figuras do anarquismo

Bertrand Russell: um filósofo fora do “baralho” das ideias feitas


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Bertrand Russell foi um dos maiores filósofos e matemáticos do século XX, desenvolvendo uma obra e um activismo ímpar ao longo do século em que viveu.

Bertrand Russell simpatizou ao longo de toda a sua vida com o anarquismo, muito embora tenha abraçado a ideia de um Estado Mundial (*) para acabar com as guerras entre as nações. Com a idade de 23 anos, o jovem aristocrata é descrito na sua biografia como alguém com tendências anarquistas.

Russell conhecia o sentido e o significado do anarquismo quando escreve em 1918, pouco antes de ser preso por ter denunciado a legitimidade da I Grande Guerra Mundial, o livro “Roads to Freedom: socialism, anarchism, and syndicalism”, onde inclui uma citação de Lao-Tzu:

Production without possession
Action without self-assertion
Development without domination (**)

Num fundamentado texto da sua autoria, Russell define o anarquismo como a teoria que se opõe a toda a espécie de governo que resulte de uma imposição à força. A liberdade é o supremo bem do credo anarquista, devendo a liberdade ser entendida como a via mais directa para a abolição de todo o controle forçado sobre os indivíduos pela comunidade. Russell defende que o anarquismo deve ser o ideal último para o qual a sociedade deve continuamente aproximar-se. Aliás, o próprio Russell defende que o anarquismo está particularmente ajustado em áreas tão diversas como a arte, a ciência, as relações humanas, a alegria e o gozo de viver.

No entanto, ele confessa que por enquanto, e nos tempos mais próximos, será muito difícil que este sonho se venha a realizar. Numa sua obra de juventude “Principles of Social Reconstruction” (1916), ele admite que o Estado e a propriedade são as duas mais poderosas instituições no mundo moderno. Porém, ao mesmo tempo que tenta demonstrar quanto dispensáveis são muitos dos poderes estatais, também aceita a utilidade de outros a fim de evitar a substituição da lei pela força nas relações humanas. “A anarquia primitiva, que antecedeu a lei, era muito pior que a lei”, escreve Russell. O Estado teria também, segundo ele, um papel positivo a desempenhar na educação obrigatória, na saúde e na administração da justiça económica.

Apesar das fortes críticas de Bakunine e de Kropotkine contra o Estado, Russell admite que alguma coerção da comunidade deva subsistir sob a forma de lei, assim como o Estado é uma instituição necessária para a realização de certas e limitadas tarefas. Sem o Estado o forte poderia oprimir o fraco. Defendia, entre todas as ideologias então referenciadas, o socialismo corporativista (guild socialism), se bem que sempre recordando que “o livre crescimento do indivíduo deva ser o fim supremo de todo o sistema político”. Num dos números do jornal anarquista Freedom (fundado por Kropotkine) o livro “Roads to Freedom” de Bertrand Russell é vivamente recomendado, observando que os trabalhos do autor contêm propostas construtivas para o anarquismo.

Russel visitou a Rússia no Verão de 1920 onde se encontrou com anarquistas como Emma Godman e Alexander Berkman que lhe apresentaram a cidade de Moscovo e vários líderes bolchevistas. O livro que reúne as suas impressões dessa viagem, “The Practice and Theory of Bolchevism” (1920), inclui já várias observações críticas à situação numa altura em que qualquer crítica à ditadura bolchevista era vista, pela esquerda, como uma traição. Dois anos depois, quando Emma Goldman procurou refúgio político na Grã- Bretanha, foi Russell que fez as necessárias diligências junto do Home Office, garantindo que aquela se comprometia a não desenvolver qualquer forma de anarquismo violento no país. No jantar de boas-vindas em Oxford, a única pessoa a aplaudir os violentos ataques feitos por Goldman ao governo soviético foi Russell. A reportagem do Freedom sobre o acontecimento terminava assim: “Mr. Russell, o filósofo mais acutilante da Inglaterra, proferiu então um discurso onde demonstrava as suas mais firmes convicções anarquistas.”

Apesar de tudo, Russell manteve sempre alguma distância para com os anarquistas. Recusou, por exemplo, ajudar Emma Goldman a constituir um comité de ajuda aos prisioneiros políticos russos com o argumento que não via uma alternativa melhor ao governo soviético que não resultasse ainda em maior crueldade. Escreve então a Goldman o seguinte: “Não vejo a abolição de todos os governos como algo que tenha possibilidade de se realizar nas nossas vidas ou mesmo durante o século XX”. Mesmo assim, e depois de constatar a inutilidade da sua tomada de posição, acabou por censurar o tratamento dado pelo governo bolchevista aos seus prisioneiros políticos. E quando Sacco e Vanzetti foram executados, Bertrand Russell não teve dúvidas em afirmar que tinham sido injustamente condenados por motivo das suas opiniões políticas.

As atitudes e as suas afirmações libertárias, bem como toda a sua relutância em seguir à risca as posturas anarquistas resultam da sua singular concepção da humanidade e do universo, e do facto de estar consciente da “falácia naturalistica” a que Kropotkine e outros anarquistas não escapavam ao defenderem argumentos baseados na supremacia das leis da natureza, que deviam ser seguidas, mas que na perspectiva de Russell mais não nos levaria que a sermos escravos da própria natureza. Tal não o impedia contudo em reconhecer que “se a Natureza deve ser o nosso modelo, então os anarquistas teriam o melhor dos argumentos. Com efeito, o universo físico está ordenado, não porque tenha um governo central, mas simplesmente porque todos os seres tudo fazem para que assim seja.”

Como ateísta e atomista, Russell (autor do livro “Porque não sou cristão”)  tem uma sombria concepção da humanidade não obstante as suas esperanças de um mundo melhor. Ele considera que o homem é o resultado de uma “conjugação acidental de átomos” destinada a extinguir-se com a morte do sistema solar. Mas apesar da efémera e acidental posição do ser humano no universo tal não significa que o homem não possa lutar para a melhoria de todos. Só a crença no mais profundo desespero pode construir um mundo melhor.

Como humanista, Russell preocupa-se em lutar pela expansão da liberdade e felicidade humanas. Coisa que não é fácil.

Nos anos 50 e 60 Russell envolve-se mais uma vez com grupos anarquistas no Comité dos Cem no âmbito da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. O velho filósofo bate-se então pela acção directa não-violenta e pela desobediência civil em larga escala

Nos textos de Bertrand Russell perpassa uma forte brisa libertária como se pode ler no seguinte excerto:

“Thought is subversive and revolutionary, destructive and terrible. Thought is merciless to privilege, established institutions and comfortable habits. Thought is anarchic and lawless, indifferent to authority, careless of the well-tried wisdom of the ages”. (***)

Fonte: Blog Pimenta Negra

(*) Talvez não exactamente um Estado mundial, mas uma organização que, a nível planetário, conseguisse uma coordenação global

(**) Produção sem posse/Acção sem arrogância/ Desenvolvimento sem dominação

(***) O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível. Não tem piedade para com as instituições estabelecidas, nem para com os privilegiados, acomodados nos seus hábitos e conforto. O pensamento é anárquico e não obedece às leis, é indiferente à autoridade, e não respeita a bem testada sabedoria de todos os tempos.

Livros de Bertrand Russell em português (PDF): http://pensamentosnomadas.com/livros-de-bertrand-russell-em-portugues-26993

(Mina de São Domingos) Foto de Valentim Adolfo João e irmãos


foto valetim Adolfo João

(Foto retirada daqui com a seguinte legenda:
Não tenho vagar amor
Para te dar atenção ,
Tenho muito que fazer
Na minha Associação .
3 grandes mineiros que dariam a vida em prol dos direitos dos trabalhadores .
Antonio, Manuel e Valentim Adolfo Joao)

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(memória libertária) José Negrão Buísel (1875-1954), um anarquista de Portimão


buisel

José Negrão Buísel é uma das referências do anarquismo no Algarve. Professor, seguidor das ideias pedagógicas libertárias da escola Moderna de Francisco Ferrer, esteve ligado à Federação Anarquista do Sul e posteriormente à CGT. Preso por diversas vezes, o seu nome foi atribuído, após o 25 de Abril de 1974, a um estabelecimento de ensino e a uma rua de Portimão.

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Biografia do anarquista algarvio Bartolomeu Constantino (1863-1916)


bartolomeu-constantino

Operário sapateiro, nasceu em Olhão em 1863 e faleceu em Lisboa, no Beco da Ricarda, n.° 4, em 11 de Janeiro de 1916. Figura controversa, Bartolomeu Constantino foi um extraordinário orador do anarquismo. Sempre que solicitado para falar em algum lugar, fechava a sua pequena banca de trabalho e seguia corajosamente sem a preocupação do que podia acontecer. Foi o promotor do Congresso Anarquista de 1911, abrindo espaço às ideias libertárias e possibilitou logo em 1914 outro encontro acrata. Durante o governo de Afonso Costa viveu no Algarve onde lançou um jornal, com a ajuda da sua companheira Júlia Cruz. Também viveu algum tempo em Almada, mas para o seu espírito irrequieto, os lugares tornavam-se pequenos.

Falando do transladamento dos seus restos mortais A Batalha de 5-10-1922, informa em 1ª página: “A Comissão pró-transladamento convida a C.G.T., U.S .0 ., Federações, Sindicatos, Juventudes Sindicalistas e Comunistas Libertários e grupos revolucionários”. E concluía: “O itinerário é Loreto, Praça Luís de Camões, rua do Mundo, S. Pedro de Alcântara, Praça Rio de Janeiro, Escola Politécnica, Praça Brasil, rua Visconde de S. Ambrósio, rua Saraiva de Carvalho e Cemitério dos Prazeres”.O proletariado e os anarquistas de Lisboa compareceram em massa a confirmar o apreço ao orador anarquista.

Embora o seu nome tenha caído um pouco no esquecimento, de que urge resgatar, tem hoje uma praceta com o seu nome no Laranjeiro (Almada) (https://goo.gl/maps/e9wD6zf8Rfx)

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(Itália) Morreu Amedeo Bertolo, um dos mais activos anarquistas dos nossos dias


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É com muita tristeza que vos informo que anteontem, 22 de Novembro de 2016, morreu em Milão, com 75 anos, Amedeo Bertolo, uma das figuras mais importantes do anarquismo contemporâneo. Nele, pensamento e acção estiveram sempre ligados.

Para além de autor de textos fundamentais, traduzidos em várias línguas, foi um dos fundadores, ainda na década de 60, das Juventudes Libertárias de Milão, do Grupo Anarquista Ponte della Ghisolfa e da Croce Nera, juntamente com Pinelli.

Participou em algumas acções em Espanha, integrado na estrutura anarquista clandestina Defesa Interior, e fez parte do grupo italiano que raptou o vice-cônsul espanhol em Milão, para tentar evitar a pena de morte a que tinham sido condenados alguns anarquistas espanhóis e chamar a atenção da imprensa europeia para o franquismo. Face à pressão internacional, Franco comutou as penas dos companheiros espanhóis em prisão perpétua e, passados alguns anos, foram libertados. Todos os membros do grupo de “raptores” foram presos pela polícia italiana e Amedeo Bertolo, que tinha fugido para França, voltou no dia do julgamento, entrou no tribunal disfarçado de ajudante do advogado e a sessão foi transformada num ataque cerrado ao estado e ao franquismo. No fim, saíram todos em liberdade com penas simbólicas.

Fundou e participou nas revistas Interrogations, Volontà, Antistato e A. Dedicou grande parte da sua vida a denunciar o assassinato de Pinelli pelo estado italiano e a provar que os atentados de 1969 tiveram origem na extrema-direita e nos serviços secretos. Foi um dos organizadores do célebre Encontro Anarquista Internacional realizado em Veneza em 1984. Fundador também do Centro de Estudos e Arquivo Pinelli em 1976 e em 1986 da editora Eleuthèra. Toda uma vida dedicada à acção e à divulgação do anarquismo.

Nos últimos anos, o pessimismo em relação ao futuro do anarquismo e da humanidade apoderara-se dele. Desistiu da escrita (“não tenho mais nada para dizer”), começou a sofrer da doença de Parkinson e, desgostoso, reduziu a a sua actividade à editora Eleuthèra.

Perdi um amigo muito querido e o Anarquismo perdeu um grande pensador e activista. Que a terra te seja leve, companheiro!

Mário Rui Pinto (aqui)

(CCL) Recordando José Correia Pires nos 40 anos da sua morte


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José Correia Pires (1907-1976) foi uma das figuras relevantes do movimento libertário durante grande parte do século XX. Algarvio, participou no 18 de Janeiro de 1934 e, depois de anos de prisão, exílio e clandestinidade, colaborou activamente na tentativa de reafirmação do anarquismo depois do 25 de Abril de 1974, participando nos diversos comícios e movimentações, sobretudo na Margem Sul, onde vivia. Fica aqui a homenagem do Centro de Cultura Libertária de Cacilhas (que ajudou a fundar) e também a transcrição de uma nota biográfica da autoria da historiadora Maria João Raminhos Duarte (link no final)

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