(rede_libertária) Biopolítica e resistência após surto do Covid 19


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Respondendo às solicitações enviadas ao coletivo que gere a Livraria-bar Gato Vadio, fui encarregado  pelo mesmo  de participar neste fórum de debate  acerca da situação presente. Estou, por isso, a enviar um breve texto por mim redigido que pretende ser um ponto de partida para uma pesquisa e uma reflexão mais apurada. O texto fica à disposição de todos para o  que entenderem.  

Viriato Porto/Gato Vadio

O que temos vindo a assistir é uma continuação da história (epidemias) mas também uma antevisão do futuro. E mais  do  que  fazer futurologia e reproduzir ideia feitas e conceitos gastos, importa é  descortinar o  que se esboça por detrás da espuma dos dias.

Aprender com as  lições de história não é menos importante que decifrar a lógica dos acontecimentos que ocorrem sob os nossos olhos e que preparam o «admirável mundo novo», sem saudosismos nem profecias milenaristas.

Como não se entrevê  movimentos sociais fortes ou forças políticas determinadas a revolucionar  as classes dominantes nem ainda menos poderes instituintes que rivalizem com os já instituídos, parece sem margem para dúvidas que  caminhamos para o reforço dos poderes institucionalizados por efeito de uma clara estratégia de choque que permitirá assim manter, relegitimar  e fortalecer as estruturas de dominação.

Aconteça o que acontecer nas próximas semanas, as mensagens enviadas pelos poderes instituídos a propósito da crise do coronavírus – «fique em casa», « respeite o distanciamento social» – prenunciam  já o que vem  aí, moldando e condicionando as  sociabilidades, tal como as formas de dominação e gestão das vidas e do quotidianos sociais. Não oferece grandes dúvidas, mesmo aos observadores mais instalados, que a aceleração da digitalização, a emigração em massa para o mundo virtual,  a telemobilidade das nossas comunicações, o desaparecimento do suporte físico do dinheiro, constituirão os novos fenómenos que irão marcar o modus vivendi das sociedades contemporâneas e outros tantos dispositivos de vigilância, controle e formatação mental dos indivíduos.

Mas a sociedade de controle e de vigilância, disciplinadora de corpos e de pensamento, não ficará obviamente por aí. Novos passos serão dados para apertar a malha de sujeição física e mental.  Os sensores que, na Coreia do Sul,  alertam as autoridades quando a temperatura de um residente representa um perigo para a comunidade, servem bem  de imagem antecipatória para a biopolítica que se instalará inevitavelmente com a ajuda e o apoio das tecnociências. No plano económico, o colapso  generalizado das empresas e agentes económicos mais fracos e vulneráveis contribuirá definitivamente para a consolidação do neofeudalismo dos grandes conglomerados corporativo económico-empresariais  que tenderão a submergir   e até a substituir  os aparelhos estatais, substituindo, por exemplo,  os exércitos por polícias privados, as universidades públicas por universidades privadas com uma vasta oferta de cursos online à distância.

Neste cenário totalitário antevejo que  a resistência ao biopoder territorializado e ao poder neofeudal capitalista emergente passe forçosamente por uma biopolítica  dos de baixo que promova a convivialidade face ao distanciamento, a fraternidade face ao isolamento, a liberdade face ao confinamento.

Uma acção de resistência que terá de reinventar postulados clássicos de emancipação social, reconstruir categorias políticas, e redefinir campos de batalha, sem nunca romper com a historicidade dos combates travados pelo Ideal  da Humanidade liberta.

1 de Abril 2020

Viriato Porto/Gato Vadio

One comment

  1. Tema muito interessante que, no meu entender, deve ser debatido! As pessoas precisam, urgentemente, de ser “abanadas”!!! Daí ser muito importante, haver movimentos que tirem as pessoas da inércia que vivem e as transportem para a reflexão da vida…

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