refratários: um jornal anarco-individualista publicado no Porto (1921-1922)


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Refratários  nº2

O jornal Refratários foi uma publicação quinzenal de tendência anarquista-individualista, surgida no porto em Novembro de 1921. Teve como colaboradores, entre outros, os portugueses José Franco (1), Cristiano de Carvalho, Luciano Silva, ou o francês Henri Zisly. Os conteúdos desta publicação incluíam a exposição de temas naturistas e neomalthusianos, bem como a crítica ao messianismo e ao dogma presente nas correntes mais comunistas do anarquismo. Foi pioneira em Portugal na divulgação no meio anarquista de filósofos como Max Stirner ou Friedrich Nietzsche.

(1) militante anarquista algarvio, activo desde 1904, participou em várias experiências organizativas e propagandísticas dos anarquistas após a República. Em 1918 publica em Setúbal “O Indivíduo Livre” e em 1919, em Lisboa, “A Anarquia”. Exercia a profissão de modelista de calçado, tendo sido preso em Setembro de 1920. Em 1921 funda os “Refratários” no Porto. Faleceu no dia 1 de Fevereiro de 1951.

aqui: https://oabutre.noblogs.org/refractarios-quinzenario-individualista-ecletico-porto-1921/

 

Jornal ‘A Questão Social’, de Gonçalves Correia


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A questão social : há mais luz nas 24 letras do alfabeto do que em todas as constelações do firmamento / red. Gonçalves Corrêa ; propr. António Gonçalves Corrêa. – A. 1, nº 1 (2 jan. 1916) – a. 1, nº 22 (28 jun. 1916). – Cuba : J. F. Borralho Lucas, 1916. – 38 cm (segundo o registo na BNP)

Nesta lista faltam os exemplares dos nºs. 1, 20, 21 e 22

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Sobre Gonçalves Correia: https://periodicos.ufsc.br/index.php/emdebate/article/view/1980-3532.2013n9p90

Saiu A Batalha Março/Junho (nº duplo 288-289)


 

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Acaba de sair A Batalha #288-289!

Este número duplo tem 48 páginas e, por isso, custa excepcionalmente 1.5€. Não se assustem, voltamos ao valor habitual depois do Verão.

Os assinantes vão começar a receber o jornal no início da próxima semana. Entretanto, A Batalha está já a circular por alguns dos pontos de venda do costume.

 

A BATALHA #288-289 – mar-jun 2020

  • Capa de Michael Fikaris
  • Luís Garcia e Silva (1933-2020) [Um sustentáculo d’A Batalha]
    [João Freire & António Cândido Franco]
  • Viver na normalidade
    [com ilustrações de Joana Pires, Gonçalo Duarte, João Carola, André Pereira, Michael Fikaris e Dois Vês]
  • Luís Amaro (1923-2018)
    [António Cândido Franco + retrato de Luis Manuel Gaspar]
  • Da Pandemia e do Estado
    [M. Ricardo de Sousa]
  • Sobreviver num tempo morto
    [Nuno Martins]
  • Manifesto anormal
    [Max / trad. Pedro Morais]
  • Diário Revolucionário de uma Anarquista
    [Kathy Acker / trad. António Albata]
  • A Paralaxe
    [Paul Goodman / trad. André Tavares Marçal]
  • Mixing & Jana [episódio 70]
  • Seara
    [Gonçalo Duarte]
  • Para o Inferno ou para a Utopia: a revolta de Minneapolis
    [Christopher Scott Thompson]
  • Entra na zona: um relato da Zona Autónoma de Capitol Hill, em Seattle
  • Que fazer com este Estado?
    [M. Ricardo de Sousa]
  • No Labirinto da Prisão de Gabriel Pombo da Silva
    [P. M.]
  • Na Puglia, a utopia chama-se Urupia
    [Mário Rui Pinto]
  • Perceber a escolha de Isabel Camarinha como novo rosto da CGTP
    [K. Molusco]
  • Anarco-indigenismo: O Anarquismo do Futuro?
    [Mário Rui Pinto]
  • Los Angeles, Califórnia, EUA (1992)
    [William T. Vollmann / trad. Manuel João Neto]
  • Retratos à la minuta. Juan Genovés, Silencio, Silencio: Despues, ahora, ahora, antes
    [Emanuel Cameira]
  • Do heróico absurdo à morte condensada: breves notas em torno de Yevgeny Yufit e Alan Clarke
    [Manuel Figueiredo]
  • À lupa
    [recensões a A Reconquista de Olivenza, Encantados e Arruinados ante os Restos do Banquete, O Fagote de Shatner e Outros Contos, Parícutin, The Princess of the Never-Ending Castle]
  • Tudo o que leres aqui é falso.
    [Walt Thisney]
  • Centro Anarquista Português de Artes Modestas
    [Marcos Farrajota]
A Batalha está à venda na Tortuga, Letra Livre, A Banca 31, Barata, Frenesi Livros, Distopia, Leituria, Linha de Sombra, Papelaria Sampaio, Papelaria da Estação do Rossio, RDA69, Sirigaita, Snob, Tigre de Papel, Zaratan – Arte Contemporânea, ZDB, nos quiosques junto ao Largo do Rato, na Rua Alexandre Herculano, na Calçada do Combro, na Rua Camilo Castelo Branco e no Largo do Chiado (Lisboa), no Centro de Cultura Libertária (Almada), no Gato Vadio, na Utopia e na UNICEPE (Porto), na Uni Verso (Setúbal), na Fonte de Letras (Évora), na Centésima Página (Braga), na Traga-Mundos (Vila Real) e no quiosque da Estação de Camionagem (Bragança).

As condições de assinatura de A Batalha são as seguintes: Portugal: 6 nºs: 9,00€ / 12 nºs: 17,00€
Europa: 6 nºs: 16,00€ / 12 nºs: 31,00€
Extra-Europa: 6 nºs: 17,00€ / 12 nºs: 33,00€

O pagamento poderá ser efectuado para o NIB do CEL:
0033 0000 0001 0595 5845 9.

Rojava – Comunicado e apelo sobre os recentes ataques do estado fascista turco


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Este comunicado é um seguimento do apelo anterior. O comunicado baseia-se em análises políticas e avaliações preparadas e publicadas pela rede RiseUp4Rojava (R4R), enfatizando a importância da conexão entre as montanhas livres do Curdistão e Rojava, tal como a importância de AGIR AGORA, de defender a revolução e de criar duas, três, várias Rojavas independentemente de onde estejamos!

“Enquanto a guerra e os ataques a Rojava e no Norte da Síria pela Turquia e os seus aliados jihadistas com o apoio das forças imperialistas mundiais continuarem diariamente, e enquanto a ameaça de uma outra ofensiva significativa aumenta, a guerra no norte e no sul do Curdistão continua a progredir.
A 15 de junho, na noite de domingo para segunda feira, o estado fascista turco anunciou a operação “Garra Águia” e conduziu bombardeamentos massivos em Qendîl o coração e o cérebro do movimento pela liberdade do Curdistão nas montanhas curdas –, no campo de refugiados autogerido Mexmûr e em Şengal, que é predominantemente populado por pessoas Yazidi.”

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aqui

Actualizações sobre o nosso companheiro anarquista Gabriel Pombo Da Silva


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Na passada quinta-feira, dia 11 de Junho, a Audiência Provincial, tribunal que está na base da pirâmide judicial no Estado espanhol, demonstrou o seu poder inquisitorial, rejeitando um pedido de anulação da OEDE (Ordem Europeia de Detenção e Entrega) que enviou o nosso companheiro mais uma vez para as masmorras do Estado, depois de três anos e meio de liberdade.

Depois de um ano e meio de clandestinidade, Gabriel foi detido no passado dia 25 de Janeiro em território português com base na supramencionada OEDE emitida pelo Tribunal n.º 2 de Girona (mais concretamente, pela juíza Mercedes Alcazár Navarro), para que cumprisse mais 16 anos de prisão calculados como pena remanescente (em resposta à queixa de prevaricação contra a juíza por ter escondido a ordem de libertação imediata de Gabriel em Junho de 2016, o que atrasou a sua libertação, essa juíza pôs em prática a sua própria vingança!).

Depois de três meses e meio de prisão preventiva (meses em que foi clara a submissão por parte das autoridades portuguesas às pressões do Tribunal n.º 2 de Girona e a descarada falta de aplicação das normas europeias que teriam permitido a libertação do nosso companheiro), no dia 12 de Maio, Gabriel foi entregue às autoridades espanholas e encontra-se actualmente na prisão de Badajoz (Estremadura, Espanha).

O pedido de anulação da OEDE foi legitimado pela ilegalidade da mesma, emitida em plena violação do «princípio de especialidade»: um dos princípios básicos do direito comunitário que estabelece a proibição de fazer cumprir uma sentença anterior àquela pela qual alguém está a ser extraditado (em virtude deste princípio, Gabriel foi posto em liberdade em 2016, não tendo que cumprir nenhuma sentença anterior). Politicamente significativo é o facto de a Audiência Provincial, que há dias deu razão à juíza Navarro, ser a mesma que há quatro anos deu razão ao nosso companheiro, confirmando a sua libertação (?!?!?).

Entretanto, a Gabriel foi atribuído o regime FIES, mais concretamente FIES 5, criado para presxs com «características especiais» (que têm que ver, para dar alguns exemplos, com delinquência internacional, violência de género ou com carácter racista ou xenófobo, crimes muito graves que causaram alarme social, terrorismo islâmico, fanatismo radical afim a uma ideologia terrorista… ?!?!?). Dentro do regime FIES, foi-lhe aplicado o segundo grau (já poderia obter benefícios penitenciários, desfrutar de saídas precárias e inclusive de liberdade condicional), com intervenção em todas as suas comunicações (cartas abertas, lidas e visitas gravadas).

Desde que está na prisão de Badajoz, com excepção de cinco postais que lhe entregaram poucos dias depois de ter chegado, não entregaram mais nenhum tipo de correspondência ao nosso companheiro, pese embora as muitas cartas e vários livros que lhe foram enviados… Nada que não seja normal dentro das instituições penitenciárias! Tudo isso representa uma contradição com o intuito de o provocar… a mensagem é: «já não és o inimigo público número um, mas és ainda bastante perigoso, sobretudo ideologicamente… se te portares bem, der-te-emos algumas oportunidades.»

Agora que foi «classificado» e o supracitado tribunal emitiu a sua sentença, sabemos que findaram os recursos legais para que Gabriel volte a saborear a liberdade em breve; dentro de pouco tempo será transferido para outra prisão. O advogado tomará todas as providências necessárias até ganhar esta longa batalha.

Gabriel encontra-se bem e está forte, como sempre… envia um grande abraço a todos os indivíduos afins e solidários.

A solidariedade é uma arma… usemo-la… de maneira séria e inteligente!

Liberdade para Gabriel! Não está só!

Todxs livres!

Viva a Anarquia!   

(recebido por email)

Para escrever a Gabriel:

Gabriel Pombo Da Silva

Centro Penitenciario Badajoz

Carretera de Olivenza, Km 7.3

06011 Badajoz

España

(Wallace de Moraes) A NECROFILÍA COLONIALISTA OUTROCIDA NO BRASIL


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Foto ASSOCIATED PRESS

A NECROFILÍA COLONIALISTA OUTROCIDA (NCO) NO BRASIL[1]

Wallace de Moraes

Professor de Ciência Política e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF) e História Comparada (PPGHC) da UFRJ.
Pesquisador do INCT/PPED e líder do grupo de pesquisa OTAL/UFRJ.
Bolsista da FAPERJ.

Resumo: Diante do contexto da pandemia da Covid-19, procuro situar a postura do governo federal brasileiro, em contrário ao isolamento social horizontal, como parte da necropolítica. A partir da simbiose desse conceito com o de colonialismo, outremização e anarquismo proponho a categoria Necrofilia Colonialista Outrocida (NCO), cujo objetivo é expressar a indisfarçável simpatia pela morte de negros, indígenas, pobres e seus idosos. Necro-Estado e liberalismo econômico compõem o pior dos mundos para as novas senzalas e florestas brasileiras.

Palavras-chaves: Necrofilia Colonialista Outrocida; anarquismo indígena; anarquismo negro; Geronticídio; Necro-Estado

(mais…)

(Lá como cá…) Não ao despejo de comunidades ciganas (e outras) na Roménia


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Divulgamos um texto e fotos de despejos na Roménia a pedido de uma companheira nossa que agora vive lá e está envolvida em diferentes projetos solidários autogeridos, um deles diretamente com uma comunidade cigana que vivia num acampamento de barracas sem quaisquer condições. Para além da crise sanitária impera na Roménia a violência, a intimidação e o racismo numa altura em que aumentam os despedimentos e a pobreza. (S.P. – Almada)

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(Imagens antes e depois da destruição do bairro comunitário em Torontalului)

COMEÇOU A TEMPORADA DAS EVACUAÇÕES!!

Se durante a pandemia os despejos foram interrompidos, burocratas e oficiais da justiça trabalharam fortemente para que, assim que fosse permitido, pudessem despejar pessoas das suas casas. Em Timisoara, Roménia, dois despejos forçados jogaram dezenas de pessoas nas ruas assim que a restrição dos despejos foi levantada.

Dia 15 de maio, imediatamente após o fim do estado de emergência, 6 famílias foram evacuadas de um prédio localizado na zona da Praça Traian. Logo após a compra do prédio, os novos proprietários forçaram os inquilinos a deixar as suas casas dentro de apenas um dia, apesar de morarem ali há 10 anos. A evacuação foi realizada pela polícia local, sem decisão judicial. Os evacuados não tiveram alternativos, mesmo que dentro das pessoas evacuadas se trata de crianças e idosos.

E no dia 12 de junho, às 6:00 da manhã, no bairro de Torontalului, também em Timisoara, uma comunidade de cerca de 10 pessoas foi evacuada violentamente. As pessoas não receberam nenhuma alternativa ou apoio, foram simplesmente jogadas na rua. Os 11 carros da polícia foram intimidatórios e ameaçadores, destruindo os abrigos dos inquilinos.

A comunidade de Torontalului vive lá há 4 anos. Depois que a terra foi privatizada, a sua situação se tornou frágil e eles poderiam ter sido jogados na rua a qualquer momento. Durante a pandemia, ameaças e insultos foram dirigidos a eles, as pessoas sendo colocadas em posição de encontrar uma alternativa por conta própria, em um momento em que era impossível sair nas ruas.

#StopEvacuações
#DOTimisoara
#solidariedade

versão em inglês

Que não fique estátua nem muro que impeça a liberdade


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Painel de azulejos na Basílica Real de Castro Verde

Esta tarde o Portal Anarquista publicou um texto recebido por email  dum seu colaborador em que este deixava em aberto, pelas suas características, a vandalização da estátua do padre António Vieira, em Lisboa, na quinta-feira, dia 11 de junho, poder ter sido uma ação da extrema-direita, tentando comprometer a esquerda anti-racista.

Em escassas horas os comentários no facebook atingiram quase a centena. Alguns de aprovação pelo texto, mas muitos a contestarem a hipótese, já que de hipótese se tratava, considerando que se estava sim, com este post, a fazer um favor à extrema-direita, uma vez que não se discutia a ação em si, enquadrada no movimento anti-racista que tem acontecido um pouco por todo o lado depois do assassinato de George Floyd.

Desde sempre no anarquismo não nos submetemos a deuses nem amestres, nem a politicamente corretos nem a verdades inamovíveis. O anarquismo, para além de ser um movimento social, é uma filosofia e um projeto humanista e tolerante que não respeita fronteiras, não aceita raças, nem a exploração ou a opressão do homem pelo homem. Cada um de nós, ao seu modo, é um iconoclasta que incendeia as verdades estabelecidas.

Tudo isto para precisar o contexto do post: o seu autor tem toda a liberdade para admitir, face aos cenários, esta ou aquela possibilidade. Não foge aos factos, tenta interligá-los.

Isso mesmo vamos tentar fazer agora, mas em nome do Portal Anarquista.

Não sabemos quem fez a pichagem nem interessa. Interessa sim perceber o seu contexto. Na tradição libertária (e mesmo da extrema-esquerda) é habitual que as ações diretas sejam reivindicadas, explicadas e contextualizadas. Que se diga quem fez e porque o fez. Que não foi um ato isolado, mas que se insere num contexto político e que tem um objetivo. Aqui não houve nada disso. Cada qual pode interpretar da maneira que quiser. Até – imagine-se – atribuir o gesto à extrema-direita, à extrema esquerda ou – pasme-se – a quem se situe no campo libertário.

Da centena de comentários feitos no facebook há uma parcela importante com origem em companheiros brasileiros. A realidade aí talvez seja diferente e é-nos desconhecida. Da realidade que tratamos é da que está à nossa porta: a portuguesa. E é, face a essa realidade, que aquela estátua é ofensiva pela simbologia que apresenta e no lugar em que está. Não devia lá estar, como tantas outras.

Se devia ter sido objeto duma ação deste tipo? Talvez. Mas tinha que ser contextualizada, não um ato não reivindicado, isolado, perdido. Nada nos move contra a história. A história é o que foi, não a podemos julgar com os olhos de hoje. Mas também, não podemos ficar indiferentes àquilo que foi ou à dor e morte que provocou. Porque somos quem hoje somos também devido àquele passado. Daí que as estátuas não sejam imutáveis – nunca o foram desde o tempo dos egípcios ou do Império romano até às independências africanas ou à queda dos regimes totalitárias do leste europeu – e em cada transformação social foram sempre arrastadas pela fúria das multidões. Ou o nome das ruas, praças ou cidades alteradas. Isso é uma coisa. Isso é fazer História.

Outra coisa, pretender reconstruir a história com base naquilo que gostaríamos e no que são hoje as nossas ideias e perceções, filosofias e conhecimento é uma falácia atribuível ao politicamente correto que é uma espécie de fascismo das atitudes e do pensamento que parece estar cada vez mais na moda.

Um exemplo? Um dos comentários critica o uso da palavra denegrir. Sim, vem de negro.  Tornar negro. Escurecer. Tem raiz latina. É uma palavra historicamente conhecida. Mas o seu uso reiterado já lhe tirou grande parte da carga original. Aliás, já nem reconhecemos a origem de grande parte das palavras e expressões que usamos. Fazem parte da nossa linguagem. Eu uso, porque me soa bem, regularmente a palavra oxalá, que vem diretamente do árabe inch allah, deus seja louvado, e sou militantemente agnóstico. Não invoco, de certeza, qualquer deus quando digo oxalá.

O politicamente correto, no discurso, nas palavras, nas atitudes é uma espécie de totalitarismo ou de novilíngua, no dizer orwelliano, que limita a construção histórica daquilo que somos e impede o fluir da liberdade. Cada qual deve usar a linguagem que quer, desde que despida de quaisquer intuitos de dominação ou humilhação. E denegrir, quando também a uso, não tem menos valor do que a palavra branquear – que quer dizer ocultar, favorecer, tornar lícito o que é ilícito.

A Agata Pinho esteve bastante ativa nos comentários. Ela diz que é um exagero atribuir este caso à extrema-direita. E que ao fazê-lo estamos a fechar o debate possível sobre o esclavagismo e o racismo que ações deste género podiam proporcionar.

Consideramos que Portugal é um país profundamente racista e onde as questões coloniais ainda não tiveram o debate necessário. Há dezenas de milhares de pessoas de pele negra, nascidas em Portugal e que aqui sempre viveram, e que são tratadas na maior parte dos casos como estrangeiras ou “de fora”. São os que têm os piores trabalhos, os piores salários, as piores condições de vida, os que sofrem mais vezes a violência da polícia e a prisão. Não apenas os negros, mas também os ciganos – e muitas vezes são estes aqueles que mais sofrem o racismo violento em muitas zonas do país.

É necessário fazer ouvir as suas vozes, são necessárias movimentações coletivas como a manifestação da semana passada, são necessárias organizações de base e movimentos sociais – e, talvez, nalgum ponto, num momento simbólico outro tipo de ações de maior visibilidade. Mas sempre contextualizadas e mobilizadoras. Feitas para acrescentar apoios e não para os dividir. Talvez nessa altura, no contexto duma dessas manifestações, haja muitos muros para derrubar e muitas estátuas para tirar dos seus pedestais.

Mesmo a terminar, caro Bolota Carvalho, no anarquismo há várias visões do mundo. Não há um comité central, nem um modo fechado e intolerante – dizem eles científico e a gente ri-se – de ver o mundo. Há várias visões. Do mesmo modo ninguém é juiz de ninguém. Cada grupo, cada sector – mais ambientalista, mais sindical, mais comunitário –  age como muito bem entende tendo como denominador comum o combate à exploração económica e à opressão política que levem à autogestão das nossa vidas com o mínimo de necessidade de representação.

E fica o alerta daquela nossa companheira de Bruxelas que, nos comentários, disse que nas movimentações anti-racistas na Bélgica a extrema-direita se tinha infiltrado para impor a sua agenda.

Isso é o historial da extrema-direita: infiltrar-se e levar a cabo a sua agenda mesmo quando os seus opositores acham que a estão a combater.

Obrigado a todos pela conversa que fomos mantendo neste post. Às vezes vale a pena, mesmo que os movimentos mais radicais pareçam estar cada vez mais afastados da fundamentação teórica das suas ações, substituindo-a pela emoção. Que também é boa, essencial mesmo, mas que não chega.

Aliás, o movimento anarquista ficou conhecido, desde sempre, por ser um movimento de autodidatas, de gente que sustentava teoricamente aquilo que eram as suas práticas.

Seria bom que assim continuasse.

PS: No Alentejo, em Portugal, há uma Igreja que tem um magnifico painel de azulejos do século XVIII onde se representa a chamada Batalha de Ourique, seis séculos antes, em que, segundo a lenda, D. Afonso Henrique terá vencido cinco reis mouros, a quem cortou as cabeças. Em nome do politicamente correto, bastará destruir os painéis ou destrói-se a Igreja toda?

Sobre a estátua do Padre António Vieira vandalizada em Lisboa: muitas interrogações


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Desde o momento em que foi inaugurada há 3 anos, em Lisboa, no Largo da Misericórdia, que a estátua do padre António Vieira tem sido objecto das mais variadas críticas. E não é para menos: a atitude agressiva, cruz na mão, com pequenos índios à sua volta, tem mais de colonialista e racista do que de tolerante ou supostamente evangelizadora.

A colocação da estátua, com toda esta simbologia, naquele lugar foi polémica, tendo, na altura, os fascistas portugueses decidido protegê-a como símbolo da sua ideologia inigualitária e racista.

Este ano apareceu pintada com uma única palavra: descoloniza e com pequenos corações pintados nos índios que rodeiam a imagem do padre António.

A escolha do dia para a sua pichagem (11 de Junho, logo a seguir ao feriado nacional do dia de “Camões de Portugal e das Comunidades”); a figura do Padre António Vieira que, apesar de jesuíta, teve um papel importante na defesa dos índios brasileiros; o anúncio dado à vandalização da estátua, em primeira mão, numa página do facebook da extrema-direita e, por último, mas não em último, os corações pintados nos índios, tipo likes do facebook, uma simbologia totalmente afastada dos grupos mais à esquerda no espectro político – e os ecos de desagrado que este acto teve em grande número de pessoas, em geral, alinhadas na luta anti-racista – levam-nos a pensar que não é de pôr de lado a possibilidade dele ter sido realizado por sectores da extrema-direita que, desde sempre, têm usado este tipo de atitudes provocatórias para denegrir e sujeitar a repressão os grupos e entidades que lhes dão combate.

A Câmara Municipal de Lisboa não tardou em mandar limpar a estátua e lá esta ela, de novo, invocando uma simbologia ultrapassada e ajudando a tornar mais opaca e menos progressista a mensagem do Padre António Vieira no que aos índios brasileiros dizia respeito.

Uma mensagem que a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho sintetiza desta maneira, num artigo escrito há menos de 3 anos, pouco depois da inauguração da estátua:

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