(rede_libertária) Tempo longo e tempo curto pós Covid19


estivadores

Luís Bernardes

A história ensina-nos, como nos lembra Carlos Taibo no seu excelente “Colapso”, na esteira de Kropotkine, que as transformações sociais e políticas, ambientais e mesmo ideológicas, levam tempo a maturar, mas depois são extremamente rápidas a concretizarem-se.

Por isso, não é descabido tentar perceber os tempos que aí vêm. Tempos que se poderão tornar realidade bem mais cedo do que muitos de nós imaginaríamos.

Em geral, as análises que têm sido feitas em relação às consequências do Covid 19 prendem-se com um tempo mais ou menos longo, de desenvolvimento de metodologias e sistemas, também eles mais globais e concentracionários, em que as questões da biotecnologia, associadas às alterações climáticas, vão estar na ordem do dia.

Mas, ao mesmo, num cenário de pós crise como esta, para além dos aspetos negativos que têm vindo a ser apontados e que poderão trazer contornos bem mais autoritários à sociedade global pós o Covid 19, é também possível valorizar positivamente certos aspetos.

Por exemplo, após a paragem forçada da economia mundial durante vários meses, fica provado que, nos tempos que correm, seria perfeitamente aceitável a redução global dos horários de trabalho a 3 dias por semana;  a intensificação dos modelos de trabalho a partir de outros locais que não apenas as sedes das empresas – mas não exclusivamente -, poupando recursos pessoais e ambientais; a necessidade de voltar a aproximar as unidades de produção dos locais de consumo e não deslocalizando-as; desta crise vão sair valorizados os sectores públicos, como a saúde, os transportes, a energia,  a água, etc.  (e o público não é, necessariamente, apenas o estatal, podendo ser aprofundados sectores como o social, o coletivo e o cooperativo);  a necessidade absoluta de mudar o atual sistema de ensino baseado na sala de aula e na avaliação quantitativa ou a impossibilidade dos lares de idosos continuarem como até aqui, servindo apenas de antecâmara da morte e de local propício ao alastramento da maior parte das doenças infeciosas.

Desta mescla entre sinais positivos e negativos, com as questões ambientais sempre presentes e a necessitarem de serem encaradas de forma urgente, se irão fazer os tempos a seguir ao Covid 19, num processo mais ou menos longo.

No entanto, no curto prazo, a situação vai ser muito diferente e será, por certo, de emergência e confronto social. O desemprego, a pauperização da sociedade, os traumas físicos e psicológicos, a destruição do tecido económico, vão criar, necessariamente, focos de grande conflitualidade social daqui a uns meses quando a crise sanitária der sinais de abrandamento.

*

Eu vivo numa pequena cidade do litoral com 50 mil habitantes onde o turismo e as atividades a ele ligadas são a única fonte de rendimento, excetuando os serviços públicos e a construção civil. O turismo e a construção civil têm vivido de precariedade, de trabalho não declarado, de contingentes de imigrantes, muitos deles em situação irregular (apesar do governo ter, numa medida que se aplaude, regularizado, nesta crise e de imediato, as situações em aberto), as situações de vida e de rendimentos destes sectores são ainda muito precárias.

Nesta cidade, cercada por múltiplos resorts e instalações hoteleiras, o centro histórico, onde vivo, degradado, envelhecido, é também o local onde estes imigrantes, a população mais idosa e os trabalhadores de menores recursos também habitam, dividindo pequenos apartamentos entre si, acotovelando-se em quartos minúsculos onde, por vezes, dormem seis ou mais pessoas.

Durante estes dias de confinamento, a maioria está sem trabalho, sem recursos financeiros ou quaisquer subsídios, sem espaço nas casas que habitam. Os pequenos jardins de bairro foram fechados, os cafés, todos os espaços de socialização, estão encerrados. Estes imigrantes e trabalhadores, sem espaço para estarem em casa ou na rua,  deambulam em pequenos grupos sem saberem muito bem o destino dos seus dias ou juntam-se perto de pequenos comércios, geralmente de natureza étnica, que permanecem abertos ou procurando zonas da cidade onde ainda há wifi gratuito.

Ontem, um destes imigrantes, transtornado, desafiava quem passava com duas pedras da calçada na mão. Há sinais visíveis, mesmo entre a população local, amedrontada, sobretudo os mais velhos, de fortes alterações psicológicas.

Tudo isto virá à tona de água assim que acabar o confinamento com uma violência que hoje é impossível antecipar, mas a que os poderes irão acorrer com medidas repressivas, de força e de suspensão dos direitos e liberdades individuais e coletivos, um pouco na esteira do que está plasmado neste último decreto do estado de emergência.

Sem a existência de um forte movimento sindical de características revolucionárias ou de um movimento libertário que pudesse canalizar esta energia para a transformação social parece-me que vamos assistir após o Covid19 a um momento fértil para o aparecimento de todos os populismos e de grandes apelos à necessidade de um Estado forte e limitador das liberdades e dos direitos.

Esta crise, a meu ver, vai acentuar a luta de classes que, sem organizações à altura para servir de instrumento de luta e de defesa dos mais fracos e desfavorecidos, fará com que os de baixo – se não se organizarem e encararem de frente este novo quadro social – sejam pasto fácil para os senhores do dinheiro e do poder, agora e sempre bem apoiados pela classe política em exercício, do PS ao PCP, passando pelo PSD, BE e pelas outras minudências que vegetam no Parlamento e a quem – como sempre – apenas interessa a perpetuação no poder e as migalhas que vão recebendo para serem os cães de guarda do sistema capitalista e autoritário que padecemos (aqui, também, para usar uma expressão cara a Carlos Taibo).

Saúde e Anarquia.

Luís Bernardes

( Portal Anarquista)

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