquistas e todos aqueles que não pensam como ele, estaríamos na Sibéria ou na prisão, se não desaparecessemos, como aconteceu na altura com o nosso companheiro Camilo Berneri (anarquista italiano, morto em Barcelona em Maio de 1937, pelas tropas de choque do Partido Comunista). Contudo, a prisão do rapper estalinista levou ao aparecimento de alguns surtos de revolta em muitas partes da península que devemos, sem hesitação, apoiar. Porque a luta não é a favor do rapper, mas contra o Estado e as forças repressivas que impedem uma sociedade harmoniosa e que favorecem os interesses de uma minoria.

(…) Por isso, embora os motins surjam devido à  prisão de Hasel, nós, anarquistas, acreditamos que este é um momento oportuno para sairmos para as ruas e apoiar os motins, por um lado, contra o terrorismo que o estado exerce a partir do seu monopólio da violência e, por outro, a favor da liberdade tanto do rapper como de todos os presos, incluindo o nosso colega Gabriel Pombo da Silva, os jovens bascos do Alsasu, cruel e impiedosamente condenados e acusados de terrorismo por um discussão de bar, a Amadeu Casellas, a José Angel Martins ou a Lisa Dorfer e a tantos outros sequestrados nas prisões de todo o estado. Por todos eles estamos na rua.

Como disse Malatesta, “a base fundamental do método anarquista é a liberdade e, portanto, lutamos e lutaremos contra tudo que viole a liberdade (liberdade igual para todos), seja qual for o regime dominante: monarquia, república ou outros”.

Por isso acreditamos que é hora de lutar e estimular a revolta social. Já o fizemos quando ela explodiu na Catalunha e faremo-lo agora. Na altura, não defendíamos o nacionalismo estatista catalão, nem agora o estalinismo e o machismo que Hasel representa. Mas estaremos em todas as insurreições, grandes e pequenas, que contribuam para criar um clima favorável à revolução social, à justiça e à igualdade.

Guerra às instituições! Abaixo os muros das prisões!”

Aqui, o comunicado da Cruz Negra Anarquista, na íntegra:

(através de P. M.)

Kropotkin, 100 anos depois


JOSÉ ALEGRE GARCÉS*

A 8 de fevereiro de 1921 morria em Dmítrov, Pyotr Alekséyevich Kropotkin,  conhecido como o “Príncipe” anarquista.

De família nobre, tornou-se um dos mais influentes teóricos do anarquismo do século XX, considerando-o o pai do anarcocomunismo. Embora a sua faceta como pensador anarquista seja a mais conhecida, os seus estudos e pesquisas no campo científico e econômico tornaram Kropotkin num pensador muito versátil. Na minha opinião, as suas obras mais marcantes para são: “Campos, Fábricas e Oficinas: Indústria combinada com a agricultura e trabalho manual com o intelectual” e a sua obra-prima; “Apoio mútuo: um fator de evolução”. Ambos os textos foram o resultado de grandes estudos e pesquisas de campo. Pode parecer que são obras antigas, mas apesar dos anos, estão mais na moda do que nunca.

Numa sociedade cada vez mais individualizada, desenraizada da natureza, onde o despovoamento das zonas rurais e a desumanização das cidades é preocupante e em que as relações laborais onde os nossos direitos estão cada vez mais reduzidos, com empresas multinacionais que não se instalam no território, mas que têm a sua sede a milhares de quilômetros do local de produção; em suma, numa sociedade onde prevalece um sistema que coloca o capital à frente das pessoas e do meio ambiente, os estudos de Kropotkin mostram-nos o caminho que podemos seguir para reverter esta situação e transformar o sistema num sentido mais humano e ecológico.

Não é preciso ser-se anarquista para ler Kropotkin, ou mesmo para pôr em prática as suas ideias. Como ele próprio observou, o apoio mútuo é uma característica inata de muitos seres vivos, inclusive do ser humano. O apoio mútuo é um fator relevante para muitas espécies sobreviverem a longas jornadas, ou simplesmente para se alimentarem; um exemplo claro disso temo-lo nas aves migratórias ou nas matilhas de lobos quando caçam.

E na espécie humana? O ser humano é o exemplo mais claro de um ser social e que precisa  de apoio mútuo. Não é necessário voltar às tribos antigas nem às corporações medievais, como Kropotkin faz, para percebermos que os humanos precisam de apoio para seguir em frente. A situação de pandemia que vivemos ou as alterações climáticas demonstram-no-lo dia após dia. As redes de apoio mútuo que foram criadas nos bairros durante os meses de confinamento para ajudar os mais necessitados, o trabalho dos cidadãos limpando a neve nas suas povoações quando a administração não intervém, ajudando na extinção de incêndios florestais e um longo etc. de outras situações mostram que o apoio mútuo é uma necessidade.

Por outro lado, em “Campos, Fábricas e Oficinas” encontramos a chave para desenvolver uma sociedade que volte às suas raízes, que possa repovoar o que chamaram de “Espanha (Europa) vazia” e até humanizar as cidades. A descentralização da indústria, a combinação do trabalho manual e intelectual são fundamentais. Não devemos esperar que uma empresa venha se instalar na nossa aldeia ou na nossa pequena cidade, pois, como já sabemos, a economia de escala não permite rentabilidade financeira nesses locais, pelo que não se instalarão ali por iniciativa própria. A iniciativa deve partir dos próprios cidadãos, organizando-se de forma cooperativa (descarto aqui as atuais sociedades cooperativas que fazem parte do sistema) e articulada entre vários setores. Alguns podem dizer que é uma utopia, mas já existem exemplos de trabalho de jovens empreendedores com uma mentalidade que introduz uma visão diferente nos seus negócios e em Aragão temos vários: Empenta Artieda, Ecomonegros, Ecotambo, Ebronautas, Sabores Próximo, etc.

O crescimento da Economia Social, da Economia Ecológica, da coordenação dos cidadãos nas suas regiões, nos seus bairros; soberania alimentar … são expressões que corroboram os estudos realizados pela Kropotkin há mais de 100 anos e que estão mais atuais do que nunca.

Com tudo isso dito, atrevo-me a dizer que Kropotkin não foi apenas um excelente cientista e um teórico anarquista muito popular, mas também um visionário com ideias atemporais.

* aqui: https://arainfo.org/kropotkin-100-anos-despues/