anarquismo

Comunicado da Federação Anarquista Francófona sobre os Coletes Amarelos



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Um movimento de cólera como já há muito tempo não se via em França surgiu  há várias semanas, desorientando completamente o poder do Estado. É um movimento compreensível e legítimo face à violência social que existe; a diversidade dos seus actores é o sintoma do grau de frustração causado pelas políticas sucessivas de austeridade mais ou menos maquilhada. Esta revolta, mesmo que seja espectacular, junta-se aos mais recentes movimentos sociais que ocorrem em vários locais: hospitais, caminhos de ferro, faculdades, escolas secundárias, etc.

A principal característica deste movimento é a sua rejeição da representação política e ainda mais de quaisquer líderes auto-proclamados. Nas rotundas ocupadas inventam-se novos modos de socialização.

Os anarquistas não podem senão aprovar uma atitude que tem sido a sua desde sempre. No entanto, a revolta é inútil se não for acompanhada por propostas. Estas existem, como por exemplo em Saint-Nazaire ou Commercy e, mesmo se não satisfazem totalmente os anarquistas, merecem ser apoiadas desde que vão no sentido  da emancipação.

Denunciamos e condenamos também os muitos actos de violência repressiva do Estado (detenções arbitrárias, prisões imediatas, ferimentos devido a disparos de flashball e outras armas ofensivas da polícia, etc.) como as únicas respostas às reivindicações.

A vitória deste movimento não será a dissolução da Assembleia Nacional (sobretudo se for para aí instalar demagogos/populistas e/ou nacionalistas que nem sequer tolerariam tais manifestações), mas o seu fim para não pôr em causa a instauração da autogestão e do federalismo libertário.

Federação Anarquista

http://www.federation-anarchiste.org/
ifa@federation-anarchiste.org
09/12/2018

aqui: https://www.monde-libertaire.fr/?article=Gilets_jaunes_Communique_de_la_Federation_anarchiste

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Nos cem anos de “A Batalha” há quem se proponha dar nova vida ao seu hino


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João Gouveia deixou no Grupo de Debate UAP, no facebook, a seguinte mensagem, que reproduzimos com o intuito de lhe dar maior visibilidade.

“Partilho aqui o instrumental d’A Batalha por Del Negro que reescrevi em formato digital.

Existem partes que foram ligeiramente modificadas que (admito que possa ser erro meu) não consegui ler ou interpretar corretamente, por isso gostava de pedir ajuda a alguém que também estivesse ligado à música para diminuir os erros nesta versão digital.

Por isso mesmo além de apenas partilhar o ficheiro .mp3, também partilho a minha versão da partitura original.”

Recorda-se que não existe qualquer gravação do “Hino de A Batalha”, cantado em muitas sessões, festas e comícios anarcosindicalistas, sobretudo da CGT , de que “A Batalha” foi o jornal diário oficial.

“A Batalha” foi fundada a 23 de Fevereiro de 1919, tendo-se publicado diariamente até ao dia 26 de maio de 1927, quando a sua tipografia foi destruída e a sua publicação proibida pelo regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926.

No entanto, “A Batalha” sobreviveu publicando-se na clandestinidade durante várias décadas (até finais da década de 40) e vendo, de novo, a luz do dia, de forma legal, após o 25 de Abril de 1974

“A Batalha” comemora os seus cem anos a 23 de Fevereiro do próximo ano. Seria bonito dar, de novo, vida àquele que foi o seu hino!

hino original: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2018/01/22/recordando-o-hino-revolucionario-de-a-batalha/

 

Manuel Fiúza Júnior, um anarquista de Viana do Castelo, assassinado pela PIDE em 1957


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Placa toponímica da Rua Manuel Fiuza Junior, em Viana do Castelo, onde – como é regra quando se trata de anarquistas – é omitida a sua militância libertária.

Manuel Fiúza Júnior nasceu em 1887, na cidade de Viana do Castelo, onde editou, por alguns anos, o quinzenário anarquista A Voz dos Famintos. Apesar de modesto na colaboração e no aspecto, este jornal, que juntava o seu grito ao clamor dos que, em todo o mundo, reclamam mais um pouco de pão, de justiça e liberdade, exerceu uma profunda influência doutrinária entre a juventude da região minhota, alfobre, desde recuados tempos, de grandes rebeldes e revolucionários, que ilustraram com o seu nome e a sua acção fecunda as páginas da história do movimento operário, principalmente do anarco-sindicalismo.

Veio, no entanto, a quartelada do 28 de Maio de 1926 e com ela o fascismo que navegou nas suas águas, obrigando Manuel Fiúza Júnior aos subterrâneos da luta clandestina, para prosseguir a batalha que redime os homens de todas as vilezas e de todas as debilidades. Nesta cruzada foi encontrar a morte violenta, melhor dizendo, foi assassinado na sede da PIDE na Rua do Heroísmo, 329, no Porto, para onde fora conduzido sob prisão, contando então 70 anos de idade.

Viviam-se os anos de 1957, quando é preso e, 15 dias depois, morto, na sede da P.I.D.E, do Porto, Joaquim Lemos de Oliveira, natural de Fafe. Denunciando este crime, foram distribuídos milhares de manifestos e pela responsabilidade do seu aparecimento em Viana do Castelo é preso Manuel Fiúza Júnior. Conduzido pelos carrascos inspector Costa Pereira e chefes Pinto Soares e Patacho, colocado na tortura da “Estátua”, não resistiu ao suplício e morreu.

Foi mais um anarquista que deu a vida em holocausto ao ideal libertário.

Fonte: E. Rodrigues (1982). A oposição Libertária em Portugal. 1939-1974. Lisboa. Sementeira.

aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=13&p=creators&char=J&id=1458

também aqui: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/02/17/memoria-libertaria-manuel-fiuza-junior/

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Frank Mintz sobre os coletes amarelos


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Maio/junho de 1968 – novembro/dezembro de 2018

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Frank Mintz, um anarco-sindicalista francês, expressa a sua solidariedade para com a luta dos coletes amarelos

Estamos a viver em França um movimento social de um novo tipo que está a sacudir os cimentos do neoliberalismo e da democracia burguesa: os coletes amarelos.

Viu-se como Maio e Junho de 1968 começaram por uma repressão policial impensável de estudantes e manifestantes durante a noite de 10 de Maio de 1968 no Quatier Latin de Paris.

Agora, desde 17 de Novembro, através de convocatórias colocadas por gente desconhecida na internet, generalizou-se o protesto de milhares de utilizadores de automóveis afectados pelo aumento do preço do gasóleo. Aparentemente uns 200.000.

Vivem em capitais, em cidades pequenas e médias, em zonas rurais e todos têm que percorrer diariamente dezenas de quilómetros uma vez que os locais de trabalho estão longe, tal como as zonas comerciais e os centros médicos; faltam também comboios de proximidade, há poucas linhas de autocarros. Vão rareando os hospitais e as clínicas, as escolas, o comércio em concelhos com populações reduzidas.

A isto juntam-se os problemas dos salários mínimos insuficientes, das reformas exíguas, da diminuição dos subsídios aos deficientes, dos impostos que estão a aumentar para toda a população ao contrário do imposto sobre as grandes fortunas que foi suprimido pelo actual presidente e das ajudas estatais às grandes empresas concedidas pelo mesmo presidente.

E também se questiona o atraso nas medidas anunciadas pelo actual presidente para erradicar a extrema pobreza dos SDF (Sem Domicilio Fixo, ou seja, não só os mendigos, mas também alguns assalariados que dormem em carros); a quase nula política de luta contra a contaminação, o nuclear.

Que classes sociais, níveis etários, géneros? Pois bem, todos, empregados e desempregados, pequenos comerciantes e reformados, velhos, jovens, homens, mulheres, etc..

Inimaginável antes de 17 de Novembro de 2018 há agora o repúdio generalizado por parte dos coletes amarelos de qualquer espécie de classe política seja de direita, centro ou de esquerda e dos grupúsculos de activistas de uns e de outros.

«Não nos representam!», «Há 40 anos que não prestam!», «Não queremos representantes que não possamos controlar!»

Obviamente que os coletes amarelos exigem a demissão do presidente da República, mas vão mais além:«Deve-se reformar a Constituição!»

Mais especificamente a fonte de inspiração ideológica dos coletes amarelos são os cadernos de propostas («Cahiers de doléances») de 1789 antes da queda da monarquia dos Borbones.

Ninguém cita ou parece conhecer Marx, Lenin, a Direcção revolucionária do Partido Proletário ou Bakunin,  1917 dos sovietes ou a Espanha anarcosindicalista de 1936.

Um detalhe importante é que 80 por cento dos franceses nas sondagens oficiais aprova a luta dos coletes amarelos: no entanto, a televisão estatal mais popular apresenta-os como gente violenta, quase terrorista.

Outro detalhe: é graças à incrível teimosia e incapacidade de resposta do Presidente da República que o movimento dos coletes amarelos se pôde expandir  e continuar a crescer com a participação e o apoio diário de novos sectores laborais: bombeiros, maqueiros, ferroviários…

Como é que tudo isto vai acabar? Ou levam o Presidente ao manicómio, ou vem outro, mas os coletes amarelos saíram à rua para vencerem: espancados pela polícia desde há dois sábados, no terceiro (esta semana) qualquer tragédia pode acontecer.

Os coletes amarelos não querem representantes mas apresentam 42 reivindicações no âmbito da precariedade, reformas, fiscalidade e banca, transição ecológica, instituições, emprego e salário, emigração, saúde e outras áreas.

Selecciono algumas:

  • Fim à subida do preço dos carburantes
  • Salário mínimo de 1.300 euros (livres de encargos sociais)
  • Salário máximo de 15.000 euros
  • Reforma mínima de 1.200 euros
  • Reforma aos 60 anos e para toda a gente que tenha trabalhado em profissões de desgaste físico (por exemplo pedreiros ou talhantes) o direito à reforma a partir dos 55 anos
  • Reformas solidárias, ou seja reguladas a nível nacional.
  • Favorecer o transporte de mercadorias por caminho-de-ferro.
  • Acabar com as indemnizações presidenciais vitalícias.
  • Isolamento térmico dos prédios
  • Incentivar o pequeno comércio nas aldeias e outros centros urbanos.
  • O mesmo sistema de segurança social para todos
  • Apoios maiores para a Justiça, a Polícia, e o Exército.
  • Protecção para os emigrantes estrangeiros.
  • Salas de aula com um máximo de 25 alunos/estudantes desde o jardim-de-infância até ao último ano do bacharelato.

Frank Mintz 03.12.18

aqui: http://alasbarricadas.org/noticias/node/41070

(Alentejo) Três meses depois da greve geral de 18 de novembro de 1918, “A Batalha” escreve que “as violências atribuídas aos rurais não podem ser comparadas com as violências praticadas pelos lavradores”


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No dia 23 de Fevereiro de 1919 – está quase a fazer cem anos! – é publicado o primeiro número do jornal “A Batalha”, diário, órgão da União Operária Nacional e, depois, da Confederação Geral do Trabalho. Logo nesse primeiro número há uma referência à greve geral de 18 de Novembro de 1918 no Alentejo.  Para o jornal sindicalista revolucionário as violências atribuídas aos rurais não podem ser comparadas com as violências praticadas pelos lavradores.

“No Alentejo

As violências atribuídas aos rurais – As violências praticadas pelos lavradores

Têm sido inúmeras as acusações formuladas, quer na imprensa quer fora dela, contra a organização rural do Alentejo, acusando-a, aquando do movimento de Novembro, de promover violências inúteis e afirmando que os trabalhadores saquearam várias propriedades, retirando de ali muitos valores, além de muitas outras violências, cuja enumeração seria fastidiosa. Conseguiu-se, assim, criar um ambiente de hostilidade contra os agrupamentos corporativos e contra o organizamos que os representava: a U.O.N. Prenderam-se algumas centenas de trabalhadores rurais e muitos deles foram deportados, sem julgamento, para África, não obstante não terem, na maioria, cadastro e ser a primeira vez que eram detidos. Alguns que se encontravam em Monsanto foram postos em liberdade, juntamente com os restantes presos políticos e por questões sociais, contra o que insurgiu um lavrador que, em carta publicada no Diário de Notícias, pedia ao titular da pasta do interior que ordenasse a sua recaptura, assim como não acedesse a repatriar os rurais tão iniquamente deportados, por, em seu entender, eles deverem ser considerados presos de delito comum em virtude das violências que dizia terem sido praticadas por eles.

Sempre duvidámos da veracidade dos relatos que sobre eles se fizeram e sobre a nossa mesa estão algumas cartas que confirmam este nosso modo de ver, pois, segundo se lê nelas, não só os rurais não cometeram os actos violentos de que são acusados, como a verdade é que se eles foram cometidos a sua autoria deve ser atribuída aos bandos armados que, capitaneados pelos lavradores e, um deles, por José Júlio da Costa, um dos assassinos de Sidónio Pais, exerceram toda a espécie de depredações em Vale de Santiago, Odemira e Panoias.

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A greve geral de 18 de novembro de 1918 na imprensa burguesa


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Apesar de ter sido rapidamente controlada e os seus objectivos não terem sido atingidos, a greve geral de 18 de novembro de 1918, convocada pela União Operária Nacional em pleno auge do sidonismo, e poucos dias depois de ter sido assinado o armísticio que pôs fim à I Guerra a 11 de novembro e em plena epidemia da “pneumónica”, teve uma profunda repercussão em termos repressivos e também na imprensa burguesa, uma vez que dada a ditadura de Sidónio Pais muita imprensa anarquista e operária tinha sido impedida de circular.

Só três meses depois, em Fevereiro de 1919 apareceria o diário operário “A Batalha” que iria romper o gheto informativo com que, quase sempre, as lutas operárias se debatem. A Capital, diário republicano da noite, apenas sai para as bancas no dia 20 de novembro, dois dias depois da greve geral, devido à paralisação dos tipógrafos, segundo uma curta nota inserida nessa mesma edição.

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(Nov. 1918- Nov. 2018) Cem anos da greve geral contra a guerra, o sidonismo e a carestia de vida que teve um dos seus epicentros em Vale de Santiago (Odemira)


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aqui

Em 1918, a União Operária Nacional convoca uma greve geral para o dia 18 de Novembro. A guerra, a carestia de vida e a escassez alimentar tornavam a vida dos trabalhadores num inferno. De forma a reagir contra esta situação de agravamento do dia-a-dia dos trabalhadores portugueses a central sindical, em que predominavam os sindicatos e associações de classe anarquistas e sindicalistas revolucionários, decide juntar as diversas reivindicações sectoriais e avançar para uma greve geral que, no entanto, resultou num fracasso, ainda que com resultados diferentes conforme as regiões do país.

As causas para este fracasso prendem-se essencialmente, segundo os historiadores, com o anúncio do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, assinado a 11 de Novembro, poucos dias antes do início da greve; à pneumónica, que grassava por todo o país; e à forte repressão que os sindicalistas da UON sofriam na pele por parte das leis celeradas e anti-operárias do governo de Sidónio Pais e que conduziu até ao assassinato de trabalhadores em Montemor-o-Novo e Alpiarça quando participavam em comícios de protesto.(1)

O movimento grevista teve, entre outros sectores de todo o país, especial impacto entre os rurais do Alentejo e os ferroviários de Sul e Sueste. Em Évora a greve durou 8 dias. Em Odemira e no Vale de Santiago a repressão foi especialmente dura, com deportações de rurais para a África. Foram fuzilados trabalhadores na Moita e em Portimão. (2)

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