marxismo

CEM ANOS DEPOIS DA CONTRA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE: MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE A DESTRUIÇÃO DAS NOSSAS LUTAS


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Este texto é somente um resumo, uma pequena recordação de um desastre histórico que ainda tem repercussões nas nossas lutas de hoje. Neste outubro de 2017, cem anos depois, cabe-nos a nós lembrar a apropriação bolchevique da Revolução Russa, que constituiu um desastre para a classe trabalhadora, um desastre para o povo russo e para todos os povos submetidos ao Império Russo, um desastre para os movimentos anticapitalistas à escala mundial, um desastre para quem procura liberdade, um desastre para a humanidade.

2Para a frente camaradas – para a contra revolução!

Um Desastre Previsível

A deriva contrarrevolucionária da URSS era previsível. Na verdade, Bakunine previu como uma «ditadura do proletariado» rapidamente se converteria em mais uma ditadura sobre o proletariado 50 anos antes de a Revolução Russa ter acontecido. Nos anos seguintes, muitos outros anticapitalistas chegaram à mesma conclusão. Era uma aposta bem segura, considerando a forma como os líderes da nova ditadura encontraram a sua inspiração noutra figura contrarrevolucionária, Karl Marx.

Não fazemos esta afirmação de ânimo leve, denunciado alguém como «contrarrevolucionário» que, sem sombra de dúvida, foi tão importante para as lutas anticapitalistas. Nem chegaríamos a dar esse passo por causa de simples desacordos teóricos. Foi só depois de um estudo minucioso das consequências das ações de Marx que chegámos a esta conclusão.

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(Escritos contra Marx) Bakunin sempre actual e à frente do seu tempo


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para ler e download: escritos-contra-marx-mikhail-bakunin

A revolta é um instinto da vida; até mesmo o verme se revolta contra o pé que o esmaga, e pode-se dizer que, em geral, a energia vital e a dignidade relativa de qualquer animal se pode avaliar pela intensidade do instinto de revolta que ele traz em si. No mundo selvagem, bem como no mundo humano, não há faculdade ou hábito mais degradante, mais estúpido e mais covarde do que obedecer e resignar-se.
– Mikhail Bakunin (Escritos contra Marx)

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“Um Estado, um governo, uma ditadura universal! O sonho dos Gregório VII, dos Bonifácio VIII, dos Carlos V e dos Napoleão, reproduzindo-se sob novas formas, mas sempre com as mesmas pretensões, no campo da democracia socialista!

Pode-se imaginar algo de mais burlesco, mas também de mais revoltante? Sustentar que um grupo de indivíduos, mesmo os mais inteligentes e os mais bem intencionados, será capaz de tornar o pensamento, a alma, a vontade dirigente e unificadora do movimento revolucionário e da organização económica do proletariado de todos os países é de uma tal heresia contra o senso comum e contra a experiência histórica que nos perguntamos, com perplexidade: como um homem tão inteligente quanto o Sr. Marx pôde concebê-la?

Os papas, ao menos, tinham por desculpa a verdade absoluta que eles diziam ter em mãos pela graça do Espírito Santo e na qual eram obrigados a crer. O Sr. Marx não tem absolutamente esta desculpa e não lhe farei a injúria de pensar que ele crê ter inventado cientificamente algo que se aproxime da verdade absoluta. Mas a partir do momento que o absoluto não existe, não pode existir para a Internacional dogma infalível nem, consequentemente, teoria política ou económica oficial, e nossos congressos nunca devem assumir o papel de concílios ecuménicos proclamando princípios obrigatórios para todos os associados e fiéis.

Só existe uma única lei realmente obrigatória para todos os membros, indivíduos, seções e federações da Internacional, da qual esta lei constitui a verdadeira, a única base: é, em toda a sua extensão, em todas as suas consequências e aplicações, A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES DE TODAS AS PROFISSÕES E DE TODOS OS PAÍSES EM LUTA ECONÓMICA CONTRA OS EXPLORADORES DO TRABALHO. É na organização real desta solidariedade, pela ação espontânea das massas operárias de todas as línguas e de todas as nações, e não em sua unificação por decretos, nem sob a batuta de um governo qualquer, que reside unicamente a unidade real e viva da Internacional.

É desta organização cada vez mais ampla da solidariedade militante do proletariado contra a exploração burguesa que deve sair e surge, com efeito, a luta política do proletariado contra a burguesia. Quem pode duvidar disso? Os marxistas e nós somos unânimes nesse ponto. Entretanto, apresenta-se de imediato a questão que nos separa tão profundamente dos marxistas.

Pensamos que a política, necessariamente revolucionária, do proletariado deve ter por objetivo imediato e único a destruição dos Estados. Não compreendemos que se possa falar da solidariedade internacional quando se quer conservar os Estados, — a menos que se sonhe com o Estado universal, isto é, com a escravidão universal, como os grandes imperadores e os papas, — o Estado, por sua própria natureza, por ser uma ruptura desta solidariedade, é, em consequência, uma causa permanente de guerra. Também não concebemos que se possa falar da liberdade do proletariado ou da libertação real das massas no Estado e pelo Estado. Estado quer dizer dominação, e toda dominação supõe a subjugação das massas e, desta forma, a sua exploração em proveito de uma minoria governamental qualquer.

Não admitimos, nem mesmo como transição revolucionária, as Convenções Nacionais, as Assembleias Constituintes, os governos provisórios ou as ditaduras pretensamente revolucionárias; porque estamos convictos de que a revolução só é sincera, honesta e real, nas massas, e que, quando ela se encontra concentrada nas mãos de alguns indivíduos governantes, torna-se inevitável e, imediatamente, reação. Tal é a nossa crença, e este não é o momento para desenvolvê-la.

Os marxistas professam ideias totalmente contrárias. Eles são adoradores do poder do Estado, e necessariamente também os profetas da disciplina política e social, os campeões da ordem estabelecida de cima para baixo, sempre em nome do sufrágio universal e da soberania das massas, às quais reservam a felicidade e a honra de obedecer a chefes, a mestres eleitos. Os marxistas não admitem absolutamente outra emancipação senão a que eles esperam de seu Estado pretensamente popular (Volksstaat). Eles são tão pouco inimigos do patriotismo que a sua própria Internacional traz muito frequentemente as cores do pangermanismo. Existe entre a política bismarckiana e a política marxista uma diferença sem dúvida muito sensível, mas entre os marxistas e nós há um abismo. Eles são governamentais; nós, anarquistas.

Tais são as duas principais tendências políticas que hoje separam a Internacional em dois campos.”

Mikhail Bakunin – CARTA AO JORNAL LA LIBERTE, DE BRUXELAS 

(1917-2017) Nos 100 anos da Revolução Russa


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Os anarquistas e anarcosindicalistas russos estiveram entre os militantes mais activos em todo o processo revolucionário russo, mas também foram aqueles que mais depressa denunciaram e combateram o controlo exercido pelo partido bolchevique sobre os sovietes, a militarização da economia e o despotismo de um pequeno núcleo de dirigentes sobre a imensa maioria do povo, gerando, logo desde o início, práticas ditatoriais e não democráticas que transformaram a União Soviética na tumba do socialismo autoritário. As críticas a estes métodos autoritários, próprios do marxismo e acentuados pelo leninismo e pelo partido único, já tinham sido feitas por vários anarquistas, entre os quais Bakunine, e foram retomados no terreno por muitos outros. Entre estes, desde logo, Emma Goldman, de origem lituana, mas que tendo emigrado muito jovem para os Estados Unidos voltou à Rússia depois da revolução. Serviu de intermediária entre o governo do Partido Bolchevique e os marinheiros insurrectos de Kronstadt e foram dela as primeiras críticas e denúncias face ao terror bolchevique sobre os trabalhadores e à deriva da Revolução que tantos sonhos tinha gerado. Nas próximas semanas iremos publicando – aqui no Portal Anarquista – textos sobre a Revolução Russa e a sua degenerescência, de forma a provocar o debate em torno deste acontecimento que, 100 anos depois, permanece ainda submerso na mitologia e na mentira construída por aqueles que em nome da “ditadura do proletariado” ergueram sobre os trabalhadores russos e dos países limítrofes uma das mais ferozes ditaduras do século XX.

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As causas do fracasso da revolução russa

Emma Goldman

Ficam agora bem claros os motivos que fizeram com que a Revolução Russa, tal como foi conduzida pelo Partido Comunista, fosse um fracasso. O poder político do partido, organizado e centralizado no Estado, procurou manter-se utilizando todos os meios de que dispunha. As autoridades centrais tentaram fazer com que o povo agisse de acordo com modelos que correspondiam aos propósitos do Partido, cujo único objetivo era fortalecer o Estado e monopolizar todas as atividades econômicas, políticas e sociais e até mesmo as manifestações culturais. A Revolução tinha objetivos totalmente diferentes pelas suas próprias características, era a negação do princípio da Autoridade e da centralização. Ela lutava para alargar ainda mais os meios de expressão do proletariado e multiplicar as fases do esforço individual e coletivo. Os objetivos e as tendências da Revolução eram diametralmente opostos àqueles do Partido Governante.

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Nos 60 anos da Revolução Húngara: um sopro de liberdade esmagado pelos tanques soviéticos


Se a queda do muro de Berlim constituiu a 9 de Novembro de 1989, simbolicamente e na prática, o fim do bloco soviético e de mais de 70 anos de terror em nome do “socialismo” e do “comunismo” autoritários, como tinha sido antecipado por Bakunin (1), já há muitos anos que os regimes de tipo marxista-leninista, ditatoriais e de capitalismo de estado, eram contestados por largos estratos da população nos mais diversos países do chamado “Pacto de Varsóvia”.

Sem considerar os levantamentos protagonizados por grandes movimentos de trabalhadores logo no início da ditadura dita soviética, como Kronstadt ou a luta dos camponeses ucranianos, com Makhno, a revolução Húngara, em 1956, com a formação de conselhos operários (2) e o levantamento popular nalgumas das principais cidades do país, é um marco importante na história da dissidência e do combate pela liberdade desses povos.

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A propósito de um post de Raquel Varela


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A mediática e multifacetada investigadora e historiadora Raquel Varela, conhecida trotskista, defendia ontem em post no facebook que o estalinismo é a idade das trevas, tentando separar o estalinismo das suas raízes leninistas e marxistas. Escreve Raquel Varela que “todas as investigações das últimas décadas feitas a partir de arquivos russos provam um corte radical entre o leninismo e o estalinismo, e esse corte dá-se em 1928 – é nesse ano que se dá a colectivização forçada, a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra, o início da militarização da sociedade, é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para passar esse papel a ser desempenhado pelo chefe da polícia politica; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches.”

Uma visão muito parcial, esta de Raquel Varela, que serve os seus interesses, mas que não corresponde à verdade história. Basta ler o que escreveu Ida Mett, no seu livro sobre “Kronstadt” (editado em português), Emma Goldmann, Paul Avrich ou Voline, com a “Revolução Desconhecida”, sobre o levantamento dos camponeses ucranianos, ou ainda Rudolfo Rocker, sobre o esmagamento dos sovietes, para se perceber que a deriva da revolução russa – em que participaram empenhadamente milhares e milhares de operários, soldados e trabalhadores anarquistas – começou logo no início com o controlo selvático de toda a sociedade por parte do partido bolchevique. Esses ecos chegaram cedo a Portugal, ainda em 1921, nomeadamente com apelos para que a revolução russa e a intervenção autoritária do partido bolchevique não significassem a morte do ideal socialista.

Mas os gérmens do totalitarismo marxista remontam ao próprio Marx, como muito bem sublinha Luís Bernardes num comentário ao post de Raquel Varela. Escreve Luís Bernardes: “Tudo o que aconteceu com o estalinismo e o marxismo real tinha sido totalmente antecipado pelos anarquistas e, sobretudo, por Bakunin, que a este respeito lembrou, desde logo e referindo-se a Marx, que ““Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” A história, infelizmente, deu-lhe razão com a deriva da brutalidade soviética – mas o germe do totalitarismo, ao contrário do que a Raquel Varela opina, não está no estalinismo, mas sim no próprio marxismo – que permite o aparecimento de Estalines, Pol Pots e outros negreiros. A deriva totalitária e antisocialista da revolução russa deu-se logo com o esmagamento dos sovietes e o seu controlo total pelo partido bolchevique, o fim da liberdade de imprensa, a proibição e a prisão de todos os opositores (mesmo de esquerda) ao partido blochevique, o esmagamento da revolta de Kronstadt, a colectivização forçada dos pequenos camponeses e a guerra desenfreada levada a cabo contra o exército camponês de Makhno na Ucrânia. Staline foi apenas um epifenómeno duma gangrena mais profunda e que está inscrita nos genes teóricos do marxismo.”

Marx é um autor interessante e a sua obra deve ser estudada, mas o marxismo, enquanto corpo teórico e prático, não é flor que se cheire e em todos os países onde ascendeu ao poder mostrou o seu rosto de violência, atrocidades e morte, nos antípodas do mundo de liberdade e solidariedade que urge construir.

a.

(Utopia/Distopia) “Stalin competiu com Hitler quando mandou matar milhões de pessoas…”


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Totalitarismos e distopias

Os perigos que a revolução enfrentava justificaram rapidamente a existência de milhões de mortos devido à colectivização forçada dos campos a partir de 1928 e às purgas massivas entre 1936 e 1938.

Laura Vicente/ La Marea

Esta reflexão surge do meu interesse na natureza do totalitarismo e nas diferentes versões que pudemos analisar e estudar, especialmente no século XX, baseadas no governo de um líder ou de uma minoria, na inexistência de direitos e liberdades, com a consequente repressão e arbitrariedade cega no exercício do poder que não é regulado por nada nem por ninguém, impondo-se a vontade de quem o exerce.

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(memória libertária) Jornal ‘Avante’ de Évora (1921) publica apelo a favor da revolução russa e contra a ditadura bolchevique


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No dia 14 de Agosto de 1921 o quinzenário eborense “Avante”, propriedade do Grupo Editor Avante, publica um apelo dos anarco-sindicalistas russos para a defesa da revolução russa, mas já muito crítico do regime implantado pelo partido bolchevique. Em Portugal os ecos da revolução russa ainda estavam muito vivos entre os trabalhadores mais conscientes, embora muito deles já se começassem a aperceber de que a nova ditadura “do proletariado” era cada vez mais uma ditadura dos bolcheviques sobre o restante movimento operário e popular. Em Agosto de 1921 já tinha sido esmagada com mão de ferro, por Lenin e Trostky, a revolta dos marinheiros revolucionários de Kronstadt; as prisões já estavam cheias de anarquistas e a maior parte das suas sedes e jornais fechados; é também em Agosto de 1921 que o movimento revolucionário ucraniano liderado por Nestor Makhno é esmagado pelos bolcheviques e os seus principais dirigentes obrigados a deixarem a Ucrânia. Apesar deste contexto, os anarquistas russos tentam ainda salvar a revolução da sua deriva autoritária e pedem apoio internacional. Não o vão conseguir. A ditadura “soviética” reforça-se nos meses e anos que se seguem e muitos milhares de anarquistas e anarco-sindicalistas pagam com a liberdade e com a vida a sua fidelidade aos ideais revolucionários. Uma ditadura que se manterá de pé durante várias décadas, mantendo sempre características imperialistas, que levaram o “comunismo de estado” a implantar-se em diversos países. Já decadente e com menos vigor ideológico e repressivo do que em décadas anteriores, a ditadura dita “soviética” implodiu em finais da década de 80 deixando apenas saudades a alguns sectores mais extremistas e radicalizados do marxismo-leninismo para quem a “União Soviética” era “o sol do mundo”.

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