Mês: Agosto 2013

(Solidariedade) “Paro Agrario e Popular” dura há 12 dias na Colômbia


paro

Na Colômbia desde o passado dia 19 de Agosto está em marcha o “Paro Agrário” que mobiliza milhares de camponeses. Uma das formas de luta é o bloqueio e a paralisação de muitas estradas e vias de comunicação. O exército interveio em várias situações e o porta-voz da Mesa Nacional de Interlocución Agropecuaria y Popular (MIA) Húber Balltesteros foi detido.

Libertar o companheiro Ballesteros e apoiar a Fensuagro, são as as tarefas do movimento solidário com a Colômbia

O paro agrário e popular convocado pelas principais organizações populares colombianas desde 19 de Agosto cresce em magnitude e convocatórias a cada dia que passa. Ainda que o governo trate de minimizá-lo através do silenciamento da imprensa alternativa e a sua invisibilização na imprensa oficial, mediante o terrorismo de Estado na figura da ESMAD (Esquadrão Móvel Anti-Distúrbios), da polícia e do exército (que já fizeram quatro mortos, centenas de feridos e de presos), e mediante a cooptação de certos sectores do movimento do movimento popular, fazendo negociações sectoriais ou regionais, que não têm por objectivo mudar nada, senão desactivar o protesto, os sectores populares que se juntam a esta paralisação têm crescido fortemente. Dentro do arsenal de estratégias repressivas para acabar com o movimento social, o governo deitou mão do seu “chapéu de mágico” – os alegados computadores de comandantes da guerrilha abatidos – com os quais inventa processos judiciais espúrios contra os seus opositores.

A mais recente vítima destas montagens é o companheiro Húber Ballesteros, porta-voz da mais importante instância de coordenação do protesto, a Mesa Nacional de Interlocución Agropecuaria y Popular (MIA), para além de ser destacado dirigente da Federación Nacional Sindical Unitaria Agropecuaria (Fensuagro) y da Central Unitaria de Trabajadores (CUT), assim como da Marcha Patriótica. Tanto a Fensuagro como a o companheiro Húber Ballesteros sofreram uma perseguição encarniçada desde há muito tempo, sendo um dos sobreviventes do genocídio da União Patriótica.

É importantíssimo neste momento tornar a palavra de ordem “o ataque a um é um ataque a todos” uma realidade. É imprescindível exigir a libertação do companheiro Ballesteros e de todos os presos judicializados com provas espúrias, sejam os desacreditados computadores, seja a ilegítima Lei de Segurança Cidadã, criada para reprimir e criminalizar o protesto social. (…)

José Antonio Gutiérrez D.
29 de Agosto, 2013

aqui: ler mais

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Húber Ballesteros, dirigente camponês e porta-voz da Mesa Nacional de Interlocución Agropecuaria y Popular, detido no actual “paro agrario e popular” na Colômbia

A cara e a coroa do totalitarismo


tchekista

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Nos últimos dias li dois livros diferentes, debruçados e construídos sobre dois cenários distintos, mas assentes na mesma realidade tenebrosa que manchou de sangue várias décadas do século XX – o totalitarismo, fosse ele de raiz nacional-socialista ou de carácter marxista-leninista.

Existindo diferenças entre ambos, os dois modelos de organização social representam um tipo de sociedade assente no poder do Estado (e dos grupos que dele se apoderaram) e na destruição daquilo que é único e inalienável em cada um de nós – a individualidade.

Havendo mais traços em comum, bastava isto para os tornar similares. São regimes de terror, em nome de ideais futuros em que os “fins” (desde a “raça ariana pura” até “aos amanhãs que cantam”) justificam todos os meios. E um dos meios é o do medo e o da destruição do indivíduo, enquanto ser único, primeiro passo para destruir o grupo, a “raça” ou a “classe” de pertença, sublimemente descritos por Primo Levi (que o viveu – e de que forma! – em Auschwitz) e por Vladimir Zazúbrin, um escritor soviético, membro do PCUS, e presidente da União dos Escritores Siberianos, que escreveu uma novela profundamente realista sobre a primeira polícia política pós-revolução, “O Tchekista”.

São dois testemunhos escritos a sangue. Primo Levi pôde escrever o seu “Se Isto é um Homem” porque foi libertado do campo de concentração de Auschwitz pelos soldados soviéticos, dirigidos por Stalin, ele próprio responsável pelo degredo, tortura e morte de milhares de correligionários seus – entre os quais Vladimir Zazúbrin, cuja novela (escrita em 1923) só foi publicada pela primeira vez em 1989, depois da queda do muro.

Escreve Vladimir Zazúbrin: “É necessário organizar o terror de tal maneira que o trabalho do carrasco executor quase se não distinga do trabalho do dirigente teórico. Um disse que o terror é necessário, o outro carregou no botão da máquina automática de fuzilar (…) No futuro, a sociedade humana “esclarecida” livrar-se-á dos seus elementos supérfluos ou criminosos por meio de gazes, electricidade, bactérias mortíferas”.

Duas décadas depois este “sonho”  bolchevique e tchekista era realizado pelo nacional-socialismo alemão, nos campos de extermínio e morte. O tiro na nuca às dezenas de executados diariamente pela Tcheka foi substituído pelos milhares de gazeados dos campos de concentração nazis.

“A notícia chegou, como sempre, acompanhada por uma auréola de pormenores contraditórios e suspeitos: hoje mesmo de manhã houve selecção na enfermaria: a percentagem foi de sete por cento do total, de trinta, de cinquenta por cento dos doentes. Em Birkenau, a chaminé do Forno Crematório fumega há dez dias”, escreve Primo Levi.

Num e noutro tempo histórico, o objectivo é o mesmo: destruir o que há de individual em cada ser humano. Os presos eram obrigados a despirem-se e a esperarem, nus, a morte. Para a humilhação ser maior.

Escreve Vladimir Zazúbrin, no Tchekista“em França, havia as guilhotinas, as execuções públicas. Entre nós, há a cave. A execução secreta. As execuções públicas envolvem a morte do criminoso, mesmo do mais perigoso, numa auréola de martírio, de heroísmo. As execuções públicas fazem publicidade, dão força moral ao inimigo. As execuções públicas deixam aos parentes e amigos um cadáver, uma sepultura, as últimas palavras, a última vontade, a data exacta da morte. É como se o executado não fosse completamente destruído. A execução secreta, numa cave, sem quaisquer emoções exteriores, sem anúncio de sentença, a morte súbita, tem nos inimigos um efeito esmagador. Uma máquina enorme, impiedosa, omnisciente que agarra inesperadamente as suas vítimas e as absorve como uma picadora de carne. Depois da execução não se sabe o dia exacto da morte, não há últimas palavras, nem cadáver, nem sequer sepultura. É o vazio. O inimigo é completamente destruído”.

Duas décadas depois escreve Primo Levi no seu Se isto é um Homem: “Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva”.

Os crimes contra a humanidade praticados pelo nazismo foram julgados em Nuremberga. Os crimes praticados pelo marxismo-leninismo, como ideologia de terror e morte (União Soviética, China, Cambodja, Coreia do Norte, alguns regimes africanos…), estão a ser julgados todos os dias pela humanidade. O ódio e o terror contra uma raça  (judeus, negros, ciganos) ou contra um qualquer inimigo (de grupo, classe, ideologia) não são diferentes e estes dois livros retratam-no de forma eloquente.

Em nome da Revolução, anarquistas contra a intervenção ocidental na Síria


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Sobre Intervenções e a Revolução Síria

Por Darth Nader (*)

A revolução na Síria começou como uma luta pela autodeterminação. O povo sírio exigiu poder decidir o seu próprio destino. E, por mais de dois anos, contra todas as probabilidades, e enfrentando a repressão maciça e a destruição do regime de Assad, ela tem prosseguido.

No decurso do processo revolucionário têm aparecido também muitos outros actores em cena a trabalharem contra a luta pela autodeterminação. O Irão e as suas milícias, com o apoio da Rússia, veio em auxílio do regime para garantir quer não fosse dado esse direito ao povo sírio. Os jihadistas do “Estado Islâmico do Iraque e Sham” (1) e outros, sob o pretexto da “luta contra o regime de Assad”, agiram também contra esse direito. E considero que o mesmo vai acontecer com qualquer tipo de intervenção ocidental.

Alguns argumentam que já percorremos um longo caminho, e que o que está em causa já não é a autodeterminação, mas simplesmente parar os massacres. Esta é uma posição que eu não posso apoiar. Se se tratasse apenas de parar os massacres, eu teria apoiado os jihadistas quando eles chegaram, pois, ninguém o pode negar, eles eram os que estavam melhor armados e mais bem equipados para desafiar o regime de Assad. Mas eu não o fiz, e muitos outros não o fizeram, porque sabíamos que, apesar da sua capacidade para enfrentar o regime, eles não partilhavam os objectivos do povo sírio. Eles pretendiam controlar o povo sírio e sufocar a sua capacidade de escolherem o seu próprio destino. Por isso, a sua postura era contra-revolucionária, mesmo lutando contra o regime.

E, agora, face a uma possível intervenção ocidental na Síria, eu mantenho a mesma posição. Muitos dirão que estou a ser apenas ideológico e que me deveria concentrar apenas em parar a matança; mas essas pessoas estão a ignorar que, mesmo em termos pragmáticos e seguindo a sua linha de raciocínio, esse argumento não possui qualquer relevância uma vez que os Estados Unidos têm repetido insistentemente que “estes ataques serão apenas punitivos” e que “não pretendem derrubar o regime”. Qual a indicação de que estes ataques vão influenciar alguma coisa o fim dos massacres ou a “resolução” da crise síria?

A questão da soberania não é importante para mim. A Síria tornou-se numa terra de todos menos dos Sírios. Não é pelo mito da soberania da Síria que me oponho à intervenção do Ocidente. Nem pela perspectiva da destruição da Síria, pois ela já foi destruída por este regime criminoso. Oponho-me a uma intervenção ocidental porque ela vai contra a luta pela autodeterminação, isto é, contra a Revolução Síria.

Assad usou armas químicas contra o seu próprio povo. Eu não tenho nenhuma dúvida acerca disso. E isso poderia ter sido evitado se tivessem sido dadas à resistência síria armas que inclinassem a balança contra o regime. Mas as potências estrangeiras não se mexeram e, não querendo que Assad ganhe, também não querem que a resistência ganhe. Não podiam dar armas ao povo sírio para se defender, porque, segundo eles, não sabiam em que mão elas poderiam cair. Elas poderiam, acidentalmente, acabar nas mãos dos sírios que pretendem determinar o seu próprio destino apesar dos interesses estrangeiros!

Desta forma temos o círculo completo. Ninguém armou a resistência síria, por isso são mortos pelo regime ou forçados a colocarem-se ao lado da infiltração jihadista. Assad usou armas químicas contra os sírios e o Ocidente quer responder e dar uma lição a Assad, uma resposta que garanta também que os sírios não tenham uma palavra a dizer em relação ao seu futuro. Mas o regime provavelmente vai sobreviver a qualquer intervenção ocidental “punitiva” e os massacres provavelmente não vão terminar.

Mas apesar de tudo isto, a revolução na Síria e, no seu coração,  a luta do povo sírio pela sua libertação e para poder decidir o seu próprio destino, vai continuar.

(*) Darth Nader é um anarquista sírio que tem analisado por diversas vezes o processo revolucionário na Síria, seja na imprensa libertária, seja no seu blogue. (aqui)

1) O Islamic State of Iraq and the Levant (Arabic: الدولة الاسلامية في العراق والشام‎ اختصاراً: داعش Dawlat al-ʾIslāmiyya fi al-‘Iraq wa-l-Sham) foi criado em 2006 e junta vários grupos rebeldes iraquianos. É um dos grupos islamistas que está fortemente infiltrado na Síria. (NdT)

aqui: http://darthnader.net/2013/08/27/on-interventions-and-the-syrian-revolution/

SyriaCoffin

(organização) Breve crónica do Congresso da FIJL em Candás (Astúrias) entre os dias 1 a 4 de Agosto de 2013


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Entre os dias 1 e 4 de Agosto, a Federação Ibérica de Juventudes Libertárias celebrou o seu Congresso Peninsular na Casa do Povo da localidade asturiana da Candás (Carreño). Ainda que um relato ampliado do que ali se passou vá aparecer na próxima edição do “Fuelle” (o órgão de expressão e combate da FIJL), queríamos destacar as mudanças mais relevantes que foram aprovadas e fazer um esboço do que pensamos ser mais um passo na reorganização da juventude para a luta contra qualquer forma de poder.

Consideramos que a alteração fundamental foi a mudança aprovada na nossa estrutura orgânica. A base organizativa da FIJL até este Congresso foram exclusivamente os grupos de afinidade e as os indivíduos, sendo os primeiros os únicos com capacidade de decisão. Os grupos de afinidade são formados por indivíduos que possuem uma proximidade entre si, seja ao nível teórico seja metodológico, a qual lhes permite amadurecer uma visão mais concreta do anarquismo e das múltiplas questões que este tem que enfrentar. Os indivíduos são pessoas federadas que não estão integradas em nenhum grupo, dadas circunstâncias conjunturais, mas que se entendem como o gérmen de novos grupos. Estes carecem de capacidade de decisão, uma vez que não têm possibilidade de levar à prática as decisões comuns que são tomadas, podendo acontecer, se assim não fosse, uma dissociação entre quem decide e quem executa, tal como existe nas organizações delegacionistas.

Os acordos alcançados neste último Congresso ampliam a base orgânica da FIJL aos grupos abertos e aos grupos de trabalho. Os grupos abertos são compostos pro indivíduos cuja afinidade não está consolidada, mas que têm como referente mínimo o Pacto Associativo e os acordos gerais da FIJL. Os grupos de trabalho, por outro lado, são formulas impulsionadas por grupos de afinidade ou indivíduos para trabalharem conjuntamente com outros indivíduos interessados na Federação, face a um futuro ingresso. Estes últimos grupos de trabalho, diferentemente dos outros, não têm qualquer peso orgânico, de maneira que não se cria uma dupla militância, incompatível para aqueles que também integrem grupos de afinidade ou individuais.

Entendemos que a existência de laços de afinidade nos termos antes referidos não é sempre fácil entre jovens, uma vez que requere anos de militância conjunta. De qualquer modo, cada localidade tem problemas, possibilidades e capacidades diferentes pelo que em cada local se poderá escolher o modo de funcionamento que melhor potencie a implantação da Federação como forma de organização da juventude anarquista e de luta contra a opressão.

Ainda assim, considera-se que a afinidade deve ser a aspiração. Por um lado, porque o grupo de afinidade é a fórmula que consideramos idónea para responder às diferentes necessidades imediatas, tanto da federação, como dos diferentes desafios sociais, pela sua capacidade de acção rápida, efectiva e concreta ao partilhar uma visão afim da realidade, das problemáticas que a afectam e da luta. Por outro lado, pelo desenvolvimento pessoal que a existência de fortes vínculos de afinidade proporciona a cada indivíduo, vínculos criados na luta conjunta que escapam à lógica desta sociedade superficial de consumo.

Naturalmente que estas decisões não estiveram isentas de debate, uma vez que se colocou a possibilidade de virem a existirem problemas devido a um crescimento repentino da organização, que pudesse desestabilizar a afinidade e a coesão internas. No entanto, apostou-se na manutenção do processo de avaliação já existente para evitar este tipo de problemas, que já surgiram mais do que uma vez no seio das organizações anarquistas. Em resumo, a realidade da  FIJL foi perfeitamente entendida como uma organização específica. Como uma organização que não pode permanecer hermética à juventude, mas que, de modo algum, é uma organização de massas, em que qualquer pode entrar sem um compromisso ideológico e militante prévio.

Para além das mudanças na estrutura foram debatidos temas importantes como os que se prendem com a violência e a sua relação com o anarquismo e a chamada “unidade de acção” e o “frentismo populista” como caso específico juvenil, em que reafirmámos a convicção de que não podemos diluir as nossas ideias na rua, colaborando com organizações que são contrárias às mesmas. Tendo em conta o interesse do debate, no próximo “Fuelle” vamos desenvolver estes temas, tentando recolher o sentir das propostas iniciais, das diferentes posições a as conclusões que foram alcançadas.

De qualquer modo, foi aprovada a realização de uma ampla conferência sobre anarquismo e juventude em que possam ser analisados em detalhe os pontos do encontro e desencontro entre os distintos modelos organizativos em que a juventude anarquista tem apostado. Esperamos tornar públicas rapidamente as primeiras propostas.

Por último, gostaríamos de expressar o nosso apreço e mandar uma forte saudação libertária a todos aqueles que, estando presentes ou não, mostraram o seu apoio à nossa Federação, sobretudo à CNT-AIT de Candás pelo seu acolhimento e esforço, desejando-lhes força e êxito no seu labor anarco-sindicalista. Foram quatro dias de companheirismo, de debate e de trabalho para estreitarmos os nossos laços de afinidade. Quatro dias para fortalecer uma organização, que integra um amplo movimento anarquista e que realizaram com êxito este Congresso no município de Carreño, graças precisamente a esse companheirismo e saber fazer d@s companheir@s da organização.

PELA AUTOORGANIZAÇÃO DA JUVENTUDE!

CONTRA O ESTADO, O CAPITAL E OS SEUS FALSOS OPOSITORES!

VIVA A ANARQUIA!

Aqui: http://www.nodo50.org/juventudeslibertarias/?e=127

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(memória libertária) Há 100 anos: O proletariado agrícola de Évora contra a República dos “doutores”!


 Dórdio Gomes - Cabeça de Ceifeiro Alentejano

Dórdio Gomes – Cabeça de Ceifeiro Alentejano

O «Estado de Sítio» de 1912 às portas da «revolução social»?

«O dia 13 de Março é, pois, uma data que marca
o divórcio da República com o proletariado
»
– In jornal Terra Livre, n.º 6, 20 de Março de 1913

©Joaquim Palminha Silva*

No mês de Janeiro de 1912, uma escaldante greve estalou em Évora, na sequência da recusa dos agrários em quererem pagar aos assalariados rurais os preços da jorna (de sol a sol!) até aí praticados.

Atente-se bem: – Não havia sequer reivindicação para aumento de salário, mas apenas a defesa da manutenção do antigo que, entretanto, os latifundiários queriam reduzir, remontando ao tempo da Monarquia!

O Governo da República “esquecera-se” de que havia operários e uma série de questões que eram toda a questão social, por conseguinte, pela inépcia, pela violência, pela repressão de direitos e garantias, pela prisão e deportação de centenas de operários vai provar paulatinamente que a questão social foi para si um caso de subversão e, como tal, uma vez criminalizada, deveria ser tratada em consequência. O «divórcio» entre o operariado e a República (ideia que implica um “casamento” de que não estou certo ter acontecido) não é consumado de forma brutal em 1912, dado que vem do ano anterior.

A 19 de Março de 1911, os efectivos militares da ex-Guarda Municipal da Monarquia, baptizados entretanto de Guarda Nacional Republicana (com activistas maçónicos nas fileiras?) (1), haviam feito rolar, nas calçadas de Setúbal, a vida de dois populares, Mariana Torres e António Mendes, participantes num cortejo pacífico de operários conserveiros grevistas, que desfilavam na Avenida Luísa Todi.

O regime da República que havia esquecido a questão social, ensaiava agora o Poder de Estado em termos “modernos”, supostamente menos “paternalistas” do que no tempo da Monarquia, policialmente mais selectivo, mais atento às movimentações operárias e, nesta ordem de ideias, disposto a reduzir as liberdades democráticas “se fosse caso disso”.

Nesse mês de Janeiro de 1912, enquanto os trabalhadores deliberaram proclamar a greve geral de protesto, o Governador Civil de Évora, o cidadão António Paulino de Andrade, promoveu algumas medidas de policiamento à cidade, incluindo a proibição de entrada intra-muros dos trabalhadores rurais dos arredores, acampados nos arredores, e o encerramento de algumas sedes locais de Associações de Classe (sindicatos), (2). Estas medidas colocaram automaticamente o regime republicano ao lado dos grandes agrários (de resto, partidários da Monarquia).

E a alternativa do diálogo? – Tal opção não ocorre ao patronato latifundiário, nem aos “doutores” do novo regime. Mas veio à ideia dos trabalhadores rurais de Évora que, apesar de tudo, ainda acreditavam no “bom-senso” dos “jacobinos”… Talvez esperassem do governo da República a arbitragem do conflito

Os delegados da Associação de Classe do Trabalhadores Agrícolas de Évora, nomeados em assembleia geral, seguem para Lisboa a tentar sensibilizar o governo central e, para Évora, veio o deputado Inocêncio Camacho (3), com o objectivo de averiguar a situação e apresentar o respectivo relatório ao governo.

Largo e Porta de Avis cerca de 1910.
No dia 24 de Janeiro de 1912 acontece um sangrento percalço em Évora: – Uma patrulha da GNR decide dar ordens de dispersão a um grupo de trabalhadores que se encontravam na rua. A troca de insultos faz com que os ânimos se exaltem e, naturalmente, a GNR armada faz fogo sobre os trabalhadores desarmados, de que resulta um morto e vários feridos com menor ou maior gravidade entre os populares.

Entretanto, o Governo é informado pelo deputado Inocêncio Camacho que, em síntese, conseguira averiguar quanto a greve geral dos trabalhadores agrícolas em Évora havia saído de um incitamento [descoberta brilhante!] dos seus «chefes» aos «aldeões», tendo declarado estes últimos às populações que «podiam saquear». Informava tal o deputado, sem contudo apresentar garantias fiáveis sobre a confirmação desta afirmação. Claro que, compulsado o relatório do deputado e a imprensa da época, ainda hoje se está para saber quem, como, quando se disse para saquear… em Évora. Enfim, o segredo morreu com Inocêncio Camacho.

Devemos referir que o relatório do deputado Inocêncio Camacho apareceu publicado no jornal O Século! O seu conteúdo exasperou dirigentes e militantes destacados do movimento operário da capital (então de formação anarco-sindicalista), de tal ordem eram as patranhas, as alucinações e os disparates. Por exemplo, a determinado passo dizia-se que o movimento grevista era manipulado por «elementos reaccionários», de «mistura com anarquistas» e, veja-se, «adversários pessoais do sr. governador civil»…Como se pode constatar, a greve geral em Évora, segundo o relatório publicado pel’O Século, seguia de perto as descrições do jornal do Partido Republicano de Évora, A Voz Pública.

O governo da República e os seus representantes em Évora, os “doutores” e “jacobinos” de ontem, davam agora ordem aos militares armados para dispararem, se necessário, contra a organização pacífica e desarmada dos trabalhadores rurais e, assim, “irrefletidos”, acabaram por escolheram a “barricada” do patronato agrário alentejano que, de resto, continuava monárquico!

Do caderno reivindicativo dos trabalhadores rurais de Évora destacam-se algumas alíneas: – Liberdade para todos os companheiros entretanto presos pelo Exército, às ordens do governador civil de Évora; reabertura da sede da Associação de Classe (sede no Largo de S. Domingos) na cidade; demissão do governador civil que se manifestara parcial, e como que mandado pelos latifundiários.

De todas as reivindicações o governo dos “doutores” apenas satisfez a seguinte: reabertura da Associação em Évora. Todavia repare-se nesta forma “siciliana” de actuação governamental: – Para autorizar a reabertura da sede da Associação dos Trabalhadores Agrícolas de Évora, o governo central exigia como “fiança”, e entregues ao poder judicial, a prisão de dois operários, de preferência dirigentes!

O rebaixamento de salários era impensável e a derradeira atitude do governo escandalosa! O proletariado de Lisboa entendeu que estavam a medir forças com a sua organização de classe e, de experiência em experiência, os “doutores” maçónicos deixavam claro que haviam implantado um novo regime, mais ou menos democrático, mas sem dúvida burguês e amante da propriedade privada dos meios de produção, não a República Social de que o movimento operário organizado tanto esperava.


A greve geral de solidariedade para com o operariado agrícola de Évora é “decretada” por inúmeras Associações de Classe de Lisboa e Setúbal (Eléctricos/Carris, Ferroviários, Fragateiros, Tipógrafos, Corticeiros, Cª. União Fabril do Barreiro, Conserveiros de Setúbal, etc.).

O caso é que os “doutores” do Partido Republicano Português estavam habituados a verem muitos operários juntos, mas apenas para apoiarem o seu programa:- A queda da Monarquia!

Nunca por nunca imaginaram tanta gente junta a clamar justiça e pão! Nunca imaginaram a paralisação do trabalho nas fábricas, oficinas e trabalhos agrícolas do distrito de Lisboa e Setúbal. Os “doutores” assustaram-se!

Assustaram-se e decretaram o «estado de sítio»! O governo declarou a suspensão de garantias constitucionais, solicitando aos cidadãos para «estarem nas suas casas ao toque de recolher»!

Os “doutores” do governo, por um momento, pensaram que poderiam “meter na ordem”, a “toque de caixa”, o mundo do trabalho?

No dia 31 de Janeiro de 1912, na Rua do Século (Lisboa) forças militares, e civis da organização maçónica armada denominada «Carbonária», tomaram de assalto a União dos Sindicatos. Centenas de detidos (homens e mulheres) são remetidos para bordo dos navios de guerra da Marinha: «D. Fernando», «Pêro de Alenquer» e «5 de Outubro».

A reportagem fotográfica publicada na revista Ilustração Portuguesa (5 e 19 de Fevereiro de 1912) da autoria do repórter Josuah Benoliel não deixa margens para dúvidas, sobre a violenta repressão despoletada!

Entretanto, as rusgas da polícia (que se iniciava assim na perseguição política e social!) tanto em domicílios, como em locais de reunião de trabalhadores sindicalizados de Lisboa, prendendo a esmo, conseguiu aprisionar cerca de 700 pessoas…
Estão aí as fotografias: – Os trabalhadores presos no encerramento da União dos Sindicatos, a 31 de Janeiro, aos gritos de protesto, entre alas de tropa, percorrendo a Baixa Pombalina, entoando a Internacional!

Para não faltar nenhum pretexto político a justificar o «estado de sítio», o governo acusou os trabalhadores de “manobrarem” em concertação com os monárquicos e, para dar a tudo o acinte que faltava, sem escrúpulos e sem noção do ridículo, os “doutores” do regime prenderam o último ministro dos Estrangeiros do governo da Monarquia, José de Azevedo Castelo Branco, que não havia emigrado para o estrangeiro e se encontrava acamado, gravemente enfermo!

O comando militar, a solicitação do governo, tomou conta da cidade de Lisboa: Guarda Fiscal e Republicana, Cavalaria, Marinha e Polícia, com o seu infatigável comandante nas perseguições a sindicalistas, capitão Câmara Pestana, patrulhavam Santo Amaro, a Associação Têxtil de Alcântara, a União das Associações e Casa Sindical na Rua do Século, o Rossio, as Escadinhas do Duque, o Largo do Calvário, os Correios e os Ministérios no Terreiro do Paço, o Largo Camões e de S. Domingos.

Os trabalhadores agrícolas de Évora e, depois, os de Lisboa, Setúbal, Almada Moita, Barreiro, Aldeia Galega, haviam esperado dos “doutores” do governo uma arbitragem imparcial e, para tal fim foram a Lisboa conferenciar; o proletariado de Lisboa e arredores imaginou a greve geral de solidariedade para com os trabalhadores eborenses, mas os “doutores” do governo não se sentiam amarrados a estas questões sociais, de que tanto falaram no tempo da Monarquia. A República não era Social e Democrática, o regime republicano, pouco depois com Afonso Costa como 1º ministro, acabaria por ser conhecido e reconhecido sob a alcunha de «racha sindicalistas».

Plataforma superior da Estação de Comboios do Rossio guardada por uma força militar (Ilustração Portuguesa, 5/2/1912). Repare-se que «essa força militar» vai tratando de meter uma bala na câmara da espingarda de fabrico alemão, a «mauser»…Portanto, pronta a disparar e a matar!
Duas fotos com origem na mesma fonte: grupos de trabalhadores entre alas de tropa armada, em Belém e em direcção à prisão no forte de Monsanto, e na doca do «Bom Sucesso» (Lisboa).

Pela sua mobilização, muito embora desordenada, pela sua rápida intervenção junto do Poder e pelo imenso “aparelho” da solidariedade proletária, alvejados com o «estado de sítio», os trabalhadores portugueses pareciam dizer aos amnésicos “doutores” do novo regime e governo: «Se fizemos tudo isto, a culpa não é nossa mas dos senhores, que passaram a vida, antes de 5 de Outubro de 1910, a aproveitarem a nossa disponibilidade, a chamarem reaccionários aos monárquicos e a elogiarem o povo, embora solapadamente, fosse preparando o País à vossa imagem e semelhança. Não vos acreditamos nunca, mas colaboramos. Eis o nosso caso: vimos apresentar a factura do nosso sangue! Paguem-nos em direitos o que nos devem moral e politicamente!».

Trémulos e apavorados, os doutores mandaram para as ruas as fardas armadas e prontas a disparar. Era preciso afastar da República aquele parente pobre!

Em janeiro de 1912, ano de equívocos, por falta de um feixe coordenador de estratégia revolucionária, do «estado de sítio» falhou-se uma revolução social?

Em Agosto deste mesmo ano, realizou-se em Évora o I Congresso dos Trabalhadores Rurais. No início, como no fim do regime da 1ª República, a grande maioria da população trabalhadora portuguesa vivia e laborava no campo. Apesar das diferenças e modos de vida entre o Norte e o Sul, o traço comum era o baixo nível dos rendimentos extraídos através do trabalho da terra, bem como o elevado número de assalariados rurais cujo único vínculo à terra era o trabalho de sol a sol para uma subsistência precária, sem direitos alguns.

I Congresso dos Trabalhadores Rurais em Évora marcava, portanto, um estado de consciência social superior e “vinha dizer” ao Poder e ao Kapitalque os assalariados tinham organização sindical, capaz de lutar e vencer!

Este Congresso, donde saiu, também, a fundação do jornal O Trabalhador Rural, órgão da Federação Nacional dos Trabalhadores Rurais, avaliou os acontecimentos de Janeiro, reivindicou aumento de salários, restrição da área de intervenção das máquinas agrícolas, relação entre salário e custo de vida. O Congresso, de que se comemora o centenário, onde estiveram presentes 39 Associações de Classe locais, contribuiu para enquadrar as greves agrícolas durante a vigência da República dos “doutores”, e abriu caminho para continuar a luta organizada contra o regime da ditadura.

1ª página e índice da revista História de 1982.

* Este artigo foi resultado de trabalho de investigação e interpretação em 1982 e, como tal, publicado na extinta revista História, nº 39, de Janeiro de 1982, portanto, há 30 anos. Depois desta data, alguns investigadores publicaram trabalhos abordando o mesmo tema e período histórico, mas “fazendo de conta” desconhecer a síntese interpretativa já publicada, pela 1ª vez em 1982, passando adiante, talvez convencidos e arrogantes. Enfim, o costume!… O que se púbica agora, ligeiramente modificado e mais sintetizado, atendendo ao seu suporte de divulgação, obedece no essencial ao texto original.

(1) – José António Saraiva, in Diário de Notícias de 16/10/1979, A Galeria do Século – A GNR: « […] Em janeiro de 1912, por exemplo, vêem-se os chefes de Divisão da Guarda incorporar-se numa manifestação anticlerical.».
(2) – Vd. Carlos da Fonseca, in História do Movimento Operário, ed., Lisboa, s/d, fala-nos em mais de 10 mil grevistas; Alexandre Vieira, in Em volta da minha profissão, edição de autor, Lisboa, 1950, fala-nos em cerca de 20 mil grevistas na região de Évora.
(3) – Pela síntese da sua biografia, podemos verificar, pois, quanto a sua deslocação a Évora foi pouco fiável em termos de imparcialidade.

Inocêncio Joaquim Camacho Rodrigues (n. Moura, 1867-m. Lisboa, 1937) : Fez o curso de Física na antiga Escola Politécnica de Lisboa, empregando depois no mesmo estabelecimento de ensino público. Filho de famílias abastadas, foi concecionário exclusivo das águas minero-medicinais «Monte Brazão». Destacou-se como um dos republicanos que proclamou o novo regime da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, em 1910. Foi 1º director da Fazenda Pública da República, bem como o 1º governador do Banco de Portugal, nomeado pelo governo do regime republicano. Foi eleito por Évora para as Constituintes de 1911, iniciando-se no Parlamento a 19 de Junho do mesmo ano. Desempenhou um papel negativo na agitação e greve geral dos trabalhadores agrícolas de Évora em 1912. Segundo o periódico O Sindicalista (21/1/1912), a resposta das autoridades à solicitação dos trabalhadores, para que obrigassem os latifundiários a cumprir a tabela salarial, saldou-se por uma repressão escusada. Inocêncio Camacho foi enviado pelo governo central a Évora (afinal ele era deputado por esta cidade!), com o objectivo de averiguar o que se estava a passar, pois o governador civil utilizara forças do Exército para refrear a concentração pacífica dos trabalhadores na cidade. Inocêncio Camacho demonstrou-se tão desastrado como o governo de Lisboa e como o governador civil de Évora ou, se quisermos, colocou-se francamente ao lado dos latifundiários que, de resto, eram monárquicos, em vez de arbitrar a questão. O efeito da sua actividade em Évora foi posteriormente relatado pelo ex-ministro António Maria da Silva: «Quanto ao que acabo de referir foi relatado ao Governo pelo seu Delegado Inocêncio Camacho, que também se viera queixar dos trabalhadores rurais, isto é, daqueles que, pela sua mais que exígua educação e conhecimentos, menor responsabilidade se lhes podia assacar, quando ela cabia em grande parte à autoridade concelhia», (in O Meu Depoimento, da Proclamação da República à primeira guerra mundial, 1914-1918, edição de Lisboa, s/d.). Hoje acredita-se que a questão do rebaixamento dos salários agrícolas pelos agrários, não passou de uma tentativa provocatória dos monárquicos de Évora, de forma a criarem dificuldades suplementares ao novo regime com o movimento operário organizado… E os “doutores” da República caíram no logro, ou “apreciaram” o pretexto para experimentarem, uma vez no Poder, as armas da repressão sobre o mundo do trabalho!

Não nos parece ter deixado gratas recordações na cidade, este 1ºdeputado às Constituintes. Foi ainda ministro das Finanças, tendo colaboração dispersa nos jornais A Luta (dirigido pelo Dr. Brito Camacho) e A Pátria. Permaneceu no Banco de Portugal mesmo após instaurada a ditadura (1926), até ao ano de 1936.

retirado daqui:

http://maisevora.blogspot.pt/2012/09/ha-100-anos-o-proletariado-agricola-de.html

http://maisevora.blogspot.pt/2012/09/ii.html

http://maisevora.blogspot.pt/2012/09/iii.html

(memória) A Batalha de Cambedo, Trás-os-Montes (20 de Dezembro de 1946)


Um dos últimos maquis criados no final da Guerra Civil Espanhola situou-se na zona raiana entre Trás-os-Montes e a Galiza. Os guerrilheiros – anarquistas, socialistas e comunistas – procuravam refúgio nas aldeias do lado português, atacando os alvos franquistas do outro lado da fronteira. Uma dessas aldeias era Cambedo da Raia. Devido a uma denúncia, a aldeia foi cercada por centenas de efectivos militares portugueses e espanhóis, Pides, GNR, Guarda Fiscal, etc., no dia 20 de Dezembro de 1946.

Da Batalha do Cambedo, resultou a morte de dois guerrilheiros – Juan Salgado Rivera e Bernardino Garcia, que terá preferido suicidar-se a render-se; a morte de dois guarda-republicanos, José Joaquim e José Teixeira Nunes; alguns feridos, incluindo uma menina; e foram presos oito galegos e 55 portugueses, dezoito dos quais de Cambedo.

A história foi quase ocultada na altura. Hoje vão-se conhecendo pormenores. É mais um momento importante da solidariedade raiana entre o povo português e os resistentes espanhóis, tal como aconteceu noutros lugares fronteiriços, como, por exemplo, Barrancos.

Ver mais: http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/09/10/cambedo-da-raia-1946/

http://ferradodecabroes.blogspot.pt/2011/12/cambedo-povo-promiscuo.html

cambedo

daqui: http://ferradodecabroes.blogspot.pt/2011/12/cambedo-povo-promiscuo.html

sugestão de post de José Carlos Santos