[#rede_libertaria] Habemus classes!


12Mar_Porto

(A propósito do debate travado na #rede_libertaria sobre o conceito de classe, nos dias que correm, entre o colectivo do jornal “A Batalha” e Luís Bernardes/Portal Anarquista)

M. Ricardo Sousa

Sem ser um “centrista” considero que há argumentos válidos na argumentação de Luís Bernardes e argumentos igualmente válidos na mensagem da Batalha… Talvez por isso mesmo é que o debate sobre a questão das classes e da luta de classes não está resolvida nos meios da ciência política, da sociologia, nem da militância anti-capitalista, incluindo nos meios anarquistas. Há várias razões para que assim seja, desde logo porque estamos numa fase de transição do capitalismo, da economia e das sociedades e não está ainda claro o futuro.

Esta crise, já disse, serviu entre outras coisas para demonstrar o óbvio: que as nossas sociedades ainda estão sustentadas pelo trabalho humano. A informatização, a automação, a robótica estão em andamento mas não eliminaram (ainda) o trabalho humano. E uma consequência directa disso é que há trabalhadores, seres humanos assalariados, que executam diferentes tarefas dentro de uma lógica empresarial capitalista e sob comando hierárquico.

Se já não podemos falar em termos heróicos do “proletariado”, que já nem prole tem, nem da “classe operária”, aquela que saía aos magotes das grandes fábricas têxteis, metalúrgicas, siderurgias, montadoras de automóveis etc.,vivia em bairros pobres e se encontrava nas ruas e tabernas e partilhava uma certa sub-cultura e alguma revolta, que foi a base do anarco-sindicalismo e dos partidos marxistas; temos ainda alguns magotes que saem dos grandes supermercados, centros comerciais etc. Há pois mudanças no mundo da produção, urbanas, culturais que distinguem os actuais assalariados desses do passado, desde logo pelo facto que foram socializados através de um sistema educativo, cultural e formativo, que os uniformiza numa condição de (in)consciência de classe. Não são mais trabalhadores, mas “cidadãos” e “consumidores”, mesmo quando os seus salários são miseráveis e o seu futuro não é nada radioso aspiram a se identificar com a condição das classes burguesas que olham nas suas revistas e jornais, nas tais colunas (anti)sociais.

Não existe isso que hoje os políticos e economistas gostam de chamar de classe média, que no salazarismo se chamava de remediados, existem classes e subclasses, que vão do assalariado pobre, ao trabalhador especializado, funcionário público, pequeno quadro, e uma pequena burguesia pobre que são os pequenos comerciantes e trabalhadores por conta própria, prestadores de serviços etc. Estes grupos nada tem a ver com as classes dominantes e elites, que são os detentores, directos e indirectos, dos meios de produção, da riqueza e do poder. Estas classes dominantes incluem hoje categorias como os gestores e a burocracia política que muitas vezes não são sequer detentores formais dos meios de produção.

Onde quero chegar com isto?

Que efectivamente do ponto de vista objectivo e sociológico existem classes. Os nomes para essas classes podem ser diferentes: proletariado e burguesia já passou de moda…, mas que essa realidade está por todo lado e visível, ai isso está.

A questão da fragmentação dos trabalhadores, da sua precarização, da sua rotatividade etc. são de facto razões de peso, ao lado das culturais, para que tenha desaparecido o movimento operário revolucionário e que a consciência de classe não se manifeste como no passado. Mas há momentos de ruptura em que tudo vem, ou pode vir ao de cima, quando os assalariados, e alguma pequena burguesia, se sente ameaçada pela ofensiva da classes dominantes, vale a pena pensar na crise da troika, ou, agora, nos coletes amarelos em França.

Esta crise que se abriu neste momento com a pandemia, poderá ser também outro desses momentos.

Apesar da Estado Social, e dos amortecedores sociais (subsídios, ajudas, reformas etc.) nestes momentos as classes subalternas, e os excluídos, tomam consciência que os donos do Pingo Doce, os banqueiros, os Amorins, os Ronaldos, os Sócrates pertencem a uma classe e eles a outra, como diziam os IWW, patrões e operários não têm nada em comum. Aprendemos nas últimas décadas que algumas vezes não é assim, pois os assalariados muitas vezes preferem as migalhas que caem da mesa dos patrões à fome, ou agarram-se aos barcos dos ricos para não se afogarem.

Finalmente, para terminar não tem qualquer sentido a ideia que um piloto da Tap, tem alguma coisa em comum com a mulher da limpeza do aeroporto, ou que o advogado assalariado do grupo Vieira de Almeida tem alguma coisa em comum com o cabo-verdiano que constrói  um prédio em frente. A identidade de classe, e a consciência de classe, também são uma construção social, mas sobre uma realidade objectiva: os interesse comuns de um sector social que vive do trabalho e partilha situações no mundo do trabalho, e condições de vida, similares.

O papel de uma cultura libertária, difundida nas classes subalternas seria  contribuir para essa consciência da realidade e levar a esses actores sociais a perspectiva de uma outra forma das sociedades se organizarem. E é isso que vem faltando ao anarquismo actual.

Saúde e liberdade

M. Ricardo Sousa

14/04/2020

One comment

  1. Bem companheiros se me permitem vir a terreiro espalhar a união e acção que nos falta. O movimento libertário anarquista encontra-se num marasmo há muito tempo. Já se realizaram várias reuniões “conferências libertária, em Setúbal” encontro anarquista em Évora que nada deram de concreto. Já se tentaram fazer “sindicatos” ait/sp e ac-interpro que também não tiveram sucesso. Será que não conseguimos fazer nada que dure e que tenha sucesso. Independentemente das nossas divergências políticas ou pessoais o que está em causa é o movimento anarquista que todos queremos que tenha êxito. Falta saber como fazer isso. Alguém tem uma varinha de condão como concretizar isso. Iniciei uma acção de criar a união dos sindicalistas portugueses e gostaria de perguntar se alguém está interessado em participar deste projecto.

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