marxismo

(1917-2017) Nos 100 anos da Revolução Russa


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Os anarquistas e anarcosindicalistas russos estiveram entre os militantes mais activos em todo o processo revolucionário russo, mas também foram aqueles que mais depressa denunciaram e combateram o controlo exercido pelo partido bolchevique sobre os sovietes, a militarização da economia e o despotismo de um pequeno núcleo de dirigentes sobre a imensa maioria do povo, gerando, logo desde o início, práticas ditatoriais e não democráticas que transformaram a União Soviética na tumba do socialismo autoritário. As críticas a estes métodos autoritários, próprios do marxismo e acentuados pelo leninismo e pelo partido único, já tinham sido feitas por vários anarquistas, entre os quais Bakunine, e foram retomados no terreno por muitos outros. Entre estes, desde logo, Emma Goldman, de origem lituana, mas que tendo emigrado muito jovem para os Estados Unidos voltou à Rússia depois da revolução. Serviu de intermediária entre o governo do Partido Bolchevique e os marinheiros insurrectos de Kronstadt e foram dela as primeiras críticas e denúncias face ao terror bolchevique sobre os trabalhadores e à deriva da Revolução que tantos sonhos tinha gerado. Nas próximas semanas iremos publicando – aqui no Portal Anarquista – textos sobre a Revolução Russa e a sua degenerescência, de forma a provocar o debate em torno deste acontecimento que, 100 anos depois, permanece ainda submerso na mitologia e na mentira construída por aqueles que em nome da “ditadura do proletariado” ergueram sobre os trabalhadores russos e dos países limítrofes uma das mais ferozes ditaduras do século XX.

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As causas do fracasso da revolução russa

Emma Goldman

Ficam agora bem claros os motivos que fizeram com que a Revolução Russa, tal como foi conduzida pelo Partido Comunista, fosse um fracasso. O poder político do partido, organizado e centralizado no Estado, procurou manter-se utilizando todos os meios de que dispunha. As autoridades centrais tentaram fazer com que o povo agisse de acordo com modelos que correspondiam aos propósitos do Partido, cujo único objetivo era fortalecer o Estado e monopolizar todas as atividades econômicas, políticas e sociais e até mesmo as manifestações culturais. A Revolução tinha objetivos totalmente diferentes pelas suas próprias características, era a negação do princípio da Autoridade e da centralização. Ela lutava para alargar ainda mais os meios de expressão do proletariado e multiplicar as fases do esforço individual e coletivo. Os objetivos e as tendências da Revolução eram diametralmente opostos àqueles do Partido Governante.

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Nos 60 anos da Revolução Húngara: um sopro de liberdade esmagado pelos tanques soviéticos


Se a queda do muro de Berlim constituiu a 9 de Novembro de 1989, simbolicamente e na prática, o fim do bloco soviético e de mais de 70 anos de terror em nome do “socialismo” e do “comunismo” autoritários, como tinha sido antecipado por Bakunin (1), já há muitos anos que os regimes de tipo marxista-leninista, ditatoriais e de capitalismo de estado, eram contestados por largos estratos da população nos mais diversos países do chamado “Pacto de Varsóvia”.

Sem considerar os levantamentos protagonizados por grandes movimentos de trabalhadores logo no início da ditadura dita soviética, como Kronstadt ou a luta dos camponeses ucranianos, com Makhno, a revolução Húngara, em 1956, com a formação de conselhos operários (2) e o levantamento popular nalgumas das principais cidades do país, é um marco importante na história da dissidência e do combate pela liberdade desses povos.

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A propósito de um post de Raquel Varela


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A mediática e multifacetada investigadora e historiadora Raquel Varela, conhecida trotskista, defendia ontem em post no facebook que o estalinismo é a idade das trevas, tentando separar o estalinismo das suas raízes leninistas e marxistas. Escreve Raquel Varela que “todas as investigações das últimas décadas feitas a partir de arquivos russos provam um corte radical entre o leninismo e o estalinismo, e esse corte dá-se em 1928 – é nesse ano que se dá a colectivização forçada, a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra, o início da militarização da sociedade, é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para passar esse papel a ser desempenhado pelo chefe da polícia politica; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches.”

Uma visão muito parcial, esta de Raquel Varela, que serve os seus interesses, mas que não corresponde à verdade história. Basta ler o que escreveu Ida Mett, no seu livro sobre “Kronstadt” (editado em português), Emma Goldmann, Paul Avrich ou Voline, com a “Revolução Desconhecida”, sobre o levantamento dos camponeses ucranianos, ou ainda Rudolfo Rocker, sobre o esmagamento dos sovietes, para se perceber que a deriva da revolução russa – em que participaram empenhadamente milhares e milhares de operários, soldados e trabalhadores anarquistas – começou logo no início com o controlo selvático de toda a sociedade por parte do partido bolchevique. Esses ecos chegaram cedo a Portugal, ainda em 1921, nomeadamente com apelos para que a revolução russa e a intervenção autoritária do partido bolchevique não significassem a morte do ideal socialista.

Mas os gérmens do totalitarismo marxista remontam ao próprio Marx, como muito bem sublinha Luís Bernardes num comentário ao post de Raquel Varela. Escreve Luís Bernardes: “Tudo o que aconteceu com o estalinismo e o marxismo real tinha sido totalmente antecipado pelos anarquistas e, sobretudo, por Bakunin, que a este respeito lembrou, desde logo e referindo-se a Marx, que ““Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” A história, infelizmente, deu-lhe razão com a deriva da brutalidade soviética – mas o germe do totalitarismo, ao contrário do que a Raquel Varela opina, não está no estalinismo, mas sim no próprio marxismo – que permite o aparecimento de Estalines, Pol Pots e outros negreiros. A deriva totalitária e antisocialista da revolução russa deu-se logo com o esmagamento dos sovietes e o seu controlo total pelo partido bolchevique, o fim da liberdade de imprensa, a proibição e a prisão de todos os opositores (mesmo de esquerda) ao partido blochevique, o esmagamento da revolta de Kronstadt, a colectivização forçada dos pequenos camponeses e a guerra desenfreada levada a cabo contra o exército camponês de Makhno na Ucrânia. Staline foi apenas um epifenómeno duma gangrena mais profunda e que está inscrita nos genes teóricos do marxismo.”

Marx é um autor interessante e a sua obra deve ser estudada, mas o marxismo, enquanto corpo teórico e prático, não é flor que se cheire e em todos os países onde ascendeu ao poder mostrou o seu rosto de violência, atrocidades e morte, nos antípodas do mundo de liberdade e solidariedade que urge construir.

a.

(Utopia/Distopia) “Stalin competiu com Hitler quando mandou matar milhões de pessoas…”


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Totalitarismos e distopias

Os perigos que a revolução enfrentava justificaram rapidamente a existência de milhões de mortos devido à colectivização forçada dos campos a partir de 1928 e às purgas massivas entre 1936 e 1938.

Laura Vicente/ La Marea

Esta reflexão surge do meu interesse na natureza do totalitarismo e nas diferentes versões que pudemos analisar e estudar, especialmente no século XX, baseadas no governo de um líder ou de uma minoria, na inexistência de direitos e liberdades, com a consequente repressão e arbitrariedade cega no exercício do poder que não é regulado por nada nem por ninguém, impondo-se a vontade de quem o exerce.

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(memória libertária) Jornal ‘Avante’ de Évora (1921) publica apelo a favor da revolução russa e contra a ditadura bolchevique


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No dia 14 de Agosto de 1921 o quinzenário eborense “Avante”, propriedade do Grupo Editor Avante, publica um apelo dos anarco-sindicalistas russos para a defesa da revolução russa, mas já muito crítico do regime implantado pelo partido bolchevique. Em Portugal os ecos da revolução russa ainda estavam muito vivos entre os trabalhadores mais conscientes, embora muito deles já se começassem a aperceber de que a nova ditadura “do proletariado” era cada vez mais uma ditadura dos bolcheviques sobre o restante movimento operário e popular. Em Agosto de 1921 já tinha sido esmagada com mão de ferro, por Lenin e Trostky, a revolta dos marinheiros revolucionários de Kronstadt; as prisões já estavam cheias de anarquistas e a maior parte das suas sedes e jornais fechados; é também em Agosto de 1921 que o movimento revolucionário ucraniano liderado por Nestor Makhno é esmagado pelos bolcheviques e os seus principais dirigentes obrigados a deixarem a Ucrânia. Apesar deste contexto, os anarquistas russos tentam ainda salvar a revolução da sua deriva autoritária e pedem apoio internacional. Não o vão conseguir. A ditadura “soviética” reforça-se nos meses e anos que se seguem e muitos milhares de anarquistas e anarco-sindicalistas pagam com a liberdade e com a vida a sua fidelidade aos ideais revolucionários. Uma ditadura que se manterá de pé durante várias décadas, mantendo sempre características imperialistas, que levaram o “comunismo de estado” a implantar-se em diversos países. Já decadente e com menos vigor ideológico e repressivo do que em décadas anteriores, a ditadura dita “soviética” implodiu em finais da década de 80 deixando apenas saudades a alguns sectores mais extremistas e radicalizados do marxismo-leninismo para quem a “União Soviética” era “o sol do mundo”.

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25 anos da implosão das ditaduras “socialistas”: cada regime totalitário que cai é motivo de festa para quem sofre


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Passam hoje 25 anos sobre a queda do muro de Berlim que separava as duas Europas capitalistas. De um lado, a Europa do capitalismo liberal, do outro a Europa do capitalismo de estado. Muito (ou quase nada) as dividia: de um lado, o poder era exercido em nome do Capital e dos senhores do dinheiro. Do outro, alegadamente, em nome dos “trabalhadores” e (não se riam!) “do socialismo”. Nunca o foi: foi sempre em proveito de uma classe dirigente, capitalista, burocrática, que usou o poder do partido como mecanismo de opressão sobre toda a sociedade. Fazendo o que os estados totalitários sempre fizeram: esmagando as liberdades individuais e colectivas, transformando cada trabalhador numa peça de um mecanismo responsável pela morte, pela tortura e pela deportação de milhões de pessoas ao longo de uma ditadura de mais de 50 anos.  Hoje o mundo está melhor. Há ainda muitos muros para destruir, muitas janelas para abrir, mas a implosão, por dentro, das ditaduras do sistema soviético foi uma lufada de ar fresco cujos efeitos plenos ainda hoje não se fazem sentir na sua plenitude. Há franjas – cada vez mais insignificantes – que ainda estão ligadas a este terror que matou milhões de seres humanos a leste – em nome da liberdade e da igualdade, diziam eles. Um deles ainda é o PCP que não se redimiu do sangue que tem colado aos seus “pergaminhos”. Nada que Bakunin há mais de cem anos não tivesse antecipado: “Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão.”

Hoje como ontem a denúncia e o combate a todo o tipo de ditaduras – sejam do capitalismo liberal, sejam do capitalismo centralizado no Estado – é um imperativo dos libertários e dos anarquistas em geral. Hoje, como há 25 anos, há que assinalar a queda dessa “muralha de pedra” que fazia dos cidadãos do bloco leste prisioneiros e reféns na sua própria terra. À nossa medida, a queda do muro de Berlim pode ser comparada ao 25 de Abril. Com uma diferença: aqui, em Portugal, foram os militares que impuseram um golpe de força e levaram à queda do regime fascista; do outro lado do muro, foram milhões de mãos e de corpos que, fartos da privação de liberdade e de voz que lhes foi imposta em nome do “socialismo autoritário”, afastaram as pedras do cárcere e construíram janelas de liberdade.

Independentemente daquilo que seja hoje o seu quotidiano, com menos ou mais direitos, com menos ou mais satisfação material (como em Portugal), a queda do muro foi o abrir de uma porta, de muitas portas,  por onde o ar entrou de rompante e continua a entrar, destruindo o cinzentismo bafiento, repressivo e autoritário de regimes déspotas e totalitários que, como os do capital, deveriam ter os dias contados, mas que ainda persistem como peças de museu em países como a Coreia do Norte, a China (e a sua economia selvagem), Cuba (onde a “abertura” está a entregar os mais variados sectores da economia aos militares) ou nalgumas ditaduras peculiares ainda vigentes em África, como é o caso de Angola.

(Mundo) O neto anarquista de Che Guevara


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Canek Sánchez Guevara nasceu em Cuba, mas vive há muitos anos no México. É um elemento activo no Movimento Libertário Cubano e intervém em discussões e polémicas sobre a actualidade do anarquismo e a necessidade de uma transformação radical em Cuba. Tem a particularidade de ser neto de Che Guevara, o líder da revolução cubana que trocou as salas do poder pela guerrilha na selva boliviana, onde acabaria por morrer às mãos do exército. Sobre o avô, que não chegou a conhecer, diz que foi transformado “num objecto”, numa “mercadoria”.

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Canek Sánchez Guevara: “Ao meu avô Che o poder incomodava-o”

(Entrevista ao primeiro neto de Che Guevara, filho da sua filha primogénita Hilda Guevara, que morreu de cancro em La Habana).

Canek Sánchez Guevara tem um nome que provem de um rei maia, de um padre mexicano e de um apelido muito famoso, o do seu avô, o guerrilheiro Che Guevara. Nasceu em La Habana (1974). Há dois anos (2010) publicou “Diário de Bolivia” (Linkgua ediciones) e intervém agora no colóquio ‘Liberdades em Cuba: Para quem? Para quê?’

-Lí que estava cansado de lhe perguntarem por Che Guevara.

– De facto, eu não o conheci. Conheci-o através dos seus textos. Cresci num ambiente de esquerda radical fora de Cuba, mas pode alguém esquecer-se de quem é neto?

– É curioso que o mito do Che tenha crescido ao mesmo tempo que o neoliberalismo.

– De facto, foi a partir dos anos 80 que se tornou um objecto. É uma marca do capitalismo, reciclar a subversão na forma de mercadoria e a seguir vendê-la. E uma marca da subversão: criar heróis, mártires e mitos. Foi a esquerda que contribuiu para criar o mito.

– Também é seu fã?

– Não sou guevarista, parecer-me-ia de uma soberba terrível. Fascinou-me o facto de que, depois de ter chegado ao poder, o tenha abandonado para seguir a sua obsessão: a Revolução.

–Não gostava do poder.

–Sentia-se incomodado, jamais teve obsessão pelo poder.

– Que futuro vê para Cuba?

– Vivemos num mundo em que tudo parece estar a ser derrubado e Cuba não foge a isso.

–Fidel, Raúl Castro, melhor ou pior?

– Têm dois carácteres diferentes, mas o processo de democratização vai acontecer na era pós-Castro, nem com Fidel nem com Raúl. O sistema político cubano comportou-se como uma monarquia e não sei porque é que se continua a chamar socialismo. Raúl é mais pragmático. Poderia abrir esses espaços para a democracia.

– Mudou os fidelistas.

– O que há é uma maior presença das forças armadas em postos civis. Administram hotéis e serviços turísticos. São capitalistas de Estado, anti-liberais.

– E os cubanos o que pensam?

– A principal obsessão do cubano mais pobre é levar comida para a mesa.

– Face ao que está a acontecer em Cuba, que diria o seu avô se fosse vivo?

– Não posso atrever-me a pôr palavras ou ideias na boca de outras pessoas, seja o Che ou qualquer pessoa, porque apesar do merchandising continua a ser um desconhecido para muitos. Mas o que eu posso dizer é que ele se foi embora de Cuba.

SONIA GARCÍA GARCÍA

El Periódico de Catalunya (2012)

aqui: http://atriopress.blogspot.pt/2009/03/canek-sanchez-guevara-mi-abuelo-el-che.html

perfume

Em finais de Setembro a empresa estatal cubana “Labiofam” anunciava publicamente que iria lançar dois perfumes com os nomes “Ernesto” e “Hugo” em homenagem a Ernesto Che Guevara e a Hugo Chavéz. A polémica em Cuba, onde a pouco e pouco surgem meios de comunicação e espaços que escapam ao controlo estatal, não tardou a fazer-se ouvir, obrigando o governo cubano a vir anunciar que não autorizava a criação destes produtos, que os “símbolos eram sagrados” e que a comercialização destes perfumes era inadmissível (aqui).