poesia

Zeca Afonso: ‘Sua canção abriu estradas/ cantou nos campos, cidades,/ nunca nos paços de el-rei’


antitese

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José Afonso (1929 – 1987) foi um cantor de intervenção que sempre suscitou admiração em diversos meios libertários. Sem nunca se ter assumido enquanto tal, os temas escolhidos e a textura da sua poesia, aliados ao facto de nunca ter estado partidariamente alinhado (a não ser temporariamente na LUAR, uma organização que agrupava um grande número de libertários) fizeram com que muitos anarquistas tivessem uma grande simpatia por Zeca Afonso (para além da qualidade da sua música e poesia), reforçada por afirmações deste quando referia ser o seu “próprio comité central” ou o que era necessário era “provocar desassossego”.

Canções como “Utopia”, “Vejam Bem”, “Menino do Bairro Negro”, “Os Vampiros”, “Como se Faz um Canalha”, ou “Os Índios da Meia Praia”, entre tantas outras, foram também hinos muitas vezes cantados e adoptados por libertários – embora o movimento anarquista organizado, nesses anos conturbados do pós 25 de Abril de 1974, tivesse pouca expressão pública e mal se conseguisse distinguir da profusão de seitas m-l que apareceram um pouco por todo o lado.

A solidariedade, a liberdade, a igualdade, a utopia foram palavras e conceitos usados habitualmente por José Afonso e que constituíram sempre palavras importantes no vocabulário anarquista, tornando a identificação das canções do Zeca com o ideário libertário uma constante.

Exemplo desta ligação entre o Zeca e muitos libertários foi o destaque dado pela revista anarquista Antítese, no nº 8 de Fevereiro de 1988 (um ano depois da sua morte), com uma evocação de José Afonso na capa e um poema no interior assinado por Rui (Rui Vaz de Carvalho o editor da revista?), a assinalar a relação fraterna com a obra e a figura do Zeca.

23-2-87
Morreu José Afonso.
Morreu de solidão
24-2-87

Colheu palavras nos prados,
bebeu água em suas fontes,
andou pela chuva dos montes
em busca de um arco-íris.

Do amarelo fez um sol
no meu caderno de infância,
vermelha  a rosa pintou
e espalhou a sua fragância,
do roxo nasceram lírios
nos campos da nossa dor.

Na terra onde nasceu
chamaram-lhe o trovador.

De jogral não se vestiu
nem tampouco usou gravata,
inventou meninos d’oiro
em cada bairro de lata.

Rio acima eis a fragata
de que foi timoneiro
rasgando as águas paradas,
as águas turvas da lei.

Sua canção abriu estradas,
cantou nos campos, cidades,
nunca nos paços de el-rei.

Das ondas duma seara
colheu ele a melodia
e seus versos foram rios
nos campos do Alentejo,
foram lágrimas de raiva
nos olhos da poesia.

Ervas daninhas cresceram
nas terras que ele plantou
e os ventos de toda a sorte
moveram os cataventos,

mas o que mais lhe custou
foi ver o seu povo rendido
às vozes do parlamento.

Viu muita vela enfunada
em busca de novas Índias,
viu poetas e cantores
correrem atrás da fama,

mas o que mais lhe custou
foi ver o povo sem chama
seguindo novos senhores.

E a lua em quarto minguante
descia sobre Azeitão
onde o trovador vivia
distante da sua terra,
em sua terra emigrante.

Rio acima eis a fragata
de que foi o timoneiro
rasgando as águas paradas,
as águas turvas da lei.

Sua canção abriu estradas
cantou nos campos, cidades,
nunca nos paços de el-rei.

Rui

relacionado: http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/

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Alguns poemas de José Miguel Silva


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“Mais pertinente do que o carácter realista da minha poesia talvez seja a sua vocação política, a sua propensão para interpelar não apenas o íntimo e pessoal, mas também o social”. José Miguel Silva (aqui)

*

Feios, porcos e maus – Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos – tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

(de “Movimentos no Escuro”)

*

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

(de ‘Ulisses Já Não Mora Aqui’)

*

No Way Back

“Como sair daqui?” Perguntas bem, amigo.
Diógenes diria “à catanada, vivamente”,
Lichtenberg “à gargalhada”, se o conheço.
Thomas Bernhard proporia “num rectângulo
de tábuas” e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse “rastejando”.
Diderot aventaria
“pela rua do liceu”, Tcheckov “pela viela
mais escura, à tua esquerda”. Séneca diria,
muito sonso, “pelo passeio das Virtudes”,
Vaneigem “pelo jardim das Belas-Artes”.
Bashô responderia (e eu com ele) “é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa”.

(de “Walkmen”)

*

Too big to fail

Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?

Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.

O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.

O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o “rating” da nossa relação,

deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em “default” o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo

que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.

(de “Serém, 24 de Março”)

*

O Grande Circo de Montekarl

Não gosto especialmente de circo, mas como não há
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.

Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.

Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico – pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha –
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.

(de “Ladrador”, Averno, 2012)

relacionado: http://revistamododeusar.blogspot.pt/2014/05/jose-miguel-silva.html

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/nestas-ervas-gostaria-de-deixar-cair-os-punhos-1672984

blog de josé miguel silva: https://eumeswill.wordpress.com/

Décimas a António Gonçalves Correia


gonçalves correia

António Gonçalves Correia (São Marcos da Atabueira, Castro Verde, 3 de Agosto de 1886 — Lisboa, 20 de Dezembro de 1967) foi um anarquista, vegetariano, ensaísta, poeta e humanista português. Fundador da Comuna da Luz, a primeira comunidade anarquista em Portugal.

*

Ele levava a Liberdade
A todo o lugar que ia.
A toda a gente que via
Dizia em sinceridade
Da sua ideia, a bondade.
Em qualquer lado que estava
Esse sonho que levava,
Nascido do coração
Quase como uma oração,
A todos ele o contava.

O Gonçalves Correia andou
De caixeiro-viajante
Quem o viu até garante
Que alguma coisa ficou.
Que se ele tanto adubou
O seu sonho vai crescer
E vai outra vez viver
Logo que chegue seu tempo,
É só esperar o momento,
Da semente florescer.

Incansável lutador
No seu Alentejo viveu
Com todos ele conviveu
Levantando seu clamor
Sempre c’ um mesmo fervor
A todos os trabalhadores
Falava dos seus amores
Liberdade, Revolução
Paz com comunhão
De iguais, sem mandadores.

Nem passarinhos, queria presos
Abria gaiolas nas feiras
Soltava-os como bandeiras
Lutava p’los indefesos
Deixava todos surpresos
Com as coisas que fazia.
Sempre que ele aparecia
A liberdade trazendo
Seu ideal defendendo
A opressão estremecia.

Hoje tem nome na rua
No Alentejo é lembrado
Um pouco por todo o lado
Sua bandeira flutua
Negra, de noite com Lua
Nada pode a opressão
Contra livre coração.
Gonçalves Correia via
P’ra onde o futuro corria
Deixou-nos essa lição.

por António Pereira

aqui: http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.pt/2014/09/decimas-antonio-goncalves-correia.html

(eleições) Milhares de candidatos para 230 empregos


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FEIOS, PORCOS E MAUS – Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos – tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva

(“Movimentos no Escuro”, Relógio d´Água, Lisboa, 2005)

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